quarta-feira, 27 de maio de 2026

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO/16

Gostaria de deixar como legado, para os que virão depois, o fim da exploração do homem pelo homem. 

Agora me caiu a ficha de que raríssimos revolucionários conseguem realizar algo tão grandioso como o que sonhavam. Nem sequer duradouro. Mas, desde a Comuna de Paris nossas vitórias são temporárias e nossas derrotas, devastadoras. 

Mesmo assim,  não me arrependo do rumo que segui e das opções que fiz. Sou incapaz de imaginar-me como um homem egoísta, movido por ambições menores, indiferente às vítimas do terrorismo de estado que assolou o Brasil. 

Quando, nas minhas palestras, alguém me perguntava se tinha valido a pena sacrificar tanto para obter tão pouco, eu respondia que já era deplorável um país de 90 milhões de habitantes haver apenas uns 3 mil  dispostos a correr os riscos de lutar pela liberdade, mesmo que seja em enorme desigualdade de forças; menos ainda  seria vergonhoso.

Assim como a Resistência Francesa não conseguiu vencer os nazistas (as tropas aliadas é que o fizeram) mas salvou a honra da França, nós não acabamos com a ditadura nem fizemos a revolução, mas salvamos a honra do Brasil. Depois de tanta derrota sem luta, finalmente uns poucos enfrentamos a repressão na praia dela, o campo de batalha., e até conquistamos êxito em algumas situações. 

A partir daí, os rompimentos de paradigmas foram se sucedendo:
**  oito jovens, com idades entre 17 e 21 anos, terem partido para a luta armada, exatamente quando os quadros  mais velhos e mais experientes dela se distanciavam, por ter-se tornado quase kamikaze a partir da decretação do ato institucional número 5;
** minha surpreendente designação, aos 18 anos, para a posição de comandante estadual daVPR e meu papel do racha da VPR, iniciado por mim e pelo José Raimundo da Costa (Moisés);
** eu ter resistido a uma proposta de reingresso num partido de esquerda, em meados da década de 1970, desde que desse uma entrevista a jornalistas do Brasil e correspondentes do exterior, relatando as torturas a mim infringidas mas omitindo que a VPR consentira na minha estigmatização, mesmo sabendo que eu sequer conhecia a localização da área 2 de treinamento, estourada pela repressão (ao contrário de muitos outros militantes que aceitaram fazer mea culpa insinceras para serem readmitidos como coitadinhos, esperei  34 anos mas resgatei a verdade e o respeito dos companheiros).

Cedo percebi que, depois de destruída a VPR, não havia mais dirigentes que fizessem questão de que eu fosse mantido como bode expiatório de fatos ocorridos em 1970. O problema era eu não aceitar a infalibilidade dos comandantes. Minha reabilitação implicaria o reconhecimento de uma injustiça dos mandachuvas, ainda que de outra organização, e era isto que os incomodava.

Mas ceder a eles seria a negação de tudo que aprendera na prisão quando. finda a fase das torturas, refletia longamente sobre o que acontecera conosco. Era difícil eu aceitar que, embora estivéssemos basicamente certos, houvéssemos sofrido tamanho massacre.

Para encurtar a história, conclui então que, até o esmagamento da Comuna de Paris em 1871, o socialismo e o anarquismo haviam sido o que Marx sonhara: uma onda revolucionária varrendo o mundo. 

Depois de derrota tão amarga, ingredientes autoritários foram sendo aos poucos acrescentados, até a época atual, quando a esquerda humanista quase desapareceu e as
nomenklaturas brotaram como cogumelos, incapazes de forjar regimes duradouros e sucumbindo, mais dia, menos dia, às armas, ao consumismo e à lavagem cerebral do capitalismo.. 

Como começarmos a desconstruir tal colosso? Minha única certeza é de que não será a partir das eleições de cartas marcadas da democracia liberal. São um engodo. Reproduzem infinitamente o capitalismo, mesmo no seu estado terminal de hoje em dia.

Tantos espertinhos á se proclamaram corregidores de Marx, mas a contradição básica do capitalismo permanece a mesma: ao descolar a produção do consumo, permite que uma parte dos indivíduos viva de forma nababesca e outra parte seja reduzida à pobreza. Então, entre a extrema pobreza e a pobreza em países de renda média, cerca de 44% da população mundial é pobre. Os ricos são aproximadamente 10%.

Há como tornar 44% igual a 10%? É óbvio que não! E, para piorar, é o percentual dos ricos que cresce, não o dos pobres. Então, os exploradores têm um poder de fogo cada vez maior para a preservação de sua condição privilegiada, e não se vexam de utilizá-lo.

Aproximamo-nos de outra grande depressão, que tende a ser mais grave ainda do que a iniciada em 1929 A forma de evitá-la seria colocar o atendimento às necessidades  humanas como prioridade máxima da economia, ao invés do lucro.

Com uma organização diferente da sociedade, hoje é possível proporcionar a cada ser humano o necessário para uma existência digna. Os 
avanços científicos e tecnológicos o possibilitam. 

Mas, como chegarmos a isto se, por exemplo, há canalhas no Brasil que movem céus e terras para evitar a introdução da escala 5x2, já insuficiente e abandonada por vários países?!

A crise do subprime, em 2008, já deveria ter servido para alertar os donos de gado e gente que há um tsunami econômico em gestação. Mas, nada consistente está sendo feito para evitá-lo. 

Pelo contrário, o presidente estadunidense Donald Trump torna o mundo cada vez mais desigual e desumano, revivendo as práticas mais sórdidas do capitalismo selvagem, afora esforçar-se em estimular a beligerante imposição da força sobre os países mais fracos. (por Celso Lungaretti)

Nenhum comentário:

Related Posts with Thumbnails