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terça-feira, 12 de maio de 2020

BOZO É O MACAQUINHO QUE EM TUDO IMITA O TRUMP. CONFIRA OS ERROS COMUNS A AMBOS E O ABISMO À ESPERA DELES

paul krugman
COMO CRIAR UMA DEPRESSÃO PANDÊMICA  
Na semana passada, o Escritório de Estatísticas do Trabalho confirmou oficialmente o que já sabíamos: com alguns meses da crise da Covid-19, os Estados Unidos já têm um nível de desemprego de Grande Depressão. 

Mas isso não equivale a dizer que estamos numa depressão. Só saberemos se é verdade quando virmos se o desemprego extremamente alto dura muito tempo, digamos, um ano ou mais.

Infelizmente, o governo Trump e seus aliados estão fazendo o possível para tornar mais provável uma depressão em grande escala.

Antes que eu chegue lá, uma palavra sobre esse relatório de desemprego. Veja que eu não disse o pior desemprego desde a Grande Depressão; eu disse um nível de Grande Depressão, frase muito mais forte.

Para entender por que eu disse isso, você precisa ler o relatório, não apenas ver os números do título. Um índice de desemprego de 14,7% é bastante horrível, mas o escritório incluiu uma nota indicando que problemas técnicos provavelmente fizeram esse número subestimar o desemprego real em quase 5 pontos percentuais.

Se isto for verdade, se a taxa de desocupação estiver sendo subestimada, se atualmente temos um índice de desemprego de aproximadamente 20%, o que seria pior que em todos menos os dois piores anos da Grande Depressão. A questão agora é com que rapidez conseguiremos nos recuperar.

Se pudéssemos controlar o coronavírus, a recuperação poderia ser realmente muito rápida.

É verdade, a recuperação da crise financeira de 2008 levou muito tempo, mas isso teve muito a ver com problemas que se acumularam durante a bolha habitacional, notadamente um nível sem precedentes de dívida familiar. Não parece haver problemas comparáveis hoje.

Mas controlar o vírus não significa achatar a curva, o que, aliás, já fizemos –conseguimos desacelerar a disseminação da Covid-19 o suficiente para nossos hospitais não estarem superlotados. 

Significa esmagar a curva: reduzir muito o número de estadunidenses infectados, depois manter um alto nível de testagem para localizar novos casos, juntamente com o rastreamento de contatos para podermos pôr em quarentena os que podem ter sido expostos.

Para chegar a este ponto, porém, precisaríamos primeiro manter um regime rigoroso de distanciamento social durante o tempo necessário para reduzir as novas infecções a um nível baixo. Então teríamos de agir para proteger todos os estadunidenses com o tipo de teste e o rastreamento já disponíveis para as pessoas que trabalham diretamente para Donald Trump, e quase ninguém mais.

Esmagar a curva não é fácil, mas é muito possível. Na verdade, muitos outros países, da Coreia do Sul à Nova Zelândia e, acredite ou não, a Grécia já o fizeram.

Derrubar o índice de infecção foi muito mais fácil para os países que agiram rapidamente para conter o coronavírus, enquanto a taxa ainda era baixa, em vez de passar várias semanas em negação. Mas até lugares com surtos graves podem reduzir seus números se mantiverem o curso. 

Veja a cidade de Nova York, o epicentro original da pandemia nos Estados Unidos, onde os números diários de novos casos e mortes são uma pequena fração do que eram algumas semanas atrás.

Mas é preciso manter o curso. E é isto que Trump e companhia não querem fazer.

Durante algum tempo, parecia que o governo Trump estava, finalmente, disposto a levar a sério a Covid-19. Em meados de março, o governo adotou diretrizes de distanciamento social, embora sem impor de fato regulamentos federais.

Mas ultimamente tudo o que ouvimos da Casa Branca é que precisamos reabrir a economia, mesmo sem estarmos perto de onde deveríamos para fazer isso sem nos arriscarmos a uma segunda onda de infecções.

Ao mesmo tempo, o governo e seus aliados parecem estar decididos a não dar a ajuda financeira que nos permitiria manter o distanciamento social sem dificuldades financeiras extremas

Prorrogar os benefícios aos desempregados, que vão expirar em 31 de julho? Só sobre nossos cadáveres, disse o senador Lindsey Graham. 

Ajudar os governos estaduais e locais, que já demitiram um milhão de trabalhadores? Isso seria uma fiança de estado democrata, segundo [o senador] Mitch McConnell.

E, como diz Andy Slavitt, que dirigiu o Medicare e o Medicaid no governo Barack Obama, Trump é um desistente. Diante da necessidade de realmente fazer seu trabalho e o que é necessário para esmagar a pandemia, ele simplesmente desistiu.

E essa fuga da responsabilidade não apenas matará milhares de pessoas. Também poderá transformar a crise da Covid numa depressão.

Veja como funciona: nas próximas semanas, muitos estados republicanos abandonam as políticas de distanciamento social, enquanto muitos indivíduos, ouvindo as dicas de Trump e da Fox News, começam a se comportar de modo irresponsável. Isto causa, em curto prazo, um certo aumento do emprego.

Mas em breve fica claro que a Covid-19 está numa espiral descontrolada. As pessoas voltam para suas casas, não se importando com o que dizem Trump e os governadores republicanos.

Então voltamos para onde começamos em termos econômicos, e em pior situação do que nunca em termos epidemiológicos. Como consequência, o período de desemprego de dois dígitos, que poderia ter durado só alguns meses, segue em frente.

Noutras palavras, a busca por Trump de uma saída fácil, sua impaciência com o trabalho duro de conter uma pandemia, pode ser exatamente o que transforma uma crise grave, mas temporária, numa depressão completa(por Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia)
.
Toque do editor: os trechos grifados em vermelho se referem àquilo que Bolsonaro também já fez ou decerto fará, e às tempestades que ele tende a colher ao semear os mesmos ventos que o Pateta de lá. 

sábado, 1 de fevereiro de 2020

NO IMPEACHMENT DE TRUMP, A 'JUSTIÇA IMPARCIAL' FOI SUBSTITUÍDA POR UM UM CÍNICO PROCESSO DE ACOBERTAMENTO

Farsa: testemunha que condenaria Trump foi impedida de falar
demétrio magnoli
DEMOCRACIA DOS EUA SAIRÁ MENOR DO PROCESSO DE IMPEACHMENT
 DE TRUMP
Os senadores americanos juraram, de acordo com a Constituição, fazer "justiça imparcial" no julgamento de Donald Trump. Mas Mitch McConnell, líder republicano no Senado, proclamou que conduziria sua bancada em "total coordenação" com o próprio Trump. 

Antes da primeira sessão, McConnell confessou perjúrio:
"Não sou um juiz imparcial. Este é um processo político. Impeachment é uma decisão política". 
A democracia dos EUA sairá menor do processo.

O impeachment é uma ferramenta de última instância de defesa da democracia. Nos regimes presidencialistas, serve como vacina parlamentarista aos excessos do chefe de Estado. McConnell tem razão quando o qualifica como uma decisão política: o Congresso tem a prerrogativa de avaliar quais atos ajustam-se à definição constitucional. 

Por aqui, sob esse aspecto, as coisas funcionam do mesmo modo: o impeachment de Dilma, assim como o de Collor, seguiu a Constituição, diga o que disser o PT.

Sobravam evidências contra Trump, mas faltou isenção
Ao importarem o instituto do impeachment, os arquitetos da Constituição americana tinham em mente, precisamente, casos como o de Trump. O presidente é acusado de chantagear o governo ucraniano, usando a ajuda militar ao aliado como moeda de troca para obter uma declaração desabonadora sobre os negócios de Hunter Biden, filho de seu mais provável desafiante eleitoral. 

No Brasil, Dilma foi acusada de infringir a lei fiscal, um expediente que lhe propiciou mascarar desequilíbrios orçamentários e autorizar gastos capazes de melhorar suas perspectivas eleitorais. 

O impeachment circula na esfera política, mas não é um jogo partidário. O juramento constitucional exige que, durante o julgamento, os representantes do povo suspendam suas lealdades partidárias. O perjuro McConnell, porém, orientou a maioria republicana a impedir a arguição de testemunhas —e quase toda a bancada o seguiu, bloqueando a convocação de John Bolton. 

O ex-conselheiro de Segurança Nacional testemunharia, como indicam vazamentos de um livro seu ainda no prelo, que Trump coordenou pessoalmente os atos de extorsão. A justiça imparcial foi substituída por um cínico processo de acobertamento.

A natureza política do impeachment tem uma dimensão que vai além dos textos legais: presidentes só sofrem impedimento quando perdem as condições para governar. O Congresso rotulou as pedaladas fiscais de Dilma como crime de responsabilidade porque as ruas e as pesquisas atestaram que seu governo convertera-se numa pilha de ruínas. 

"desmoralização do instituto  do impeachment"
Trump, pelo contrário, conserva o apoio de dois quintos dos americanos. As sondagens indicam que uma significativa maioria condena a chantagem contra a Ucrânia mas, diante da proximidade das eleições, quase metade dos eleitores rejeita seu afastamento do cargo.

Trump fica, pois o impeachment é um processo político. Deixa como herança a desmoralização do instituto do impeachment, rebaixado pelos republicanos à condição de disputa partidária. 

Os americanos decidirão, nas urnas, se aceitam a amputação de sua democracia. (por Demétrio Magnoli)
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