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quarta-feira, 12 de junho de 2019

...E PENSAR QUE A ESQUERDA AJUDOU A CHOCAR O OVO DA SERPENTE!!!

igor gielow
CASO MORO EXPLICITA MUDANÇA IDEOLÓGICA NO PARTIDO DA JUSTIÇA
Acompanhar a ruína intelectual da vida pública brasileira é um processo que exige um tanto de fígado e grande abertura mental, tamanhas as trocas de papel dos atores dessa tragicomédia aparentemente sem fim.

Tome o exemplo da crise envolvendo o ministro Sergio Moro, que na condição de juiz trocou mensagens acerca da operação que o consagrou, a Lava Jato, com o procurador Deltan Dallagnol. 

Cada um vê o que quiser nas conversas divulgadas até a confecção destas linhas, e o fato de as visões antagônicas serem inconciliáveis sob a lente da racionalidade é apenas um traço da escuridão em que nos metemos.

Como falamos de uma obra aberta, a julgar pela promessa de novas revelações, passemos para o pano de fundo do embate ora em curso, que nada mais é do que um novo capítulo da disputa entre voluntaristas e legalistas do sistema jurídico-policial brasileiro.

Pinço aqui uma frase escrita durante uma fase que eu já considerava avançada do embate, publicada numa coluna em 24 de dezembro de 2009. Quase cinco anos antes de a Lava Jato obliterar o sistema político do país.
"Tudo começou com a ascensão do promotor & procurador, que depois de 1988 viu-se investido de poderes para desvendar a roubalheira nacional. Isso produziu boas notícias, mas criou uma casta de monstros da virtude —devidamente estimulada por um jornalismo com o qual convive em mutualismo. 
Policiais entraram na equação e, por fim, juízes se uniram ao projeto. Não por acaso, esse povo todo se filia à esquerda e acredita na via gramsciana de mudança da sociedade pela imposição de valores."
O primeiro parágrafo poderia resumir muito do que aconteceu de 2014 para cá, mas o segundo trai o nó tático que jornalistas tomamos da nossa realidade bizarra (noves fora a citação a Gramsci, que no contexto demente de hoje me garantiria a acusação de ser olavista, cáspite!).

Naquele momento, escrevia sob o impacto do questionamento da depois enterrada Operação Satiagraha, expressão máxima até então do voluntarismo em nome da dita boa causa. Ali seria seguro ver, no chamado partido da Justiça, todos os signos de uma agremiação de esquerda.
Quem diria que, dez anos depois, o conglomerado deveras empoderado pela Lava Jato seja uma sigla de direita, alvo de ataques enfurecidos da esquerda que um dia militou em seu favor?! 

Alguém se lembra do procurador Luiz Francisco? Do delegado Protógenes? Hoje é a vez dos Moros e Dallagnols.

Uma teoria possível para essa transmutação é que o universo jurídico-policial acompanhou o movimento da sociedade —que elegeu quatro vezes nomes de centro-esquerda para desembocar num de direita, não sem antes passar pelas contrações agudas de 2013 e 2016.

Do lado da corruptores e corrompidos, ao menos a coisa é mais clara: a bandalheira nunca respeitou firulas ideológicas, infectando todo o espectro político, dadas as condições básicas de acesso ao poder de um grupo ou de outro.

Seja lá como for, as narrativas já estão todas amarradas dos dois lados. Os palcos dos próximos embates são o Congresso e o plenário do Supremo —aqui, a coisa já está bem mais delineada pelas manifestações previsíveis.

O pior é que, todos estando errados, todos estão certos. Moro pode até sobreviver ao processo, obviamente a depender do que mais emergir contra ele, mas tudo indica que daqui a dez anos este 2019 será visto mais um ponto de inflexão nessa história. (por Igor Gielow)
.
Por Celso Lungaretti
Toque do editor: Gielow tem razão em recriminar a incoerência com a qual a esquerda embarcou na cruzada moralista de 2008, a Operação Satiagraha, que plantou a semente da Operação Lava Jato e, portanto, do tenentismo togado que tanto tangeria o Brasil para o autoritarismo, a ponto de hoje termos um discípulo do torturador serial Brilhante Ustra como presidente da República.

Só quero deixar registrado que foi mais uma advertência que lancei (e bem antes dele!), quando o ovo da serpente ainda estava sendo chocado. Uma das muitas e muitas que não foram levadas a sério pela companheirada, com consequências as mais funestas! 

Já em julho de 2008, num blog anterior (vide aqui), eu manifestava meu inconformismo com a "parte da esquerda brasileira [que] embarcou levianamente nessa canoa furada, conformando-se com o papel de peão no tabuleiro do sistema" e que, "ao tomar partido nessa guerra de lama, enlameia-se aos olhos do cidadão comum, deixando de personificar a esperança num Brasil bem diferente".

Foram mais de 20 os artigos que escrevi então sobre a Operação Satiagraha, sob o tiroteio dos esquerdistas desnorteados que estavam heroicizando aquela escalada de voluntarismo autoritário. 

No balanço que fiz do fracasso da empreitada (vide aqui), cuja leitura considero instrutiva até hoje, eis uma conclusão que eu tirei sobre a insensatez de passarem por cima de tantos princípios apenas por causa do personagem que estava na berlinda, um banqueiro de menor expressão:
Pasmem: Protógenes Queiroz se elegeria deputado pela esquerda!
"A bandeira de combate à corrupção não passa de moralismo pequeno-burguês. Quem a empunhou por longo tempo foram os golpistas da UDN, principais inspiradores da quartelada de 1964. 
Revolucionários se colocam contra a essência do capitalismo, não contra seus excessos. Não diferenciam Daniel Dantas de nenhum outro banqueiro, pois o capital financeiro, em si, é o crime e o inimigo. 
Portanto, não veem Dantas como alvo preferencial, o que equivalia a desviar a atenção para um peixe pequeno enquanto os grandes bancos auferiam lucros estratosféricos na bonança (e agora surfam na recessão!)".

quarta-feira, 20 de março de 2019

ENTRE AS CARTAS MARCADAS DE UM ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO E OS HORRORES DE UM ESTADO POLICIAL DE DIREITA

O braço de ferro entre o Supremo Tribunal Federal e o triângulo das Bermudas (hordas bolsonaristas, tenentes togados e o charlatão do anticomunismo profissional com seus miquinhos amestrados) vai decidir se continuaremos sob uma democracia de fachada, na qual o poder econômico reina soberano, ou  marcharemos para algo ainda pior, a imposição a ferro e fogo de um retrocesso histórico inaudito.
Como a atual ofensiva dos aloprados ultradireitistas tem como pretexto o combate à corrupção, vale a pena lançarmos um olhar para o passado, tentando entender como passamos tanto tempo alimentando o monstro que agora tenta nos destruir.

Quando, na década passada, contingentes da nossa esquerda tomaram partido por uma facção de ganguesteres do capitalismo, de preferência à outra que com ela travava uma disputa mafiosa pelo florescente mercado de telecomunicações, fui um dos poucos articulistas a alertar que tal imbróglio não nos dizia respeito e nele não havia ninguém com quem devêssemos nos alinhar.. 
Protógenes: fox terrier em meio a uma briga de cachorro grande

De inocente útil bastava o delegado Protógenes Queiroz, que tirou as batatas do fogo enquanto um ex-superior dele, alinhado com uma das quadrilhas litigantes, evitava queimar as mãos. Detonou sua carreira policial, mas ganhou inesperado prêmio de consolação: uma cadeira na Câmara Federal... pela legenda do PCdoB! 

A tal populismo rasteiro se prestava um partido que ousou pegar em armas contra a ditadura militar! E não estava sozinho: o Psol também estendeu o tapete vermelho para o ingênuo delegado Brancaleone, sendo preterido daquela vez.

Foi quando recoloquei em circulação uma conclusão definitiva do Paulo Francis sobre o udenismo e o golpismo de meados do século 20: "O combate à corrupção é uma bandeira da direita" (mais tarde, cunhei eu também um bordão nessa linha, "a corrupção é intrínseca ao capitalismo").


Eis minha argumentação de quase 10 anos atrás (abril/2009): 
Às cruzadas moralizadoras seguem-se deslanches da corrupção
"...as intermináveis denúncias de corrupção acabam minando as esperanças do cidadão comum na transformação da realidade por meio da ação política. Se tudo não passa de um lodaçal, as pessoas de bem devem mesmo é cuidar de sua vida...

De quebra, fornecem pretextos para quarteladas, sempre que os meios de controle democráticos das massas não estão funcionando a contento.

Então, Paulo Francis dizia e eu assino embaixo: denúncias de corrupção política são bandeira da direita, que acaba sendo sempre sua beneficiária final, a despeito dos ganhos momentâneos que proporcionem à esquerda.

Esta deveria, isto sim, demonstrar que o capitalismo em si causa prejuízos imensamente maiores para o cidadão comum do que os desvios de recursos dos cofres públicos; e que a moralização da política não se dará com medidas policiais, mas sim com uma transformação maior da sociedade.
"verdadeira raiz dos principais males que infelicitam os brasileiros"

...em vez de pegar carona nos temas que a imprensa burguesa prefere magnificar, cabe à esquerda definir sua própria pauta e explicá-la aos cidadãos.

A corrupção política não é nossa prioridade, mas sim o combate ao capitalismo, verdadeira raiz dos principais males que infelicitam os brasileiros.

Precisamos ter a coragem de assumir a posição correta diante do povo, ao invés de tentar combater o inimigo num jogo de cartas marcadas, travado no terreno que só a ele convém".
.
E por que a corrupção não pode ser erradicada sob o capitalismo? Porque este coloca como prioridade máxima da existência humana o enriquecimento individual, a vitória na luta de todos contra todos por um lugar ao sol, ainda que pisando no pescoço da mãe para alcançar tal intento, como diria o Brizola.

Se esta é a lógica do sistema, sempre haverá quem busque atalhos para alcançar o objetivo à margem das regras que o próprio sistema estabelece mas manda às favas quando bem lhe convém.
A corrupção era uma constante na demagogia udenista

Então, a alternância de cruzadas moralizadoras com períodos em que a corrupção deslancha dá a tônica do capitalismo. 

Revolucionários não deveriam jamais vergar-se aos estados de ânimo popular produzidos pela lavagem cerebral permanente do sistema, mas sim esclarecer corajosamente seus públicos de que todas as Lava-Jatos de todos os tempos cumprem a mesmíssima função de enxugar gelo e, enquanto a ilusão não se desfaz, alavancar golpes de estado, impeachments, vitórias eleitorais de demagogos grotescos e outros desdobramentos nefandos.

Foi o filme a que assistimos no Brasil ultimamente. E que devemos ajudar a tirar de cartaz antes que produza mais aberrações.

É fundamental, portanto, darmos total apoio ao Supremo Tribunal Federal neste instante, mesmo que lhe guardemos ressentimento por decisões anteriores.

Dentre os que somam forças contra o STF, os mais desesperados são, neste momento, os tenentes togados. 
Iminência da perda de poder explica o passo em falso que deram

Eles alçaram-se a alturas insuspeitadas durante a caça às bruxas (quer dizer, a caça aos corruptos) e tudo fazem para não voltar à estatura anterior, agora que sua utilidade caducou. Daí suas canhestras tentativas passadas, em parceria com Rodrigo Janot e Joesley Batista, de derrubar Michel Temer, bem como o esforço atual para solapar a autoridade do Supremo.

Perderão, claro, pois lhes falta o essencial para se perpetuarem em posição dominante: uma base econômica. 

Não são uma classe, nem um setor da economia ou parte dele, apenas indivíduos cujo poder advém dos cargos transitórios que ocupam. Ainda que conseguissem dispor, para seu projeto de poder, dos US$ 2,5 bilhões da Petrobrás que tentaram garfar, ganhariam algum fôlego mas acabariam fracassando adiante.

Só que, com sua ambição desmedida, podem produzir muito estrago antes da derrocada definitiva. Todo cuidado é pouco, pois, talvez até sem que o percebam, o ponto de chegada dos seus esforços é... o estado policial que seus excessos já deixaram antever (e não necessariamente sob o controle deles)! 
Governo-barafunda não durará nem mais seis meses
Quanto aos bolsonaristas de raiz e aos olavetes, já devem ter percebido que seus desvarios boçais e ignaros serão limitados pelo poder econômico (ao qual não convém que o Brasil se torne um país-espantalho, pois isto prejudica os negócios, sobretudo com o exterior) e pela quase nenhuma disposição, por parte dos  militares, de embarcarem numa roubada igual à de 1964. 

Então, essa gente destrambelhada e descerebrada só conseguirá atingir seus intentos se engendrar tamanho caos que as Forças Armadas sintam-se obrigadas a intervir.

Caso a esquerda consiga manter muita calma nesta hora, evitando cair em provocações, tudo indica que finalmente o Olavo de Carvalho verá uma de suas bombásticas previsões tornar-se realidade: a de que o governo atual não durará nem mais seis meses.

Pois está derretendo a olhos vistos!

terça-feira, 19 de março de 2019

INÓCUO SOB O CAPITALISMO, O COMBATE À CORRUPÇÃO É UMA BANDEIRA QUE SEMPRE ALAVANCA O POPULISMO DE DIREITA

Quando, na década passada, contingentes da nossa esquerda tomaram partido por uma facção de ganguesteres do capitalismo, de preferência à outra que com ela travava uma disputa mafiosa pelo florescente mercado de telecomunicações, fui um dos poucos articulistas a alertar que tal imbróglio não nos dizia respeito e nele não havia ninguém com quem devêssemos nos alinhar.. 

De inocente útil chegava o delegado Protógenes Queiroz, que tirou as batatas do fogo enquanto um ex-superior dele, alinhado com uma das quadrilhas litigantes, evitava queimar as mãos. Detonou sua carreira policial, mas ganhou inesperado prêmio de consolação: uma cadeira na Câmara Federal... pela legenda do PCdoB! 

A tal populismo rasteiro se reduzia um partido que ousou pegar em armas contra a ditadura militar. E não estava sozinho: o Psol também estendeu o tapete vermelho para o ingênuo delegado Brancaleone, sendo preterido daquela vez.

Foi quando recoloquei em circulação uma conclusão definitiva do Paulo Francis sobre o udenismo e o golpismo de meados do século 20: "O combate à corrupção é uma bandeira da direita" (mais tarde, cunhei eu também um bordão nessa linha, "a corrupção é intrínseca ao capitalismo").


Eis minha argumentação de quase 10 anos atrás (abril/2009): 
Protógenes: fox terrier no meio de uma briga de cachorro grande
.
"...as intermináveis denúncias de corrupção acabam minando as esperanças do cidadão comum na transformação da realidade por meio da ação política. Se tudo não passa de um lodaçal, as pessoas de bem devem mesmo é cuidar de sua vida...

De quebra, fornecem pretextos para quarteladas, sempre que os meios de controle democráticos das massas não estão funcionando a contento.

Então, Paulo Francis dizia e eu assino embaixo: denúncias de corrupção política são bandeira da direita, que acaba sendo sempre sua beneficiária final, a despeito dos ganhos momentâneos que proporcionem à esquerda.

Esta deveria, isto sim, demonstrar que o capitalismo em si causa prejuízos imensamente maiores para o cidadão comum do que os desvios de recursos dos cofres públicos; e que a moralização da política não se dará com medidas policiais, mas sim com uma transformação maior da sociedade.

Não o faz. Desatinadamente, algumas de suas tendências reforçaram as denúncias que culminaram no suicídio de Getúlio Vargas em 1954 e as que deram pretexto à dita redentora de 1964 (que, claro, nada mudou exceto a relação dos beneficiários do butim).
1954, 1964, 2016/18... o que somos, desmemoriados ou idiotas?
Agora, o PSOL chega a acompanhar o apocalíptico delegado Protógenes Queiroz em sua tentativa de implodir o sistema, provocando uma crise que não deixaria pedra sobre pedra no Executivo, Legislativo e Judiciário.

Ingenuamente, parece crer que se beneficiará com o descrédito absoluto das instituições, sem perceber que isto criaria, isto sim, cenários favoráveis ao golpismo de extrema-direita.

Então, digo e repito: em vez de pegar carona nos temas que a imprensa burguesa prefere magnificar, cabe à esquerda definir sua própria pauta e explicá-la aos cidadãos.

A corrupção política não é nossa prioridade, mas sim o combate ao capitalismo, verdadeira raiz dos principais males que infelicitam os brasileiros.

Precisamos ter a coragem de assumir a posição correta diante do povo, ao invés de tentar combater o inimigo num jogo de cartas marcadas, travado no terreno que só a ele convém".
.
E por que a corrupção não pode ser erradicada sob o capitalismo? Porque este coloca como prioridade máxima da existência humana o enriquecimento individual, a vitória na luta de todos contra todos por um lugar ao sol, ainda que pisando no pescoço da mãe para alcançar tal intento, como diria o Brizola.

Se esta é a lógica do sistema, sempre haverá quem busque atalhos para alcançar o objetivo à margem das regras que o próprio sistema estabelece mas manda às favas quando lhe convém. 
A repulsiva prática da agiotagem era condenada. Bons tempos!

[Vale lembrar, p. ex., que a Inglaterra já chegou a estimular a pirataria contra a Espanha e que a repulsiva prática da agiotagem era condenada pela Igreja Católica na Idade Média, mas hoje são os agiotas modernos, vulgo banqueiros, que mandam e desmandam no capitalismo, com a conivência eclesiástica, a ponto de o Perdoai as nossas dívidas assim como perdoamos os nossos devedores do Pai Nosso haver sido alterado para Perdoai as nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tenha ofendido...]

Então, a alternância de cruzadas moralizadoras com períodos em que a corrupção corre solta dá a tônica do capitalismo. Revolucionários não deveriam jamais vergar-se aos estados de ânimo popular produzidos pela lavagem cerebral permanente do sistema, mas sim esclarecer corajosamente seus públicos que todas as Lava-Jatos cumprem a mesmíssima função de enxugar gelo e, enquanto a ilusão não se desfaz, alavancar golpes de estado, impeachments, vitórias eleitorais de demagogos grotescos e outros desdobramentos nefandos.

Foi o filme a que assistimos no Brasil ultimamente. E que devemos ajudar a tirar de cartaz antes que produza mais aberrações.

É fundamental, p. ex., darmos total apoio ao Supremo Tribunal Federal (mesmo que lhe guardemos ressentimento por decisões anteriores) na luta contra os procuradores da Lava-Jato e os aloprados fascistoides do bolsonarismo.
Prazo de validade vencido explica passo em falso
Os primeiros, apropriadamente apelidados de tenentes togados, alçaram-se a alturas insuspeitadas durante a caça às bruxas (quer dizer, a caça aos corruptos) e tudo fazem para não voltar à estatura anterior, agora que sua utilidade caducou. Daí suas canhestras tentativas passadas, em parceria com Rodrigo Janot e Joesley Batista, de derrubar Michel Temer e o esforço atual para solapar a autoridade do Supremo.

Perderão, claro, pois lhes falta o essencial para se perpetuarem em posição dominante: uma base econômica. 

Não são uma classe, nem um setor da economia ou parte dele, apenas pessoas cujo poder advém dos cargos transitórios que ocupam. Ainda que conseguissem dispor, para seu projeto de poder, dos US$ 2,5 bilhões da Petrobrás que tentaram garfar, ganhariam algum fôlego mas acabariam fracassando do mesmo jeito no fim da linha.

Só que, com sua ambição desmedida, podem produzir muito estrago antes da derrocada definitiva. Todo cuidado é pouco, pois, talvez até sem que o percebam, o ponto de chegada dos seus esforços é... um estado policial (não necessariamente sob o controle deles)! 

Quanto aos bolsonaristas de raiz e aos olavetes, já devem ter percebido que seus desvarios boçais e ignaros serão limitados pelo poder econômico (ao qual não convém que o Brasil se torne um país-espantalho, pois isto prejudica os negócios, sobretudo com o exterior) e pela quase nenhuma disposição por parte dos militares, de embarcarem numa roubada igual à de 1964.
Governo-barafunda não durará nem mais seis meses

Então, essa gente só poderá prevalecer se conseguir criar tamanho caos que as Forças Armadas sintam-se obrigadas a intervir .

Se a esquerda mantiver muita calma nesta hora, evitando cair nas provocações desses desvairados, tudo indica que finalmente o Olavo de Carvalho verá uma de suas bombásticas previsões tornar-se realidade: a de que o governo atual não durará nem mais seis meses.

Pois está derretendo a olhos vistos!

sexta-feira, 8 de julho de 2011

A RESPOSTA DO OPPORTUNITY E A OPINIÃO DO BLOGUEIRO

"Será sempre um gângster
quem controlará o  mercado"
Ao receber um educado (já que eufemístico) pedido de direito de resposta do Opportunity, avaliei: se tanto cobro da grande imprensa que cumpra as boas práticas jornalísticas, jamais poderia desconsiderar o pleito, mesmo achando que o banco, fiel ao seu nome, aproveitou uma  oportunidade  para desfiar um rosário de protestos de inocência e de queixas contra seus inimigos. Há evidente desproporção entre o parágrafo em que citei Daniel Dantas e os 34 (!) parágrafos da resposta.

Quanto ao cerne da questão, desde o primeiro momento afirmei que a Operação Satiagraha não era uma cruzada justiceira, mas sim o enfrentamento de dois esquemas igualmente nocivos e corruptores, no qual todos os personagens importantes (salvo, talvez, o delegado Protógenes Queiroz e o juiz Fausto De Sanctis) defendiam apenas seus interesses mesquinhos.

De um lado, Daniel Dantas e seus aliados, dos quais o mais saliente foi Gilmar Mendes.

Do outro, a concorrência que aspirava tomar-lhe negócios no mercado de telecomunicações, tendo como escudeiro Paulo Lacerda (antigo chefão da Polícia Federal que, em seu novo posto na Abin, continuou sendo a eminência parda das investigações contra DD) e como grande aliada a Rede Globo.

Admito a possibilidade de que o delegado Protógenes estivesse sendo movido por lealdade a Lacerda e por espírito de justiça; e que o juíz De Sanctis se visse mesmo como um paladino do combate à corrupção. Prefiro pensar sempre o melhor das pessoas, quando não tenho certeza do pior.

Mas, a Operação Satiagraha veio apenas confirmar minha convicção de que a corrupção é intrínseca ao capitalismo e jamais a extirparemos enquanto a grande prioridade e motivação maior dos indivíduos continuar sendo o  enriquecei!  capitalista.

"Os seres humanos são tangidos
à competição amoral e insana"
Se os seres humanos são tangidos a uma corrida de ratos, à competição amoral e insana por riqueza e privilégios, a hipótese de que a Polícia consiga refreá-los, impedindo-os de cometer ilegalidades, não faz o menor sentido.

A lógica é que aconteça exatamente o oposto: a Polícia se tornar partícipe das refregas entre os grandes criminosos, corrompida até a medula.

Então, nunca vi motivo para tomar partido em guerras de gangstêres, pois pouco me importa que o  mercado  seja controlado por Al Capone ou por Lucky Luciano. Não tenho dúvida de que, sob o capitalismo, será sempre um gângster quem controlará o  mercado.

Eu quero é construir uma sociedade que gângster nenhum consiga controlar.

domingo, 22 de março de 2009

UMA COMÉDIA DE ERROS COM FINAL NADA EDIFICANTE

A revista Veja celebra na edição desta semana o triunfo que há tanto vinha buscando: conseguiu, finalmente, desconstruir o delegado Protógenes Queiroz.

Não fosse um detalhe que comentarei adiante, eu nem enfocaria este assunto, pois considero a Operação Satiagraha uma comédia de erros com final nada edificante. Se não, vejamos.

O ex-chefão da Polícia Federal, seja por estar mancomunado com alguma das facções interessadas no controle da Brasil Telecom ou em função de ressentimentos por haver perdido uma parada nos bastidores do poder ao ter de trocar a PF pela Abin, açulou um delegado que lhe era muito dedicado (e imensamente ingênuo) contra a gangue de Daniel Dantas.

O delegado cometeu um sem-número de irregularidades e trapalhadas, mas teve seu momento de glória ao prender três símbolos da corrupção política.

Contou com o apoio de um juiz igualmente ingênuo, pois não consegue disfarçar seu partidarismo: como cidadão ele tem todo direito de almejar punição exemplar para os figurões crapulosos, mas como juiz não pode se permitir arroubos explícitos de justiceiro de periferia.

O juiz cometeu um erro crasso ao expedir um segundo mandado de prisão contra Dantas, depois que o banqueiro foi beneficiado por um habeas corpus do presidente do STF.

Com isto, só conseguiu mesmo foi alavancar o prestígio de Gilmar Mendes, permitindo-lhe posar de sustentáculo das instituições democráticas.

Ou seja, graças à lambança de Fausto De Sanctis, o matreiro Mendes acabou se tornando um líder informal da direita, do que se vale agora para alvejar o MST e os movimentos sociais, pressionar pela extradição de Cesare Battisti, etc. Foi a chamada mágica besta...

A estes dois personagens pode-se conceder o desconto de que agiram de boa fé, embora tenham-se deixado tontear pelos holofotes da mídia e incorrido em sucessivos deslizes que facilitaram o contra-ataque inimigo.

O terceiro é o pior de todos: ao perceber que seu pupilo Protógenes não tinha mais salvação, Paulo Lacerda mudou a tônica de seu discurso para “eu não sabia direito o que ele estava fazendo, é um homem muito fechado, não conta nada para ninguém”.

Trata-se do almirante que, enquanto a tripulação vai a pique com seu navio, rema para a praia no único bote existente...

Resumo da opera: duas facções do sistema se digladiaram e a mais poderosa venceu, como sempre. O que até hoje não sei é por que, diabo, a esquerda tomou o partido de uma delas!

A bandeira de combate à corrupção não passa de moralismo pequeno-burguês. Quem a empunhou por longo tempo foram os golpistas da UDN, principais inspiradores da quartelada de 1964.

Revolucionários se colocam contra a essência do capitalismo, não contra seus excessos. Não diferenciam Daniel Dantas de nenhum outro banqueiro, pois o capital financeiro, em si, é o crime e o inimigo.

Portanto, não vêem Dantas como alvo preferencial, o que equivaleria a desviar a atenção para um peixe pequeno enquanto os grandes bancos auferiam lucros estratosféricos na bonança e agora surfam na recessão, negando aos clientes o oxigênio de que necessitam para sobreviver.

De resto, não foi a partir da perseguição histérica a Battisti que passei a desconfiar do esquerdismo atribuído à CartaCapital. Sua defesa igualmente extremada, incondicional, de policiais e juízes já me deixava com a pulga atrás da orelha, pois estes são antípodas dos revolucionários: existem para manter o status quo, enquanto nós lutamos para transformá-lo.

E é de nos fazer chorar a promiscuidade do PSOL com Protógenes Queiroz! Oferece-lhe, como tábua de salvação, a carreira política, depois de sua provável exclusão da Polícia Federal

Ao ler na Veja que o companheiro delegado recorreu a Barack Obama contra Lula, não acreditei. Fui procurar a carta de Protógenes querendo, como São Tomé, ver para crer. E não é que a revista desta vez não mentiu! Está lá na carta (extratos):

“Estimado Presidente Barack Obama –

“...os poderes da república brasileira têm agido de forma patentemente arbitrária e antidemocrática, visando obstruir os processos da lei e da ordem...

“Infelizmente, não é apenas o judiciário que está no payroll do banqueiro-bandido Daniel Dantas. O próprio presidente da república, o Lula, acaba de colocar los amigos para assumir controle do Sistema Brasileiro de Inteligência (...), visando obstruir processos relativos à soberania da nação ...

“Como é de conhecimento público, as informações da investigação Satiagraha (...) se encontram em 12 discos rígidos, encontrados dentro de uma parede oca na residência do banqueiro-bandido Daniel Dantas, os quais estão presentemente nas mãos da CIA nos EUA para serem analisados...

“Então, contamos com a sua vigilância e o seu apoio para que os processos de avaliação e divulgação dos dados contidos nos 12 discos rígidos em poder da CIA não sejam obstruídos...

“Atenciosamente,

“Protógenes Queiroz”

É simplesmente estarrecedor que a esquerda continue levantando a bola de quem escreve ao presidente dos EUA para, implicitamente, pedir-lhe que o ajude a derrubar o presidente do Brasil!

Lula pode até ser merecedor do impeachment. Mas, se os EUA estiverem envolvidos numa tentativa de privá-lo do mandato, serei o primeiro a defender Lula, com todas as minhas forças.

Pois, fiel aos valores da geração 1968, à qual pertenço, nunca me coloco ao lado da intervenção dos EUA nos assuntos brasileiros, nem vejo policiais como aliados em potencial da esquerda. Jamais!

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A RIMA ESTÁ FEDENDO

Paulo Lacerda dirigia a Polícia Federal e, aparentemente, estava fazendo um bom trabalho.

Designaram-no para assumir o comando da Agência Brasileira de Inteligência, tendo um desafeto seu sido escolhido para substitui-lo à frente da PF.

Inconformado, resolveu mostrar que era ele quem ainda mandava no pedaço: utilizando os préstimos de um delegado da PF que se-lhe conservou fiel (Protógenes Queiroz), Lacerda comandou, por baixo dos panos, a Operação Satiagraha.

Quando aquela substância que rima com seu sobrenome foi para o ventilador, Paulo Lacerda tentou canhestramente negar que havia invadido seara alheia, apesar das evidências gritantes em contrário (começando pela cessão de dezenas de agentes da Abin para ajudarem o Protógenes).

Mentiu à CPI das Escutas Clandestinas da Câmara Federal, ao afirmar que nada sabia sobre os grampos telefônicos efetuados por seus comandados da Abin que participaram irregularmente da Satiagraha.

Agora, um agente da Abin chamado Marcio Seltz revelou, em depoimento à CPI, que Lacerda teve acesso, sim, ao conteúdo de parte daqueles grampos: ele recebeu das mãos de Protógenes um pen-drive com áudios dos investigados e o entregou pessoalmente a Lacerda.

O presidente da CPI, Marcelo Itagiba, defende o indiciamento do dito cujo por falso testemunho à comissão: "Não tenho dúvidas de que o Paulo Lacerda foi cabalmente desmentido".

A situação de Protógenes se complica ainda mais, face a esta nova evidência de que conspirava com o chefe antigo contra o chefe novo.

E, graças a esse festival de incompetência e de irregularidades flagradas, os advogados de Daniel Dantas têm agora todos os trunfos legais de que precisam para livrar a cara do seu (obviamente culpado) cliente.

Resumo da opereta: por mais que desnorteados de esquerda insistam em heroicizar esses policiais (esquecendo que a repressão é sempre antípoda da revolução), ambos não passam, na melhor das hipóteses, de trapalhões que cometeram erros crassos na luta interna que travavam contra outra facção planaltina.

Na pior das hipóteses, seriam lambaris a soldo de tubarões com interesses a defender na negociata da Brasil Telecom.

O certo é que, quanto mais distante a esquerda ficar da rima, melhor.
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