sábado, 2 de maio de 2026

memória

celso lungaretti

NÁUFRAGO DA UTOPIA 2:
memória e legado


PARTE 1: memória

"...revejo nesta hora
tudo que aprendi,
memória não morrerá...
...longe, longe, ouço essa voz
que o tempo não levará!
(Milton Nascimento - Sentinela)



PRÓLOGO: terrenos na lua

Durante duas décadas hesitei em escrever a continuação do Náufrago da Utopia, por saber que não conseguiria igualar a tensa dramaticidade do anterior, resultante de aquele ter sido um momento decisivo da minha vida, quando pareciam próximos do êxito os esforços para superar a armadilha do destino que me manietava desde 1970 .

Mas, os esforços estariam mesmo frutificando? Sempre tememos que algum imprevisto surja na última hora para nos privar de um sucesso merecido e desejado.

Curiosamente, o Náufrago 2 nasce também num contexto de muita ansiedade. Daquela vez eu buscava um êxito individual para reconstruir a vida e resgatar a minha militância revolucionária. Objetivos alcançados, dentro do possível.

Desta vez tento cumprir a promessa feita às minhas filhas, de legar-lhes um Brasil bem melhor do que aquele que eu mesmo recebi. Infelizmente, não é uma proeza que dependa exclusivamente de nossos talentos e esforços.  

E a brava gente brasileira está pior do que nunca, tendo inclusive retirado da lixeira da história o extremismo de direita que pensávamos ter liquidado de uma vez por todas ao frustrarmos o autogolpe do Jair Bolsonaro.

Só me resta continuar guerreiro até o fim, oferecendo contribuições teóricas para o enfrentamento da onda fascista e torcendo para que elas repercutam o suficiente, servindo de alerta para a esquerda que está aí. Uma esquerda que por ora só serve para ganharmos eleições que não decidem nada, quando precisamos é ganhar batalhas que decidam tudo.

Não carecemos de reconquistar a maioria no desmoralizado Congresso Nacional. Temos é de reconquistar o respeito do povo brasileiro, que hoje não vê diferença entre nós e as muitas siglas caça-níqueis que batalham por bocarras e  boquinhas, isto quando não estão vendendo terrenos na lua. 

O  que faz falta mesmo é o espírito da geração 68, cujos melhores expoentes estavam dispostos a todos os sacrifícios em nome dos ideais. É aí que minha trajetória pode servir de exemplo, pois passei toda a minha vida adulta lutando e até consegui algumas vitórias que pareciam impossíveis.

Não fui o único, nem fui o melhor. Mas esforcei-me ao máximo para ultrapassar meus limites, não em benefício próprio, mas sim por solidariedade ao nosso povo explorado, sofrido, humilhado e ofendido.   

A luta continua. (Celso Lungaretti)

CAPÍTULO 1: comandante prematuro

Fui leitor de biblioteca circulante desde cedo e em 1967, aos 16 anos de idade, eu sonhava com um dia escrever  livros como os de Sartre, Dostoiévski, Kafka,  Camus, Jorge Semprún e David Goodis. 

Não sabia o preço que teria de pagar para tanto. Nem imaginava que os meus livros seriam tão cheios de acasos e coincidências que pareceriam histórias inventadas, não vividas.

A primeira coincidência ocorreu quando eu tentava encontrar um desígnio na vida que fosse além das ambições banais dos jovens de classe média. O Eremias Delizoicov (Zequinha), que eu conhecia desde o primário, apresentou-me a sua nova colega de classe, a Maria das Graças Lima. Tratava-se de uma rara garota com a qual poderia bater um papo inteligente naquele deserto das artes e do pensamento.    

Era filha de um militante do Partido Comunista Brasileiro que teve de sair da Bahia com a família porque corria o risco de ser preso. Mal chegada a São Paulo, ela se enturmou com ativistas do movimento universitário e deles recebera a tarefa de garimpar secundaristas promissores para a causa. 

Sentindo-me atraído pela Maria das Graças, passei a ler os escritores brasileiros engajados que ela recomendava, como o Jorge Amado, o Graciliano Ramos e o Guimaraes Rosa.  Conclui que minha praia deveria ser aquela, já que queria fazer parte de uma turma com interesses semelhantes, mas continuaria isolado se apenas seguisse no Brasil os passos dos existencialistas europeus.

Mudei muito a minha vida. Mediante exames de adaptação, transferi-me nas férias escolares para o segundo ano Clássico. Herdei o jornal do colégio, já que o editor se cansara da tarefa. Comecei a fazer a cabeça da moçada com iniciativas como um concurso de poesias e uma enquete sobre se os EUA ajudavam ou prejudicavam o Brasil.

Em dezembro, participei, com o Eremias e dois outros calouros, de uma semana de estudos do marxismo. No final dessa imersão, fomos todos  convidados a ingressar numa entidade que estava sendo formada e atuaria principalmente como força auxiliar da Dissidência do PCB. Aceitei

Meu ano de 1968 foi o de quase todos: passeatas, ocupações, pinga com groselha (argh!), livros surrupiados das livrarias, descobertas como as de que eu levava jeito para falar em público e era veloz quando se tratava de escapar da polícia (duas vezes correram atrás de mim mas não me alcançaram).

Não sei dizer se eu seguiria pela vida inteira sendo revolucionário caso não houvesse um episódio marcante. Depois de passar um semestre em que tudo deu certo e eu me sentia realizado como nunca, na penúltima sexta-feira de junho o Eremias, o Edmauro, a Maria das Graças e eu paramos o colégio MMDC protestando contra medidas autoritárias da diretora.

Apareceu uma viatura do Juizado de Menores transportando, isto sim, agentes do Dops. Um deles chegou a dar tiros para o alto, como forma de impor-se a estudantes que mal tinham chegado aos 15 anos de idade. 

Fomos no sábado discutir o que faríamos segunda-feira. Conversávamos nas escadarias da igreja do bairro e novamente apareceram policiais. Só escapei me refugiando no apartamento de um casal compreensivo.

Na segunda, todos os alunos do noturno se recusaram a entrar no prédio enquanto eu pedia garantias para a diretora, que as concedeu.  

Ela reagiu antecipando as férias de julho e, em parceria com a Associação de Pais e Mestres, impondo uma transferência compulsória a nós quatro: ou a aceitávamos e poderíamos terminar o ano letivo noutra escola estadual, ou apelávamos contra a medida e a lerdeza burocrática nos faria perder o ano.

Conclui o clássico numa escola na qual não tinha nenhum amigo; ausentei-me da formatura de lá e depois fiquei observando, do outro lado da avenida, os colegas que conhecia desde 1962 se formarem. 

Esta foi a primeira derrota que sofri desde que comecei a participar do movimento estudantil. Pra lá de dolorosa. E, olhando para trás, percebo que, a partir daí, jamais tive dúvida nenhuma com relação ao meu destino. Seria revolucionário pelo resto da vida.

Captando os sinais de que um endurecimento do regime era iminente, os oito que liderávamos o movimento secundarista na zona Leste (eu, Diego Perez Hellin, Edmauro Gopfert, Eremias, Gerson Theodoro de Oliveira, Gilson Theodoro de Oliveira, Manuel Henrique Ferreira e Tereza Ângelo)  discutimos no zoológico (já nos faltavam pontos) sobre se iríamos adiante ou desistiríamos. A votação foi unânime em favor de partirmos para a luta armada. 

Então começamos a dialogar com quatro organizações que a travavam, acabando por fechar com a Vanguarda Popular Revolucionária, uma das duas mais poderosas do Brasil. A outra era a Aliança Libertadora Nacional, do Carlos Marighella.

Os acasos continuaram. Havia bem poucos dirigentes  revolucionários com a minha idade (mal completara 18 anos), o que me destacava da concorrência. Ademais, duas improbabilidades me favoreceram: 
-- nosso grupo foi convidado a escolher  um integrante para comparecer como observador ao congresso que a VPR estava prestes a realizar em Mongaguá. Lá fui eu;
-- mal começavam os trabalhos, os 12 delegados decidiram me conceder direito de palavra e de voto. 

Tornei-me informalmente um delegado a mais e cheguei até a redigir o tópico sobre perspectivas internacionais do novo programa da Organização.

Era gratificante, após ter passado 1968 inteiro ressentido com o tratamento entre paternal e algo desdenhoso que os militantes universitários mantinham conosco secundaristas, colocando-nos ora no papel de tarefeiros, ora no de bois de piranha.

[Caso, p. ex., de nos terem convocado para panfletar a cidade de Osasco ocupada pela Polícia Militar em junho de 1968, sob a alegação de que, presos, iríamos para o Juizado de Menores e não para o Dops. Mas isto não passava de papo furado: a ditadura não dava a mínima para as limitações legais.]  

No mês seguinte faleceram o João Domingues da Silva (Elias) e um  ex-dirigente da Dissidência Estudantil de São Paulo que tivera atuação destacada quando fazia movimento estudantil, o Fernando Borges Ferreira (Fernando Ruivo)

Um caso chocante porque ambos tiveram o azar de estarem num carro que encrencou logo quando atravessava à noite uma boca quente paulistana, o bairro da Barra Funda. Havia policiais emboscados esperando surpreender traficantes, então os dois, sabendo que uma revista revelaria a existência de armas e munição no porta-malas, abriram fogo. O Ruivo morreu na hora e o Elias foi salvo pelos médicos mas expirou quando os agentes o submeteram a torturas prematuras.

Em setembro veio o pior baque para mim: a morte do meu colega de escola, amigo, companheiro de militância secundarista e um dos quadros que eu conduzi para as fileiras da VPR: o Eremias. 

Ainda em tal mês, havia sido realizado o Congresso da VAR-Palmares no qual se deu o famoso racha dos sete

CAPÍTULO 2: o lobo solitário

Seria ocioso relatar de novo como transcorreu este o processo de luta interna nas fileiras da Vanguarda Popular Revolucionária e do Comando de Libertação Nacional durante aqueles poucos meses em que VPR e Colina estiveram fundidas na Vanguarda Armada Revolucionária -- Palmares. Já o fiz no meu livro Náufrago da Utopia (Geração Editorial, 2005), então vou resumir.
-- tudo começou com uma incompatibilidade surgida entre nós, comandantes estaduais, e os dois comandantes nacionais que faziam o meio de campo entre a guerrilha urbana e a preparação da guerrilha rural, Antonio Roberto Espinosa (Bento) e Carlos Franklin da Paixão Araújo (Max);
--parecia-nos que ambos  tentavam exumar a tendência massista (a integração da VPR com os movimentos de massa urbanos).  Justificável na teoria, tal integração nos vulnerabilizaria em termos de segurança, tornando-nos presas fáceis para a repressão;
-- o José Raimundo da Costa (Moisés) e eu começamos a cogitar a anulação da recente fusão entre a VPR e o Colina, da qual resultara a VAR-Palmares. Mas, sabíamos que nos faltava força política para  tanto;
-- o surgimento de documento que propunha uma nova e consistente estratégia para a VPR, Teses de Jamil, veio ao encontro de nossos planos;
-- a queda e assassinato do quarto integrante do Comando Estadual de SP, o Elias, responsável pelas ações armadas, deixou nós outros três à volta com uma enorme crise de segurança, pois o bravo guerreiro não compartilhara com ninguém a localização de depósitos de armas, aparelhos de reserva, dinheiro para emergências, etc. Companheiros se amontoavam nos poucos aparelhos ainda tidos como seguros;
-- nessas circunstâncias, os três remanescentes do Comando Estadual decidimos não realizar a conferência preliminar do Congresso da VAR-Palmares;
-- o Samuel Iavelberg (Moraes) discordou em seguida, porque queria que os delegados fossem um militarista (eu ou o Moisés) e o outro massista (ele, Moraes);
-- a conferência acabou sendo realizada novamente em Mongaguá, com eu e o Moisés sendo tratados histericamente como golpistas e perdendo a condição de delegados;
-- no finzinho do Congresso da VAR-Palmares, contudo, o comandante Carlos Lamarca (ex-capitão do Exercito que, desde a morte do Carlos Marighella, era o principal nome da luta armada brasileira)  concluiu que a organização estava mesmo esvaziando a montagem da coluna guerrilheira e priorizando implicitamente o crescimento nas cidades, então encabeçou o
racha dos sete: 
Lamarca (Cid), eu, Chizuo Osava (Mário Japa), Cláudio de Souza Ribeiro (Matos), Darcy Rodrigues (Souza), José Araújo Nóbrega (Alberto) e o Moisés). Os refundadores da Organização assumiram as principais propostas minhas e do Moisés, quais sejam a volta à identidade de VPR e a adoção das Teses de Jamil como plataforma política.

Por termos desperdiçado tempo valioso com divergências políticas e feito o certo tarde demais, a união de várias forças da esquerda se tornou não uma opção escolhida, mas uma tábua de salvação  para a concretização das ações armadas mais ambiciosas que nenhuma delas conseguia mais realizar sozinha.

Vale registrar que foi indefensável o comportamento dos massistas; chegaram ao cúmulo de descumprirem o acordo segundo o qual um representante de cada tendência apresentaria suas posições às bases e, em seguida, eu ficaria num aparelho da VAR, devido à  carência de aparelhos seguros

Bastou eu sair-me bem no primeiro desses duelos para me abandonarem ao léu, faltando ao ponto e à alternativa que teriam comigo. Fiquei pela cidade sem ter aonde ir, com minha foto estampada nos cartazes de procurados

No entanto, em mais outra incrível coincidência, cruzei com o inesquecível Devanir de Carvalho, do Movimento Revolucionário Tiradentes, na pequenina rua 7 de abril. Ele me abrigou e recolocou em contato com a VPR. 


CAPÍTULO 3: o atirador de elite

A VPR rediviva necessitava urgentemente de fundos, pois tinha muitos clandestinos em suas fileiras e a ausência de grana poderia comprometer-lhes as fachadas, atraindo atenções indesejadas.

Como perdera muitos quadros experientes nas ações armadas, foi obrigada a escalar nós oito, secundaristas,  para o batismo de fogo: a expropriação simultânea de dois bancos vizinhos na rua Piratininga, bairro do Brás.

Na véspera, quando fui receber as últimas orientações, comunicaram-me minha ascensão ao Comando Estadual e consequente retirada daquela ação, pois uma norma de segurança da VPR era evitar que militantes com funções diferentes ficassem se conhecendo.

Muita coisa mudaria adiante na minha vida caso eu participasse daquela expropriação,  pois a Lei de Segurança Nacional era bem mais rígida com os atiradores do que com os organizadores, e tinha havido uma morte: um guarda de trânsito, alertado por transeunte, sacou a arma e se preparou para balear o primeiro que saísse dos bancos, mas o Lamarca, atirador de elite, o acertou antes, com dois disparos de uma distância de 40 metros.

Após o racha dos sete eu fui ficando melhor entrosado com a VPR. Não era mais tratado como neófito inexperiente, mas sim aceito como igual pelos veteranos,  até porque sobreviver aos perigos diários durante um semestre naquela fase terrível da luta se tornara um marco inalcançável para muitos. 

A coisa já começara a mudar de figura no ano anterior, com a promulgação, em dezembro, do Ato Institucional número 5, que marcou a transição do totalitarismo que não ousava dizer seu nome para o terrorismo de estado pleno e desembestado, tornando a militância revolucionária quase kamikaze. E a situação só fez piorar ao longo de 1969.

Não ignorávamos os riscos que correríamos com a radicalização repressiva e, mesmo assim, seguíramos em frente. Já os meros passeateiros se omitiram quando a radicalização da ditadura deu um salto qualitativo. Consideraram mais sensato não encararem o combate nas trevas

Nosso grupo de jovens (o mais novo com 17 anos e o mais velho com 21) ousou enfrentar os perigos bem maiores que passaram a existir para quem estava na linha de frente, descartando a autopreservação pusilânime. As mortes de dois dos nossos, o Eremias e o Gerson, foram um dos preços que pagamos por nosso destemor. A prisão e as torturas  que cinco de nós sofremos, outro. 

Tereza Ângelo foi poupada de ambas, mas se tornou paranoica, imaginando estar sendo perseguida pela repressão mesmo após o fim da ditadura. Não foi por pouca coisa: teve seu companheiro e seu irmão assassinados pelos exterminadores do regime.

Eu passara a ser colocado a par dos encaminhamentos mais importantes e consultado sobre as decisões a serem tomadas. Assim, no início de 1970, quando o Mário Japa acidentou-se ao volante e a repressão encontrou no porta-malas do seu carro armas e documentos da Organização, estive por dentro de todos os trâmites para resgatá-lo antes que o DOI-Codi percebesse que se tratava de um dirigente e intensificasse as torturas.  Inclusive fui eu que despachei uma aliada aeromoça para a Argélia, a fim de saber dele se havia entregado ou não a área de treinamento guerrilheiro.

Quando, em abril  de 1969, eu passara a ser comandante de Inteligência, alguns veteranos haviam ficado insatisfeitos por me considerarem um estranho no ninhoTratavam-me, quanto muito, com condescendência.

Não lhes tirava a razão, pois faltavam-me mesmo os méritos que eles haviam acumulado em duras refregas nas fases anteriores (muitos deles, ex-militares, vinham lutando desde a vitoriosa resistência à tentativa golpista de 1961). A  minha participação no congresso de abril/1969 da VPR, embora vistosa, não  justificava uma promoção tão prematura. 

Ademais, tinha sido designado para um trabalho pioneiro (não havia comandante de Inteligência nas demais organizações) e sem peso real na correlação interna de forças da VPR, já que eu não comandava militantes, apenas coordenava simpatizantes e aliados.  Mas nunca tive fascinação pelo poder e, aos 18 anos, menos ainda

                                        CAPÍTULO 4: a roda do destino

Aluguei um apartamento em parceria com o Moisés, pelos prosaicos motivos de que a grana estava curta para  ambos e meu nome real poderia ser usado no contrato de locação, pois ainda não caíra.

A convivência com o Moisés, um remanescente das escaramuças entre a marujada e a direita golpista no pré-1964. me permitiu tomar rapidamente conhecimento da história da VPR e de suas lutas internas. 

Graças ao Moisés, me familiarizei com a encarniçada disputa de poder ao longo de 1968, entre as tendências militarista e massista, a primeira priorizando as ações armadas contra a ditadura e a segunda insistindo na manutenção de vínculos orgânicos com os movimentos de massa.

O acerto de contas acabou ocorrendo no início de 1969, paralelamente à pior crise de segurança até então enfrentada pela VPR, com quedas de alguns de seus quadros mais importantes, como o Onofre Pinto. 

Houve, em seguida, aquele primeiro congresso na praieira Mongaguá, para colocar a casa em ordem. Foi quando o Lamarca se tornou o líder inconteste da organização. O Comando Nacional da VPR passou a ter quatro integrantes incumbidos de preparar o desencadeamento da guerrilha rural e um à ligação com os comandos estaduais. 

A fusão, pouco depois, com o Colina, uma organização congênere, manteve o mesmo perfil: quatro comandantes incumbidos da luta principal e os outros dois de manterem a ligação com as cidades.

Os comandantes estaduais de São Paulo passamos a ter vários motivos de insatisfação com os dois comandantes nacionais aos quais estávamos subordinados, Antônio Roberto Espinosa (Bento) e Carlos Franklin da Paixão Araújo (Max). Concluímos que eles, na prática, agiam para sabotar a luta principal e inchar a organização nas cidades, ressuscitando a derrotada tendência massista. 

Percebendo que as teses de Jamil eram a melhor teorização já surgida da luta armada, lancei um documento interno em seu apoio e para melhor entendimento dos militantes, frustrando a intenção dos massistas de deixá-los passando batidos por seus enunciados e linguajar sofisticados.
 
A coisa então mudou de figura, pois se tratava da concordância estridente de um comandante estadual (o Moisés, mais discreto por natureza, era um comandante paulista que pensava igual, mas só deu a conhecer mais tarde o seu posicionamento).

Eu era, certamente, o mais subestimado de todos os comandantes, mas o meu patamar hierárquico inspirava respeito. As Teses de Jamil não podiam mais ser ignoradas e mantidas desdenhosamente à parte do debate das propostas estratégicas para o Congresso de Teresópolis, tanto que massistas correram a lançar documentos refutando-as agressivamente. A luta interna voltava com força total. 

Com a indispensável ajuda do Moisés, eu coloquei em movimento a roda do destino de uma forma insólita, ainda mais por isto estar provindo de quem tinha tão pouca influência, prestígio e poder dentro da organização. E, claro, atraí sobre mim as piores retaliações.

CAPÍTULO 5: o Debray brasileiro

A trajetória do Jamil tem muitos pontos em comum com a do Régis Debray, igualmente pensador que aderiu à guerrilha e acabou preso pela repressão. Ambos tiveram grande êxito mais tarde, o brasileiro Dowbor como economista e o francês Debray como filósofo.

Não vejo necessidade de expor aqui, mais de meio século depois, a fundamentação econômica das inovadoras teses de Jamil. Exatamente pela difícil compreensão, não haviam despertado o interesse da grande maioria dos militantes da VPR.

Elas, contudo, me pareceram um verdadeiro ovo de Colombo. Se não, vejamos. 

A esquerda brasileira se dividia de forma exacerbada entre dois segmentos. Um, o que prevalecia acentuadamente antes do golpe de 1964 e depois definhou,  acreditava na necessidade de uma etapa inicial, democratico-burguesa. na nossa revolução, para extirpar resquícios feudais que ainda continuariam existindo no campo. 

Como consequência, os camponeses também estariam entre os sujeitos revolucionários e haveria uma burguesia nacional que poderia ser nossa aliada durante a luta.

O outro, cujos adeptos eram principalmente os esquerdistas indignados coma derrota sem luta diante da quartelada castellista, via o Brasil como um país definitivamente capitalista, cuja burguesia se atrelava à sua congênere internacional e cujos sujeitos revolucionários seriam os explorados das cidades e dos campos (os últimos lutando não pela posse individual da terra, mas para dela disporem visando à produção coletiva).

O Jamil simplesmente quebrou o brinquedo predileto dos scholars de esquerda, que adoravam discutir se quem estava certo era Nelson Werneck Sodré com sua revolução inicialmente popular ou Caio Prado Jr. com sua revolução socialista desde o início.

Argumentou que, ao contrário dos modelos estrangeiros (principalmente a revolução russa de 1917), não havia no Brasil nenhuma força de esquerda capaz de ser a dominante naquele momento, como o Partido Comunista Brasileiro havia sido durante quase meio século, após vencer a disputa com os anarquistas na década de 1920 e incorporar parte deles às suas fileiras. 

Então, a revolução brasileira só teria alguma chance de êxito se iniciada pelo conjunto de forças de esquerda, cada uma dando a contribuição a seu alcance, até que, ao longo do processo, alguma se afirmasse (ou não) como a principal.

E seria também o próprio transcurso do processo revolucionário que daria a última palavra sobre se haveria ou não uma etapa democratico-burguesa. Os que a pregavam a dita cuja iriam batalhar por ela, mas certamente não se deteriam caso tal etapa fosse ultrapassada e o processo seguisse adiante; nem os adeptos do socialismo direto tinham motivo para ficar querendo comprovar sua estratégia no blablablá se poderiam fazê-lo na prática.

Assim, cada partido e organização de esquerda começaria perseguindo seus objetivos por si só, em seu território próprio e com os recursos que possuísse, depois alianças iram se forjando ao sabor da luta.

Após a grande guinada da esquerda, os massistas continuariam tentando atuar simultaneamente na luta armada e no trabalho de massas, embora a segunda tarefa colocasse em grande perigo a concretização da primeira, tanto que a VAR desempenhou papel secundário nas lutas travadas dali em diante.

Na VPR rediviva, eu mantinha contato diário com os outros comandantes baseados no RJ, o Juvenal e o José Ronaldo Tavares de Lira e Silva (Roberto Gordo), responsáveis pelas duas unidades de combate lá atuantes.

Como o DOI-Codi aperfeiçoara sua atuação e estava prendendo e/ou matando muitos dos nossos quadros, o novo comando resolveu que os preferidos para desenvolverem a área rural de treinamento seriam alguns dos militantes mais procurados pela repressão, que assim ficariam tão a salvo quanto era possível das incertezas da luta armada: José Lavecchia (Pablo), Massafumi Yoshinaga (Massa), Yoshitane Fujimori (Edgar), o próprio Lamarca (Cid) e eu (André)

Mesmo não sendo exatamente minha praia, tudo ia bem até a morte do Eremias. Aí a coisa desandou, não só pelos remorsos que eu sentia por não haver contado a ele que estávamos bem mais próximos da morte que da vitória, mas também pela forma desastrada como a notícia nos foi dada pelo motorista do Lamarca, Joaquim dos Santos (Monteiro), que era quem fazia o papel de leva-e-trás, conectando-nos à cidade.   

Lêramos num jornal que o Alberto, muito querido por todos nós, havia morrido num tiroteio com a repressão. No dia seguinte, exultante, o Monteiro chegou logo dizendo que não era o Alberto quem tinha morrido, mas sim um tal de Zequinha. A retificação, no meu caso, foi um balde de água fria.  Só eu sabia que se tratava do Eremias.  

Pouco depois o Lamarca decidiu abandonar aquela área porque tinha vários inconvenientes e tocar o trabalho adiante, numa outra que ele estava procurando. Foi quando o Massa aproveitou a oportunidade para desligar-se da VPR e eu para voltar à militância urbana, ainda que os perigos fossem maiores. Avaliei que seria mais útil na cidade e queria estar próximo de meus companheiros secundaristas, para  eventualmente socorrê-los quando estivessem em perigo.

Na antevéspera da minha queda, assisti num cinema poeira ao filme Frankenstein tem que ser destruído, horror britânico da Hammer. E saí com o estranho pressentimento de que já tinha passado a hora de nossa guerrilha e marchávamos para a destruição.

Então, quando o Jamil e a Lia contaram que o Lamarca exigira a presença de todos os comandantes operacionais no campo por desconfiar que a tarefa principal (montagem da coluna móvel estratégica) estivesse sendo colocada em segundo plano, senti uma pontada de calafrio.

Logo adiante, disseram-me que o valoroso companheiro Wellington Moreira Diniz (Virgulino) poderia ter caído no sábado, quando faltara a um ponto e à alternativa horas mais tarde. Tinha uma ameaça cardíaca e fora afastado da militância para morar e namorar com uma moça que não era politizada. Aos sábados alguém da Organização sempre o contactava.  

Aquele pressentimento voltou e passei mais de uma hora tentando convencer o Jamil e a Lia de que os comandantes deveriam permanecer a postos, para fazerem frente às quedas que eventualmente decorreriam de uma prisão  do Wellington. 

Com o Comando Nacional reduzido a três membros, eles dois poderiam tomar imediatamente tal decisão. Mas não ousaram contrariar o Lamarca. Nosso pesadelo, as quedas em cascata, se materializou.

O Wellington tinha mesmo sido preso no sábado e desde então sofria as piores torturas, mas aguentou bravamente  até a quarta-feira. Aí acabou abrindo o fotógrafo ao qual conduzira o Lamarca após a sua operação plástica, para tirar as fotos que seriam utilizadas nos documentos falsos . 

O fotógrafo, por sua vez, entregou um médico que era nossa principal fonte de aliados e, ao mesmo tempo, a maior vulnerabilidade que tínhamos no RJ. Um dos dois, ou ambos, abriu(ram) a(s) porta(s) para outras prisões. O incêndio se alastrou.

Os comandantes que haviam se reunido no campo, foram sendo presos logo ao voltarem. A pior sequência de quedas devastou a VPR em todos os estados nos quais atuava. 

Após uns 75 dias de incomunicabilidade (licença para torturarem à vontade), quando as investigações terminaram e eu deveria ser transferido a uma unidade civilizada para finalização do inquérito, escolheram a Polícia do Exército da Vila Militar. Fui da pior unidade do RJ para a segunda pior, onde me estouraram o tímpano e me impuseram um arrependimento forçado

Também modificou meu destino o sequestro do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, por meio de uma parceria entre a ALN e parte da estrutura da VPR no RJ que sobrevivera às quedas em cascata.
                   CAPÍTULO 6: porões do inferno 

Era de manhã cedinho na quinta-feira, 16 de abril de 1970, quando fui preso (pela violência do  modus operandi, melhor seria qualificar aquilo de sequestro). 

Dois dias depois morria o Juvenal e os torturadores espalharam que ele tinha um pacto de suicídio com a Lia e o cumpriu, enquanto ela refugava. Como eles  não tinham credibilidade, prefiro deixar para os historiadores a conclusão sobre este episódio.

Ao ser conduzido para a sede do DOI-Codi, que reunia efetivos da repressão originários das três Armas e utilizava o quartel da Polícia do Exército na Tijuca, eu quase sufocava por causa do capuz que me colocaram e de me forçarem a cabeça para baixo a fim de não ser visto da rua ou dos carros que passavam ao lado. 

Eu sabia que, mesmo se sobrevivesse, nunca mais seria o mesmo. Aliás, duvidava que valesse a pena sobreviver. 

Retirado o capuz,  vi-me no setor de registro dos novos prisioneiros que chegavam àquele quartel de péssima imagem. Como silenciei, recusando-me inclusive a dizer quem eu era, fui logo encaminhado para a sala de torturas. Durante dois meses e meio sofreria vários tipos de intimidação e sevícia, conforme relatei no primeiro volume desta duologia, bem como em artigos e entrevistas. 

Os torturadores tudo faziam para me desnortearem, impossibilitando-me de pensar. Assim, a primeira sessão de torturas foi com a sala lotada de oficiais, agentes, motoristas de viaturas, etc. Agrediam-me de todo lado, faziam perguntas ao mesmo tempo e desferiam murros e pontapés por eu não conseguir responder a todos. Além disto, recebia sucessivos choques elétricos.

Depois, já pendurado no pau-de-arara, comecei a ser realmente interrogado. E aí se iniciava a verdadeira batalha. Como a intensidade das torturas era demasiada, tinha de ir buscar nas minhas convicções mais profundas a força para nada dizer a esmo. 

Logo percebi que, ao contrário das fantasiosas bravatas a posteriori de muitos dos companheiros que haviam passado por tais horrores, era quase impossível um ser humano confrontar arrogantemente aquelas bestas-feras, nada respondendo ao que indagavam. Aí a tortura se prolongaria indefinidamente, até o ponto em que o torturado já não teria mais nenhum controle sobre o que falava.

Felizmente não me perguntaram logo nas primeiras sessões de tortura o que eu mais temia deixar escapar. Estavam ocorrendo tantas quedas que os agentes precisavam tirar um prisioneiro do pau-de-arara para colocarem outro.

Ou, talvez, tenha sido mero acaso: companheiros que haviam participado da reunião com o Lamarca na área de treinamento não marcaram pontos comigo logo para o dia em que retornassem, pois tinham problemas mais urgentes para resolverem noutros setores. A Inteligência podia esperar dois ou três dias.

O certo é que aqueles retornados do campo foram os que, ao caírem, causaram mais danos à VPR, Por mérito ou por acaso, não foi graças a mim que a repressão ficou sabendo o suficiente para nos impor as quedas em cascata

CAPÍTULO 7: GENTE NÃO É CALHAU

Mas não fui nem poderia ter sido capaz de convencer a repressão de que nada sabia. Para desviar a atenção dos inquisidores de nossos tesouros, fui obrigado a entregar-lhes alguém cuja queda nos fosse inócua. Isto me pareceu justificado naqueles  momentos insanos. 

Passei o resto da vida lamentando a escolha que acabei fazendo, entre a prisão de algum comandante que poderia causar dezenas de quedas e a prisão de um aliado que não tinha quem entregar. 

Só que o aliado Roberto Macarini morreu aos 17 anos de idade, seja como consequência das torturas, seja escapando da escolta e atirando-se do Viaduto do Chá por não estar mais conseguindo suportá-las. Nunca soube ao certo. 

Que direito tinha eu de definir, por critérios utilitários, quem seria barbaramente torturado e talvez até morresse, expondo-o para preservar os líderes da nossa organização? Nenhum. Amaldiçoei-me por perceber isto tão tardiamente. Naquela situação, a única saída digna era morrer eu, do jeito que desse, mas não sacrificar a ele.

Depois de minha libertação, nunca mais cogitei voltar a assumir as mesmas responsabilidades como militante. Sabia que, se o fizesse, ficaria novamente conflitado face à questão de quais companheiros eram descartáveis e quais imprescindíveis. Uma vez já tinha sido demais.

Preso após um ano de militância e em meio àquele pesadelo, a mão do destino me salvou do pior. Numa reunião de uns 30 oficiais para planejarem a Operação Registro, um deles suspeitou que eu estivesse passando mal, chamou o enfermeiro e constatou que a minha pressão estava extremamente elevada. Fui medicado e passei alguns dias em paz, sem torturas.

Mas, o acaso não foi tão benéfico assim. Após dois meses e meio  de incomunicabilidade (licença para torturarem à vontade), quando as investigações terminaram e eu deveria ser transferido a uma unidade menos truculenta para finalização do inquérito, escolheram a Polícia do Exército da Vila Militar. Fui da pior unidade do RJ para a segunda pior, onde me estouraram o tímpano e me impuseram um arrependimento forçado.

Eles acreditavam ter liquidado completamente a VPR naquele estado e devem ter ouvido poucas e boas dos superiores, pois haviam inclusive descoberto o plano para sequestrarmos o von Holleben e não lhe providenciaram proteção, provavelmente supondo que não existia mais ninguém para efetuar a proeza. Só que houve.

Um deles descarregou a raiva em mim. O oficial responsável pelo inquérito da VAR-Palmares viera tomar meu depoimento e um cão danado do DOI-Codi, ao passar pelo corredor, viu-me e perdeu a cabeça. Entrou na sala bufando e esmurrou-me tão violentamente pelas costas que me derrubou da cadeira e jogou a mesinha em cima do oficial visitante.

Com isto desrespeitou duas vezes o de patente superior: pela agressão em si e por não ter pedido licença para falar comigo, já que naquele momento eu estava sob a autoridade dele e não do DOI-Codi.

Discutiram aos berros no corredor, quase chegando às vias de fato. Quando o visitante sentou-se de novo, disse-lhe que, se permanecesse naquele inferno, acabariam me
matando. 

Bingo. Logo no dia seguinte fui transferido. Eu avaliara bem que, oferecendo uma oportunidade de revanche para o ultrajado, este mobilizaria suas influências, se as tivesse, na direção que me convinha.

CAPÍTULO 8: eram os torturadores rapinantes?

Apesar dos espancamentos, o que realmente me abalava nas torturas eram os choques elétricos. Também, pudera: desde a juventude eu tinha tamanha sensibilidade aos choques que, em dias de chuva, os sentia quando utilizava os telefones públicos de ferro espalhados pela cidade e, ainda, quando viajava em ônibus elétrico. 

Pior ainda era quando recebia choques pendurado no pau-de-arara. O sentimento de impotência era detestável. Certa vez um capitão me mostrou um cabo de vassoura e disse que ia me penetrar com ele. Acabou ficando só na ameaça, mas o fato é que, se ele a cumprisse, eu não poderia fazer nada. Estava completamente  indefeso.

A falta de informações também me angustiava. Pensava que a eletricidade passando pelo pênis e escroto poderia me tornar impotente; e quando os fios eram pendurados nas duas orelhas e um raio avessava meu cérebro, receava ficar com problemas mentais. Bobagem.    

Meu arrependimento forçado se deu no final de junho, momento no qual  a equipe de torturadores da Vila Militar que tinham sido afastados da caça aos subversivos se ressentia muito da perda de tudo que roubavam de nós e das generosas recompensas concedidas por empresários ultradireitistas. Parecia o velho Oeste.

Mas a morte do jovem Chael Charles Schreier naquela unidade levou a repressão a unificar suas forças para evitar novos descontroles. No Rio de Janeiro só a  PE da rua Barão de Mesquita manteve a primazia, enquanto os torturadores da Vila Militar ficaram chupando os dedos.

Aí o tenente Ailton Joaquim, que comandava a segunda seção daquele quartel (Inteligência), teve a ideia de jerico de arrancar informações inéditas  de mim e de outra presa da VPR, desrespeitando as ordens recebidas. 

Lá deveríamos apenas dar os depoimentos finais para a remessa do inquérito a alguma auditoria militar, mas um oficial ganancioso acreditou que, mostrando-se mais eficaz do que as equipes do DOI-Codi/RJ, poderia reaver para sua unidade a boquinha perdida. 

Resultado: o gigantesco Marcio Antônio Povorelli (que pesava 140 quilos e praticava judô), num dia em que era o cabo da guarda, ao invés de me levar para a solitária após uma sessão de torturas, no meio do caminho me desferiu  um violento tapa de mão aberta, estourando o tímpano do meu ouvido direito; enquanto isto, a aliada da VPR cortava os pulsos, mas era socorrida em tempo.

O tenente Ailton decerto seria punido, então dobrou a aposta: inspirado no arrependimento voluntário de quatro presos políticos do Presídio Tiradentes e no arrependimento televisado do Massafumi, exigiu que eu escrevesse uma carta aconselhando os jovens a não morrerem numa luta perdida. 

Eu a redigi enquanto a aliada recebia choques e berrava na sala ao lado. Torturadores entravam e saíam o tempo todo, esmurrando-me de passagem.    

Pensei que seria apenas uma besteirinha do setor de Guerra Psicológica do Exército para ser distribuída impressa. Afinal, com as marcas de soco que eu tinha na cara, supunha que não fariam nada presencial comigo. 

Mas, como as porradas passaram a ser sempre no meu corpo. eu deveria ter suspeitado de que havia algum motivo para evitarem causar novas manchas roxas no meu rosto.

Acordaram-me de madrugada dizendo para me vestir porque ia ser fuzilado. No trajeto, o capitão Ailton Guimarães Jorge (futuro bicheiro e bingueiro) disse que eu estava sendo levado a uma tevê e teria de repetir fielmente o que constava na minha carta aos jovens, caso contrário nem voltaria para o quartel: seria executado no caminho e jogado embaixo da ponte. 

Não fiz acordo nenhum com a repressão nem fui libertado logo em seguida, como meus cinco antecessores. Um coronel chegou a me dizer que eu era um lobo em pele de cordeiro, pois parecia ter-me tornado inofensivo mas continuava sendo um inimigo irreconciliável do regime militar. Acertou na mosca.

Fiquei confuso durante alguns meses, sem sequer ter certeza de que aquela gravação na TV Globo acontecera mesmo, mas o hábito da leitura me restituiu a racionalidade. 

O companheiro Wellington Moreira Diniz, que também estava preso na PE da Vila Militar, passou a ler os livros da biblioteca do quartel para desanuviar, já que era doente cardíaco. Consegui pegar carona nesse esquema e os dois lemos principalmente a coleção completa do Julio Verne, várias vezes cada volume, pois a alternativa eram os intragáveis manuais militares.

Depois de dois meses na PE da Vila Militar, eu já antevia  o momento em que sairia da chamada fase operacional, passando à rotina enfadonha dos presos políticos que não mais detinham informações  do interesse da repressão e, portanto, só voltariam a ser arrepiados caso viessem à baila fatos novos ou se outras capturas fizessem os torturadores perceberem que suas vítimas anteriores não haviam contado tudo que sabiam.

CAPÍTULO 9: os aprendizes de feiticeiro

Se funcionasse a solução final produzida por estudantes de química aliados da VPR, eu provavelmente a teria usado, seja por decisão consciente, seja porque me atacaram com tanta fúria no momento da prisão que decerto a cápsula de cianureto que levava entre os dentes se romperia. 

Aqueles aprendizes de feiticeiro haviam falhado em algum detalhe, de forma que, poucos dias antes, o Juvenal me informou que fora inócua para o primeiro militante que a usou e deveria ser jogada fora. Então, só restava preparar-me para o pior.

Embora eu houvesse, nos momentos mais dramáticos, duvidado de que sobreviveria, o saldo até então era positivo, pois a minha culpa pelas quedas em cascata era praticamente nenhuma.

Afinal, meu principal papel na organização era o de municiar os outros comandantes com informações e análises; e, como as prisões de alto escalão tiveram outras origens, a organização só poderia me recriminar a dissimulação a que eu recorria, sempre fingindo estar mais abalado pelas torturas do que realmente estava.   

No sábado em que alguém revelara à repressão a localização da segunda área de treinamento guerrilheiro, contudo, eu tinha sido levado a uma sala na qual uns trinta oficiais discutiam detalhes da Operação Registro que desencadeariam na segunda-feira. 

Minha pressão deveria estar assustadora, pois logo me entupiram de calmantes e escalaram aquele oficial para conversar comigo e me tranquilizar. Como se eu me deixasse enganar pela velha artimanha do policial bonzinho... 

Mas, o alívio durou pouco e em maio já voltavam a me torturar com mão pesada.  A diferença era que não esperavam mais descobrir grande coisa por meu intermédio, tanto que me transferiram da solitária ao lado da sala de torturas para uma cela com mais prisioneiros, no andar de cima; e a frequência com que me buscavam para interrogatórios diminuíra. 

Tudo me fazia crer que eu já estava prestes a ser transferido para finalização de inquérito em algum dos quartéis da Vila Militar quando o embaixador alemão foi sequestrado. 

Os analistas da repressão mandaram agentes do Dops me interrogarem para a finalização do que constava a meu respeito nos inquéritos da VPR e da VAR. 

Bons burocratas, queriam deixar tudo prontinho para uma eventual retomada dos tais processos no futuro, pois havia companheiros que, após serem libertados por meio de sequestros, voltavam ao Brasil e à luta  (geralmente, acabavam executados pela Operação Condor, como aconteceu com Joaquim Cerveira, que tinha sido meu companheiro de cela no DOI-Codi/RJ) e acabou caindo de novo nas garras dos algozes.

Se nos negássemos a admitir o que já tínhamos dito antes, nos mandavam de volta para o DOI-Codi e nos torturavam novamente até que nos conformássemos a jogar o jogo do jeito deles.

Geralmente a transferência para uma unidade não-torturadora antecedia a tomada de depoimentos para fins jurídicos, assim a farsa ficava completa. Os relatórios sangrentos produzidos pelo DOI-Codi permaneciam secretos e os depoimentos que embasavam nossas condenações não tinham manchas de sangue. 

Mas, com o sequestro do diplomata alemão em curso, nem se preocuparam em me transferir para outra unidade; pegaram meu depoimento no DOI-Codi mesmo. A própria repressão dava como favas contadas que meu nome estaria entre os 40 da lista de troca.    

O avião partiu no dia 15 de junho e eu fui deixado para trás, sendo alvo inclusive de zombarias dos torturadores (Levaram até lastro no seu lugar!). Como eu atendia aos critérios para inclusão entre os libertados e não fora responsável por nenhuma prisão de militante graúdo, logo imaginei que o veto a meu nome tinha algo a ver com a queda da área de treinamento.

De mim, naquele sábado terrível queriam saber detalhes sobre a área abandonada, mas, quando desistiram de me interrogar e estavam se levantando para ir embora, ouvi um milico falando para outro que isso não importava, pois já sabemos tudo que queríamos saber

Depois, na segunda-feira, eu e aquela pessoa fomos levados até Registro num jatinho da FAB, para ficarmos à disposição dos responsáveis pela caçada aos companheiros. Quando aterrissamos, nos separaram e nunca mais o(a) vi.

Tive quase certeza de que eu fora preterido na lista de troca por estar servindo de bode expiatório da delação da área; já quem tinha realmente fraquejado, decolava com o prestígio intacto para a Argélia. Fiquei indignado. 

Continuei acreditando firmemente (até hoje!) na necessidade de uma urgente revolução anticapitalista, mas perdi para sempre a confiança cega nos companheiros. 

Só no final de 2004 surgiria uma chance de provar a minha inocência sem necessidade de apontar a quem pertencia a culpa, pois isto me parecia indigno. 

CAPÍTULO 9: injustiçado e estigmatizado
.
Injustiçado e estigmatizado, atravessei o restante do século passado limitado a lutas e atividades menores, mas sonhando, como o Augusto Matraga (personagem do João Guimarães Rosa), que ainda chegaria minha vez e minha hora. 

O que de significativo fiz foi defender os quatro de Salvador em 1976, levando a sua greve de fome à vitória; e em 1997, posicionar-me com um artigo na grande imprensa contra a injusta expulsão do economista Paulo de Tarso Venceslau do PT. Em ambas as ocasiões eu agi movido pela solidariedade revolucionária.

E não é que a roda da fortuna girou de novo?! O começo do novo século e milênio foi péssimo, mas me obrigou a ir à luta e enfrentar meus fantasmas. 

No olho da rua desde o final de 2002, percebi que os freelancers não seriam suficientes para sustentar a mim e à J. A única chance de dar a volta por cima era a reparação que o Ministério da Justiça estava concedendo aos militantes que haviam sofrido graves prejuízos durante a ditadura militar de 1964/1985, governo totalmente ilegal por resultar de um golpe de estado.

Como o julgamento do meu caso nunca era pautado, li toda a documentação referente à instituição da Comissão de Anistia e descobri que o regulamento estava sendo descumprido acintosamente: o primeiro requisito para priorização dos casos era a condição de desempregado e eu, ao perder o emprego, tinha anexado uma comprovação disto ao processo. Só depois vinham a idade avançada e os danos físicos, intelectuais e morais. 

Tanto em lutas idealistas quanto nas que travara  administrando crises dos clientes em agências de comunicação empresarial, eu aprendera a lidar sozinho com esses imbróglios. Então, denunciei as irregularidades que estavam cometendo contra mim em órgãos oficiais, na imprensa e nas redes sociais.

Mais uma coincidência valiosa surgiu em meu favor: graças às ferramentas de busca na internet, encontrei uma edição antiga do Coojornal  na qual estava publicado o relatório de atuação do II Exército na Operação Registro, um documento secreto que o valente jornal gaúcho obtivera e havia publicado na íntegra, por sua conta e risco. 

Tal relatório, do qual só tomei conhecimento em 2004, não deixava nenhuma dúvida quanto a ter sido outra a pessoa que entregou a área 2 à repressão. 

Historiou com exatidão o ocorrido: eu dera involuntariamente a primeira pista à repressão ao revelar a localização da área 1, mas isto não foi levado a sério até que, com uma nova queda de militante dois dias depois, os militares tomaram conhecimento de que havia também uma área 2, a qual continuava ativa.

Passamos primeiramente pela área 1 e demonstrei que a conhecia. Não havia qualquer informação útil para eles lá, então minha sinceridade não faria mal nenhum.

Depois fomos para uma segunda área, que eu desconhecia, mas logo percebi que era dela que se tratava. A área 2 ser tão próxima era a peça que me faltava para o quebra-cabeças inteiro fazer sentido.

Mas, claro, fingi nada ter percebido e os militares aparentemente acreditaram. Se soubessem quanta informação útil eu obtive deles porque me subestimavam...

Talvez pela gravidade do que eu intui, foi uma ocasião em que perdi um pouco a serenidade. Um capitão enfastiado, quando os demais milicos estavam longe, tentou convencer-me a tentar a fuga pelo mato, aproveita agora que não tem ninguém olhando!

Respondi de bate-pronto, sem pensar, apontando o meu peito: Se é para me matar, atira logo pela frente. Não vou correr para levar bala nas costas.

O capitão não insistiu, apenas mandou me levarem de volta para o delegacia de Jacupiranga, onde me guardavam precariamente Se fosse mais profissional, perceberia que eu não era o jovenzinho assustado que tentava parecer. 

O que me tirou do sério? Foi haver percebido que  minha exclusão da lista de troca do embaixador alemão não deveria ter sido engano, mas sim uma providência necessária para que eu servisse de bode expiatório pela queda da área.

No último trimestre de 1970, quando foi derrubada a última de minhas prisões preventivas, pensei que logo estaria finalmente livre para recomeçar a minha vida. Mandaram embrulhar meus poucos pertences e, ainda antes do almoço, desci para o pátio. Passei o resto do dia vendo a chegada e partida de viaturas, depois me reconduziram à cela.

Passamos primeiramente pela área 1 e demonstrei que a conhecia. Não havia qualquer informação útil para eles lá, então minha sinceridade não faria mal nenhum.

Depois fomos para uma segunda área, que eu desconhecia, mas logo percebi que era dela que se tratava. A área 2 ser tão próxima era a peça que me faltava para o quebra-cabeças inteiro fazer sentido.

Mas, claro, fingi nada ter percebido e os militares aparentemente acreditaram. Se soubessem quanta informação útil eu obtive deles porque me subestimavam...

Talvez pela gravidade do que eu intui, foi uma ocasião em que perdi um pouco a serenidade. Um capitão enfastiado, quando os demais milicos estavam longe, tentou convencer-me a tentar a fuga pelo mato, aproveita agora que não tem ninguém olhando!

Respondi de bate-pronto, sem pensar, apontando o meu peito: Se é para me matar, atira logo pela frente. Não vou correr para levar bala nas costas.

O capitão não insistiu, apenas mandou me levarem de volta para o delegacia de Jacupiranga, onde me guardavam precariamente Se fosse mais profissional, perceberia que eu não era o jovenzinho assustado que tentava parecer. 

O que me tirou do sério? Foi haver percebido que  minha exclusão da lista de troca do embaixador alemão não deveria ter sido engano, mas sim uma providência necessária para que eu servisse de bode expiatório pela queda da área.

Estava sendo processado em quatro auditorias militares (duas no processo da VPR e as outras duas no da VAR). No primeiro julgamento, condenaram-me a seis meses de prisão, mas o juiz auditor quis negar-me a soltura alegando que ele não determinara minha prisão preventiva, só os outros três togados.


Tinha chegado livre e saí preso. Voltei para o DOI-Codi/RJ e tive de aguentar as piadas sem graça dos torturadores, tipo o bom filho à casa torna.  

Estava livre das torturas, mas obrigado a escutar os berros de presos sendo torturados, móveis que tombavam ou eram arrastados, gritos dos algozes para amedrontá-los, etc. Não há palavras para traduzirem quanto me estressou ter retornado àquele lugar maldito.

Acabei permanecendo atrás das grades durante mais duas semanas, até meu advogado convencer o juiz teimoso de que seria uma iniquidade eu passar seis meses preso quando tinha o dobro de saldo positivo em meu favor. Curiosamente, meu tempo de prisão, com o acréscimo dessas duas semanas, passou a ser exatamente de um ano.

No último trimestre de 1970, quando foi derrubada a última de minhas prisões preventivas, pensei que logo estaria finalmente livre para recomeçar a minha vida. Mandaram embrulhar meus poucos pertences e, ainda antes do almoço, desci para o pátio. Passei o resto do dia vendo a chegada e partida de viaturas, depois me reconduziram à cela.

No começo da tarde do dia seguinte os serviços burocráticos dos fardados afinal cumpriram direito o seu dever e pude novamente respirar o ar da liberdade. Passara 11 meses e meio no inferno e sobrevivera, mas sem perspectiva nenhuma na mente, nem a mínima ideia do que faria dali em diante.

Lá por 1975 recebi uma oferta do jornalista Luiz Aparecido da Silva, do PCdoB. Ele se propôs a reunir alguns jornalistas do Brasil e do exterior para ouvirem uma denúncia minha sobre as torturas que sofrera e que acabaram desembocando no estouro do meu tímpano direito e no meu arrependimento forçado. 

Aceitei em princípio, mas avisei que detalharia as torturas desde que me fosse possível contar também como a VPR me fizera de bode expiatório de uma culpa que não era minha. 

Como prêmio seria recebido no Partido Comunista do Brasil para reatar minha militância, começando por baixo (aliado ou simpatizante). Pensei até em aceitar, tamanha era minha vontade de pertencer de novo a um círculo da esquerda militante.

Mas surgiu um pomo da discórdia: se eu relatasse fielmente como havia sido injustiçado pela VPR, o PCdoB temia que estaria comprometendo a imagem de mártires da luta contra a ditadura.

Por minha vez, aceitando tal proposta eu passaria recibo de que as acusações que me faziam eram verdadeiras. Queria, sim, voltar, mas respeitado, não como um coitadinho. Não houve acordo.

Em 1994, contudo, algo que escrevi caiu mal para os petistas. Coincidência ou não, logo depois a Folha de S. Paulo publicou na Ilustrada uma reportagem do Marcelo Paiva que não tinha nada a ver comigo e nela foi encaixado, na base da forçação de barra, um trecho me acusando gratuitamente de delator da área de treinamento da VPR. 


Travamos uma polêmica foi com três intervenções cada e eu pude enfim esclarecer que as áreas de treinamento eram duas, a que abandonamos e a que foi invadida pela repressão. Como ninguém jamais havia falado nessa segunda, coloquei uma dúvida na cabeça de muita gente da esquerda. 

Ele contra-atacou afirmando que a repressão chegara à área 2 por meio dos nossos aliados que prendeu por estarem envolvidos com a área 1. Ele errou por acreditar em versões de policiais: os aliados só foram aprisionados na segunda-feira, quando a repressão já estava na área 2 havia um bom tempo.

O Paiva desistiu de me atacar no terceiro texto, no qual se esforçou para desmentir a acusação de inquisidor que eu lhe fizera, afirmando ser um bom moço que gostava de samba, carnaval, mulheres e futebol...

Foi o momento em que comecei a obter mais manifestações de apoio de esquerdistas.

Tudo que eu semeara floresceu quando encontrei e divulguei um relatório de operações do II Exército, no qual constava que a localização da área ativa tinha sido revelada por alguém preso no dia 18 de abril, indiretamente me inocentando, já que eu caíra no dia 16. Mas como fazer isso repercutir amplamente nos círculos de esquerda?

Levei o tal relatório ao Jacob Gorender, o principal historiador da luta armada brasileira. Meio desconfiado, ele disse que tinha mais documentos secretos sobre o assunto, iria consultá-los e me daria retorno.

Bem mais cordial, dias depois ele me telefonou para informar que eu tinha razão e que comunicaria isto à Folha de S. Paulo e a O Estado de S. Paulo. A Folha publicou na íntegra a carta do Gorender. 

Fui o único combatente da luta armada que conseguiu provar que havia sido acusado injustamente. Fim do pesadelo que durante 34 anos prejudicou minha imagem de revolucionário.

Salvo da penúria, raciocinei que de nada adiantaria ficar lamentando o tempo que haviam roubado de mim. Livre e desembaraçado, pude defender no Orkut a memória da luta armada e dos que dela participaram; travar (e vencer) polêmicas com viúvas da ditadura como o Olavo de Carvalho e com jornalistas mal informados a meu respeito, como o Marcelo Paiva; e duelar na Justiça com o Boris Casoy. que me queria preso como difamador mas teve de engolir a exceção da verdade

Tanto barulho fiz e tão pertinentes eram minhas queixas que a Comissão de Anistia teve de pautar o julgamento do meu caso. Não só conquistei a reparação que pleiteava por direito, como passei a ser visto como um homem que amargara 34 anos de estigmatização como consequência de uma acusação falsa.

Contudo, a suspeita demora em julgarem meu caso deixara-me afogado em dívidas e a reparação de R$ 50 mil de quase nada me adiantaria. Então, apelei da decisão. 

Finalmente, em meados de 2005 me concederam a pensão vitalícia que era imprescindível para eu sair da patética condição de um ex-guerrilheiro endividado. O desfecho merece ser contado aqui, pois foi emocionante.

Sem grana para uma viagem de avião, só me restava apanhar o último ônibus da madrugada para Brasília (o primeiro da manhã não chegaria em tempo no Ministério da Justiça). Tinha de matar  mais de quatro horas até o início da sessão e, sonolento e faminto, ficava aguardando a hora da verdade.

Por ser um julgamento polêmico, a comissão desmarcou o horário fixado e transferiu-o para a última sessão daquele dia, quando não havia ninguém mais de fora assistindo.

Eu sabia que, ou obtinha o prêmio por 34 anos de esforços, mais intensificados nos últimos três, ou sucumbiria de vez. Mobilizei todas as forças que eu tinha para o duelo com alguns conselheiros que tinham conhecimentos jurídicos e bronca contra mim, principalmente o representante das Forças Armadas naquele colegiado. 

Depois da estressante batalha, aliviado e fatigado, saí daquela sala enfumaçada e  desabei no primeiro banco que surgiu à minha frente no saguão. Aí uns dez funcionários dos serviços de apoio vieram me cumprimentar e abraçar. 

Tão absorto eu estava no julgamento que nem percebera a existência de torcedores acompanhando minha batalha. Uma funcionária até chorou. Eu pensei que sairia de lá exultante, mas, depois disso, estava é comovido com a surpresa que o destino me concedeu.   

*   *   * 

A convite do candidato a prefeito do Psol, concorri a uma cadeira de vereador em 2012. Ingenuamente, acreditei que aquele partido, como o antigo partidão, ajudasse  a se elegerem pessoas como eu, que poderia ser uma pedra no sapato das legendas dominantes, devassando escândalos municipais e os trombeteando pela imprensa, com a ajuda de jornalistas que me apoiariam. 

Sofri uma derrota acachapante  e constatei que jamais conseguiria atingir os meus objetivos ao lado dos partidos reformistas. Foi a primeira e única eleição que disputei; e o fiz sob o jogo de cartas marcadas da democracia burguesa.

Minha grande cruzada depois de reabilitado acabou sendo a contribuição que dei à luta pela liberdade do escritor Cesare Battisti. Durou de 2008 e 2011 e o nosso comitê de solidariedade foi buscar a vitória na bacia das almas, quando tudo parecia perdido.

CAPÍTULO 11

São Paulo, maio de 2026 

Minha grande cruzada depois de reabilitado acabou sendo a contribuição que dei à luta pela liberdade do escritor Cesare Battisti. Durou de 2008 e 2011 e o nosso comitê de solidariedade foi buscar a vitória na bacia das almas, quando tudo parecia perdido.

No final de 2008 recebi um telefonema do Comitê de Solidariedade a Cesare Battisti pedindo minha ajuda na batalha de opinião para evitar a extradição do escritor italiano. A vitória que eu conquistara no episódio dos quatro de Salvador chamara a atenção do comitê.

A prestação de solidariedade a perseguidos políticos é dever de todo revolucionário, embora a maioria tire o corpo fora. Eu não. Aceitei de imediato, sem ilusão nenhuma quanto a quão imensas seriam as dificuldades que enfrentaria. 

Não deu outra. Passei dois anos e meio correndo o Brasil para fazer palestras e participar de debates, mesas redondas e atos públicos em defesa do Cesare. Compareci às sessões de julgamento no Supremo Tribunal Federal para, se a decisão fosse pela extradição,  reagir imediatamente, pois deveríamos contrapor nossa verdade às mentiras que vinham da Itália e eram repercutidas caninamente pela imprensa brasileira.

No meio de tudo isso, um dia me lembrei do primeiro livro para adultos que lera na vida, lá pelos meus 15 anos: A tragédia de Sacco e Vanzetti, do Howard Fast, que peguei na Biblioteca Circulante da Mooca, baseado apenas no que li na orelha.

A história era a de dois anarquistas italianos acusados e executados em Massachusetts por um assalto com duplo homicídio que não haviam cometido. Tratava-se apenas de um exemplo chocante das autoridades para intimidar os imigrantes que chegavam aos EUA trazendo ideias esquerdistas.

Embora a inocência de ambos estivesse mais do que provada e manifestações de protesto pipocassem por várias nações (até o Papa pediu pela vida deles), os assassinatos pela via judicial acabaram ocorrendo. Cinquenta anos depois o governador de Massachusetts reconheceu que havia sido cometido um erro jurídico, reabilitando-os postumamente.

Esse livro impactou muito em mim quando o li, mas tantos outros haviam depois passado por minhas mãos que eu esquecera dele. 

Quando afinal percebi que, de certa forma, estava tentando corrigir o passado, fiquei surpreso: estatisticamente, a possibilidade de um dia eu estar envolvido num episódio semelhante era infinitesimal. 

Não foi esta a única coincidência inverossímil. Apesar de minhas famílias paterna e materna não terem interesse pela política, um antepassado meu, Angelo Longaretti, havia assassinado um fazendeiro truculento que espancava seu pai. Num país imenso, pela segunda vez um estardalhaço desses se misturava com uma família de pacíficos apolíticos. Pode? Pôde!  

Tinham discutido pelo valor que o pai dele, um homem idoso, tinha a receber, pois a família estava de saída daquela fazenda. A isto se acrescentava o assédio que a filha sofrera de um dos filhos do mandachuva. Ao ver o seu pai agredido e aparentemente morto (tinha só desmaiado), Angelo o atingiu com um disparo anormalmente certeiro de uma garrucha velha e enferrujada. 

A colônia italiana se mobilizou em peso, mas o julgamento foi de cartas marcadas. Não se providenciou sequer tradutor, de forma que as testemunhas de Angelo, também italianas de nascença ou de ambiente familiar, depuseram à toa. 

O morto era irmão de Campos Sales, quarto presidente da República do Brasil, o qual tentou mudar a lei, com a introdução da pena de morte para que em seguida fosse aplicada retroativamente contra Angelo. Mas acabou desistindo dessa ideia estapafúrdia por pressão da Inglaterra, que atuava como uma espécie de guardiã da aplicação correta da lei noutros países.

Sem vínculo comigo, mas igualmente repulsivas, foram a decisão do STF favorável à extradição de Olga Benário Prestes para a Alemanha nazista, embora estivesse grávida de um brasileiro; e a omissão do ditador Getúlio Vargas, que dava a última palavra em casos como esse e poderia ter impedido tamanha infâmia.

A esquerda perdoa alguns ditadores que passam para o seu lado, como Vargas, que em 1950 se tornou nacionalista como retaliação aos EUA por terem, em 1945, apoiado sua destituição. Eu, que passei pelos porões de uma ditadura e quase morri, não perdoo ditador nenhum. 

Mas, voltemos ao Caso Battisti. Minha melhor contribuição foi haver lançado artigos praticamente todo dia, resgatando a memória: 
-- dos grandes atentados fascistas que ficaram impunes ou receberam sentenças ínfimas, começando pelo da Piazza Fontana em 1969 (16 mortos e 88 feridos) e culminando no Massacre de Bolonha (85 mortos e mais de 200 feridos);
-- da lei inacreditável que vigorou nos
anos de chumbo italianos, prevendo prisões preventivas de até mais de 10 anos para os acusados de terrorismo, que bem poderiam ser inocentes;
-- pelo fato de que as acusações do governo do debochado Silvio Berlusconi contra o Cesare já estavam prescritas, mas o prazo foi maquilado para justificar a perseguição ao escritor;
-- pela buffonata de atribuírem a Battisti quatro assassinatos, dois dos quais simultâneos, sem levarem em conta que era humanamente impossível ele percorrer tão depressa a distância entre duas dessas cidades  (quando esse pequeno detalhe foi atirado na cara dos pubblici ministeri, eles alteraram a acusação para três homicídios cometidos pessoalmente e autoria intelectual do quarto),

Muitos exemplos semelhantes comprovam que na Itália, a partir da morte de Aldo Moro, perdurava um estado de guerra secreta. Isto, num país sem passado fascista nem premiê execrável, justificaria uma anistia aos envolvidos ao invés de penas rigorosíssimas para uns e benevolentes para outros. Mas, na Itália que venerara Mussolini, tudo era possível.

O pedido de extradição feito apela Itália ao Brasil desembocou numa guerra de versões até então nunca vista, entre a grande imprensa e as redes sociais.

Num primeiro momento, prevaleceu o posicionamento do jornalista e escritor Mino Carta, muito paparicado pelo PT. Quem não estava a par do confronto repetia as diatribes do Mino, sem saber que ele, como os comunistas tradicionais, detestava a nova esquerda e, consequentemente, o Battisti.

Um episódio interessante foi eu logo ser convidado a entrevistar o Cesare sobre semelhanças e contrastes de dois guerreiros dos
anos de chumbo. 

O ministro Gilmar Mendes jamais consentiria, então tratei de entrar na Papuda acompanhando uma pessoa que tinha o direito de estar lá. Entrevistei-o longamente, anotando apenas uma palavra de cada resposta dele, para não dar na vista.

Nunca havia feito isso, mas consegui lembrar a entrevista inteira. Ela foi publicada no Congresso em Foco, que me contratara o serviço, e, depois de uma semana, massificada para que atingisse maior público. Coincidência ou não, foi nesse período que o Cesare começou a conquistar as redes sociais.

Quando entrei na batalha de opinião, trazendo a experiência das disputas encarniçadas do movimento estudantil, a coisa foi mudando de figura, Tentei várias vezes acelerar o processo desafiando o Mino a polemizar comigo, mas ele fugiu da raia.  Propunha-se a duelar com o Zé Dirceu mas, quando eu levantava a luva que ele atirara no chão, dava uma de desentendido.

Escapou da derrota, mas não da corrosão de sua popularidade, Teve de abandonar o blog pessoal por não suportar os questionamentos de seus próprios admiradores.

Numa noite em que vários veículos da grande imprensa levaram ao ar reportagens altamente desfavoráveis ao Cesare, deixando forte impressão de que se tratava de uma ação concertada, consegui redigir, em pouco mais de uma hora, e enviar para minha rede uma refutação tão pertinente que acabaria sendo copiada por um grande número de portais e blogs. Foi o melhor texto que escrevi durante a campanha toda, aproveitando ao máximo o que aprendera no jornalismo.

Doutro lado, deixo registrado que, como relator do caso no STF, Cezar Peluso conseguiu alinhavar  dezenas de motivos para enviá-lo à Itália e um ou dois que o favoreciam. Foi o relatório mais parcial que eu vi em toda a minha carreira e em toda a minha vida.

O empenho de Gilmar Mendes (presidente da Corte) e Peluso (relator) em crucificar Battisti era desmedido. E, quando terminou o período de Mendes como presidente, foi substituído por... Peluso! E quem foi indicado por Peluso para assumir a relatoria? Ele mesmo: Gilmar Mendes!

Apesar de termos contra nós um país do primeiro mundo cujo presidente era um depravado ultradireitista que desperdiçava rios de dinheiro comprando a extradição; quase toda a grande imprensa brasileira; e adversários ocupando o tempo todo as duas cadeiras mais importantes do julgamento, vencemos.

O fator decisivo foi que jornalistas renomados, confiando em que eu respeitaria suas revelações em off, me transmitiram tudo que eu precisava saber sobre as intenções do Lula. Inclusive que ele dissera ao Gilmar Mendes que, se o STF conseguisse extraditar o Cesare sem intervenção dele, o Lula repetiria a canalhice do Getúlio Vargas, deixando tal desfecho vergonhoso acontecer novamente; mas, se fosse dele a palavra final, não extraditaria.

Graças a isso, a escritora francesa Fred Vargas, o ex-integrante da Anistia Internacional na Argentina Carlos Lungarzo, o senador Eduardo Suplicy e eu impedimos que apoiadores desatinados da nossa causa lançassem  uma campanha para o Lula retirar o processo das mãos do STF e decidir sozinho. Teria sido derrota na certa.

E movemos céus e terras para que os 4x5 que vínhamos recebendo nas votações anteriores se tornassem 5x4 para nós no tópico principal: se o Supremo decidiria sozinho ou a palavra caberia ao condutor das relações internacionais do Brasil (o presidente da República).

Como nas outras situações nas quais tal dilema havia sido discutido prevalecera a prerrogativa presidencial, fizemos campanha cerrada para que os defensores da tradição repetissem o voto dado noutras ocasiões. 

Caso do Ayres Britto que, corajosamente, manteve seu posicionamento costumeiro, apesar de o Gilmar Mendes ter sido até deselegante no discurso irado com que tentou fazê-lo mudar o voto. 

                          CAPÍTULO  : PT expulsa o PT

Percebi desde cedo que o Partido dos Trabalhadores era meramente reformista, mas, para não dividir as fileiras da esquerda, tentei manter com o PT uma coexistência pacífica. 

Resolvi só entrar em choque com o dito cujo quando ele espezinhasse valores fundamentais da esquerda. As medidas governamentais das prefeituras petistas e (a partir de 2003) do Governo Lula, estas eu poupava de críticas públicas.

Mas, o diabo é que o PT estava sempre mandando às favas aquilo no que a esquerda acreditava, então não pude deixar barata a injustiça cometida contra o Paulo de Tarso Venceslau, muito parecida com a cometida contra mim em 1970. 

Continuavam vivas na minha memória as lembranças da excelente imagem da qual a esquerda desfrutava quando a ditadura militar foi atirada na lixeira da História 

Éramos convidados a todo momento para reuniões com a intelectualidade engajada e nelas recebidos com muito respeito, por termos aceitado o desafio de enfrentar o inimigo fardado mesmo sob um desembestado terrorismo de estado. Se não nossas propostas, pelo menos os enormes sacrifícios que fizéramos eram reconhecidos. 

Então, quando dirigentes do PT começaram a chafurdar na mesma lama dos políticos profissionais, foi a gota que transbordou o copo. 

Economista competente e petista abnegado, o PT Venceslau (como ele era apelidado) já se indignara com a vinda à tona de denúncias fundamentadas de conluios com a putrefata construtora Odebrecht. 

E mais inconformado ficou quando, em duas prefeituras comandadas pelo partido (as de Campinas e São José dos Campos) seu excelente trabalho como secretário das Finanças foi interrompido porque ele se recusava a compactuar com a podridão.

Venceslau teve a paciência de aguardar durante dois anos que o Zé Dirceu, a quem ele recorreu, tomasse providências. 

As queixas consistiam em que seu afastamento das duas prefeituras se deveu a ele ter-se negado a pagar valores exorbitantes à CPEM por serviços de consultoria não prestados. A CPEM pertencia a Roberto Teixeira, compadre do Lula, a quem fornecia gratuitamente um apartamento de cobertura no ABC para ele morar com a família. 

Aparentemente, tal desvio ilegal de verbas não se destinava aos bolsos de algum chefão do PT, servindo para o financiamento de campanhas eleitorais. Mesmo assim, Venceslau tinha total direito de não envolver-se com falcatruas, ainda mais quando cometidas em pastas que estavam sob sua responsabilidade.

Cansado de esperar em vão, Venceslau botou a boca no trombone, em entrevista para o Jornal da Tarde. Como resposta ao escândalo, o partido criou uma Comissão Especial de Investigação, presidida por Hélio Bicudo (o homem que derrotou o Esquadrão da Morte). 

A salomônica decisão foi a de que Venceslau errara ao vazar um assunto interno para a imprensa burguesa, enquanto Roberto Teixeira deveria ser investigado como corruptor. 

Mexeram-se os pauzinhos e tai decisão foi virada do avesso, com a punição do militante digno e a condescendência para com seu contrário. O boato que então circulou amplamente foi o de que, caso Teixeira fosse expulso como deveria ter sido, o Lula já tinha avisado que sairia do PT junto com ele.

Acreditando que sua decisão prevaleceria, a Comissão de Investigação incluiu no relatório final este trecho que acabou soando hilário: 
Se em outras agremiações partidárias comportamentos de tal natureza costumam ser aceitos como normais ou não qualificados como dignos de repreensão, no PT comportamentos dessa natureza se colocam como descabidos e inaceitáveis.
Fui o único esquerdista a solidarizar-se com o Venceslau com artigo na grande imprensa (o Jornal da Tarde paulistano); havia muitos militantes renomados que gostariam de fazer o mesmo, mas permaneceram  em cima do muro. 

Fizeram-me lembrar os comunistas que calaram envergonhados quando a URSS firmou o pacto com a Alemanha nazista, deixando Hitler com a certeza de que poderia prosseguir com suas conquistas sem temer a abertura de uma segunda frente,

Daí o carinho que tenho por esse episódio em que dei uma pequena amostra do meu valor, por tantos negado durante tanto tempo.

Foi também o instante em que o PT se assumiu como um partido igual aos outros, capaz até de sacrificar um militante exemplar (e revolucionário!!!) para preservar uma maçã podre. 

Hoje considero que deveria ter expressado minha discordância bem mais cedo, ainda na década de 1990, quando o partido começou a expurgar as tendências revolucionárias que atuavam no seu interior.   

Mesmo sofrendo perseguições, eu agi como era correto, além de ter acertado em cheio na previsão de que a abertura desse precedente escancararia a porteira para o desvirtuamento do PT. 

De resto, o destino fez questão de dar um final diferente para essa história, pois em 2017 os mesmos personagens (Odebrecht, Lula, PT e Roberto Teixeira) foram emporcalhados por uma
delação premiada referente a corrupção. Vinte anos depois, continuavam os mesmos... 

*   *   *

 CAPÍTULO  : OS MELHORES PERSONAGENS

De 1979 a 1984 trabalhei em revistas de cinema e de música, quando fiquei conhecendo profissionalmente boa parte dos que atuavam em ambas as frentes. Mas houve apenas três nos quais o relacionamento se tornou mais profundo.

O primeiro ainda no tempo do movimento secundarista, quando fomos à  Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na rua Maria Antônia, para acompanhar uma assembleia que discutiria como o movimento estudantil daria seu apoio à greve de Osasco (a primeira com a tomada de fábricas, seguida pela ocupação da cidade por numeroso contingente de policiais militares).

Os quatro chegamos adiantados e estávamos esperando o começo da assembleia  quando vimos o cantor e compositor Geraldo Vandré no saguão de entrada, sendo hostilizado pelos universitários.

Era meu ídolo desde que ouvira pela primeira vez sua Canção Nordestina. Depois de descrever a situação de penúria de seu povo (é paraibano) ele lançou um grito que começava baixo mas ia crescendo até me fazer estremecer: E essa dor no coração/ aaaaaAAAAAAIIIIII, quando é que vai se acabar? Quando é que vai se acabar?

A partir daí comprei o último dos seus elepês, passei a acompanhar suas aparições na TV e torci por ele nos grandes festivais de MPB. Os companheiros que estavam comigo também gostavam de suas composições, mas nem tanto. 

Vendo-o naquela saia justa, o mais velho de nós, o Diego Perez Hellin, o convenceu a ir conosco ao bar da esquina para tomarmos umas cervejas. Seria uma saída honrosa para ele, ao invés de retirar-se como um vira-lata escorraçado. 

Por que estava sendo desprezado daquela maneira? É que no recente primeiro de maio, o PCB convencera o governador Abreu Sodré a participar da comemoração do Dia do Trabalhador, mas os partidos e organizações mais à esquerda o apedrejaram tão logo tomou a palavra.  Alguém o acertou e um filete de sangue escorria da testa do governador.

Então o Vandré, para surpresa geral, ajudou o Sodré a escafeder-se, indo se abrigar na catedral da Sé. A foto dessa ajuda foi publicada na capa da Folha da Tarde e, por não saberem que o Sodré era velho amigo do  artista, os universitários passaram a xingar o Vandré de traíra

Bem mais tarde, um companheiro confiável me contou que, quando trabalhava na Imprensa do governo paulista, constatara que o Sodré abrigava o Vandré em pleno Palácio dos Bandeirantes. Era raro um político profissional correr o risco de esconder alguém caçado pela repressão. 

O bate-papo com ele durou algo entre duas e três horas. Canções foram cantadas e o Vandré nos mostrou a que ele estava então criando, os versos escritos num papel grande de embrulhar pão, com várias palavras riscadas e substituídas por outras. Era a Caminhando

Ou seja, ficamos conhecendo previamente a canção que seria símbolo da luta contra a ditadura militar e faria os milicos destruírem a vida do Vandré.

Quando a Caminhando  (ou Pra não dizer que não falei das flores) se tornou quase um hino revolucionário, ninguém ou quase ninguém ficou sabendo que a música havia sido composta pelo Vandré para reafirmar suas convicções, tipo eu continuo o mesmo e ainda acredito nas mesmas coisas

Nem que quisesse eu poderia divulgar o episódio como merecia, pois, além do receio de ser novamente preso, construíra uma reputaçãozinha como crítico de rock e não tinha cacife para expor na grande imprensa algo tão polêmico. 

Naquele momento em que a distensão lenta, gradual e segura do ditador Geisel estava no auge, a Caminhando foi liberada e a cantora Simone a relançou em dezembro de 1979. Levei ao Vandré a proposta de escrever algo sobre ela para um pacote de revistas importantes e ele respondeu que, como não tinha disco para lançar, não tinha motivo para aparecer na imprensa. 

Mas acabamos conversando, novamente por duas ou três horas, no apartamento da rua Martins Fontes em que ele morava havia muito tempo. Ele pediu para manter em off tudo que rolou nesse papo e eu cumpri a promessa. 

Fiquei, no entanto, muito frustrado porque teria algo significativo a revelar:
-- que, embora passasse por louco, o Vandré falava coisa com coisa. Disse, p. ex., que a Caminhando poderia voltar a ser sucesso na voz da Simone, mas ele não deveria voltar junto. Ou seja, insinuava que poderia ser retaliado pela repressão ou alvo dos atentados terroristas de extrema-direita que estavam ocorrendo;
-- que só voltaria a cantar no território nacional quando aqui vigesse a plenitude democrática (honrou sua promessa indo apresentar-se no Paraguai, ainda que bem próximo da fronteira com o Brasil);

Eu gostaria de haver lançado um texto atestando que o Vandré não estava biruta, mas a ocasião não se apresentou. Só o fiz após a devolução do poder à cidadania. 

Mas, quando o jornalista Vitor Nuzzi lançou uma biografia do Vandré, reacendendo a discussão sobre o equilíbrio mental do artista, eu publiquei uns 10 artigos rechaçando tal hipótese. 

Um dos meus principais argumentos foi o de que, ao desembarcar no Galeão em 1973, policiais praticamente o sequestraram e o internaram numa clínica carioca na qual ele permaneceu 58 dias sem poder falar com parentes, advogado ou demais pacientes.  O que terá acontecido com ele nesses 58 dias de incomunicabilidade?   

O também músico Benito di Paula teve a mesma dúvida e a expressou nestes versos: O que fizeram com ele? Não sei./ Só sei que esse trapo, esse homem, foi um rei.

*  *  *

Com o Raul Seixas mantive um relacionamento fugaz, mas pitoresco. Eu tinha passado batido pelo lançamento, em julho de 1973, do seu primeiro  grande disco, Krig-ha Bandolo! 

Em dezembro desse mesmo ano, Jards Macalé reuniu muitos dos melhores músicos da época  num show comemorativo dos 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A gravadora RCA tentou lançá-lo em 1974, com o título de O banquete dos mendigos, mas foi proibido pela censura e recolhido nas lojas.

Com o afrouxamento da censura por parte do ditador Geisel, ele foi lançado em 1979 e eu finalmente fiquei conhecendo a canção Cachorro Urubu. E, ao escutar Raul Seixas a interpretando, foi como se um raio me atingisse. Os versos alusivos ao maio de 1968, a primavera de Paris, eram um arraso: Todo jornal que eu leio/ me diz que a gente já era/ que não é mais primavera/ oh, baby,  a gente ainda nem começou.

Depois fiz questão de ir numa coletiva de imprensa do disco Abre-te, Sésamo, e o Raul estava hilário. Então, ao escrever sobre o novo LP, gastei só umas 8 linhas com a parte comercial e umas 50 reproduzindo o que havia rolado no almoço com o Raul, a Kika (última namorada da vida dele) e o divulgador da CBS.

Os artistas quase nunca mandavam um obrigado! pelo que jornalistas tinham escrito sobre eles. O Raul foi uma exceção, ligando para me convidar a uma boca livre da CBS. Tornamos a nos ver mais duas ou três vezes, mas, como não se podia estar com o Raul sem tomar pelo menos metade do que ele bebesse, esqueci quase tudo que conversamos.

O que eu percebi dele é que, como eu, tinha 1968 como um grande referencial de sua vida. A coisa era exatamente como ele contou em Ouro de tolo: dera um duro danado para chegar onde estava e aí viu que não era exatamente isso que queria na vida (Eu é que não me sento/ no trono de um apartamento/ com a boca escancarada, cheia de dentes/ esperando a morte chegar). 

Na minha opinião, o Raul sonhara com sua consagração musical ocorrendo numa época igual a 1968, mas o que obtivera foi a necessidade de ajustar-se a uma sociedade aviltada e detestável.  

Quando estávamos nos embriagando, ele não fazia nenhuma das palhaçadas que ajudavam a vender discos. Era bem diferente de sua imagem pública.    

Recordo também quando contou que ele e o Paulo Coelho, antes do sucesso, traduziam para próprio uso os livros de bruxos famosos, como o Aleister Crowley. Ambos aproveitaram de forma diferente tais ensinamentos: o Raul com a sociedade alternativa e o Paulo com suas lorotas sobre ser um mago.                                                                                    
                                     *  *   *
Finalmente, fiz uma entrevista inesquecível com D. Paulo Evaristo Arns, a quem respeitava pelo seu destemor ao enfrentar tanto a ditadura militar quanto a hierarquia católica conservadora. Mas em algum momento a parte formal deu lugar a um papo franco sobre nossas histórias de vida. Isto foi antes de minha reabilitação.

Na hora de ir embora, mesmo com dificuldade para andar e corcunda por causa de um atentado terrorista que sofrera em qualquer país latino-americano (não disse qual), ele se levantou para acompanhar-me até o portão. 

Tentei dissuadi-lo, porque era uma caminhada longa do gabinete dele até a saída do mosteiro de São Francisco. Não adiantou. 

Depois, digerindo na memória tudo que ocorrera, lembrei-me do seu olhar determinado, que brilhava ao falar sobre seus grandes momentos, como a missa de sétimo dia que ele rezou em memória de Vladimir Herzog, dividindo o púlpito com sacerdotes de duas outras confissões, sem deixar-se intimidar em nenhum momento. Tinha alma de guerreiro.      

CAPÍTULO : 





Como principal tarefa, eu fazia a divulgação do primeiro congresso de mastologia que teria lugar no Brasil. 

Mas minha chefe, por divergências internas, me colocou sozinho para fazer o trabalho de três ou quatro funcionários, exatamente para que eu fracassasse. Tinha de: 
-- saber o que rolava nas várias sessões; 
-- escrever sobre o que surgisse de interessante;, 
-- receber jornalistas e colocá-los em contato com quem pudesse falar sobre o tema por eles escolhido;
-- redigir os press-releases, tirar cópias, envelopá-los, encaminhá-los.

Mais uma vez a minha perseverança era colocada à prova. Fazendo das tripas, coração, cumpri todas as funções e tive o faro de perceber a importância do discurso do ministro da Saúde na abertura dos trabalhos. Trouxera dados impactantes comprovando que o câncer de mama, praticamente ignorado, era um grave problema de saúde no Brasil. 

Quase arranquei da mão dele o discurso que acabara de proferir e do qual não havia trazido cópia. Fiz uma apresentação de umas 10 linhas e enviei a íntegra do discurso (umas 60 linhas) para a imprensa do País inteiro. Saiu como água, inclusive sendo manchete do dia de jornais importantes.

Mal sabia que estava inaugurando uma prática que muitas vezes repetiria depois, tanto profissionalmente quanto nas batalhas idealistas.  No lançamento do meu livro, um dos críticos escreveu que (no bom sentido) eu era um homem muito teimoso. E sou mesmo.
*    *    *

Outra virada do destino ocorreu quando eu trabalhava na agência do Lemos Britto, produtor do primeiro programa televisivo de debates que a ditadura permitia desde o AI-5, o Diálogo Nacional

Num fim de tarde, o Franklin Machado, jornalista da Tribuna de Santos, chegou bem adiantado para participar do programa e me coube ficar fazendo sala para ele. 

Constatamos que pensávamos igual sobre muitos assuntos, então ele me convidou para conhecer o Mozart Menezes, líder do grupo Cacimba, que começara prestando assistência aos nordestinos que chegavam para trabalhar em São Paulo, depois mudou o foco para um ponto de encontro e convivência dos esquerdistas que precisavam manter o ânimo e a serenidade em meio à ditadura militar. Fazia edições alternativas de livros e de jornais, organizava espetáculos de poesia, festas, etc.

Depois o Mozart me confidenciou que os dirigentes do partido clandestino ao qual ele pertencia fizeram pressão para que não comparecesse ao encontro marcado comigo, mas ele respondeu que jamais julgaria um ser humano na base do disse-me-disse.

Acabamos nos dando bem e entrei para o grupo, participando de reuniões e edições, bem como recitando uma poesia combativa para públicos que nunca passavam de umas 50 pessoas, etc. 

Percebi que a convivência com companheiros me fazia muita falta. Ainda bem que tal espaço começava a ser preenchido!

Num sábado, nossa reunião político-literária foi visitada por um companheiro de Natal/RN, Rubens Lemos, que veio pedir-nos ajuda. Era pai de um dos seis aloprados que resolveram expropriar um banco, embora a ditadura já houvesse terminado (era 1986). 

Quatro foram presos e muito hostilizados na prisão, afora existirem boatos de que os explosivos roubados de uma pedreira serviriam para causarem uma rebelião no presídio e, aproveitando a confusão. assassinarem os quatro de Salvador (como eles haviam sido apelidados pela imprensa).

Em desespero de causa eles resolveram entrar em greve de fome, marcada para dentro de dois dias. Mas, não havia esquema nenhum para fazer tal protesto repercutir na imprensa.

Eu era o único com know-how  para desempenhar tal papel, então  me voluntariei. E passei dias horríveis batendo em portas fechadas e temendo danos que viessem a sofrer porque eu não estava sabendo direito como os socorrer.

O problema principal era que pertenciam ao PT como fachada e ao Partido Comunista Brasileiro Revolucionário  por baixo do pano. Já então se distanciando da esquerda combativa, o PT não só expulsou os quatro como fez tudo que pôde para que a esquerda os ignorasse. 

A preocupação petista era de que o partido perdesse meia-dúzia de votos na eleição que se aproximava. Negava-lhes a solidariedade revolucionária por já então estar abdicando da prática anticapitalista, embora não tão descaradamente como hoje em dia.

Então, a direita estava explicitamente contra eles e a esquerda, implicitamente. Qual a mais ignóbil? 

Fiz uma infinidade de tentativas até que uma resultou, meio por acaso mas premiando meus esforços.

Mandei um dossiê para o colunista da Folha de S. Paulo no Rio de Janeiro, Newton Rodrigues. Sabia que ele tinha sido de esquerda no tempo do golpe de 1964, quando havia integrado a corajosa equipe de redatores do Correio da Manhã. Mas ignorava que ele assessorava o ministro da Justiça na remoção do entulho autoritário

O Newton publicou na sua coluna que recebera de mim uma denúncia fundamentada sobre perseguições sofridas pelos quatro e a levara ao conhecimento do ministro.

No dia seguinte ele escreveu que o ministro pedira ao governador baiano que desse um jeito para a greve de fome terminar sem que ocorresse uma desgraça. Os quatro receberam garantia de que sua segurança seria preservada e foram autorizados a trabalhar durante o dia e apenas pernoitarem no presídio. 

Vitória sofrida, mas gratificante: quando já se havia esgotado a munição de que eu dispunha para salvar os companheiros, um acaso jogou a vitória no meu colo!

Eu continuava petista, mas numa reunião em que se discutia política para justificar a presença dos filiados que endossariam uma medida administrativa, um dirigente do PT aproveitou o intervalo para conversar com uns cinco vaquinhas de presépio lá presentes.

Recomeçados os trabalhos, os cinco passaram a me atacar de forma raivosa e o tal dirigente afirmou que os quatro de Salvador e eu éramos todos cachorros loucos. 

Foi quando desliguei-me do PT, não sem antes lançar um artigo intitulado Os cachorros loucos e os lulus de madame.  

Como quase todos nessas comunidades, experimentei as drogas. A maconha e os remédios que davam barato (como o Artane) não me entusiasmaram, mas o LSD sim. Não pelo início da
viagem, que chegava a ser desagradável, mas pelo seu final. 

Conforme o efeito ia passando, eu sentia uma calmaria extrema, como se fosse um espírito observando a faina insensata dos vivos. Anotava o que me vinha à mente e mais tarde transformava os apontamentos em poesias, algumas boas, outras nem tanto. 

Após ter terminado meu relacionamento com a V., não por acaso, comecei a consumir mais as drogas. Outro amigo do tempo da Frente Estudantil Secundarista se tornara traficante e não cobrava nada de mim.

Também foi nessa fase que passei a contestar o líder da comunidade, por me parecer autoritário e stalinista. De certa forma, revivi o drama histórico do confronto entre Stálin e Trotsky, influenciado pelos livros do Isaac Deutscher sobre o desvirtuamento da revolução russa. Era uma espécie de psicodrama, que teve papel importante na minha volta à normalidade plena.

Uma viagem estranha simbolizou o esgotamento dessa fase: vi-me caminhando na direção de uma ponte e sabia que, se a atravessasse, passaria o resto da vida na dimensão paralela da loucura. Refleti durante alguns minutos e resolvi não transpor a ponte. 

A decisão tomada no transe lisérgico permaneceu quando saí dele. Nunca mais os tóxicos tiveram relevância na minha vida.

A comunidade se esfacelou pouco tempo depois. Eu aluguei uma quitinete para morar com a minha primeira namorada, a A., da qual me reaproximara. 

Esgotado pelo frenesi com que levara a minha vida nos últimos anos, decidi conceder-me o repouso do guerreiro

Desinteressei-me da realidade sufocante da ditadura que grassava lá fora, e passei a me restringir  ao aqui dentro da minha toca, dividindo a existência entre o trabalho alienado durante o dia e, à noite, os roqueiros de terceira geração que eu preferia: King Crimson, Pink Floyd, Yes, Focus, Genesis, Moody Blues, Emerson. Lake & Palmer, etc.

Teria chegado ao fim de minha inquietação e combatividade? Não, ainda tinha páginas a escrever no livro da vida. 


[Havia também uma pequena possibilidade de a repressão ter chegado à área 2 por meio dos nossos aliados que prendeu, mas estes, eu soube depois, só foram aprisionados na segunda-feira].



Por que abandonarmos a área 1 e transferir o trabalho para outro ponto da mesma região? Porque o Lamarca deve ter concluído que a existência de uma base de 4 ou 5 aliados locais da VPR seria valiosa, começando pelo fato de que assim ele logo saberia se a chegada de um contingente mais numeroso de companheiros a serem treinados levantasse suspeitas entre os moradores. 

Ou seja, tomou uma decisão pouco recomendável em termos de segurança por carecer de apoiadores noutras regiões. Optou por correr maiores riscos onde já estava.

Pior ainda foi ter utilizado os préstimos desses aliados para a aquisição dos dois sítios. Dependendo das suspeitas que a repressão viesse a ter, uma simples ida ao cartório lhe revelaria o endereço de ambos.

Nem sequer foi necessário, contudo. A pessoa presa no sábado já deu ao DOI-Codi todas as informações de que necessitava.


Não tinha dúvida nenhuma de que Lamarca estava ciente da minha inocência; afinal, ele mesmo me havia contado que algum(ns) ex-colega(s) de farda o municiava(m) com informações quentes sobre o que acontecia no DOI-Codi. Tanto que ele não mexera uma palha quando fui preso no dia 16, mas correu a levantar acampamento e iniciar sua fuga quando a outra pessoa foi presa no dia 18.

Ter chegado à conclusão de que provavelmente estaria sendo desacreditado pela organização quando me esforçava ao máximo para preservar seus principais quadros foi a gota d'água que extravasou o copo, pois se acrescentou: 
— ao impacto das torturas (bem maior do que eu esperava); 
à profunda decepção que me causara a briga de foice no escuro na qual se constituíra o congresso da VAR-Palmares; e 
— ao remorso que sentia por não haver zelado melhor pelos companheiros cujo ingresso na VPR eu liderara.

Daí a prostração que tomou conta de mim no final de julho. O arrependimento forçado que me impuseram parecia insignificante diante de tudo que eu já havia sofrido. 

E, no fundo, realmente era uma mera armação dos serviços de Guerra Psicológica das Forças Armadas. Quem acreditava naquilo engoliria qualquer coisa. 

Mesmo assim, feria demais o meu amor próprio lembrar-me daquela madrugada de pesadelo na sede da Rede Globo no Jardim Botânico. Quis até acreditar que nada daquilo acontecera, mas, no fundo, sabia que ficara muito aquém da imagem que eu tinha de mim mesmo.

Contudo, dos tempos em que devorava os livros de Sartre e Camus, me restou a disposição de nunca buscar consolo fácil. Considerei definitivo aquele péssimo momento e assumi comigo mesmo o compromisso de superá-lo com o que fizesse doravante.

Ao sair da prisão já recobrara a combatividade. A luta armada havia sido inviabilizada por décadas, mas resistir ao capitalismo, ainda que de outra maneira, continuava sendo um imperativo absoluto para mim.



Aí, em 2007, quando a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça concedeu a seus entes queridos uma pensão equivalente à de um coronel de Exército e as viúvas da ditadura bateram pesado em tal decisão, com o apoio repulsivo da grande imprensa, não suportei ver a omissão de tantos sobreviventes da nossa luta, que tinham o dever moral de defender a Família Lamarca.

Ao ter certeza de que não o fariam, entrei na polêmica,  confrontando a Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e a Veja. Eu tinha a obrigação de ser maior do que aquela ralé que o atacava com tanta fúria, como se continuasse temendo o seu  desprendimento e coragem.   

     EPÍLOGO:   enquanto vivermos, a luta continua

Gostaria de deixar como legado, para os que virão depois de mim, o fim da exploração do homem pelo homem. Não deu.

Agora me caiu a ficha de que raríssimos revolucionários conseguem realizar algo tão grandioso como aquele com o qual sonhavam. Nem sequer algo duradouro. Desde a Comuna de Paris nossas vitórias têm sido temporárias e nossas derrotas, devastadoras. 

Mesmo assim,  não me arrependo do rumo que segui e das opções que fiz. Sou incapaz de imaginar-me como um homem egoísta, movido por ambições menores, indiferente às vítimas do terrorismo de estado que assolou o Brasil. 

Quando, nas minhas palestras, alguém me perguntava se tinha valido a pena sacrificar tanto para obter tão pouco, eu respondia que já era deplorável um país de 90 milhões de habitantes haver apenas uns 3 mil  dispostos a correr os riscos de lutar pela liberdade, ainda que seja em enorme desigualdade de forças; menos ainda do que isto seria vergonhoso.

Assim como a Resistência Francesa não conseguiu vencer os nazistas (as tropas aliadas é que o fizeram) mas salvou a honra da França, nós não acabamos com a ditadura nem fizemos a revolução, mas salvamos a honra do Brasil. Depois de tanta derrota sem luta, finalmente uns poucos enfrentamos a repressão na praia dela, o campo de batalha, e até obtivemos êxito em alguns momentos. 

Carreguei por 34 anos uma grave culpa alheia, mas nunca desisti de lutar para o resgate da verdade, nem aceitei acordos podres de quaisquer espécies. Provei que a revolução não tem dono e que permanecemos revolucionários mesmo quando não pertencemos às grandes organizações. Lobos solitários também podem causar danos consideráveis aos inimigos.  

Hermínio Sacchetta e outros também foram injustiçados, mas preferiram não expor seus partidos e organizações, o que, na prática, reforçou o autoritarismo dos altos dirigentes. 

Já o jornalista Osvaldo Peralva fez gravíssimas acusações ao Luis Carlos Prestes, inclusive a de ter deixado propositalmente suas famosas cadernetas num aparelho que logo seria visitado pela repressão, pois elas comprometeriam seus adversários na luta interna do PCB. Seu livro O retrato só foi lançado aqui na presente década, setenta anos depois de escrito (a censura do PCB era mais eficiente que a da ditadura). 

Cedo percebi que, depois de destruída a VPR, não havia mais caciques que fizessem questão de que eu fosse mantido como bode expiatório de episodios longínquos. O problema era eu não aceitar a infalibilidade dos altos dirigentes. Minha reabilitação implicaria o reconhecimento de uma injustiça dos mandachuvas, ainda que de outra organização, e era isto que os incomodava.

Mas ceder a eles seria a negação de tudo que aprendera na prisão quando, finda a fase das torturas, refletia longamente sobre o que acontecera conosco. Era difícil eu aceitar que, embora estivéssemos basicamente certos, houvéssemos sofrido tamanho massacre.

Para encurtar a história, conclui então que, até o esmagamento da Comuna de Paris em 1871, o socialismo e o anarquismo haviam sido o que Marx sonhara: uma onda revolucionária varrendo o mundo. 

Depois de derrota tão amarga, ingredientes autoritários foram sendo aos poucos acrescentados, até a época atual, quando a esquerda humanista quase desapareceu e as
nomenklaturas brotaram como cogumelos, incapazes de forjar regimes duradouros e sucumbindo, mais dia, menos dia, às armas, ao consumismo e à lavagem cerebral do capitalismo. 

Como começarmos a desconstruir tal colosso? Minha única certeza é de que não será a partir das eleições de cartas marcadas da democracia liberal. São um engodo. Reproduzem infinitamente o capitalismo, mesmo ele estando na atual fase terminal.

Tantos espertinhos já se proclamaram corregidores de Marx, mas a contradição básica do capitalismo permanece a mesma: ao descolar a produção do consumo, permite que uma parte dos indivíduos viva de forma nababesca e outra parte seja reduzida à pobreza. Então,  cerca de 44% da população mundial são pobres. Os ricos, aproximadamente 10%. É um escárnio.

Há como tornar 44% igual a 10%? É óbvio que não! E, para piorar, é o percentual dos ricos que cresce, não o dos pobres. Então, os exploradores têm um poder de fogo cada vez maior para a preservação de sua condição privilegiada, e não se vexam de utilizá-lo bestialmente contra os mais fracos.

Aproximamo-nos de outra grande depressão, que tende a ser mais grave ainda do que a iniciada em 1929 A forma de evitá-la seria colocar o atendimento às necessidades  humanas como prioridade máxima da economia, ao invés do lucro.

Com uma organização social diferente da atual, hoje é possível proporcionar a cada ser humano o necessário para uma existência digna. Os avanços científicos e tecnológicos o respaldam. 

Mas, como chegarmos a isto se, por exemplo, há canalhas no Brasil que movem céus e terras para evitar a introdução da escala 5x2, há tempo insuficiente e abandonada por vários países?!

A crise do subprime, em 2008, já deveria ter servido para alertar os donos de gado e gente que há um tsunami econômico em gestação. Mas, nada consistente está sendo feito para evitá-lo. 

Pelo contrário, o presidente estadunidense Donald Trump torna o mundo cada vez mais desigual e desumano ao reviver as práticas mais sórdidas do capitalismo selvagem, esforçando-se ao máximo para estimular a arrogante imposição da vontade dos países mais fortes sobre as nações mais fracas. 

Mas, desde a crise dos mísseis cubanos em 1962, parece afastada a hipótese de extermínio da espécie humana devido a uma guerra nuclear, como se houvesse um acordo de cavalheiros no sentido de os países mais poderosos não guerrearem entre si com força total. Quanto muito mandam tropas para ajudarem os mais fracos que combatem os mais fortes.

Mesmo Trump, a despeito de toda palhaçada, recua quando a situação começa a tornar-se perigosa demais. Não passa de um fanfarrão copiando os blefes de Adolf Hitler na década de 1930.

Uma hipótese mais viável é a de que, como tem acontecido quando há oferta excessiva e insuficiente procura, pipoquem guerras destinadas não a suprimir a espécie humana como um todo, mas sim o excesso de pessoas em situação de miserabilidade, que atrapalham o bom funcionamento da economia capitalista.

Quem abandona a África à fome e às pestes é capaz de tudo. 

Outros fantasmas nos assombram. Um deles é o de novas pestes como a Covid 19. Os doutores nos dizem que elas serão bem mais frequentes doravante, exatamente por causa da miserabilidade em que vegetam várias nações e seus povos. São verdadeiras incubadoras de epidemias.  

Teremos de volta os horrores da Idade Média, quando em algumas cidades a população inteira era dizimada? A enorme dificuldade que o mundo teve para controlar a recente pandemia poderá ser reeditada em maior escala? Os países ricos se interessarão pelas miseráveis ou as deixarão sucumbir à mingua?

O aquecimento global é um pesadelo em si e também devido à lerdeza com que são tomadas medidas que já no século passado sabíamos ser obrigatórias. A substituição da energia fóssil por energia limpa perde quase todas paradas  para o lucro e a ganância, mesmo quando está em jogo a sobrevivência da espécie humana. Até quando?

E a energia nuclear está sendo encarada, na prática, como alternativa à energia suja. Fukushima nada nos ensinou? A possibilidade de ocorrerem terremotos e maremotos  é ampliada em muito pelas alterações climáticas. E se alguma usina atômica deixar radiatividade escapar ou for invadida pelas águas? O preço que a humanidade poderá parar pelos aquecedores no inverno é aterrador.

Isto sem falar no progressivo esgotamento dos recursos indispensáveis para nossa sobrevivência, desde alimentos até a agua (que terá de ser buscada cada vez mais longe).

Tudo isso pode acontecer simultaneamente, com os males se alimentando um ao outro.  E tenho sérias dúvidas sobre se os ricaços não acabarão viabilizando as viagens para Marte, deixando-nos entregues à morte. Pois, para eles. o principal é o lucro e a gente semos inútil.

E surge a pergunta crucial: o que fazermos? Nada, se a humanidade for extinta. Das tripas, coração, se houver sobreviventes.

Mas, não será a democracia burguesa, submissa ao poder econômico e produtora de fascistas, que nos tirará do caos. Está tão impotente para dar qualquer resposta aos maiores problemas quanto o capitalismo para evitar a grande depressão que se avizinha.   Morrerão abraçados.

Meu principal legado é ter alertado meus leitores para os cenários que enfrentaremos, provavelmente já na segunda metade deste século. Torcendo para que eles ajam, espalhando tais avaliações e nos preparando para o pior.

Infelizmente, não vejo possibilidade de união de toda a espécie humano para o enfrentamento das  catástrofes. O capitalismo é hábil para colocar uns contra os outros e todos contra todos. Os que ainda assim sobrarem precisarão de líderes aptos para os conduzirem na longa marcha para a restauração e reconstrução daquilo que for perdido.   

Daí a ênfase que dou à formação de novos militantes revolucionários. Há uma tendência, disseminada principalmente pelas artes, a repetirmos, seis décadas depois, aquele momento em que parte da esquerda começou a se direcionar para a luta armada. como se a revolução cubana de 1959 pudesse ser reprisada em 2027. 

Foi trágico: perdemos muitos de nossos melhores combatentes a partir do instante em que o imperialismo  se mobilizou com força total contra nossas tímidas guerrilhas. Houve uns 20 companheiros que eu conhecia pessoalmente e foram assassinados pelo regime militar: um cruel desperdício de homens valiosos, morrendo pelas mãos sujas dos  ultradireitistas. 

Não devemos esquecer jamais que o heroísmo e o voluntarismo podem até nos garantir vitórias em algumas batalhas, mas o capitalismo acaba ganhando as guerras no médio ou longo prazo, usando armas como a descomunal desigualdade de forças e de riquezas, o consumismo e a lavagem cerebral da indústria cultural.

A correlação de forças tem de ser sempre levada em conta; quando ela é desfavorável demais,  precisamos ter serenidade para irmos acumulando forças à espera de melhores tempos.

Agora, como vimos no covarde extermínio de iranianos por parte dos EUA, é inimaginável mudarmos o Brasil com uma reprise da epopeia de Sierra Maestra, enquanto o inimigo conta com drones e com a excelência cibernética.  Eles perdem equipamento e nós sacrificamos vidas.

Mas, se conseguirmos engrossar nossas fileiras e só partirmos para o confronto quando o inimigo estiver enfraquecido pelas crises que se multiplicarão adiante, quem sabe? 

Lembro-me de que os bolcheviques eram irrisórios no início de 1917 e se tornaram preponderantes no final do ano, porque sabiam o que tinha de ser feito naquela situação crítica, com o país devastado pela derrota na primeira guerra mundial e pela herança maldita do czarismo.

Se não formos nós, de esquerda, os forjadores da nova vanguarda que se torna cada vez mais necessária, ninguém mais o será.

São Paulo, maio de 2026

Nenhum comentário:

Related Posts with Thumbnails