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domingo, 21 de dezembro de 2014

A BELA VENINA E AS FERAS DO PODER

Um dos meus artigos mais controversos de todos os tempos foi Combate à corrupção é bandeira da direita (vide íntegra aqui), que lancei em abril de 2009, alguns meses depois que parte da esquerda pateticamente tomou partido numa guerra de gangsteres pelo mercado de telecomunicações, travada bem no centro dos podres poderes.  Enojara-me sobremaneira o endeusamento a um delegado metido a Quixote, mas que não passava do laranja de uma das facções mafiosas.

Como a sucessão de escândalos na política e na economia parecia não ter mais fim (dura até hoje, por sinal...), resolvi recolocar em circulação a tese corretíssima do Paulo Francis, de que só à direita convém manter a opinião pública mesmerizada por esses roubos menores, intrínsecos ao capitalismo, enquanto é levada a passar batido pelo maior de todos os roubos: a propriedade privada dos meios de produção.

Assim, quando a lama novamente inundava o noticiário, escrevi estas verdades:
"...a desproporção entre o dano causado ao cidadão comum pelos ladrões de galinha da política e as atividades corriqueiras dos capitalistas é incomensurável.
O capitalismo nos acarreta:
* emergências ecológicas como as alterações climáticas que ameaçam a própria sobrevivência da nossa espécie; 
* recessões desnecessárias como a atual (que ainda não se sabe se evoluirá ou não para depressão);
* a condenação de parcela considerável da humanidade a vegetar em condições subumanas;
* o desperdício criminoso do potencial ora existente para assegurar-se a cada habitante deste sofrido planeta o mínimo condizente com uma sobrevivência digna;
* a mobilização permanente dos homens para atividades improdutivas e desnecessárias ao invés da redução da jornada de trabalho para que todos possam desenvolver-se plenamente como seres humanos; 
* etc. (muitos, muitos etcéteras!).
 ...interessa aos defensores do capitalismo fazer a patuléia acreditar que a razão maior de seus apuros econômicos são os impostos, que estes acabam sendo em grande parte desviados pelos políticos e que isto, só isto, impediria nosso país de deslanchar.
Ademais, as intermináveis denúncias de corrupção acabam minando as esperanças do cidadão comum na transformação da realidade por meio da ação política. Se tudo não passa de um lodaçal, as pessoas de bem devem mesmo é cuidar de sua vida...
De quebra, fornecem pretextos para quarteladas, sempre que os meios de controle democráticos das massas não estão funcionando a contento..."
Coerentemente, escândalos como o do mensalão e o do petrolão só entram nos meus textos em função de suas consequências políticas. Pouco me importariam as investigações da Polícia Federal e a miséria moral dos delatores premiados, se as revelações bombásticas não parecessem estar pavimentando o caminho para uma tentativa de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Afinal, acusações de corrupção já derrubaram um presidente (Fernando Collor) e ajudaram a derrubar outros três (Washington Luís, Getúlio Vargas e João Goulart).

Jamais poderia, contudo, ignorar uma das escaramuças da batalha de opinião que se trava entre acusadores e defensores da direção da Petrobrás: as tentativas de desqualificação da ex-gerente Venina Velosa da Fonseca, uma Francenildo de saias, que certamente seria aclamada pelo PT dos velhos e bons tempos.  Como a perspectiva dos companheiros mudou depois da chegada ao poder!

Nem sequer se dão conta de que os relatos de Venina convencem por estarem vindo ao encontro do que todo cidadão minimamente perspicaz já terá percebido. Os ataques a ela, além de sórdidos, são contraproducentes, autênticos tiros pela culatra.

Quando um partido dos trabalhadores começa a satanizar caseiros e funcionários para livrar a cara de ministros e presidentas de empresas, é hora de refletir seriamente sobre se sua sigla não virou propaganda enganosa.

O assassinato de reputações é uma das práticas mais odiosas da nossa vil política. 

sábado, 27 de setembro de 2014

AUMENTAR A SORDIDEZ DA CAMPANHA PRESIDENCIAL MAIS IMUNDA DESDE 1989 PARECIA IMPOSSÍVEL. MENOS PARA A veja.

A jogada manipulatória está no topo da capa
Nunca me identifiquei tanto com o Glauber Rocha de Terra em Transe quanto agora, ao presenciar a campanha presidencial mais imunda desde a redemocratização. Vejo-a e relembro o desabafo do poeta Paulo Martins (Jardel Filho), que cai como uma luva para o show de aberrações e de horrores que nos é imposto:
"As coisas que vi naquela campanha! Uma tragédia muito maior do que as nossas próprias forças!"
De um lado, mentiras e falácias transformadas em trunfos; a aposta na fanatização dos prosélitos e no embotamento do espírito crítico; o recurso à manipulação mais ignóbil por parte de quem deveria despertar a consciência dos explorados, não tangê-los como rebanho para as urnas; a satanização de uma mera educadora só porque convém aos falsários fazê-la passar por banqueira; a interpretação totalmente deformada do que seja a independência do Banco Central, na verdade uma forma de evitar que decisões técnicas fiquem à mercê da vil politicalha; a atribuição à adversária de intenções que ela nunca teve nem manifestou, como a de anular conquistas dos trabalhadores, etc. 

É cópia escrachada dos métodos de Goebbels, sim, como eu denunciei muito antes do que qualquer vice! É puro stalinismo, sim, uma exumação do maniqueísmo mais selvagem dos tempos da guerra fria! É a política de hoje chafurdando nos esgotos do passado. 

Do outro lado, as armações ilimitadas da revista veja, com seu acesso ilegal a inquéritos que deveriam estar resguardados pelo segredo de Justiça, para pinçar acusações bombásticas contra a candidatura palaciana. Na edição deste sábado (27), a novidade é que Paulo Roberto Costa, em sua delação premiada à Polícia Federal, teria acusado a campanha de 2010 da Dilma de, por intermédio do terror dos caseiros Antonio Palocci (sempre ele!), haver pedido R$ 2 milhões, com urgência, ao esquema de corrupção da Petrobrás.

Isto, evidentemente, não poderá ser apurado nos nove dias que antecedem o 1º turno, mas vai servir para lançar uma grave suspeita sobre a presidenta, capaz de modificar intenções de voto. E, se confirmado pela investigação policial, terá consequências imprevisíveis na eventualidade de uma reeleição (vale, contudo, ressalvar que, levando em conta apenas o que foi divulgado até agora, seria difícil inculpar Dilma pelo suposto ou real pedido do Palocci --este poderia, p. ex., assumir a culpa sozinho, com a coisa morrendo por aí).

De qualquer forma, é tentativa de assassinato de reputação para influenciar a eleição mediante a utilização de jogo sujo e golpes baixos, exatamente como o PT faz com Marina Silva. Alguns consideram válido usar feitiços contra feiticeiros. Eu gostaria é de ver os dois tipos de bruxos assando juntos numa fogueira (simbólica, claro...).

E pensar que tantas vezes fui às ruas clamar por eleições diretas, até que finalmente consegui votar pela primeira vez para presidente da República... aos 39 anos de idade! Mesmo tendo mantido sempre um pé sensatamente atrás, evitando superestimar a democracia burguesa, nem de longe adivinhava o tamanho da decepção e do desencanto que viriam.

Uma tragédia muito maior do que as nossas próprias forças. 

sábado, 4 de junho de 2011

AVISAR, EU BEM QUE AVISEI...

"Hoje leio que Marta Suplicy apontou o ex-ministro Antonio Palocci como melhor quadro do Partido dos Trabalhadores para concorrer à sucessão estadual.

Não consigo pensar em nome pior. Os mensaleiros avacalharam as bandeiras éticas do partido, mas Palocci conseguiu atingir um valor ainda mais sagrado: o engajamento na causa dos humildes, contra a arrogância dos poderosos.

Ao mobilizar toda sua influência ministerial para pressionar um mero caseiro, atingindo vários direitos de um coitadeza da vida, Palocci se comportou como um daqueles atrabiliários coronéis nordestinos do tempo de Lampião.

É o anti-PT por excelência -- pelo menos quanto aos ideais que nortearam a fundação do partido."

Estes foram os parágrafos finais do artigo Palpite infeliz, postado neste blogue em 07/04/2009.

Depois, em 01/12/2010, quando havia tempo de, pelo menos, não levar para o Ministério o pior cartão de visitas possível e imaginável para o governo de um partido criado para representar os trabalhadores, escrevi o artigo  A presidente Dilma vai incubar o ovo da serpente?, que começou assim:
"Como Pedro, a presidente eleita Dilma Rousseff poderá negar pela terceira vez os ideais pelos quais lutamos nos anos de chumbo.

A primeira foi ao reabilitar Antonio Palocci que, além de ter sido o ministro da Fazenda dos sonhos do Itaú e do Bradesco, passou com o rolo compressor do Estado em cima dos direitos de um coitadeza, fazendo  exatamente o contrário do que os revolucionários devem fazer (defender os fracos dos abusos dos poderosos)".
Enfim, não adianta chorarmos o leite derramado.

Foram um completo fiasco as entrevistas que Palocci deu por escrito à Folha de S. Paulo e gravou para o Jornal Nacional.

Para começar, quem teme tropeçar nas pernas se der uma entrevista de verdade não serve para nem para secretário municipal do Brejo das Almas Perdidas.

Na primeira, o  ghost writer  botou o que quis nas respostas, sem possibilidade de contestação. Na segunda, podemos ter a certeza de qualquer  declaração falha  (no sentido de  ato falho freudiano...) terá sido apagada e regravada, pois a Globo faz sempre o jogo do poder.

Nem assim Palocci livrou a cara: não explicou nada e não convenceu ninguém que tenha um mínimo conhecimento da atividade de consultoria. 

Eu tenho, porque a atuação na área de comunicação empresarial me obrigava a manter contato com os consultores de grandes empresas às quais meus empregadores prestavam serviços. Então, minha sensibilidade é a mesmíssima de Fernando Rodrigues, na sua ótima coluna Nem em Alfa Centauro:
"Antonio Palocci foi deputado federal e coordenador da campanha de Dilma Rousseff em 2010. Tinha contratos de consultoria com várias empresas. Nomeado ministro, encerrou seus serviços.

Aí operou-se algo inusitado. Em vez de multa, recompensa. Até outubro de 2010, Palocci tinha faturado R$ 10 milhões. Com Dilma eleita para o Planalto e ele nomeado, embolsou mais R$ 10 milhões.

...os 190 milhões de cidadãos brasileiros têm (...) o direito de inferir que Antonio Palocci não pagou multa por encerrar antes da hora os serviços prestados a um punhado de empresas. Ao contrário, parece ter recebido uma gorda bolada.
Faz sentido. Qual empresário no planeta Terra ou em Alfa Centauro ousaria cobrar uma multa do futuro ministro-chefe da Casa Civil? Se tal benemerência não configurar uma relação imprópria, o governo de Dilma Rousseff estará estabelecendo um novo padrão ético e moral na política em Brasília".
Xeque mate.

Então, correndo o risco de ser novamente ignorado, lealmente dou à presidente  Dilma o melhor conselho: destitua Palocci!

Daqui para a frente, adiar o inevitável só fará crescer o prejuízo. 

quarta-feira, 25 de maio de 2011

CEF DEDA O GRANDE CULPADO DO CASO FRANCENILDO: PALOCCI

Condenada pela Justiça a indenizar em R$ 500 mil o ex-caseiro Francenildo dos Santos Costa por haver entregue seus dados sigilosos a quem pretendia lhes dar uso difamatório, a Caixa Econômica Federal está reconhecendo, na apelação, o óbvio ululante: o mandante e principal culpado foi o Antonio Palocci.

Eis como a CEF se referiu, na apelação, ao vazamento dos dados que tinha o dever de proteger:
"O domínio do fato pertencia ao ex-ministro da Fazenda, apontado como mentor intelectual e arquiteto do plano, sobre o qual a Caixa não possui qualquer poder de mando. Ao contrário: é o ministro que possui poderes sobre a Caixa". [traduzindo: só entregou os dados porque o Palocci mandou. Mas, a Justiça saberá lembrar a funcionários capachos e advogados distraídos que ninguém é obrigado a cumprir ordem ilegal numa democracia. Quem age de forma tão servil e pusilâmine, o faz por sua conta e risco.]
Sem ter verdadeiramente como negar sua cumplicidade no primeiro crime, a CEF fica em posição mais confortável quanto ao segundo, pois dá para se acreditar que não soubesse qual seria a destinação dos dados: 
 "O ministério poderia, e deveria, ter recebido as informações e apenas ter levado a cabo as investigações recomendáveis para o caso, não permitindo que seu assessor [o jornalista Marcelo Netto] procurasse a imprensa... nem mesmo a Polícia Federal tem dúvida de que o assessor do Ministério da Fazenda foi o responsável pela entrega das informações bancárias do autor à imprensa, com consequente divulgação, a partir de quando houve a quebra do sigilo". [traduzindo: no empurra-empurra para ver quem fica com o mico, a Caixa se defende alegando desconhecer que os dados seriam utilizados para desacreditar publicamente o caseiro. Pode ser. Mas, repito, a quebra do sigilo se deu no exato momento em que Palocci leu os extratos de movimentação bancária, não quando eles foram trombeteados na mídia.]
Enfim, o que temos é a confirmação, preto no branco, de tudo que já saltava aos olhos e clamava aos céus.

Isto só vem confirmar que a absolvição de Palocci foi uma das decisões mais espafúrdias e vergonhosas do STF em todos os tempos.
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