-- nessas circunstâncias, os três remanescentes do Comando Estadual decidimos não realizar a conferência preliminar do Congresso da VAR-Palmares;
-- o Samuel Iavelberg (Moraes) discordou em seguida, porque queria que os delegados fossem um militarista (eu ou o Moisés) e o outro massista (ele, Moraes);
-- no finzinho do Congresso da VAR-Palmares, contudo, o comandante Carlos Lamarca (ex-capitão do Exercito que, desde a morte do Carlos Marighella, era o principal nome da luta armada brasileira) concluiu que a organização estava mesmo esvaziando a montagem da coluna guerrilheira e priorizando implicitamente o crescimento nas cidades, então encabeçou o racha dos sete: Lamarca (Cid), eu, Chizuo Osava (Mário Japa), Cláudio de Souza Ribeiro (Matos), Darcy Rodrigues (Souza), José Araújo Nóbrega (Alberto) e o Moisés). Os refundadores da Organização assumiram as principais propostas minhas e do Moisés, quais sejam a volta à identidade de VPR e a adoção das Teses de Jamil como plataforma política.
A trajetória do Jamil tem muitos pontos em comum com a do Régis Debray, igualmente pensador que aderiu à guerrilha e acabou preso pela repressão. Ambos tiveram grande êxito mais tarde, o brasileiro Dowbor como economista e o francês Debray como filósofo.
Não vejo necessidade de expor aqui, mais de meio século depois, a fundamentação econômica das inovadoras teses de Jamil. Exatamente pela difícil compreensão, não haviam despertado o interesse da grande maioria dos militantes da VPR.
Elas, contudo, me pareceram um verdadeiro ovo de Colombo. Se não, vejamos.
A esquerda brasileira se dividia de forma exacerbada entre dois segmentos. Um, o que prevalecia acentuadamente antes do golpe de 1964 e depois definhou, acreditava na necessidade de uma etapa inicial, democratico-burguesa. na nossa revolução, para extirpar resquícios feudais que ainda continuariam existindo no campo.
Como consequência, os camponeses também estariam entre os sujeitos revolucionários e haveria uma burguesia nacional que poderia ser nossa aliada durante a luta.
O outro, cujos adeptos eram principalmente os esquerdistas indignados coma derrota sem luta diante da quartelada castellista, via o Brasil como um país definitivamente capitalista, cuja burguesia se atrelava à sua congênere internacional e cujos sujeitos revolucionários seriam os explorados das cidades e dos campos (os últimos lutando não pela posse individual da terra, mas para dela disporem visando à produção coletiva).
O Jamil simplesmente quebrou o brinquedo predileto dos scholars de esquerda, que adoravam discutir se quem estava certo era Nelson Werneck Sodré com sua revolução inicialmente popular ou Caio Prado Jr. com sua revolução socialista desde o início.
Argumentou que, ao contrário dos modelos estrangeiros (principalmente a revolução russa de 1917), não havia no Brasil nenhuma força de esquerda capaz de ser a dominante naquele momento, como o Partido Comunista Brasileiro havia sido durante quase meio século, após vencer a disputa com os anarquistas na década de 1920 e incorporar parte deles às suas fileiras.
Então, a revolução brasileira só teria alguma chance de êxito se iniciada pelo conjunto de forças de esquerda, cada uma dando a contribuição a seu alcance, até que, ao longo do processo, alguma se afirmasse (ou não) como a principal.
E seria também o próprio transcurso do processo revolucionário que daria a última palavra sobre se haveria ou não uma etapa democratico-burguesa. Os que a pregavam a dita cuja iriam batalhar por ela, mas certamente não se deteriam caso tal etapa fosse ultrapassada e o processo seguisse adiante; nem os adeptos do socialismo direto tinham motivo para ficar querendo comprovar sua estratégia no blablablá se poderiam fazê-lo na prática.
Assim, cada partido e organização de esquerda começaria perseguindo seus objetivos por si só, em seu território próprio e com os recursos que possuísse, depois alianças iram se forjando ao sabor da luta.
Após a grande guinada da esquerda, os massistas continuariam tentando atuar simultaneamente na luta armada e no trabalho de massas, embora a segunda tarefa colocasse em grande perigo a concretização da primeira, tanto que a VAR desempenhou papel secundário nas lutas travadas dali em diante.
Na VPR rediviva, eu mantinha contato diário com os outros comandantes baseados no RJ, o Juvenal e o José Ronaldo Tavares de Lira e Silva (Roberto Gordo), responsáveis pelas duas unidades de combate lá atuantes.
Como o DOI-Codi aperfeiçoara sua atuação e estava prendendo e/ou matando muitos dos nossos quadros, o novo comando resolveu que os preferidos para desenvolverem a área rural de treinamento seriam alguns dos militantes mais procurados pela repressão, que assim ficariam tão a salvo quanto era possível das incertezas da luta armada: José Lavecchia (Pablo), Massafumi Yoshinaga (Massa), Yoshitane Fujimori (Edgar), o próprio Lamarca (Cid) e eu (André).
Depois, já pendurado no pau-de-arara, comecei a ser realmente interrogado. E aí se iniciava a verdadeira batalha. Como a intensidade das torturas era demasiada, tinha de ir buscar nas minhas convicções mais profundas a força para nada dizer a esmo.
O certo é que aqueles retornados do campo foram os que, ao caírem, causaram mais danos à VPR, Por mérito ou por acaso, não foi graças a mim que a repressão ficou sabendo o suficiente para nos impor as quedas em cascata.
CAPÍTULO 7: GENTE NÃO É CALHAU
Mas não fui nem poderia ter sido capaz de convencer a repressão de que nada sabia. Para desviar a atenção dos inquisidores de nossos tesouros, fui obrigado a entregar-lhes alguém cuja queda nos fosse inócua. Isto me pareceu justificado naqueles momentos insanos.
Que direito tinha eu de definir, por critérios utilitários, quem seria barbaramente torturado e talvez até morresse, expondo-o para preservar os líderes da nossa organização? Nenhum. Amaldiçoei-me por perceber isto tão tardiamente. Naquela situação, a única saída digna era morrer eu, do jeito que desse, mas não sacrificar a ele.
Depois de minha libertação, nunca mais cogitei voltar a assumir as mesmas responsabilidades como militante. Sabia que, se o fizesse, ficaria novamente conflitado face à questão de quais companheiros eram descartáveis e quais imprescindíveis. Uma vez já tinha sido demais.
Um deles descarregou a raiva em mim. O oficial responsável pelo inquérito da VAR-Palmares viera tomar meu depoimento e um cão danado do DOI-Codi, ao passar pelo corredor, viu-me e perdeu a cabeça. Entrou na sala bufando e esmurrou-me tão violentamente pelas costas que me derrubou da cadeira e jogou a mesinha em cima do oficial visitante.
Com isto desrespeitou duas vezes o de patente superior: pela agressão em si e por não ter pedido licença para falar comigo, já que naquele momento eu estava sob a autoridade dele e não do DOI-Codi.
Apesar dos espancamentos, o que realmente me abalava nas torturas eram os choques elétricos. Também, pudera: desde a juventude eu tinha tamanha sensibilidade aos choques que, em dias de chuva, os sentia quando utilizava os telefones públicos de ferro espalhados pela cidade e, ainda, quando viajava em ônibus elétrico.
Pior ainda era quando recebia choques pendurado no pau-de-arara. O sentimento de impotência era detestável. Certa vez um capitão me mostrou um cabo de vassoura e disse que ia me penetrar com ele. Acabou ficando só na ameaça, mas o fato é que, se ele a cumprisse, eu não poderia fazer nada. Estava completamente indefeso.
A falta de informações também me angustiava. Pensava que a eletricidade passando pelo pênis e escroto poderia me tornar impotente; e quando os fios eram pendurados nas duas orelhas e um raio avessava meu cérebro, receava ficar com problemas mentais. Bobagem.
Meu arrependimento forçado se deu no final de junho, momento no qual a equipe de torturadores da Vila Militar que tinham sido afastados da caça aos subversivos se ressentia muito da perda de tudo que roubavam de nós e das generosas recompensas concedidas por empresários ultradireitistas. Parecia o velho Oeste.
Mas a morte do jovem Chael Charles Schreier naquela unidade levou a repressão a unificar suas forças para evitar novos descontroles. No Rio de Janeiro só a PE da rua Barão de Mesquita manteve a primazia, enquanto os torturadores da Vila Militar ficaram chupando os dedos.
Aí o tenente Ailton Joaquim, que comandava a segunda seção daquele quartel (Inteligência), teve a ideia de jerico de arrancar informações inéditas de mim e de outra presa da VPR, desrespeitando as ordens recebidas.
Lá deveríamos apenas dar os depoimentos finais para a remessa do inquérito a alguma auditoria militar, mas um oficial ganancioso acreditou que, mostrando-se mais eficaz do que as equipes do DOI-Codi/RJ, poderia reaver para sua unidade a boquinha perdida.
Pensei que seria apenas uma besteirinha do setor de Guerra Psicológica do Exército para ser distribuída impressa. Afinal, com as marcas de soco que eu tinha na cara, supunha que não fariam nada presencial comigo.
Mas, como as porradas passaram a ser sempre no meu corpo. eu deveria ter suspeitado de que havia algum motivo para evitarem causar novas manchas roxas no meu rosto.
Acordaram-me de madrugada dizendo para me vestir porque ia ser fuzilado. No trajeto, o capitão Ailton Guimarães Jorge (futuro bicheiro e bingueiro) disse que eu estava sendo levado a uma tevê e teria de repetir fielmente o que constava na minha carta aos jovens, caso contrário nem voltaria para o quartel: seria executado no caminho e jogado embaixo da ponte.
Tudo me fazia crer que eu já estava prestes a ser transferido para finalização de inquérito em algum dos quartéis da Vila Militar quando o embaixador alemão foi sequestrado.
Passamos primeiramente pela área 1 e demonstrei que a conhecia. Não havia qualquer informação útil para eles lá, então minha sinceridade não faria mal nenhum.
Passamos primeiramente pela área 1 e demonstrei que a conhecia. Não havia qualquer informação útil para eles lá, então minha sinceridade não faria mal nenhum.
Estava sendo processado em quatro auditorias militares (duas no processo da VPR e as outras duas no da VAR). No primeiro julgamento, condenaram-me a seis meses de prisão, mas o juiz auditor quis negar-me a soltura alegando que ele não determinara minha prisão preventiva, só os outros três togados.
Como prêmio seria recebido no Partido Comunista do Brasil para reatar minha militância, começando por baixo (aliado ou simpatizante). Pensei até em aceitar, tamanha era minha vontade de pertencer de novo a um círculo da esquerda militante.
Mas surgiu um pomo da discórdia: se eu relatasse fielmente como havia sido injustiçado pela VPR, o PCdoB temia que estaria comprometendo a imagem de mártires da luta contra a ditadura.
Por minha vez, aceitando tal proposta eu passaria recibo de que as acusações que me faziam eram verdadeiras. Queria, sim, voltar, mas respeitado, não como um coitadinho. Não houve acordo.
Em 1994, contudo, algo que escrevi caiu mal para os petistas. Coincidência ou não, logo depois a Folha de S. Paulo publicou na Ilustrada uma reportagem do Marcelo Paiva que não tinha nada a ver comigo e nela foi encaixado, na base da forçação de barra, um trecho me acusando gratuitamente de delator da área de treinamento da VPR.
Travamos uma polêmica foi com três intervenções cada e eu pude enfim esclarecer que as áreas de treinamento eram duas, a que abandonamos e a que foi invadida pela repressão. Como ninguém jamais havia falado nessa segunda, coloquei uma dúvida na cabeça de muita gente da esquerda.
Ele contra-atacou afirmando que a repressão chegara à área 2 por meio dos nossos aliados que prendeu por estarem envolvidos com a área 1. Ele errou por acreditar em versões de policiais: os aliados só foram aprisionados na segunda-feira, quando a repressão já estava na área 2 havia um bom tempo.
Foi o momento em que comecei a obter mais manifestações de apoio de esquerdistas.
Tudo que eu semeara floresceu quando encontrei e divulguei um relatório de operações do II Exército, no qual constava que a localização da área ativa tinha sido revelada por alguém preso no dia 18 de abril, indiretamente me inocentando, já que eu caíra no dia 16. Mas como fazer isso repercutir amplamente nos círculos de esquerda?
Levei o tal relatório ao Jacob Gorender, o principal historiador da luta armada brasileira. Meio desconfiado, ele disse que tinha mais documentos secretos sobre o assunto, iria consultá-los e me daria retorno.
Bem mais cordial, dias depois ele me telefonou para informar que eu tinha razão e que comunicaria isto à Folha de S. Paulo e a O Estado de S. Paulo. A Folha publicou na íntegra a carta do Gorender.
Fui o único combatente da luta armada que conseguiu provar que havia sido acusado injustamente. Fim do pesadelo que durante 34 anos prejudicou minha imagem de revolucionário.
Minha grande cruzada depois de reabilitado acabou sendo a contribuição que dei à luta pela liberdade do escritor Cesare Battisti. Durou de 2008 e 2011 e o nosso comitê de solidariedade foi buscar a vitória na bacia das almas, quando tudo parecia perdido.
A prestação de solidariedade a perseguidos políticos é dever de todo revolucionário, embora a maioria tire o corpo fora. Eu não. Aceitei de imediato, sem ilusão nenhuma quanto a quão imensas seriam as dificuldades que enfrentaria.
Não deu outra. Passei dois anos e meio correndo o Brasil para fazer palestras e participar de debates, mesas redondas e atos públicos em defesa do Cesare. Compareci às sessões de julgamento no Supremo Tribunal Federal para, se a decisão fosse pela extradição, reagir imediatamente, pois deveríamos contrapor nossa verdade às mentiras que vinham da Itália e eram repercutidas caninamente pela imprensa brasileira.
Esse livro impactou muito em mim quando o li, mas tantos outros haviam depois passado por minhas mãos que eu esquecera dele.
Quando afinal percebi que, de certa forma, estava tentando corrigir o passado, fiquei surpreso: estatisticamente, a possibilidade de um dia eu estar envolvido num episódio semelhante era infinitesimal.
Não foi esta a única coincidência inverossímil. Apesar de minhas famílias paterna e materna não terem interesse pela política, um antepassado meu, Angelo Longaretti, havia assassinado um fazendeiro truculento que espancava seu pai. Num país imenso, pela segunda vez um estardalhaço desses se misturava com uma família de pacíficos apolíticos. Pode? Pôde!
Tinham discutido pelo valor que o pai dele, um homem idoso, tinha a receber, pois a família estava de saída daquela fazenda. A isto se acrescentava o assédio que a filha sofrera de um dos filhos do mandachuva. Ao ver o seu pai agredido e aparentemente morto (tinha só desmaiado), Angelo o atingiu com um disparo anormalmente certeiro de uma garrucha velha e enferrujada.
A colônia italiana se mobilizou em peso, mas o julgamento foi de cartas marcadas. Não se providenciou sequer tradutor, de forma que as testemunhas de Angelo, também italianas de nascença ou de ambiente familiar, depuseram à toa.
O morto era irmão de Campos Sales, quarto presidente da República do Brasil, o qual tentou mudar a lei, com a introdução da pena de morte para que em seguida fosse aplicada retroativamente contra Angelo. Mas acabou desistindo dessa ideia estapafúrdia por pressão da Inglaterra, que atuava como uma espécie de guardiã da aplicação correta da lei noutros países.
Sem vínculo comigo, mas igualmente repulsivas, foram a decisão do STF favorável à extradição de Olga Benário Prestes para a Alemanha nazista, embora estivesse grávida de um brasileiro; e a omissão do ditador Getúlio Vargas, que dava a última palavra em casos como esse e poderia ter impedido tamanha infâmia.
A esquerda perdoa alguns ditadores que passam para o seu lado, como Vargas, que em 1950 se tornou nacionalista como retaliação aos EUA por terem, em 1945, apoiado sua destituição. Eu, que passei pelos porões de uma ditadura e quase morri, não perdoo ditador nenhum.
-- dos grandes atentados fascistas que ficaram impunes ou receberam sentenças ínfimas, começando pelo da Piazza Fontana em 1969 (16 mortos e 88 feridos) e culminando no Massacre de Bolonha (85 mortos e mais de 200 feridos);
-- da lei inacreditável que vigorou nos anos de chumbo italianos, prevendo prisões preventivas de até mais de 10 anos para os acusados de terrorismo, que bem poderiam ser inocentes;
-- pelo fato de que as acusações do governo do debochado Silvio Berlusconi contra o Cesare já estavam prescritas, mas o prazo foi maquilado para justificar a perseguição ao escritor;
-- pela buffonata de atribuírem a Battisti quatro assassinatos, dois dos quais simultâneos, sem levarem em conta que era humanamente impossível ele percorrer tão depressa a distância entre duas dessas cidades (quando esse pequeno detalhe foi atirado na cara dos pubblici ministeri, eles alteraram a acusação para três homicídios cometidos pessoalmente e autoria intelectual do quarto),
Muitos exemplos semelhantes comprovam que na Itália, a partir da morte de Aldo Moro, perdurava um estado de guerra secreta. Isto, num país sem passado fascista nem premiê execrável, justificaria uma anistia aos envolvidos ao invés de penas rigorosíssimas para uns e benevolentes para outros. Mas, na Itália que venerara Mussolini, tudo era possível.
O pedido de extradição feito apela Itália ao Brasil desembocou numa guerra de versões até então nunca vista, entre a grande imprensa e as redes sociais.
Um episódio interessante foi eu logo ser convidado a entrevistar o Cesare sobre semelhanças e contrastes de dois guerreiros dos anos de chumbo.
O ministro Gilmar Mendes jamais consentiria, então tratei de entrar na Papuda acompanhando uma pessoa que tinha o direito de estar lá. Entrevistei-o longamente, anotando apenas uma palavra de cada resposta dele, para não dar na vista.
Nunca havia feito isso, mas consegui lembrar a entrevista inteira. Ela foi publicada no Congresso em Foco, que me contratara o serviço, e, depois de uma semana, massificada para que atingisse maior público. Coincidência ou não, foi nesse período que o Cesare começou a conquistar as redes sociais.
Quando entrei na batalha de opinião, trazendo a experiência das disputas encarniçadas do movimento estudantil, a coisa foi mudando de figura, Tentei várias vezes acelerar o processo desafiando o Mino a polemizar comigo, mas ele fugiu da raia. Propunha-se a duelar com o Zé Dirceu mas, quando eu levantava a luva que ele atirara no chão, dava uma de desentendido.
Escapou da derrota, mas não da corrosão de sua popularidade, Teve de abandonar o blog pessoal por não suportar os questionamentos de seus próprios admiradores.
Numa noite em que vários veículos da grande imprensa levaram ao ar reportagens altamente desfavoráveis ao Cesare, deixando forte impressão de que se tratava de uma ação concertada, consegui redigir, em pouco mais de uma hora, e enviar para minha rede uma refutação tão pertinente que acabaria sendo copiada por um grande número de portais e blogs. Foi o melhor texto que escrevi durante a campanha toda, aproveitando ao máximo o que aprendera no jornalismo.
Doutro lado, deixo registrado que, como relator do caso no STF, Cezar Peluso conseguiu alinhavar dezenas de motivos para enviá-lo à Itália e um ou dois que o favoreciam. Foi o relatório mais parcial que eu vi em toda a minha carreira e em toda a minha vida.
O empenho de Gilmar Mendes (presidente da Corte) e Peluso (relator) em crucificar Battisti era desmedido. E, quando terminou o período de Mendes como presidente, foi substituído por... Peluso! E quem foi indicado por Peluso para assumir a relatoria? Ele mesmo: Gilmar Mendes!
Apesar de termos contra nós um país do primeiro mundo cujo presidente era um depravado ultradireitista que desperdiçava rios de dinheiro comprando a extradição; quase toda a grande imprensa brasileira; e adversários ocupando o tempo todo as duas cadeiras mais importantes do julgamento, vencemos.
O fator decisivo foi que jornalistas renomados, confiando em que eu respeitaria suas revelações em off, me transmitiram tudo que eu precisava saber sobre as intenções do Lula. Inclusive que ele dissera ao Gilmar Mendes que, se o STF conseguisse extraditar o Cesare sem intervenção dele, o Lula repetiria a canalhice do Getúlio Vargas, deixando tal desfecho vergonhoso acontecer novamente; mas, se fosse dele a palavra final, não extraditaria.
Graças a isso, a escritora francesa Fred Vargas, o ex-integrante da Anistia Internacional na Argentina Carlos Lungarzo, o senador Eduardo Suplicy e eu impedimos que apoiadores desatinados da nossa causa lançassem uma campanha para o Lula retirar o processo das mãos do STF e decidir sozinho. Teria sido derrota na certa.
E movemos céus e terras para que os 4x5 que vínhamos recebendo nas votações anteriores se tornassem 5x4 para nós no tópico principal: se o Supremo decidiria sozinho ou a palavra caberia ao condutor das relações internacionais do Brasil (o presidente da República).
Como nas outras situações nas quais tal dilema havia sido discutido prevalecera a prerrogativa presidencial, fizemos campanha cerrada para que os defensores da tradição repetissem o voto dado noutras ocasiões.
Caso do Ayres Britto que, corajosamente, manteve seu posicionamento costumeiro, apesar de o Gilmar Mendes ter sido até deselegante no discurso irado com que tentou fazê-lo mudar o voto.
CAPÍTULO : PT expulsa o PT
Percebi desde cedo que o Partido dos Trabalhadores era meramente reformista, mas, para não dividir as fileiras da esquerda, tentei manter com o PT uma coexistência pacífica.
A salomônica decisão foi a de que Venceslau errara ao vazar um assunto interno para a imprensa burguesa, enquanto Roberto Teixeira deveria ser investigado como corruptor.
Se em outras agremiações partidárias comportamentos de tal natureza costumam ser aceitos como normais ou não qualificados como dignos de repreensão, no PT comportamentos dessa natureza se colocam como descabidos e inaceitáveis.
De resto, o destino fez questão de dar um final diferente para essa história, pois em 2017 os mesmos personagens (Odebrecht, Lula, PT e Roberto Teixeira) foram emporcalhados por uma delação premiada referente a corrupção. Vinte anos depois, continuavam os mesmos...
O primeiro ainda no tempo do movimento secundarista, quando fomos à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na rua Maria Antônia, para acompanhar uma assembleia que discutiria como o movimento estudantil daria seu apoio à greve de Osasco (a primeira com a tomada de fábricas, seguida pela ocupação da cidade por numeroso contingente de policiais militares).
Os quatro chegamos adiantados e estávamos esperando o começo da assembleia quando vimos o cantor e compositor Geraldo Vandré no saguão de entrada, sendo hostilizado pelos universitários.
Era meu ídolo desde que ouvira pela primeira vez sua Canção Nordestina. Depois de descrever a situação de penúria de seu povo (é paraibano) ele lançou um grito que começava baixo mas ia crescendo até me fazer estremecer: E essa dor no coração/ aaaaaAAAAAAIIIIII, quando é que vai se acabar? Quando é que vai se acabar?
Então o Vandré, para surpresa geral, ajudou o Sodré a escafeder-se, indo se abrigar na catedral da Sé. A foto dessa ajuda foi publicada na capa da Folha da Tarde e, por não saberem que o Sodré era velho amigo do artista, os universitários passaram a xingar o Vandré de traíra.
Bem mais tarde, um companheiro confiável me contou que, quando trabalhava na Imprensa do governo paulista, constatara que o Sodré abrigava o Vandré em pleno Palácio dos Bandeirantes. Era raro um político profissional correr o risco de esconder alguém caçado pela repressão.
O bate-papo com ele durou algo entre duas e três horas. Canções foram cantadas e o Vandré nos mostrou a que ele estava então criando, os versos escritos num papel grande de embrulhar pão, com várias palavras riscadas e substituídas por outras. Era a Caminhando.
Ou seja, ficamos conhecendo previamente a canção que seria símbolo da luta contra a ditadura militar e faria os milicos destruírem a vida do Vandré.
Quando a Caminhando (ou Pra não dizer que não falei das flores) se tornou quase um hino revolucionário, ninguém ou quase ninguém ficou sabendo que a música havia sido composta pelo Vandré para reafirmar suas convicções, tipo eu continuo o mesmo e ainda acredito nas mesmas coisas.
-- que, embora passasse por louco, o Vandré falava coisa com coisa. Disse, p. ex., que a Caminhando poderia voltar a ser sucesso na voz da Simone, mas ele não deveria voltar junto. Ou seja, insinuava que poderia ser retaliado pela repressão ou alvo dos atentados terroristas de extrema-direita que estavam ocorrendo;
-- que só voltaria a cantar no território nacional quando aqui vigesse a plenitude democrática (honrou sua promessa indo apresentar-se no Paraguai, ainda que bem próximo da fronteira com o Brasil);
Eu gostaria de haver lançado um texto atestando que o Vandré não estava biruta, mas a ocasião não se apresentou. Só o fiz após a devolução do poder à cidadania.
Mas, quando o jornalista Vitor Nuzzi lançou uma biografia do Vandré, reacendendo a discussão sobre o equilíbrio mental do artista, eu publiquei uns 10 artigos rechaçando tal hipótese.
Um dos meus principais argumentos foi o de que, ao desembarcar no Galeão em 1973, policiais praticamente o sequestraram e o internaram numa clínica carioca na qual ele permaneceu 58 dias sem poder falar com parentes, advogado ou demais pacientes. O que terá acontecido com ele nesses 58 dias de incomunicabilidade?
O também músico Benito di Paula teve a mesma dúvida e a expressou nestes versos: O que fizeram com ele? Não sei./ Só sei que esse trapo, esse homem, foi um rei.
* * *
Em dezembro desse mesmo ano, Jards Macalé reuniu muitos dos melhores músicos da época num show comemorativo dos 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A gravadora RCA tentou lançá-lo em 1974, com o título de O banquete dos mendigos, mas foi proibido pela censura e recolhido nas lojas.
Com o afrouxamento da censura por parte do ditador Geisel, ele foi lançado em 1979 e eu finalmente fiquei conhecendo a canção Cachorro Urubu. E, ao escutar Raul Seixas a interpretando, foi como se um raio me atingisse. Os versos alusivos ao maio de 1968, a primavera de Paris, eram um arraso: Todo jornal que eu leio/ me diz que a gente já era/ que não é mais primavera/ oh, baby, a gente ainda nem começou.
Depois fiz questão de ir numa coletiva de imprensa do disco Abre-te, Sésamo, e o Raul estava hilário. Então, ao escrever sobre o novo LP, gastei só umas 8 linhas com a parte comercial e umas 50 reproduzindo o que havia rolado no almoço com o Raul, a Kika (última namorada da vida dele) e o divulgador da CBS.
Os artistas quase nunca mandavam um obrigado! pelo que jornalistas tinham escrito sobre eles. O Raul foi uma exceção, ligando para me convidar a uma boca livre da CBS. Tornamos a nos ver mais duas ou três vezes, mas, como não se podia estar com o Raul sem tomar pelo menos metade do que ele bebesse, esqueci quase tudo que conversamos.
O que eu percebi dele é que, como eu, tinha 1968 como um grande referencial de sua vida. A coisa era exatamente como ele contou em Ouro de tolo: dera um duro danado para chegar onde estava e aí viu que não era exatamente isso que queria na vida (Eu é que não me sento/ no trono de um apartamento/ com a boca escancarada, cheia de dentes/ esperando a morte chegar).
Na minha opinião, o Raul sonhara com sua consagração musical ocorrendo numa época igual a 1968, mas o que obtivera foi a necessidade de ajustar-se a uma sociedade aviltada e detestável.
Quando estávamos nos embriagando, ele não fazia nenhuma das palhaçadas que ajudavam a vender discos. Era bem diferente de sua imagem pública.
Finalmente, fiz uma entrevista inesquecível com D. Paulo Evaristo Arns, a quem respeitava pelo seu destemor ao enfrentar tanto a ditadura militar quanto a hierarquia católica conservadora. Mas em algum momento a parte formal deu lugar a um papo franco sobre nossas histórias de vida. Isto foi antes de minha reabilitação.
Depois, digerindo na memória tudo que ocorrera, lembrei-me do seu olhar determinado, que brilhava ao falar sobre seus grandes momentos, como a missa de sétimo dia que ele rezou em memória de Vladimir Herzog, dividindo o púlpito com sacerdotes de duas outras confissões, sem deixar-se intimidar em nenhum momento. Tinha alma de guerreiro.
CAPÍTULO :
Outra virada do destino ocorreu quando eu trabalhava na agência do Lemos Britto, produtor do primeiro programa televisivo de debates que a ditadura permitia desde o AI-5, o Diálogo Nacional.
Num fim de tarde, o Franklin Machado, jornalista da Tribuna de Santos, chegou bem adiantado para participar do programa e me coube ficar fazendo sala para ele.
Constatamos que pensávamos igual sobre muitos assuntos, então ele me convidou para conhecer o Mozart Menezes, líder do grupo Cacimba, que começara prestando assistência aos nordestinos que chegavam para trabalhar em São Paulo, depois mudou o foco para um ponto de encontro e convivência dos esquerdistas que precisavam manter o ânimo e a serenidade em meio à ditadura militar. Fazia edições alternativas de livros e de jornais, organizava espetáculos de poesia, festas, etc.
Depois o Mozart me confidenciou que os dirigentes do partido clandestino ao qual ele pertencia fizeram pressão para que não comparecesse ao encontro marcado comigo, mas ele respondeu que jamais julgaria um ser humano na base do disse-me-disse.
Quatro foram presos e muito hostilizados na prisão, afora existirem boatos de que os explosivos roubados de uma pedreira serviriam para causarem uma rebelião no presídio e, aproveitando a confusão. assassinarem os quatro de Salvador (como eles haviam sido apelidados pela imprensa).
Em desespero de causa eles resolveram entrar em greve de fome, marcada para dentro de dois dias. Mas, não havia esquema nenhum para fazer tal protesto repercutir na imprensa.
Eu era o único com know-how para desempenhar tal papel, então me voluntariei. E passei dias horríveis batendo em portas fechadas e temendo danos que viessem a sofrer porque eu não estava sabendo direito como os socorrer.
O problema principal era que pertenciam ao PT como fachada e ao Partido Comunista Brasileiro Revolucionário por baixo do pano. Já então se distanciando da esquerda combativa, o PT não só expulsou os quatro como fez tudo que pôde para que a esquerda os ignorasse.
A preocupação petista era de que o partido perdesse meia-dúzia de votos na eleição que se aproximava. Negava-lhes a solidariedade revolucionária por já então estar abdicando da prática anticapitalista, embora não tão descaradamente como hoje em dia.
Então, a direita estava explicitamente contra eles e a esquerda, implicitamente. Qual a mais ignóbil?
Fiz uma infinidade de tentativas até que uma resultou, meio por acaso mas premiando meus esforços.
No dia seguinte ele escreveu que o ministro pedira ao governador baiano que desse um jeito para a greve de fome terminar sem que ocorresse uma desgraça. Os quatro receberam garantia de que sua segurança seria preservada e foram autorizados a trabalhar durante o dia e apenas pernoitarem no presídio.
Vitória sofrida, mas gratificante: quando já se havia esgotado a munição de que eu dispunha para salvar os companheiros, um acaso jogou a vitória no meu colo!
Eu continuava petista, mas numa reunião em que se discutia política para justificar a presença dos filiados que endossariam uma medida administrativa, um dirigente do PT aproveitou o intervalo para conversar com uns cinco vaquinhas de presépio lá presentes.
Recomeçados os trabalhos, os cinco passaram a me atacar de forma raivosa e o tal dirigente afirmou que os quatro de Salvador e eu éramos todos cachorros loucos.
Foi quando desliguei-me do PT, não sem antes lançar um artigo intitulado Os cachorros loucos e os lulus de madame.
Após ter terminado meu relacionamento com a V., não por acaso, comecei a consumir mais as drogas. Outro amigo do tempo da Frente Estudantil Secundarista se tornara traficante e não cobrava nada de mim.
Também foi nessa fase que passei a contestar o líder da comunidade, por me parecer autoritário e stalinista. De certa forma, revivi o drama histórico do confronto entre Stálin e Trotsky, influenciado pelos livros do Isaac Deutscher sobre o desvirtuamento da revolução russa. Era uma espécie de psicodrama, que teve papel importante na minha volta à normalidade plena.
Uma viagem estranha simbolizou o esgotamento dessa fase: vi-me caminhando na direção de uma ponte e sabia que, se a atravessasse, passaria o resto da vida na dimensão paralela da loucura. Refleti durante alguns minutos e resolvi não transpor a ponte.
A comunidade se esfacelou pouco tempo depois. Eu aluguei uma quitinete para morar com a minha primeira namorada, a A., da qual me reaproximara.
Teria chegado ao fim de minha inquietação e combatividade? Não, ainda tinha páginas a escrever no livro da vida.
[Havia também uma pequena possibilidade de a repressão ter chegado à área 2 por meio dos nossos aliados que prendeu, mas estes, eu soube depois, só foram aprisionados na segunda-feira].
Agora me caiu a ficha de que raríssimos revolucionários conseguem realizar algo tão grandioso como aquele com o qual sonhavam. Nem sequer algo duradouro. Desde a Comuna de Paris nossas vitórias têm sido temporárias e nossas derrotas, devastadoras.
Mesmo assim, não me arrependo do rumo que segui e das opções que fiz. Sou incapaz de imaginar-me como um homem egoísta, movido por ambições menores, indiferente às vítimas do terrorismo de estado que assolou o Brasil.
Quando, nas minhas palestras, alguém me perguntava se tinha valido a pena sacrificar tanto para obter tão pouco, eu respondia que já era deplorável um país de 90 milhões de habitantes haver apenas uns 3 mil dispostos a correr os riscos de lutar pela liberdade, ainda que seja em enorme desigualdade de forças; menos ainda do que isto seria vergonhoso.
Assim como a Resistência Francesa não conseguiu vencer os nazistas (as tropas aliadas é que o fizeram) mas salvou a honra da França, nós não acabamos com a ditadura nem fizemos a revolução, mas salvamos a honra do Brasil. Depois de tanta derrota sem luta, finalmente uns poucos enfrentamos a repressão na praia dela, o campo de batalha, e até obtivemos êxito em alguns momentos.
Carreguei por 34 anos uma grave culpa alheia, mas nunca desisti de lutar para o resgate da verdade, nem aceitei acordos podres de quaisquer espécies. Provei que a revolução não tem dono e que permanecemos revolucionários mesmo quando não pertencemos às grandes organizações. Lobos solitários também podem causar danos consideráveis aos inimigos.
Mas ceder a eles seria a negação de tudo que aprendera na prisão quando, finda a fase das torturas, refletia longamente sobre o que acontecera conosco. Era difícil eu aceitar que, embora estivéssemos basicamente certos, houvéssemos sofrido tamanho massacre.
Como começarmos a desconstruir tal colosso? Minha única certeza é de que não será a partir das eleições de cartas marcadas da democracia liberal. São um engodo. Reproduzem infinitamente o capitalismo, mesmo ele estando na atual fase terminal.
Tantos espertinhos já se proclamaram corregidores de Marx, mas a contradição básica do capitalismo permanece a mesma: ao descolar a produção do consumo, permite que uma parte dos indivíduos viva de forma nababesca e outra parte seja reduzida à pobreza. Então, cerca de 44% da população mundial são pobres. Os ricos, aproximadamente 10%. É um escárnio.
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