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segunda-feira, 8 de novembro de 2021

AI DOS POVOS QUE, EM MOMENTOS CRÍTICOS, CEDEM AO DESVARIO E RACIOCINAM COM A BARRIGA!

dalton rosado
A ESCOLHA DE SOFIA BRASILEIRA
Q
uando os camisas pardas nazistas incendiaram o Reichstag em 1933 e o atentado foi falsamente atribuído aos comunistas como forma de justificar a imposição de um controle total sobre dito parlamento e outras ações de repressão política, Adolf Hitler passou a contar com amplo apoio da população alemã que, após  passar por extrema penúria no pós-derrota da 1ª Guerra Mundial e ver melhorar suas condições sociais na década de 1930, estava raciocinando com a barriga. 

O fome e a miséria sempre foram más conselheiras e alvo fácil de lobos salvacionistas que nem sequer precisam esconder as suas peles de cordeiros. 

Foi assim que Boçalnaro, o ignaro, com seu discurso misógino, militarista, nacionalista (mas acenando ao capital via liberalismo do Paulo Guedes), terrorista e antipolítico (posando de outsider depois de parasitar os legislativos municipal e federal ao longo de três décadas), conseguiu galvanizar para si o apoio de uma população que havia manifestado toda a sua indignação em junho de 2013 e fora abandonada pela esquerda institucional. 

As eleições de 2018 se constituíram na resposta eleitoral dos desesperados que, embandeirados de verde e amarelo, agiram tal qual um náufrago que agarra uma barbatana de tubarão como se fosse uma tábua de salvação. 

Aqui cai bem como metáfora
A escolha de Sofia, famoso romance de William Styron que se tornou filme roteirizado e dirigido por Alan J. Pakula, pois a população brasileira está diante de uma difícil escolha, sendo aparentemente tangida a escolher o ruim por medo do péssimo, perplexa que está com o desastre de um governo que:
— é responsável pela morte de pelo menos 250 mil pessoas com seu negacionismo obtuso e continua até hoje repetindo a mesma cantoria, como um velho disco arranhado; 
 promoveu uma fracassada tentativa de autogolpe ditatorial; 
— adota políticas de absurdos retrocessos civilizatórios (como agressão ao meio ambiente, descaso com as populações indígenas, patrulhamento educacional, negação do histórico escravismo racial, diplomacia beligerante, etc., etc., etc.); 
— amarga o fracasso na economia, com inflação de dois dígitos, alta do dólar, desemprego e falências empresariais, queda do PIB (que não chega sequer ao patamar do de Michel Temer), aumento da dívida pública para 84% do PIB;
— causou o aumento do desemprego populacional e da informalidade de sobrevivência, e por aí vai,

Tudo está a indicar que Boçalnaro já pertence ao lixo da história como o pior presidente da período republicano, o único a ser considerado como genocida, apesar de seus adeptos recalcitrantes e incrivelmente crédulos insistirem em manter na sala, insepulto, o cadáver putrefato a exalar fedor e teimosia febril. 
Mas, face ao seu abandono por parcela expressiva dos donos do verdadeiro poder, o capital, já se assanham os pretensos herdeiros do torno. É a tal da
terceira via, que pretende tornar-se alternativa à segunda via já colocada, o lulopetismo, sem se aperceberem que todas estas vias vão dar num mesmo destino comum inevitável: o desgaste político diante de uma modo de relação social (dinheiro e mercadorias), que está a necrosar em ritmo acelerado. 

O povo se vê diante de alternativas políticas que são apenas mais do mesmo que antes já não servia, mas que agora se apresentam como menos ruim, tolerável e aceitável. É aí que mora o perigo...

Até quando vamos viver sob este pêndulo entre a ultradireita com seu falso moralismo e ações elitistas e a cantilena de outros vários tipos de projetos políticos que nada mais são do que profetas de um capitalismo pretensamente bonzinho?

Fico a pensar como será o próximo governo, tendo de negociar, como se isto fosse sinônimo de competência e habilidade, com os chantagistas insaciáveis do centrãoque não se nega a pagar os pesados juros de uma dívida pública de país da periferia do capital (a qual já se aproxima do total do PIB), sob pena de uma retaliação econômica internacional que faria tudo piorar:    

— 
como equilibrar o déficit previdenciário crescente, senão negando direitos adquiridos (e rasgando a Constituição que juram respeitar...) aos aposentados envelhecidos e inválidos, como vêm fazendo ou tentando fazer todos os governos desde 2003?
— como equilibrar as contas públicas dentro do teto de gastos e da responsabilidade fiscal, mesmo considerando as crescentes, legais e constitucionalmente definidas contas públicas da máquina administrativa, diante de uma depressão econômica que reduz a arrecadação fiscal, senão martirizando a população exaurida? 
 como promover o desenvolvimento econômico (todos se apegam a tal pressuposto como se fosse uma solução única) num mundo que vive a depressão econômica sem volta, graças aos próprios fundamentos capitalistas que se quer ativar? 
— como viabilizar a sustentação ecológica em meio a um processo de tentativa de retomada do desenvolvimento econômico sob bases capitalistas, o qual, por força do regime concorrencial de mercado, não permite que se tenha juízo no campo da preservação do meio ambiente, e que somente vê na produção de mercadorias a solução de todas as mazelas sociais e econômicas?
 como evitar-se o ecocídio do incêndio da natureza, se prevalece uma lógica de mediação social ecocida (com gasolina é impossível apagar incêndios!)?

Parece-nos que estamos todos defronte um espelho sem aceitarmos encarar a própria face espelhada nas nossas mazelas, contra as quais não nos rebelamos por oportunismo, ignorância, comodismo ou mera covardia 
Neste caso é melhor quebrar o espelho, ou consertarmos as nossas mazelas assumindo novos critérios de relação social e abandonando aquilo que está comprovadamente esclerosado? A segunda opção exige consciência e coragem!

Outro dia li um antigo artigo do saudoso José Saramago sobre as falácias de democracia burguesa, e pude ver que a cegueira coletiva ao insistir em algo comprovadamente ineficaz por medo de uma ditadura ainda mais ineficaz, pode ser ainda superada.

Saramago contribui para esta retirada das vendas dos olhos, e é graças a isto que, tal qual um Dom Quixote contra moinhos de ventos, rebelamo-nos ele, eu e tantos outros, contra uma unanimidade burra. 

Tenho oito netos. Cinco meninos e três meninas. O mais velho tem sete anos e meio, e os quatro últimos acabaram de completar um ano. Quando tiverem 71 anos como o avô que escreve estas mal traçadas linhas, espero que eles venham a considerar que esta minha pregação, feita desde há muito, não tenha sido em vão. 

E espero que isto se dê bem depressa... (por Dalton Rosado)
Eis mais um fruto da prolífica parceria entre o autor
Dalton Rosado e o intérprete Gomes Brasil

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

FORA O AUSTERICÍDIO!!!

"A  grande crise não foi dirimida pelo incremento de obras públicas – o New Deal, nos EUA – e sim pela militarização geral da 
economia, bem como pela imensa destruição
de forças produtivas na 2ª Guerra."
(Mário Sérgio Conti, aqui)
Há uma história segundo a qual Alexandre, o grande, que viveu em 334 a.C, ao passar pelo reino da Frígia (Ásia menor), deparou-se com um desafio que durava séculos: acreditava-se que quem desatasse um determinado nó denominado de górdio, dominaria a região e o mundo. Ninguém conseguira tal feito. 

Ele simplesmente desembainhou a sua espada e cortou o nó górdio, surpreendendo a todos e sendo aclamado como herói. Estava resolvido o impasse secular. 

Alexandre resolveu o problema por pensar fora da caixa

A questão que se coloca hoje para o povo brasileiro e para as populações mundiais, apavoradas com a crise do capitalismo que arrasta para a miséria, a fome e as guerras bilhões de pessoas em escala planetária, é aceitar (além das agruras impostas pelo capital via trabalho abstrato) o ajuste fiscal em nome da salvação do Estado, ainda que com a morte de muitos dos seus súditos. 

Todos os argumentos para a aceitação do austericídio têm como premissa que, sem ele, as coisas vão piorar. Os argumentos são lógicos, irrefutáveis, pois consistem na escolha entre o ruim e o pior.    

Impõem-nos uma escolha aparentemente inescapável, como no conto de William Styron que narra o dilema de Sofia, uma mãe polaca presa num campo de concentração durante a 2ª Guerra e que é forçada por um soldado nazista a escolher um de seus dois filhos para ser morto. Se ela se recusasse, ambos seriam executados. 

Faz lembrar nossa situação atual, ameaçados pelo pacote de maldades contra os direitos do povo que nos querem impor e suportando agruras a desabarem incessantemente sobre nós:

- redução de aposentadorias e aumento do tempo de contribuição para obtê-las como resposta ao propalado déficit da previdência social, com prenúncio de colapso futuro caso as medidas restritivas não sejam tomadas; 

- precárias condições de atendimento médico pelo Sistema Único de Saúde (e até dos caros planos de saúde privados); 

- baixo nível de aprendizado desde as condições materiais das escolas, passando pelos salários aviltados dos professores e terminando num conteúdo educacional que positiva a opressão sistêmica capitalista como virtuosa;

 - taxas exorbitantes de juros (são de 450% no cartão de crédito do Banco do Brasil, para uma inflação prevista de aproximadamente 7% ao ano); 

- alta carga tributária e bitributação, na medida em que se paga para a obtenção dos serviços públicos que deveriam ser gratuitos; 

- desvio de verbas públicas em licitações fraudadas para a aprovação de empreendimentos imperfeitos, que nunca cumprem os prazos estipulados e têm custos acima do mercado (afora as obras fantasmas, pelas quais pagamos mas nunca aparecem); 

- pavimentação de ruas e esgotamentos sanitários de qualidade sofrível ou inexistentes; 

- descaso na prevenção de endemias, deixando-as proliferarem-se (casos da Zica, que se tornou uma nova tragédia humana; da Chikungunya; da volta do crescimento da Aids; da hanseníase; e da tuberculose, entre outras;  

- de serviços públicos ineficientes, como iluminação pública, coleta de lixo, etc., etc., etc.;     

- de um nível de violência urbana capaz de tornar o mais violento filme de spaghetti western o equivalente à paz de um convento de monges; 

E isso tudo sem contar os baixos salários e o desemprego na casa de quase 12% da mão-de-obra economicamente ativa. 

Mas, devemos reagir a esta escolha de Sofia que o capitalismo e seus segmentos mantenedores (o Estado e a política) nos apresentam da mesma forma que Alexandre Magno: pensando fora da caixa, sem engolirmos passivamente a cantilena do austericídio. 

Pensar fora da caixa significa indagar: 

- por que, ao invés de aceitarmos a lógica do vão-se os anéis e fiquem os dedos, não questionamos a própria lógica que nos impõe tal situação? O impasse poderia, então, ser solucionado a partir de um modo de relação social solidária, que superasse a gênese do sacrifício que nos é imposto e que fosse coletivamente construtivo, sem a interveniência nociva das regras econômicas que estabelecem critérios rígidos e desumanos de viabilidade econômica. Por que não contemplarmos tal possibilidade? 

- por que nos submetermos a uma nova escolha de Sófia, resignando-nos à lógica de que o sistema deva ser salvo de qualquer maneira, inclusive com a morte de parte dos seus súditos?      

- por que, ao invés de mendigarmos a melhora das pensões previdenciárias (que não virá, até porque a tendência é de que elas sejam reduzidas ainda mais), hoje mal cobrindo as despesas médicas dos previdenciários idosos, que ainda precisam custear todas as despesas pessoais, nós não formulamos propostas de inclusão solidária a partir de um modo de produção fora do mercado e no qual possam ser satisfeitas todas essas carências que ora se aprofundam?

- por que, ao invés de sacralizarmos e sustentarmos instituições falidas e corruptas que ora se digladiam num espetáculo circense de quinta categoria, nós não nos rebelamos e criamos uma forma de organização popular horizontalizada e que não exista para dar sustentação a uma forma de relação social subtrativa da riqueza produzida coletivamente, mas que, pelo contrário, esteja voltada para a satisfação das necessidades de consumo material e imaterial de todos? 

- por que, ao invés de clamarmos por mais empregos e melhoras salariais que não virão, nós não superamos esse forma de produção, desempregando o desemprego e criando oportunidades de contribuição dos indivíduos sociais a partir de iniciativas de produção de bens e serviços fora do mercado, que satisfaçam as carências de consumo social de modo solidário, fraterno e socialmente inclusivo?  
Não devemos ter medo de perder o que apenas queremos ter e não temos, mas devemos nos desapegar do que temos e não nos serve.  

Precisamos desatar o nó górdio que nos aprisiona o pensar, cortando-o com a espada da consciência capaz de formatar uma relação social emancipadora, de modo a não termos sempre de nos posicionar, como na escolha de Sofia, entre o ruim e o péssimo. 

Fora o austericídio!!! (Dalton Rosado)
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