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domingo, 31 de outubro de 2021

O BOZO É UMA GENI EM QUE O MUNDO INTEIRO JOGA PEDRAS... SÓ QUE, NO CASO DELE, AS PEDRADAS SÃO 100% MERECIDAS!

eliane cantanhêde
AUSENTE DA COP 26 E ISOLADO NO G20, O
RISCO DE BOLSONARO É, SIM, LEVAR PEDRADA
C
om seu jeitão de caserna e a sinceridade de (quase) sempre, o general e vice-presidente Hamilton Mourão explicou por que o capitão e presidente Jair Bolsonaro, apesar de estar ali perto, na Itália, se recusou a ir à COP 26, na Escócia: “Ele vai chegar num lugar em que todo mundo vai jogar pedra nele?”

Mourão, que é responsável pela Amazônia, mas foi dispensado da COP, ainda tentou ajeitar as coisas, justificando que muitas críticas são equivocadas, por um certo viés ideológico e o peso do interesse econômico. Mas, como todo o mundo, literalmente, sabe, há motivos aos montes para pedradas.

Segundo o Observatório do Clima, o Brasil andou na contramão do mundo em 2020. Com pandemia e recuo na atividade econômica, a emissão de CO² teve uma redução média mundial de 7%, mas o País emitiu 10% a mais, um desastre na comparação internacional e também interna. 

Foi o pior resultado desde 2016. Por quê? Por causa do desmatamento da Amazônia, um marco da era Bolsonaro. 

Se conseguiu se livrar de pedras na COP 20, o presidente brasileiro não evitou que seus opositores, grosseiramente, aliás, pusessem estrume na entrada de um dos locais que visitou em Roma. E ele se livrou de dar vexame na COP, mas não no G-20. Antes mesmo da reunião. 

Bolsonaro ignorou e foi ignorado pelos líderes do G20, particularmente Olaf Scholz, que venceu as eleições na Alemanha (Alemanha!). E ficou falando sozinho com Recep Erdogan, da extrema-direita da Turquia.

Constrangido e calado, ele ouviu do brasileiro que a economia aqui vai bem, ele é muito popular, a Petrobras é um estorvo e a imprensa é culpada de tudo. Tire suas conclusões.

A chapa Bolsonaro-Mourão foi absolvida por unanimidade TSE, num efeito avestruz citado pelo ministro Alexandre de Moraes: todo mundo sabe e viu as milícias digitais e fake news de 2018. Mas cassação após três anos de governo, a um ano da eleição e com o País afundado no caos? O jeitinho brasileiro foi avisar que, daqui pra frente, tudo será diferente. Será?

Noutra decisão, o TSE cassou o deputado Fernando Francischini por fake news contra as urnas eletrônicas, acusar de fraude a própria eleição que lhe deu o mandato e fazer o TRE-PR consumir tempo e dinheiro para negar. Bolsonaro fez tudo igual, e com canais e recursos públicos. Mas o TSE cassou um e empurra o outro para debaixo do tapete.

Esse tapete deverá acomodar as 1.288 páginas de pedradas da CPI da Covid, a depender da PGR de Augusto Aras e da Câmara de Arthur Lira. Mas... se o jeitinho brasileiro vale para um lado, vale para o outro. E o jogo só termina em outubro de 2022. (por Eliane Cantanhêde)

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

TRISTE FIGURA DE POPULISTA SEM POVO, O BOZO NAVEGA NAS ÁGUAS SUJAS DE SUA AVASSADORA IMPOPULARIDADE

demétrio magnoli
A POLÍTICA DO BLEFE DE BOLSONARO CHEGOU A UM LIMITE
Jair Bolsonaro transformou o 7 de setembro em Dia do BlefeDiante de seus apoiadores, em Brasília, anunciou a convocação, para a manhã seguinte, do Conselho da República

Líderes corajosos falam claramente, para o bem ou para o mal. Líderes covardes que se julgam espertos falam por senhas.

A mensagem implícita do presidente era que ele preparava a decretação do estado de sítio. De fato, ele nem mesmo convocara o Conselho de República: um blefe embrulhado no celofane de uma farsa.

O Conselho de República compõe-se do presidente da República, de seu vice, do ministro da Justiça, dos presidentes da Câmara e do Senado, dos líderes da maioria e da minoria nas duas Casas e de seis cidadãos indicados pelo Executivo e pelo Congresso. Bolsonaro não havia convidado nenhum deles para a reunião que anunciou. A reunião não aconteceu. Era tudo mentirinha, uma farsa infantil.

Nos comícios de Brasília e São Paulo, o presidente farsesco proclamou que, na tal reunião, o presidente do STF, Luiz Fux, seria compelido a enquadrar seu colega Alexandre de Moraes. Ocorre que não há representante do STF no Conselho da República.

O Conselho da República é pouco mais que um nada. Instituído por lei de 1990, ele aconselha o presidente sobre as hipóteses de decretação de intervenção federal, estado de defesa ou estado de sítio. Não tem poder deliberativo.

A Constituição de 1988 foi escrita à sombra do trauma recente da ditadura militar –e, por isso, fechou os caminhos para a concentração de poder no Executivo. 

Sem autorização prévia de maioria absoluta na Câmara e no Senado, o presidente não pode decretar estado de sítio. Sem respaldo posterior da maioria absoluta nas duas Casas, não pode sustentar nem sequer o estado de defesa. Blefe.

Bolsonaro é um líder populista, como Trump, Viktor Orbán ou Recep Erdogan. Mas, à diferença do estadunidense, do húngaro e do turco, carece de um grande e sólido partido político e, crucialmente, navega nas águas sujas de avassaladora impopularidade.

O populista com povo avança sobre as trincheiras da democracia, subordinando as instituições à sua vontade. O populista sem povo recua aos berros, pateticamente, rumo ao abismo. Foi essa triste figura que discursou perante um núcleo muito minoritário de fiéis iludidos no Dia do Blefe.

A Constituição define os Poderes como independentes e harmônicos entre si. A democracia exige Poderes independentes, mas a noção de harmonia pertence à tradição brasileira da conciliação por cima, do pacto das elites.
Nos últimos tempos, diante de cada desatino retórico do presidente arruaceiro, emergiu a ideia de uma reunião entre Poderes para evitar o choque entre eles, fabricando a tão almejada harmonia. No Dia do Blefe, Bolsonaro apostou tudo no expediente de tentar aterrorizar as instituições a fim de conduzi-las à mesa do conchavo entre Poderes.

O presidente encurralado agarra-se ao medo dos outros, sua improvável boia de salvação. Fux, o presidente do STF, Lira e Pacheco, presidentes da Câmara e do Senado, flertaram várias vezes com o conchavo entre Poderes.

Bolsonaro precisa disso para alcançar um triunfo mínimo (como o relaxamento da prisão de seus cães raivosos) ou máximo (como o intercâmbio da desistência de seu pedido de impeachment de Alexandre de Moraes pela certeza do engavetamento dos pedidos de impeachment contra ele mesmo). Paradoxalmente, porém, a espuma roxa que saiu de sua boca no Dia do Blefe sabota sua única meta realista.

A política do blefe chegou a um limite. Bolsonaro gastou as escassas cartas que tinha na manga. A foto de uma multidão de trouxas não possui dons mágicos. Lira, Pacheco e Fux têm o dever de ativar a máquina do equilíbrio de Poderes –ou seja, as engrenagens da desarmonia democrática que conduz ao julgamento político e jurídico do bufão instalado no Planalto. (por Demétrio Magnoli)
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