Mostrando postagens com marcador Pacto Hitler-Stalin. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pacto Hitler-Stalin. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

TRUMP PODE DAR QUANTOS TIROS NO CHÃO QUISER, ESTE BLOG SE RECUSA A PULAR!

Normalmente eu estaria publicando aqui a correta dissecação que o companheiro Rui Martins fez (vide
 
aqui) das estridentes declarações de intenção do aloprado Donald Trump, desde que nelas acreditemos.

Mas, vieram à minha mente aqueles faroestes com pessoas pulando porque o bandido Ronald Reagan (também ex-presidente dos Estados Unidos) disparava tiros no chão... e, como editor deste blog, resolvi não dar quilometragem ao que me parece ser apenas a repetição do velho truque do Adolf Hitler para conquistar territórios alheios sem enfrentar resistências na década de 1930.

Alegando que a Alemanha ficara sem espaço vital para seu crescimento econômico, Hitler conseguiu fazer com que a Grã Bretanha e a França, em 1935, assistissem de braços cruzados à incorporação pelos nazistas de 90% do território de Saar (que fazia parte da Prússia e da Bavária) por meio de um plebiscito. 

A promessa de que, alcançado tal objetivo, Hitler sossegaria não passava de conversa pra boi dormir: mordendo e assoprando, utilizando-se de ameaças militares e pressões diplomáticas, ele conseguiu anexar a Áustria em 1938, novamente sem que britânicos e franceses reagissem.

O passo seguinte foi incorporar os Sudetos, região da Tchecolováquia cuja população era predominantemente alemã. Os premiês Neville Chamberlain e Edouard Daladier até ameaçaram ir à luta, mas acabaram vergonhosamente assinando o
Acordo de Munique, que permitiu à Alemanha desmembrar a Tchecoslováquia sem disparar um único tiro em março de 1939.

O novo alvo do tirano era a Polônia, daí a assinatura de um pacto de não agressão com a União Soviética (que habitualmente a protegeria). 

Mas, quando Hitler invadiu território polonês em setembro de 1939, a Grã Bretanha e a França finalmente desistiram de domesticar o conquistador insaciável e declararam guerra à Alemanha. 

São tão estapafúrdias, exageradas e inexequíveis as ameaças atuais de Trump que eu as vejo exatamente como blefes, com Trump exigindo demais para obter um pouco de mão beijada, além de fazer sua posse repercutir muito mais na imprensa mundial do que ocorreria sem ele bancar o bicho papão.

Recomendo a leitura da extensa análise do Rui sobre as bravatas trumpianas levadas a sério. Mas, não acredito que o sejam, daí estar evitando dançar só porque o fanfarrão ultradireitista alveja o chão. (CL) 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A TRAGÉDIA DA UNIÃO SOVIÉTICA: DO SONHO AO PESADELO (final).

(acesse a 1ª parte aqui)
1921: marinheiros do Kronstadt se revoltam contra o terror.
O partido que se permitia uma “espantosa liberdade de debate”, na frase do historiador (hostil) Robert V. Daniels, se fracionara de tal forma que ameaçava o próprio suicídio. Lênin sugeriu e todos aceitaram que fosse proibida a formação de facções, de que se valeria Stálin mais tarde para esmagar todas as oposições. 

Em 1921, o levante dos marinheiros da fortaleza Kronstadt foi impiedosamente esmagado por Trotski, mas, no comentário de Lênin, iluminou dramaticamente a cena de miséria e sofrimento do povo. 

Lênin criou a NEP, Nova Política Econômica, economia mista, em que as grandes (e falidas) companhias do Estado permaneceriam sob controle estatal, mas aos camponeses e donatários de indústrias médias se permitiria o capitalismo. Foi um período de conciliação de classes que se estendeu até 1929, o período mais pacífico da Revolução Soviética até a ascensão de Kruschev, depois da morte de Stalin, em 1953.

Novamente, Trotski se insurgiu, ainda que disciplinadamente, dentro das reuniões do Partido. Trotski propunha a acelerada industrialização do país, a militarização do trabalho, um regime draconiano de desenvolvimento da indústria pesada (elaborado pelo economista Preobrazhensky), que seria adotado ipsis litteris por Stalin, pós-1929, sem reconhecer a autoria, porque expulsara o autor do país nesse mesmo ano e o mandaria assassinar no México, em 1940. 

As explicações de trotskistas ilustres como Isaac Deutscher, de que o programa de Trotski era para ser adotado voluntariamente pelo povo, que excluiria a inacreditável brutalidade de Stalin ao coletivizar a agricultura, são especulações interessantes, impossíveis de provar ou desprovar.
Preobrazhensky: draconiano.
Lênin não aceitou a tese de Trotski. É uma questão aberta se ele considerava a NEP um fenômeno transitório, o que é, claro, religiosamente afirmado pela propaganda comunista, ou se voltara à concepção social-democrata, menchevique, de que a URSS precisava de um período de desenvolvimento capitalista antes de ingressar no socialismo. 

O bolchevique favorito de Lênin, o benjamim do aartido, Nikolai Bukharin, acreditava na segunda hipótese, tanto assim que se aliou a Stalin para destruir a facção radical de Trotski (enriquecida depois de 1926 por Zinoviev e Kamenev) e caiu em 1929, defendendo os princípios da NEP. Nunca saberemos o que Lênin pensava realmente, pois morreu em 1924, sem deixar explicação, ao menos que tenha vindo a público.

Deixou, porém, o famoso testamento. Se, de um lado, propõe a retirada de Stalin do todo-poderoso cargo de secretário-geral do Partido, prevendo o futuro tirano por implicação, de outro, embora reconhecendo a superioridade de Trotski sobre os demais, critica-o pela “excessiva atração” (sic) por “métodos administrativos” (sic), essa última expressão um eufemismo de imposições de programas ao povo a chicote, o que seria a especialidade do stalinismo. 

Fora da URSS, Trotski, sem nunca rejeitar a tese do partido único e exclusivista, tornou-se um apóstolo do comunismo libertário, mas não era obviamente essa a posição dele nos tempos de Lênin, o que o testamento do líder especifica.

A violência com que Stalin industrializou a URSS na década de 1930 é provavelmente responsável pela vitória da URSS sobre a Alemanha nazista e por sua conversão numa superpotência que só rivaliza com os EUA. 

O custo humano dessas realizações, porém, faz estremecer a mente. Cinco ou dez milhões (os dez milhões são de Stalin, ditos a Churchill) de camponeses assassinados na coletivização entre 1929 e 1932, o assassinato de 1 milhão de comunistas nos expurgos de 1934-1939. sem falar de suas respectivas famílias e amigos, elevando o total a 20 milhões de vítimas. 
Era para exterminar os kulaks como classe, mas...

A destruição da fina flor da cultura russa, de Mandelstam a Babel, e o estabelecimento de uma aridez burocrática na vida cultural do país, que permanece até hoje. Uma tirania policial que antes de sua morte, em 1953, superava a de Adolf Hitler. 

E, finalmente, para manter paridade em armas com os EUA, a submissão do povo a indizíveis sacrifícios em nível de vida que, hoje, 24 anos depois da morte do tirano, continua mais baixo do que o da Bélgica, que a URSS, militar, incineraria em meia hora. 

Muito se discutiu na polêmica Stalin-Trotski sobre a posição do primeiro em favor de socialismo num só país e a visão internacionalista de Trotski. Há exagero de parte a parte. Stalin nunca desistiu da revolução mundial, nem Trotski rejeitou a possibilidade de desenvolvimento autônomo da URSS. Trotski não pôde provar o que faria, porque derrubado e assassinado. Stalin, porém, forçado a fixar-se na URSS graças ao renascimento do capitalismo europeu reabastecido pelos EUA, transformou a política externa soviética num modelo de cinismo e oportunismo que desmoralizou o comunismo tanto quanto o corrupto papado na era de Lutero. 

Em 1927, sob os protestos de Trotski, inaudíveis fora do país, Stalin forçou os comunistas chineses a se aliarem a Chiang Kai-shek, pois temia que uma revolução comunista na China atraísse o ódio capitalista contra a URSS. Chiang massacrou os comunistas. Daí nasceu a revolta de Mao Tsé-tung à tutela soviética. No fim da Guerra de 1945, para aplacar os EUA, Stálin continuou traindo Mao e apoiando Chiang. 

Na Iugoslávia, pelos mesmos motivos, na 2ª Guerra, queria que Tito partilhasse o poder com a monarquia. 
Mao Tsé-tung cansou de ser traído por Stalin 
Em 1938, na Guerra Civil Espanhola, à parte mandar assassinar implacavelmente todos os grupos esquerdistas não comunistas que lutavam contra Franco, iniciou a redução do auxílio ao governo republicano porque já planejava o Pacto de Não Agressão, vis-à-vis Hitler, de agosto de 1939. 

Na Alemanha de 1933, insistiu em que o PC considerasse os sociais-democratas os “verdadeiros fascistas”, cindindo a classe operária, o que facilitou a ascensão de Hitler. 

Também no fim da 2ª Guerra fez os comunistas franceses e italianos baixarem armas em face dos EUA, porque queria preservar a esfera de influência que reservara para a URSS no Leste Europeu (apesar disso, essa esfera lhe foi negada pelos EUA até que a URSS desenvolvesse armas nucleares). 

É difícil imaginar política mais sórdida e estúpida. Sem a cisão da classe operária alemã, Hitler só chegaria ao poder mediante uma guerra civil e é quase certo que, em 1933, se o Exército derrotasse socialistas e comunistas, teria posto no poder uma alternativa menos perigosa e agressiva do que Hitler. 

Da mesma forma, o Pacto de Não Agressão nazicomunista de 1939 é julgado obra de gênio de Stalin, pois desviou as fúrias de Hitler para o Ocidente europeu, o qual tentava persuadir direta e indiretamente ao Führer que a URSS seria o alvo ideal de conquista alemã. 

Esse raciocínio tem algum mérito até a invasão da Polônia por Hitler. Nesse período, a Inglaterra já se comprometera a defender a Polônia.
Pacto entre Hitler e Stalin: uma abominação!

Se Stalin, em vez de acumpliciar-se com Hitler, abocanhando metade da Polônia, lhe tivesse dado combate, haveria sido mais fácil derrotar Hitler então, pois, sabemos hoje, a máquina de guerra alemã era mais mistificação tática do que realidade. 

Já em 1941, quando Hitler atacou a URSS, dominava completamente a Europa, seus recursos e tropas. Colocou 144 divisões de elite vis-à-vis Stalin e 3 milhões de homens. 

Stalin obteve, apesar de tudo, a maior vitória militar do século, mas ao preço de 20 milhões de soviéticos e de devastações no país maiores que as da guerra civil de 1918-1922. 

Milhões de pessoas, no entanto, se sacrificaram por Stalin, idealistas, muitas das quais morreram fuziladas nos campos de extermínio da URSS, bradando triunfalmente o nome do carrasco, no momento em que este as executava, o que prova que o comunismo é a religião secular do nosso tempo.

Resta da URSS de Stalin a superpotência. Seus efeitos benéficos são indiretos. Inexistisse a URSS, os EUA, no seu período de expansão imperialista, que terminou com a Guerra do Vietnã, teria transformado o resto do mundo numa coleção de Cingapuras. Todo movimento insurrecto, ou meramente nacionalista, lançou olhos esperançosos na direção de Moscou, talvez porque o único breque à superpotência americana, e não, certamente, porque Moscou fosse a meca do internacionalismo revolucionário.

É difícil imaginar um único movimento comunista fora da esfera de influência soviética no Leste Europeu que aceite e admire o modelo soviético. E mesmo nessa esfera a indocilidade e ânsias de libertação são sensíveis, não em loucos santos do tipo Soljenítsin, mas em novas gerações de reformistas comunistas, que anseiam por apagar a onerosa herança do stalinismo que lhes foi imposta. 
Múmia do Lênin: "ruborizado, com toda a razão".
E dentro da própria URSS, tensões nacionalistas, a inexistência de um padrão de vida civilizado, das mínimas liberdades individuais, provocam agonias de que temos meros relances. 

O stalinismo é um monumental leviatã militar e policial. Espiritualmente, é um cadáver. Seus decrépitos líderes não sabem sequer o que fazer. É uma ditadura caduca que se sustenta pela força da inércia e na ponta de mísseis nucleares e nos tentáculos da KGB. 

Não era esse o sonho de Lênin e Trotski e, talvez, nem do próprio Stalin, no início de sua carreira. Mas foi a nação e o movimento que os três construíram e que cabe a gerações futuras reformular, eliminando deformidades e, principalmente, para purgar a alma de um grande povo, contar-lhe a verdade sobre sua história nesses tumultuosos sessenta anos.

Diversas circunstâncias históricas, principalmente a destruição do mundo burguês capitalista em 1914, deram margem à Revolução Soviética. Disso não resta dúvida. A mim, porém, me parece igualmente certo que, se não fosse o gênio de Lênin, Trotski e Stalin, essa revolução teria seguido um rumo muito diferente. A paternidade da URSS moderna é inequivocamente deles. E o que restou, no país que erigiram do feudalismo de 85% de camponeses, o que restou de cada um?

Lênin, homem simples, materialista convicto, está hoje transformado em ícone, ridiculamente mumificado na praça Vermelha, onde me pareceu ruborizado. Tem toda a razão. Deve estar em rotação permanente na cova. 

Trotski não existe na URSS ou é rotineiramente atacado pelos escribas dos burocratas gagás que administram o patrimônio de Stalin. Um crime histórico que dispensa comentários.
Por Paulo Francis

E o próprio Stalin virou assunto que não se discute em casa de família. Depois da superficial revisão do período Kruschev, colocaram de novo a mortalha sobre o governo desse novo misto de Genghis Khan e Pedro, o Grande, que reformulou completamente a história do nosso tempo. 

Dizia-se que a revolução devora seus filhos. A soviética repete a máxima em farsa: fez deles objeto de ridículo para os desinformados, que permanecem 99% da humanidade.
. 
EPÍLOGO DO EDITOR
.
Profundo, brilhante e até profético, este texto do Paulo Francis não poderia ficar ausente das discussões que o centenário da Revolução Soviética suscitará ao longo deste ano, daí a minha decisão de resgatá-lo do injusto esquecimento.

E são muitas e muitas as lições que podemos extrair, a partir de tal pano de fundo. Destacarei duas:
  • a cisão do Partido Operário Social Democrata Russo, em 1903, se deu porque os fantasmas da destruição da frouxa Comuna de Paris tiravam o sono de Lênin, daí ele considerar imperativa a construção de um partido duro, de revolucionários profissionais submetidos a direção e disciplina rígidas, enquanto Trotski via nisto um ovo da serpente (primeiramente, o partido substituirá a classe operária, depois o Comitê Central substituirá o partido e, afinal, um tirano substituirá o Comitê Central). De certa forma, ambos estavam certos. Só um partido tipo jacobino, como o Bolchevique, conseguiria ter tomado o poder em 1917 e o sustentado nos anos seguintes contra a formidável coalizão de inimigos interno e externos. Mas, seu centralismo quase militar era mesmo terreno fértil para a tirania, como Stalin provaria.
  • Na inflamada discussão interna sobre se os bolcheviques deveriam ou não tomar o poder num país que nem de longe estava pronto para o socialismo, prevaleceu a tese de que a revolução soviética seria o estopim de uma sucessão de outras, começando pela alemã, cujo apoio permitiria construir o novo regime na Rússia em condições menos draconianas. Mas, abortada a sonhada sequência, a URSS contou apenas consigo mesma para superar seu acentuado atraso econômico, acabando por fazê-lo a ferro e fogo. Com isto, o chamado socialismo real soviético se tornou tão odioso e execrável que serviu como exemplo negativo para a máquina de propaganda burguesa dele afastar o proletariado das nações mais avançadas. E, embora a construção do socialismo em nações isoladas esteja completando um século de fracassos, até hoje a esquerda a continua tentando, em vão. Não seria o caso de voltar a apostar suas principais fichas na revolução mundial? Não é paradoxal a economia estar globalizada e os movimentos revolucionários terem praticamente abandonado o internacionalismo de outrora?
Por último, é impressionante como, em novembro de 1977, Paulo Francis já antevia (e ousava colocá-lo no papel!) o colapso do regime soviético. Quase ninguém o fazia na esquerda brasileira, que, depois da primavera de 1968, regredira ao mais tacanho maniqueísmo, com o consequente embotamento do espírito crítico.

Seria pedir demais que Paulo Francis, além disto, antecipasse que o leviatã sucumbiria principalmente por não conseguir incorporar os avanços tecnológicos da 3ª revolução industrial e começar a perder de goleada no front econômico, o que o forçou a optar entre a decadência irreversível ou a volta ao capitalismo. (por Celso Lungaretti)
Related Posts with Thumbnails