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quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

O HEDIONDO 1964 PODERIA ATÉ TER-SE REPETIDO EM 2019, MAS A FILA ANDOU E RUMAMOS PARA UMA REPETIÇÃO DE 1985

Diversos jornalistas, inclusive o nosso bom Rui Martins diretamente de Berna (vide o post dele aqui), preocupam-se com a possibilidade de estar-se iniciando uma nova caçada às bruxas do jornalismo. Tranquilizo-os: o que ora ocorre é apenas uma intimidação inconsequente. 

O ministro da Justiça (?) André Mendonça também pretendeu investigar um artigo do Hélio Schwartsman (leia aqui meu relato sobre tal precedente), mas sua iniciativa nem sequer chegou a ser apreciada por nossa corte suprema, que necessariamente a rechaçaria. No meio do caminho, o STJ já se encarregou de esclarecer que se tratava de uma iniciativa inconstitucional, pois violaria o direito de opinião.

O mesmo acontecerá com a nova investida. Não passa de um pastel de vento, uma vez que um governo agonizante não tem como impor seus caprichos a jornalistas eminentes como o Ruy Castro. O mais provável é que o Mendonça esteja apenas tentando tanger a imprensa à autocensura, como comentou comigo o Rui Martins. 

E, ídio por ídio, o senso comum basta para concluirmos que, bem mais grave do que o suicídio (o próprio suicida decide se quer morrer ou não) são o homicídio (quando se impõe a morte a quem não a deseja)  e o genocídio (o homicídio em larga escala).

Então, soa até anedótico chiarem contra uma suposta instigação ao suicídio cujo alvo brasileiro seria um governante que, por inépcia ou má fé, causou o óbito de dezenas de milhares de cidadãos deste país que sobreviveriam ao coronavírus se aqui tivessem sido adotadas as providências básicas para o combate à pandemia recomendadas pela OMS e aprovadas por todo o mundo científico.

Se um Ruy Castro alemão, lá por 1942, lançasse um artigo recomendando ao Adolf Hitler que se matasse e o genocida-mor do século passado decidisse acatar tal conselho, o que mereceria esse jornalista: execração ou aclamação?

Para finalizar: não aguento mais tanta sinistrose e paranoia a respeito de uma repetição de 1964. Houve alguma chance de isso acontecer em 2019, no auge da onda ultradireitista, mas, agora que ela já morreu na praia, o que está em pauta é uma repetição de 1985. (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

À VÃ INTIMIDAÇÃO DE UMA 'OTORIDADE' INJUSTA, RUY CASTRO RESPONDE COM SUA SUTILEZA E A AUTORIDADE DO TALENTO

ruy castro
OS BRUTOS TAMBÉM AMAM O MIMIMI
A
palavra mimimi ainda não está nos dicionários. Pelo menos não nos aurélios e houaisses, mas a culpa pode ser das minhas edições, tão antigas que ainda impressas em papel. 

Mimimi é um desafio à morfologia, ciência que, em linguística, significa o estudo da estrutura e da formação das palavras. De onde veio mimimi? 

Desconhece-se uma raiz que a justifique. Pode ter vindo de mi, a 3ª nota da escala musical, donde mi-mi-mi seria uma sequência de mis. Mas não deve ser o caso —é raro alguém sair solfejando em meio aos selvagens bate-bocas em que hoje é usada a palavra mimimi.

Foi com ela que, de maneira avassaladora nos últimos tempos, bandeiras como o combate ao racismo, ao feminicídio, à homofobia, ao genocídio, às armas que levam ao homicídio e a outros cídios passaram a ser classificadas por certos grupos. 

Mimimi é sinônimo de chororô, vitimismo maricas, coisa de fracos, choro de perdedor. Tornou-se não apenas uma forma de negar aos humilhados e ofendidos o direito de se defenderem como de ridicularizá-los, reduzindo seus argumentos a uma palavra cômica.

Mas, quando se pensava que o mimimi não teria lugar no universo da macheza e do triunfalismo, eis que a menção a um inesperado cídio —o suicídio— acusa uma brecha nessa carapaça de invencíveis e inexpugnáveis.

Um colunista sugeriu candidamente a Jair Bolsonaro que, para o bem do Brasil, se matasse. Mera ironia, sabendo-se que é o que Bolsonaro sugere todo dia ao povo brasileiro, ao induzi-lo a contrair o coronavírus desprezando a máscara, o álcool gel, o distanciamento, a vacina. 

É claro que, sendo Bolsonaro um macho full-time, ex-soldado, ex-atleta e ex-humano, a dita sugestão nem o abalou. Mas abalou seus apoiadores. É um crime!, gritaram. Uma covardia!. Não se induz um homem ao suicídio!. E se ele aceitar a sugestão?.

Surpresa! Os brutos também amam o mimimi. (por Ruy Castro, a respeito deste episódio)
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