Assim, eu me reportava diretamente aos dois integrantes do Comando Nacional (o Ladislau Dowbor/Jamil e a Maria do Carmo Brito/Lia (esta de origem Colina) que faziam a ponte entre a cidade e o campo, onde o terceiro comandante nacional (o Carlos Lamarca/Cid) tratava de implantar a escola de treinamento guerrilheiro.
Mantinha-me em contato diário com os outros comandantes baseados no RJ, o Juarez Guimarães de Brito/Juvenal e o José Ronaldo Tavares de Lira e Silva/Roberto Gordo, responsáveis pelas nossas duas unidades de combate lá atuantes.
Já não era tratado como neófito inexperiente, mas aceito como igual pelos veteranos, pois sobreviver aos perigos diários durante quase um ano naquela fase da luta se tornara um marco inalcançável para muitos.
Depois, já pendurado no pau-de-arara, começava a ser realmente interrogado. E aí se iniciava a verdadeira batalha. Como a intensidade das torturas era demasiada, tinha de ir buscar nas minhas convicções mais profundas a força para nada dizer a esmo.
Sou sincero: não consegui depois reconstituir boa parte do que ocorreu comigo aqueles primeiros dias de tormentos. Mas recordo de que, mal me recolocavam na cela, caía num sono profundo. E os sonhos eram belíssimos, além de intensamente eróticos, como se fossem uma compensação pelo que eu estava sofrendo acordado.
Seja por ter conseguido trancar na minha mente os dados dos pontos que teria com os comandantes organicamente superiores a mim, bem como com os do mesmo escalão, seja porque não tinha nada para discutir de imediato com eles, o certo é que aqueles que, ao caírem, causaram mais danos à VPR, o fizeram antes de quando eu os encontraria. Por mérito ou por acaso, não foi graças a mim que a repressão ficou sabendo o suficiente para nos impor as quedas em cascata.
Mas não fui nem poderia ter sido capaz de convencer a repressão de que nada sabia. Para desviar a atenção dos inquisidores de nossos tesouros, fui obrigado a entregar-lhes algum calhau. O que me pareceu justificado naqueles momentos terríveis.
Que direito tinha eu de definir, por critérios utilitários, quem seria barbaramente torturado e talvez até morresse, expondo-o para preservar os líderes da nossa organização? Nenhum. Amaldiçoei-me por perceber isto tão tardiamente.
Após minha libertação, nunca mais cogitei voltar a assumir as mesmas responsabilidades como militante. Sabia que, se o fizesse, ficaria novamente conflitado face à questão de quais companheiros eram descartáveis e quais não. Uma vez já tinha sido demais.
Quanto à estigmatização que sofri, às vezes fico pensando que poderia ter provado a minha inocência muito antes se não carregasse tamanho remorso por, numa circunstância extrema, haver agido como o soldado que sempre obedece ao sargentão e não como o homem justo que procurava ser.
Que direito tinha eu de definir, por critérios utilitários, quem seria barbaramente torturado e talvez até morresse, expondo-o para preservar os líderes da nossa organização? Nenhum. Amaldiçoei-me por perceber isto tão tardiamente.
Após minha libertação, nunca mais cogitei voltar a assumir as mesmas responsabilidades como militante. Sabia que, se o fizesse, ficaria novamente conflitado face à questão de quais companheiros eram descartáveis e quais não. Uma vez já tinha sido demais.
Quanto à estigmatização que sofri, às vezes fico pensando que poderia ter provado a minha inocência muito antes se não carregasse tamanho remorso por, numa circunstância extrema, haver agido como o soldado que sempre obedece ao sargentão e não como o homem justo que procurava ser.
capítulo 2: o dilema das 2 áreas
Afinal, meu principal papel na organização era o de municiar os outros comandantes com informações e análises; e, como as prisões de alto escalão tiveram outras origens, a organização só poderia me recriminar a dissimulação a que eu recorria, sempre fingindo estar mais abalado pelas torturas do que realmente estava.
Até onde eu conseguia enganar os torturadores e até que ponto eles às vezes não iam às últimas consequências comigo por temerem que eu morresse? Jamais saberei ao certo, mas, dois dias depois da minha prisão, um velho militar suspeitou que eu estivesse passando mal e chamou o enfermeiro. Minha pressão deveria estar assustadora, pois logo me entupiram de calmantes e escalaram aquele oficial para conversar comigo e me tranquilizar.
Tudo me fazia crer que eu já estava prestes a ser transferido para finalização de inquérito em algum dos quartéis da Vila Militar quando, no dia 11 de junho, a VPR e a ALN sequestraram o embaixador alemão Ehrenfried von Holleben.
Os analistas da repressão mandaram agentes do Deops me interrogarem para a finalização do que constava a meu respeito nos inquéritos da VPR e da VAR-Palmares.
Bons burocratas, queriam deixar tudo prontinho para uma eventual retomada dos tais processos no futuro, pois havia companheiros que, após serem libertados por meio de sequestros, voltavam ao Brasil e à luta (geralmente, acabavam executados pela Operação Condor, como aconteceu com Joaquim Cerveira, que tinha sido meu companheiro de cela no DOI-Codi/RJ), caindo de novo nas garras dos algozes.
Éramos obrigados a repetir sem torturas tudo que eles haviam arrancado de nós mediante torturas, sendo esta versão indolor então encaminhada às auditorias militares. Se confirmássemos aquilo de que nos acusavam, tínhamos a incomunicabilidade quebrada e ficávamos aguardando julgamento em unidades militares civilizadas, ou seja, não integrantes da estrutura de terrorismo de estado criada para o combate à subversão e à luta armada.
Geralmente a transferência para uma unidade não-torturadora antecedia a tomada de depoimentos para fins jurídicos, assim a farsa ficava completa. Os relatórios sangrentos produzidos pelo DOI-Codi permaneciam secretos e os depoimentos que embasavam nossas condenações não tinham manchas de sangue.
Mas, com o sequestro do diplomata alemão em curso, nem se preocuparam em me transferir para outra unidade; pegaram meu depoimento no DOI-Codi mesmo. A própria repressão dava como favas contadas que meu nome estaria entre os 40 da lista de troca.
O avião partiu no dia 15 de junho e eu fui deixado para trás, sendo alvo inclusive de zombarias dos torturadores (Levaram até lastro no seu lugar!). Como eu atendia aos critérios para inclusão entre os libertados e não fora responsável por nenhuma prisão de quadro importante, logo imaginei que o veto a meu nome tinha algo a ver com a queda da área de treinamento guerrilheiro.
A localização da segunda área (a definitiva) por parte do DOI-Codi/RJ se deu em 18 de abril de 1970, um sábado, dois dias após minha prisão. Durante aquela tarde, houve uma reunião com a participação de uns 30 altos oficiais visitantes e eu fui conduzido até ela. Quando chegava na sala onde estavam reunidos, cruzei com integrante da VPR que dela estava saindo. Sua prisão ocorrera naquele sábado.
De mim queriam saber detalhes sobre a primeira área, a abandonada. Mas, o inusitado daquela reunião e a má ideia que tiveram de atar-me eletrodos nos dedos, criando a ameaça de choques elétricos, produziu efeito contrário.
Foi quando um dos oficiais visitantes suspeitou que eu estivesse passando mal e fez com que viesse o enfermeiro. Acabei não lhes servindo para nada, tanto que, ao me retirarem da sala, um dos oficiais comentou com outro que, de qualquer forma, eles já sabiam tudo que precisavam saber.
Depois, na segunda-feira, fomos ambos levados até Registro num jatinho da FAB, para ficarmos à disposição dos responsáveis pela caçada aos companheiros. Quando aterrissamos, nos separaram e nunca mais falei com tal pessoa.
Tinha quase certeza de que eu fora preterido na lista de troca por estar servindo de bode expiatório da delação da área; já quem tinha realmente fraquejado decolava com o prestígio intacto para a Argélia. Fiquei perplexo e indignado.
Continuei acreditando firmemente (até hoje!) na necessidade de uma urgente revolução anticapitalista, mas perdi para sempre a confiança cega nos companheiros.
Levei muito tempo para perceber que, num instante em que a VPR sofria a pior de suas crises de segurança e precisava repor com urgência os quadros que perdera, a verdade sobre quem entregara ao inimigo as joias da coroa teria um efeito devastador, dificultando ainda mais seus esforços para dar a volta por cima. Compreendi adiante o porquê, mas aos 18 anos não se aceita facilmente uma arbitrariedade dessas.
Eles acreditavam ter liquidado completamente a VPR naquele estado e devem ter ouvido poucas e boas dos superiores, pois haviam inclusive descoberto o plano para sequestrarmos o von Holleben e não lhe providenciaram proteção, provavelmente supondo que não existia mais ninguém para efetuar a proeza. Só que houve.
Um deles descarregou a raiva em mim. O oficial responsável pelo inquérito da VAR-Palmares viera tomar meu depoimento e um cão raivoso do DOI-Codi, ao passar pelo corredor, viu-me e perdeu a cabeça. Entrou na sala bufando e esmurrou-me tão violentamente pelas costas que me derrubou da cadeira e jogou a mesinha em cima do oficial visitante.
* * *
Apesar dos espancamentos, o que realmente me abalava nas torturas eram os choques elétricos. Também pudera: desde a juventude eu tinha tal sensibilidade aos choques que, em dias de chuva, os sentia quando utilizava os telefones públicos de ferro espalhados pela cidade e, ainda, quando viajava em ônibus elétrico.
Pior ainda era quando recebia choques pendurado no pau-de-arara. O sentimento de impotência era detestável. Certa vez um capitão me mostrou um cabo de vassoura e disse que ia me penetrar com ele. Acabou ficando só na ameaça, mas o fato é que, se ele a cumprisse, eu não poderia fazer nada. Estava completamente indefeso.
A falta de informações também me angustiava. Pensava que a eletricidade passando pelo pênis e escroto poderia me tornar impotente; e quando os fios eram pendurados nas duas orelhas e um raio avessava meu cérebro, receava ficar com problemas mentais. Bobagem.
Meu arrependimento forçado se deu no final de junho, momento no qual a equipe de torturadores da PE da Vila Militar que tinham sido afastados da caça aos subversivos se ressentia muito da perda de tudo que roubavam de nós e dos generosos prêmios concedidos por empresários ultradireitistas. Parecia o velho Oeste.
Mas a morte do jovem Chael Charles Schreier naquela unidade levou a repressão a unificar suas forças para evitar novos descontroles. No Rio de Janeiro só a PE da rua Barão de Mesquita manteve o privilégio, enquanto os torturadores da Vila Militar ficaram chupando os dedos.
Aí o tenente Ailton Joaquim, que comandava tais torturadores, teve a ideia de jerico de arrancar informações inéditas de mim e de outros presos da Inteligência da VPR, desrespeitando as ordens recebidas. Lá deveríamos apenas dar os depoimentos finais para a remessa do inquérito a alguma auditoria militar, mas um oficial ganancioso acreditou que, mostrando-se mais eficaz do que as equipes do DOI-Codi/RJ, poderia recuperar para sua unidade a boquinha perdida.
Pensei que seria apenas uma besteirinha pouco influente do setor de Guerra Psicológica do Exército, para ser distribuída impressa. Afinal, com as marcas de soco que eu tinha na cara, supunha que não fariam nada presencial comigo.
Ledo engano. Acordaram-me de madrugada dizendo para me vestir porque ia ser fuzilado. No trajeto, o capitão Ailton Guimarães Jorge (futuro bicheiro e bingueiro) disse que eu estava sendo levado a uma tevê e teria de repetir fielmente o que constava na minha carta aos jovens, caso contrário nem voltaria para o quartel: seria executado no caminho e jogado embaixo da ponte.
capítulo 4: Cesare e os Brutus
A prestação de solidariedade a perseguidos políticos é dever de todo revolucionário, embora a maioria tire o corpo fora. Eu não. Aceitei de imediato, sem ilusão nenhuma quanto a tão imensas seriam as dificuldades que enfrentaria.
Não deu outra. Passei dois anos e meio correndo o Brasil para fazer palestras; e participar de debates, mesas redondas e atos públicos em defesa do Cesare. Compareci às sessões de julgamento no Supremo Tribunal Federal para, se a decisão fosse pela extradição, reagir imediatamente, pois deveríamos contrapor nossa verdade às mentiras que vinham da Itália e eram repercutidas caninamente pela imprensa brasileira.
Esse livro impactou muito em mim quando o li, mas tantos outros haviam depois passado por minhas mãos que eu esquecera dele.
Quando afinal percebi que, de certa forma, estava tentando corrigir o passado, fiquei surpreso: estatisticamente, a possibilidade de um dia eu estar envolvido com um episódio semelhante era irrisória. Mais ainda pelo fato de eu ainda nem sequer ser de esquerda quando retirara aquele livro da biblioteca.
Não foi esta a única coincidência inverossímil. Apesar de minhas famílias paterna e materna não terem interesse pela política, um antepassado meu, Angelo Longaretti, havia assassinado um fazendeiro truculento que espancava seu pai. Num país imenso, pela segunda vez um estardalhaço desses se misturava com uma família de pacíficos ea paz. Pode? Pôde!
Tinham discutido pelo valor que o pai dele, um homem idoso, tinha a receber, pois a família estava de saída daquela fazenda. A isto se acrescentava o assédio que a filha sofrera de um dos filhos do mandachuva. Ao ver o seu pai agredido e aparentemente morto (tinha só desmaiado), Angelo o matou com um tiro anormalmente certeiro de uma garrucha velha e enferrujada.
A colônia italiana se mobilizou em peso, mas o julgamento foi de cartas marcadas. Não se providenciou sequer tradutor, de forma que as testemunhas de Angelo, também italianas de nascença ou de ambiente familiar, depuseram à toa.
O morto era irmão de Campos Sales, quarto presidente da República do Brasil, o qual tentou mudar a lei, com a introdução da pena de morte para que em seguida fosse aplicada retroativamente contra Angelo. Mas acabou desistindo dessa ideia estapafúrdia por pressão da Inglaterra, que atuava como uma espécie de guardiã da aplicação correta da lei noutros países.
Sem vínculo comigo, mas igualmente repulsivas, foram a decisão do STF favorável à extradição de Olga Benário Prestes para a Alemanha nazista, embora estivesse grávida de um brasileiro; e a omissão do ditador Getúlio Vargas, que dava a última palavra em casos como esse e poderia ter impedido tamanha infâmia.
A esquerda perdoa alguns ditadores que passam para o seu lado, como Vargas, que em 1950 se tornou nacionalista como retaliação aos EUA por terem, em 1945, apoiado sua destituição. Eu, que passei pelos porões de uma ditadura e quase morri, não perdoo ditador nenhum.
-- dos grandes atentados fascistas que ficaram impunes ou receberam sentenças ínfimas, começando pelo da Piazza Fontana em 1969 (16 mortos e 88 feridos) e culminando no Massacre de Bolonha (85 mortos e mais de 200 feridos);
-- da lei inacreditável que vigorou nos anos de chumbo italianos, prevendo prisões preventivas de até mais de 10 anos para os acusados de terrorismo, que bem poderiam ser inocentes;
-- pelo fato de que as acusações do governo do debochado Silvio Berlusconi contra o Cesare já estavam prescritas, mas o prazo foi maquilado para justificar a perseguição ao escritor;
-- pela buffonata de atribuírem a Battisti quatro assassinatos, dois dos quais simultâneos, sem levarem em conta que era humanamente impossível ele percorrer em tempo a distância entre duas dessas cidades (quando esse pequeno detalhe foi atirado na cara dos pubblici ministeri, eles alteraram a acusação para três homicídios cometidos pessoalmente e autoria intelectual do quarto),
Muitos exemplos semelhantes comprovam que na Itália, desde a morte de Aldo Moro, perdurava um estado de guerra secreta. Isto, num país sem passado fascista nem premiê execrável, justificaria uma anistia aos envolvidos ao invés de penas rigorosíssimas para uns e benevolentes para outros.
O pedido de extradição feito apela Itália ao Brasil desembocou numa guerra de versões até então nunca vista, entre a grande imprensa e as redes sociais.
Um episódio interessante foi eu logo ser convidado a entrevistar o Cesare sobre semelhanças e contrastes de dois guerreiros dos anos de chumbo.
O ministro Gilmar Mendes jamais consentiria, então tratei de entrar na Papuda acompanhando uma pessoa que tinha o direito de estar lá. Entrevistei-o longamente, anotando apenas uma palavra de cada resposta dele, para não dar na vista.
Nunca havia feito isso, mas consegui lembrar a entrevista inteira. Ela foi publicada no Congresso em Foco, que me contratara o serviço, e, depois de uma semana, massificada para que atingisse maior público. Coincidência ou não, foi nesse período que o Cesare começou a conquistar as redes sociais.
Quando entrei na batalha de opinião, trazendo a experiência das disputas encarniçadas do movimento estudantil, a coisa foi mudando de figura, Tentei várias vezes acelerar o processo desafiando o Mino a polemizar comigo, mas ele fugiu da raia. Propunha-se a duelar com o Zé Dirceu mas, quando eu levantava a luva que ele atirara no chão, dava uma de desentendido.
Escapou da derrota, mas não da corrosão de sua popularidade, Teve de abandonar o blog pessoal por não suportar os questionamentos que seus próprios admiradores lhe faziam.
Numa noite em que vários veículos da grande imprensa levaram ao ar reportagens altamente desfavoráveis ao Cesare, deixando forte impressão de que se tratava de uma ação concertada, consegui redigir, em pouco mais de uma hora, e enviar para minha rede uma refutação tão pertinente que acabaria sendo copiada por um grande número de portais e blogs. Foi o melhor texto que escrevi durante a campanha toda, aproveitando ao máximo o que aprendera no jornalismo.
Doutro lado, deixo registrado que, como relator do caso no STF, Cezar Peluso conseguiu alinhavar dezenas de motivos para enviá-lo à Itália e uns 2 ou 3 que o favoreciam. Foi o relatório mais parcial que eu vi em toda a minha carreira e em toda a minha vida.
O empenho de Gilmar Mendes (presidente da Corte) e Peluso (relator) em crucificar Battisti era desmedido. E, quando terminou o período de Mendes como presidente, foi substituído por... Peluso! E quem foi indicado por Peluso para assumir a relatoria? Ele mesmo: Gilmar Mendes!
Apesar de termos contra nós um país do primeiro mundo cujo presidente era um depravado ultradireitista que desperdiçava rios de dinheiro comprando a extradição; quase toda a grande imprensa brasileira; e adversários ocupando o tempo todo as duas cadeiras mais importantes do julgamento, vencemos.
O fator decisivo foi que jornalistas renomados, confiando em que eu respeitaria suas revelações em off, me transmitiram tudo que eu precisava saber sobre as intenções do Lula. Inclusive que ele dissera ao Gilmar Mendes que, se o STF decidisse extraditar o Cesare sem intervenção dele, o Lula repetiria a indignidade do Getúlio Vargas, deixando tal desfecho vergonhoso acontecer novamente; mas, se fosse dele a palavra final, não extraditaria.
Graças a isso, a escritora francesa Fred Vargas, o ex-integrante da Anistia Internacional na Argentina Carlos Lungarzo, o senador Eduardo Suplicy e eu conseguimos impedir que apoiadores desatinados da nossa causa lançassem uma campanha para o Lula retirar o processo das mãos do STF e decidir sozinho. Teria sido derrota na certa.
E movemos céus e terras para que os 4x5 que vínhamos recebendo nas votações anteriores se tornassem 5x4 para nós no tópico principal: se o Supremo decidiria sozinho ou a palavra caberia ao condutor das relações internacionais do Brasil (o presidente da República).
Como nas outras situações nas quais tal dilema havia sido discutido prevalecera a prerrogativa presidencial, fizemos campanha cerrada para que os defensores da tradição repetissem o voto dado noutras ocasiões.
Caso do Ayres Britto que, corajosamente, manteve seu posicionamento costumeiro, apesar de o Gilmar Mendes ter sido até deselegante no discurso irado com que tentou fazê-lo mudar o voto.
capítulo 5: UM DEBRAY BRASILEIRO
Não vejo necessidade de expor aqui, mais de meio século depois, a fundamentação econômica das famosas teses de Jamil. Exatamente pela difícil compreensão, não haviam despertado o interesse da grande maioria dos militantes da VPR.
O que me pareceu um verdadeiro ovo de Colombo foi sua conclusão. Se não, vejamos.
A esquerda brasileira se dividia de forma exacerbada entre dois segmentos. Um, o que prevalecia acentuadamente antes do golpe de 1964, acreditava na necessidade de uma etapa inicial, democratico-burguesa. na nossa revolução, para extirpar resquícios feudais que ainda continuariam existindo no campo.
Como consequência, os camponeses também estariam entre os sujeitos revolucionários e haveria uma burguesia nacional que poderia ser nossa aliada durante a luta.
O outro, cujos adeptos eram principalmente os esquerdistas empenhados em aprofundar os motivos da derrota infame diante da quartelada castellista, via o Brasil como um país definitivamente capitalista, cuja burguesia se atrelava à sua congênere internacional e cujos sujeitos revolucionários seriam os explorados das cidades e dos campos (os últimos lutando não pela posse individual da terra, mas para dela disporem visando à produção coletiva).
Argumentou que, ao contrário dos modelos estrangeiros (principalmente a revolução russa de 1917), não havia no Brasil nenhuma força de esquerda capaz de ser a dominante naquele momento, tal qual o Partido Comunista Brasileiro havia sido durante quase meio século, após vencer a disputa com os anarquistas na década de 1920 e incorporar parte deles às suas fileiras..
Então, a revolução brasileira só teria alguma chance de êxito se iniciada pelo conjunto de forças de esquerda, cada uma dando a contribuição a seu alcance, até que, ao longo do processo, alguma se afirmasse (ou não) como a principal.
-- nessas circunstâncias, os três remanescentes do Comando Estadual decidimos não realizar a conferência preliminar do Congresso da VAR-Palmares na qual seriam escolhidos os dois delegados de SP, avocando a indicação (eu e o Moisés optamos por nós mesmos);
-- o terceiro comandante de SP se uniu, então, aos dois comandantes nacionais que víamos como néo-massistas, dando-lhes a justificativa para um contra-ataque em que fomos, eu e o Moisés, tratados como golpistas e tivemos nossa delegação anulada;
-- no transcurso do Congresso da VAR-Palmares, contudo, o comandante Carlos Lamarca concluiu que a organização estava mesmo esvaziando a montagem da coluna guerrilheira e priorizando implicitamente o crescimento nas cidades, então encabeçou o chamado racha dos sete (o Moisés e eu inclusos), que encampou as principais propostas de nós dois: a volta à identidade de VPR e a adoção das Teses de Jamil como plataforma política.
De resto, eu não poderia deixar de reivindicar o papel que desempenhei no racha dos sete. Ele foi geralmente escamoteado nas histórias contadas por outros autores, mas nada do legado que pretendo a duras penas deixar para a esquerda brasileira faria muito sentido sem levar-se em conta a origem da estigmatização que eu sofrera, nem o porquê de eu ter-me tornado uma espécie de lobo solitário.
O primeiro ainda no tempo do movimento secundarista, quando fomos à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na rua Maria Antônia, para acompanhar uma assembleia que discutiria como o movimento estudantil daria seu apoio à greve de Osasco (a primeira com a tomada de fábricas, seguida pela ocupação da cidade por numeroso contingente de policiais militares).
Os quatro chegamos adiantados e estávamos esperando o começo da assembleia quando vimos o cantor e compositor Geraldo Vandré no saguão de entrada, sendo hostilizado pelos universitários.
Era meu ídolo desde que ouvira pela primeira vez sua Canção Nordestina. Depois de descrever a situação de penúria de seu povo (é paraibano) ele lançou um grito que começava baixo mas ia crescendo até me fazer estremecer: E essa dor no coração/ aaaaaAAAAAAIIIIII, quando é que vai se acabar? Quando é que vai se acabar?
Então o Vandré, para surpresa geral, ajudou o Sodré a escafeder-se, indo se abrigar na catedral da Sé. A foto dessa ajuda foi publicada na capa da Folha da Tarde e, por não saberem que o Sodré era velho amigo do artista, os universitários passaram a xingar o Vandré de traíra.
Bem mais tarde, um companheiro confiável me contou que, quando trabalhava na Imprensa do governo paulista, constatara que o Sodré abrigava o Vandré em pleno Palácio dos Bandeirantes. Era raro um político profissional correr o risco de esconder alguém caçado pela repressão.
O bate-papo com ele durou algo entre duas e três horas. Canções foram cantadas e o Vandré nos mostrou a que ele estava então criando, os versos escritos num papel grande de embrulhar pão, com várias palavras riscadas e substituídas por outras. Era a Caminhando.
Ou seja, ficamos conhecendo previamente a canção que seria símbolo da luta contra a ditadura militar e faria os milicos destruírem a vida do Vandré.
Quando a Caminhando (ou Pra não dizer que não falei das flores) se tornou quase um hino revolucionário, ninguém ou quase ninguém ficou sabendo que a música havia sido composta pelo Vandré para reafirmar suas convicções, tipo eu continuo o mesmo e ainda acredito nas mesmas coisas.
-- que, embora passasse por louco, o Vandré falava coisa com coisa. Disse, p. ex., que a Caminhando poderia voltar a ser sucesso na voz da Simone, mas ele não deveria voltar junto. Ou seja, insinuava que poderia ser retaliado pela repressão ou alvo dos atentados terroristas de extrema-direita que estavam ocorrendo;
-- que só voltaria a cantar no território nacional quando aqui vigesse a plenitude democrática (e honrou sua promessa, indo apresentar-se no Paraguai, ainda que bem próximo da fronteira com o Brasil);
Eu gostaria de haver lançado um texto atestando que o Vandré não estava biruta, mas a ocasião não se apresentou. Só o fiz após a devolução do poder à cidadania.
Mas, quando o jornalista Vitor Nuzzi lançou uma biografia do Vandré, reacendendo a discussão sobre o equilíbrio mental do artista, eu publiquei uns 10 artigos rechaçando tal hipótese.
Um dos meus principais argumentos foi o de que, ao desembarcar no Galeão em 1973, policiais praticamente o sequestraram e o internaram numa clínica carioca na qual ele permaneceu 58 dias sem poder falar com parentes, advogado ou demais pacientes. O que terá acontecido com ele nesses 58 dias de incomunicabilidade?
O também músico Benito di Paula teve a mesma dúvida e a expressou nestes versos: O que fizeram com ele? Não sei./ Só sei que esse trapo, esse homem, foi um rei.
* * *
Em dezembro desse mesmo ano, Jards Macalé reuniu muitos dos melhores músicos da época num show comemorativo dos 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A gravadora RCA tentou lançá-lo em 1974, com o título de O banquete dos mendigos, mas foi proibido pela censura e recolhido nas lojas.
Com a distensão do ditador Geisel, ele foi lançado em 1979 e eu finalmente fiquei conhecendo a canção Cachorro Urubu. E, ao escutar Raul Seixas a interpretando, foi como se um raio me atingisse. Os versos alusivos ao maio de 1968, a primavera de Paris, eram um arraso: Todo jornal que eu leio/ me diz que a gente já era/ que não é mais primavera/ oh, baby, a gente ainda nem começou.
Depois fiz questão de ir numa coletiva de imprensa do disco Abre-te, Sésamo, e o Raul estava hilário. Então, ao escrever sobre o novo LP, gastei só umas 8 linhas com a parte comercial e umas 50 reproduzindo o que havia rolado no almoço com o Raul, a Kika (última namorada da vida dele) e o divulgador da CBS.
Os artistas quase nunca mandavam um obrigado! pelo que jornalistas tinham escrito sobre eles. O Raul foi uma exceção, ligando para me convidar a uma boca livre da CBS. Tornamos a nos ver mais duas ou três vezes, mas, como não se podia estar com o Raul sem tomar pelo menos metade do que ele bebesse, esqueci quase tudo que conversamos.
O que eu percebi dele é que, como eu, tinha 1968 como um grande referencial de sua vida. A coisa era exatamente como ele contou em Ouro de tolo: dera um duro danado para chegar onde estava e aí viu que não era exatamente isso que queria na vida (Eu é que não me sento/ no trono de um apartamento/ com a boca escancarada, cheia de dentes/ esperando a morte chegar).
Na minha opinião, o Raul sonhara com sua consagração musical ocorrendo numa época igual a 1968, mas o que obtivera foi a necessidade de ajustar-se a uma sociedade aviltada e detestável.
Quando estávamos nos embriagando, ele não fazia nenhuma das palhaçadas que ajudavam a vender discos. Era bem diferente de sua imagem pública.
Finalmente, fiz uma entrevista inesquecível com D. Paulo Evaristo Arns, a quem respeitava pelo seu destemor ao enfrentar a ditadura militar e a hierarquia católica conservadora. Mas em algum momento a parte formal deu lugar a um papo franco sobre nossas histórias de vida. Isto foi antes de minha reabilitação.
Depois, digerindo na memória tudo que ocorrera, lembrei-me do seu olhar determinado, que brilhava ao falar sobre seus grandes momentos, como a missa de sétimo dia que ele rezou em memória de Vladimir Herzog, dividindo o púlpito com sacerdotes de duas outras confissões, sem deixar-se intimidar em nenhum momento. Tinha alma de guerreiro.
capítulo 7: PT expulsa o PT
Percebi desde cedo que o Partido dos Trabalhadores era meramente reformista, mas, para não dividir as fileiras da esquerda, tentei manter com o PT uma coexistência pacífica.
A salomônica decisão foi a de que Venceslau errara ao vazar um assunto interno para a imprensa burguesa, enquanto Roberto Teixeira deveria ser investigado como corruptor.
Se em outras agremiações partidárias comportamentos de tal natureza costumam ser aceitos como normais ou não qualificados como dignos de repreensão, no PT comportamentos dessa natureza se colocam como descabidos e inaceitáveis.
De resto, o destino fez questão de dar um final diferente para essa história, pois em 2017 os mesmos personagens (Odebrecht, Lula, PT e Roberto Teixeira) foram emporcalhados por uma delação premiada referente a corrupção. Vinte anos depois, continuavam os mesmos...
A entrada no novo milênio me fez sentir uma necessidade imperiosa de construir uma vida diferente. Minha primeira esposa sofrera uma grande desilusão (não por minha causa) e, quando eu chegava do trabalho a encontrava sempre assistindo à TV no nosso quarto de dormir. Ela não ligava para mais nada.
Eu percebi que não aguentaria por muito tempo tais marasmo e prostração, mas não sabia como ajudá-la. A opção era ser tragado por aquele abismo sem fundo ou me salvar sozinho.
A virada de milênio acrescentou a peça que faltava no quebra-cabeças: resolvi ser pai biológico. Por que uma mudança dessas da noite para o dia? Ignoro. Talvez por ter-me tornado cinquentão quando havia aquele clima todo de um novo milênio.
O certo é que nós havíamos adotado uma nenê, fizemos tudo que podíamos para ela ter um bom futuro, mas aos 15 anos ela se tornou mãe. Ficara seduzida pelo modo de ser dos jovens que frequentavam a pracinha defronte o nosso prédio, na linha do seja marginal, seja herói. Em questão de um mês sua cabeça mudou para sempre.
Acabamos tendo a filha por mim sonhada, mas minha felicidade durou os 21 meses em que moramos juntos. Nossa separação foi um dos piores episódios pelo qual passei. Fiquei arrasado.
Sem que eu pretendesse, enquanto ainda estava lambendo as feridas, conheci outra moça que me quis como parceiro. Mas, a mudança de vida me deixara com pouca grana e para piorar, o mercado jornalístico estava em crise e logo fiquei desempregado. Os quase três anos seguintes foram um pesadelo.
A minha ex resolveu me processar, embora eu não tivesse as mais remotas condições de pagar-lhe pensão. Mas um juiz desatinado, sem eu sequer saber que o processo estava rolando, me condenou à prisão. O argumento da minha ex foi de que um jornalista conhecido como eu deveria estar ganhando grana com frilas. Não apresentou prova nenhuma do seu palpite.
Foi o momento em que eu mais estive tentado a partir para o tudo ou nada. Se realmente me viessem prender, reagiria entrando imediatamente em greve de fome, e fosse o que o destino quisesse. Mas, sabe-se lá o motivo, não vieram.
Desde minha prisão em 1970 eu tinha a estranha sina de chegar à beira do precipício, mas algo me impedir de cair. Aconteceu de novo. Um velho amigo ressurgiu e me emprestou o necessário para eu e a minha namorada atravessarmos o temporal.
E a dona da imobiliária que cuidava do aluguel de nosso precário apê fez algo raríssimo na sua profissão: convenceu a proprietária a dar-me mais tempo antes da ação de despejo. Cheguei a ficar devendo três meses de aluguel.
Nessa fase, recebia apoio legal de um conhecido que não estava à altura da gravidade da minha situação, mas fez o possível, morrendo de medo de que, por falha dele, eu acabasse preso.
E foi ele que me contou que estava sendo criada a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, que era sob medida para um ex-preso político com tímpano estourado nas torturas.
Só que a audiência em que meu caso seria apreciado nunca chegava. Verifiquei as regras do programa e vi que o primeiro critério para a marcação de julgamentos era a condição de desempregado.
Por sorte, eu havia comunicado à Comissão a perda do meu emprego, então pela primeira vez acreditei que o milagre estava próximo.
No entanto os meses se passavam sem eu entrar na pauta de julgamentos e, ao saber da excessiva reparação do direito de furar a fila concedidos ao jornalista e escritor Carlos Heitor Cony, pesquisei outros casos e constatei que as regras estavam sendo descumpridas em benefício de famosos e de amigos da miríade de reis. Era óbvio o favorecimento a alguns enquanto nós outros comíamos o pão que o diabo amassou.
Em desespero de causa, parti para a luta pública, endereçando mensagens às comissões da Câmara e do Senado, ao Ministério Público Federal, à Auditoria Geral da União e outros órgãos afins, além de comunicar amiúde a evolução de meu caso à imprensa.
Chegou então um momento em que minha luta começava a repercutir nos canais acionados e na mídia. Quando o Ministério Público pediu explicações à Comissão, esta finalmente pautou meu julgamento, antes que o estrago ficasse maior.
Mas as pensões mensais vitalícias só eram concedidas a quem tivesse sofrido perdas financeiras irreparáveis (um critério absurdo, aliás, pois danos à integridade física eram muito mais graves), então num primeiro julgamento recebi apenas uma indenização em parcela única de R$ 50 mil. Não dava nem de longe para eu reconstruir a minha vida.
Apelei, apresentando prova de que a minha entrada na clandestinidade impedira-me de trabalhar num emprego com o qual eu já estava apalavrado.
Avaliando o meu e outros casos noticiados na imprensa, entendi depois o motivo de minha dificuldade em fazer o julgamento acontecer: simplesmente a Comissão ignorava que meu arrependimento havia sido forçado e que eu continuava um revolucionário, mesmo depois de ter passado pelo inferno do DOI-Codi.
Mas o que eu escrevia e aparecia na imprensa mostrou-lhe o erro que estavam cometendo. Quando finalmente lhes caiu esta ficha, marcaram de imediato minha data.
O julgamento definitivo se deu em meados de 2005 e eu mais uma vez fui apresentar a minha causa sozinho. Não tinha grana para advogado, nem para pagar o voo de São Paulo para Brasília. Ia de ônibus mas os horários não me serviam, então era obrigado a pegar o último da véspera e a passar muito tempo fazendo hora até a abertura da sessão à tarde.
E veio o julgamento. O representante das Forças Armadas na Comissão faz tudo que pôde para me prejudicar, em vão. Eu sofrera muito para chegar àquele ponto e lutei com unhas e dentes para não vê-lo escapar entre os dedos.
E, como quase todos os anistiandos se faziam representar por advogados, a presença de um ex-guerrilheiro que os dispensava e defendia a própria causa despertava curiosidade.
Mas, tão ocupado estava em duelar com pessoas que tinham formação jurídica, que em nenhum momento eu percebi que os trabalhadores subalternos (taquígrafa, encarregada do cafezinho, pessoal da limpeza, etc.) torciam por mim.
Quando consegui a vitória, todo o cansaço acumulado desabou sobre mim. Saí daquela sala enfumaçada e desabei no primeiro banco que encontrei no saguão.
CAPÍTULO 9: UMA CACIMBA NA MEGALÓPOLE
Outra virada do destino ocorreu quando eu trabalhava na agência do Lemos Britto, produtor do primeiro programa televisivo de debates que a ditadura permitia desde o AI-5, o Diálogo Nacional.
Num fim de tarde, o Franklin Machado, jornalista da Tribuna de Santos, chegou bem adiantado para participar do programa e me coube ficar fazendo sala para ele.
Constatamos que pensávamos igual sobre muitos assuntos, então ele me convidou para conhecer o Mozart Menezes, líder do grupo Cacimba, que começara prestando assistência aos nordestinos que chegavam para trabalhar em São Paulo, depois mudou o foco para um ponto de encontro e convivência dos esquerdistas que precisavam manter o ânimo e a serenidade em meio à ditadura militar. Fazia edições alternativas de livros e de jornais, organizava espetáculos de poesia, festas, etc.
Depois o Mozart me confidenciou que os dirigentes do partido clandestino ao qual ele pertencia fizeram pressão para que não comparecesse ao encontro marcado comigo, mas ele respondeu que jamais julgaria um ser humano na base do disse-me-disse.
Quatro foram presos e muito hostilizados na prisão, afora existirem boatos de que os explosivos roubados de uma pedreira serviriam para causarem uma rebelião no presídio e, aproveitando a confusão. assassinarem os quatro de Salvador (como eles haviam sido apelidados pela imprensa).
Em desespero de causa eles resolveram entrar em greve de fome, marcada para dentro de dois dias. Mas, não havia esquema nenhum para fazer tal protesto repercutir na imprensa.
Eu era o único com know-how para desempenhar tal papel, então me voluntariei. E passei dias horríveis batendo em portas fechadas e temendo danos que viessem a sofrer porque eu não estava sabendo direito como os socorrer.
O problema principal era que pertenciam ao PT como fachada e ao Partido Comunista Brasileiro Revolucionário por baixo do pano. Já então se distanciando da esquerda combativa, o PT não só expulsou os quatro como fez tudo que pôde para que a esquerda os ignorasse.
A preocupação petista era de que o partido perdesse meia-dúzia de votos na eleição que se aproximava. Negava-lhes a solidariedade revolucionária por já então estar abdicando da prática anticapitalista, embora não tão descaradamente como hoje em dia.
Então, a direita estava explicitamente contra eles e a esquerda, implicitamente. Qual a mais ignóbil?
Fiz uma infinidade de tentativas até que uma resultou, meio por acaso mas premiando meus esforços.
No dia seguinte ele escreveu que o ministro pedira ao governador baiano que desse um jeito para a greve de fome terminar sem que ocorresse uma desgraça. Os quatro receberam garantia de que sua segurança seria preservada e foram autorizados a trabalhar durante o dia e apenas pernoitarem no presídio.
Vitória sofrida, mas gratificante: quando já se havia esgotado a munição de que eu dispunha para salvar os companheiros, um acaso jogou a vitória no meu colo!
Eu continuava petista, mas numa reunião em que se discutia política para justificar a presença dos filiados que endossariam uma medida administrativa, um dirigente do PT aproveitou o intervalo para conversar com uns cinco vaquinhas de presépio lá presentes.
Recomeçados os trabalhos, os cinco passaram a me atacar de forma raivosa e o tal dirigente afirmou que os quatro de Salvador e eu éramos todos cachorros loucos.
Foi quando desliguei-me do PT, não sem antes lançar um artigo intitulado Os cachorros loucos e os lulus de madame.
* * *
Como prêmio seria recebido no Partido Comunista do Brasil para reatar minha militância, começando por baixo (aliado ou simpatizante). Pensei até em aceitar, tamanha era minha vontade de pertencer de novo a um círculo da esquerda militante.
Mas surgiu um pomo da discórdia: se eu relatasse fielmente como havia sido injustiçado pela VPR, o PCdoB temia que estaria comprometendo a imagem de mártires da luta contra a ditadura.
Por minha vez, aceitando tal proposta eu passaria recibo de que as acusações que me faziam eram verdadeiras. Queria, sim, voltar, mas respeitado, não como um coitadinho. Não houve acordo.
Mas em 1979, quando voltei a estudar para completar o curso de jornalismo que me livraria de perseguições do sindicato da categoria por estar exercendo a profissão sem diploma de nível universitário, não passou nem um mês e eu era convidado a participar de uma reportagem da IstoÉ sobre os arrependimentos de esquerdistas. Eu concordei e fui o mais incisivo na crítica às práticas do terrorismo de estado.
Em seguida o jornal gaúcho Zero Hora fez uma série de reportagens sobre o mesmo assunto e novamente botei a boca no trombone. Aos leitores que estejam estranhando meu desmentido da ditadura em plena ditadura, lembro que em março de 1974 o carniceiro Emílio Médici deixara de torturar o Brasil, substituído pelo pacificador Ernesto Geisel. Eu continuava correndo algum perigo, mas bem menor do que no governo anterior.
Tive de escutar, contudo, esta advertência de um jornalista reacionário: vem vindo um tempo ruim para os esquerdistas, principalmente para os que já estiveram presos. Desconversei.
Já a participação na reportagem da IstoÉ tinha mesmo sido temerária, mas eu nunca perderia a oportunidade de divulgar as circunstâncias do meu arrependimento forçado, uma pedra dolorosa no meu sapato.
Em 1994, contudo, algo que escrevi caiu mal para os petistas. Coincidência ou não, logo depois a Folha de S. Paulo publicou na Ilustrada uma reportagem do Marcelo Paiva que não tinha nada a ver comigo e nela foi encaixado, na base da forçação de barra, um trecho me acusando gratuitamente de delator da área de treinamento da VPR.
Foi o momento em que comecei a obter mais manifestações de apoio de esquerdistas.
Tudo que eu semeara floresceu quando encontrei e divulguei um relatório de operações do II Exército, no qual constava que a localização da área ativa tinha sido revelada por alguém preso no dia 18 de abril, indiretamente me inocentando, já que eu caíra no dia 16. Mas como fazer isso repercutir amplamente nos círculos de esquerda?
Tive a ideia de levar o tal relatório ao Jacob Gorender, o principal historiador da luta armada brasileira. Meio desconfiado, ele disse que tinha mais documentos secretos sobre o assunto, iria consultá-los e me daria retorno.
Bem mais cordial, dias depois ele me telefonou para informar que eu tinha razão e que comunicaria isto à Folha de S. Paulo e a O Estado de S. Paulo. A Folha publicou na íntegra a carta do Gorender.
Fui o único combatente da luta armada que conseguiu provar que havia sido acusado injustamente. Fim do pesadelo que durante 34 anos prejudicou minha imagem de revolucionário.
Mas, ainda havia lutas a ser travadas e, mesmo com a idade de 57 anos, sobrava-me disposição para travá-las.
Após ter terminado meu relacionamento com a V., não por acaso, comecei a consumir mais as drogas. Outro amigo do tempo da Frente Estudantil Secundarista se tornara traficante e não cobrava nada de mim.
Também foi nessa fase que passei a contestar o líder da comunidade, por me parecer autoritário e stalinista. De certa forma, revivi o drama histórico do confronto entre Stálin e Trotsky, influenciado pelos livros do Isaac Deutscher sobre o desvirtuamento da revolução russa. Era uma espécie de psicodrama, que teve papel importante na minha volta à normalidade plena.
Uma viagem estranha simbolizou o esgotamento dessa fase: vi-me caminhando na direção de uma ponte e sabia que, se a atravessasse, passaria o resto da vida na dimensão paralela da loucura. Refleti durante alguns minutos e resolvi não transpor a ponte.
A comunidade se esfacelou pouco tempo depois. Eu aluguei uma quitinete para morar com a minha primeira namorada, a A., da qual me reaproximara.
Teria chegado ao fim de minha inquietação e combatividade? Não, ainda tinha páginas a escrever no livro da vida.
capítulo 10: o racha da VAR-Palmares
Tal consciência me fez ficar bem mais preocupado com o legado que deixaria para os pósteros, pois não tinha certeza de quanto tempo me restava para produzi-lo, nem sabia se teria condições para reproduzir fielmente o que vivenciara lutando pelos ideais revolucionários.
Talvez haja sido mais eficiente em forjar meu legado na ação concreta do que em colocá-lo na tela e no papel como uma espécie de autobiografia precoce (lembrando o livro de Yevgeny Yevtushenko que tanto me impressionou quando eu ainda era um aprendiz nas lutas sociais). Pois é disto que se trata: dar, ainda vivo, uma interpretação final da minha trajetória no bom combate.
Espero que este balanço da minha jornada sirva da inspiração para os que virão depois, já que é remota a perspectiva de ver em vida germinarem as sementes revolucionárias que plantei.
Tudo começou na virada de 1967 para 1968, quando, depois de uns poucos dias de imersão, junto com outros recrutas, nas obras dos papas do marxismo (bem no estilo do filme A Chinesa, do Godard), decidi dedicar a minha vida à revolução.
Mal acabara de completar 18 anos, portanto poderia estar apenas lançando palavras ao vento. Mas, no meu íntimo, já a considerava uma missão para a vida inteira.
A coisa começou a mudar de figura com o AI-5, que marcou a transição da ditadura militar para o terrorismo de estado pleno, tornando a militância revolucionária quase kamikaze. Não ignorávamos os riscos que correríamos com a radicalização repressiva e, mesmo assim, os oito líderes da Frente Estudantil Secundarista na zona leste paulistana optamos por seguir adiante.
Aí sim se estabeleceu uma diferenciação, pois muito maior foi o número dos passeateiros que se omitiram quando a radicalização ditatorial deu um salto qualitativo com o AI-5. Eles preferiram não encarar o combate nas trevas.
Nosso grupo de jovens (o mais novo com 17 anos e o mais velho com 21) preferiu enfrentar os perigos bem maiores que passaram a existir para quem estava na linha de frente, descartando a autopreservação pusilânime. As mortes de dois dos nossos, Eremias Delizoicov e Gerson Theodoro de Oliveira, foram um dos preços que pagamos por nosso destemor. A prisão e as torturas que cinco de nós sofremos, outro.
Tereza Ângelo foi poupada de ambas, mas se tornou paranoica, imaginando estar sendo perseguida pela repressão mesmo após o fim da ditadura. Não foi por pouca coisa: teve seu companheiro e seu irmão assassinados pelos exterminadores do regime.
Mal acabávamos de ser admitidos na Vanguarda Popular Revolucionária, em abril de 1969, fui surpreendido pela inesperada designação para alçar-me ao segundo escalão da VPR, abaixo apenas do Comando Nacional.
Aluguei um apartamento em parceria com outro comandante estadual, o José Raimundo da Costa/Moisés, pelos prosaicos motivos de que a grana estava curta para ambos e meu nome real poderia ser usado no contrato de locação, pois ainda não caíra.
A convivência com o Moisés, um remanescente das escaramuças da marujada contra a direita golpista no pré-1964. me permitiu tomar rapidamente conhecimento da história da VPR e de suas lutas internas.
Ele tinha na ponta da língua cada detalhe e eu sede de conhecer o passado da organização. Também me interessavam muito os acontecimentos do período em que a esquerda deixara a épica vitória de 1961 se transformar na derrota sem luta de 1964.
Graças ao Moisés, me familiarizei com a encarniçada disputa de poder interno ao longo de 1968, entre as chamadas tendências militarista e massista, a primeira priorizando as ações armadas contra a ditadura e a segunda insistindo na manutenção de vínculos orgânicos com os movimentos de massa.
O acerto de contas acabou ocorrendo no início de 1969, paralelamente à pior crise de segurança até então enfrentada pela VPR, com quedas de alguns de seus quadros mais importantes.
Houve, em seguida, aquele congresso na praieira Mongaguá, para colocar a casa em ordem. Foi quando Carlos Lamarca se tornou o líder explícito da organização. E eu, que deveria apenas presenciar as discussões como convidado, acabei recebendo o mesmo direito de palavra dos 12 participantes.
Eu era, certamente, o mais subestimado de todos, mas o meu patamar hierárquico inspirava respeito. As chamadas Teses de Jamil já não podiam ser ignoradas e mantidas desdenhosamente à parte do debate das propostas estratégicas a serem discutidas no Congresso de Teresópolis, tanto que neo-massistas correram a lançar documentos refutando-as agressivamente. A luta interna voltava com força total.
Assim como a Resistência francesa na segunda guerra mundial, não vencemos, mas salvamos a honra do nosso país.
-- nessas circunstâncias, os três remanescentes do Comando Estadual decidimos não realizar a conferência preliminar do Congresso da VAR-Palmares na qual seriam escolhidos os dois delegados de SP, avocando a indicação (eu e o Moisés optamos por nós mesmos);
-- o terceiro comandante de SP se uniu, então, aos dois comandantes nacionais que víamos como néo-massistas, dando-lhes a justificativa para um contra-ataque em que fomos, eu e o Moisés, apresentados como golpistas e tivemos nossa delegação anulada;
-- no transcurso do Congresso da VAR-Palmares, contudo, o comandante Carlos Lamarca concluiu que a organização estava mesmo esvaziando a montagem da coluna guerrilheira e priorizando implicitamente o crescimento nas cidades, então encabeçou o chamado racha dos sete (o Moisés e eu inclusos), que encampou as principais propostas de nós dois: a volta à identidade de VPR e a adoção das Teses de Jamil como plataforma revolucionária.
De resto, eu não poderia deixar de reivindicar o papel que desempenhei no racha dos sete. Ele foi geralmente escamoteado nas histórias contadas por outros autores, mas o legado que pretendo a duras penas deixar para a esquerda brasileira ficaria bem prejudicado se não levasse em conta a origem da estigmatização que eu sofrera, nem o porquê de eu ter-me tornado uma espécie de lobo solitário.
Agora me caiu a ficha de que raríssimos revolucionários conseguem realizar algo tão grandioso como aquele com o qual sonhavam. Nem sequer algo duradouro. Desde a Comuna de Paris nossas vitórias têm sido temporárias e nossas derrotas, devastadoras.
Mesmo assim, não me arrependo do rumo que segui e das opções que fiz. Sou incapaz de imaginar-me como um homem egoísta, movido por ambições menores, indiferente às vítimas do terrorismo de estado que assolou o Brasil.
Quando, nas minhas palestras, alguém me perguntava se tinha valido a pena sacrificar tanto para obter tão pouco, eu respondia que já era deplorável um país de 90 milhões de habitantes haver apenas uns 3 mil dispostos a correr os riscos de lutar pela liberdade, ainda que seja em enorme desigualdade de forças; menos do que isto seria vergonhoso.
Assim como a Resistência Francesa não conseguiu vencer os nazistas (as tropas aliadas é que o fizeram) mas salvou a honra da França, nós não acabamos com a ditadura nem fizemos a revolução, mas salvamos a honra do Brasil. Depois de tanta derrota sem luta, finalmente uns poucos enfrentamos a repressão na praia dela, o campo de batalha, e até obtivemos êxito em alguns momentos.
Cedo percebi que, depois de destruída a VPR, não havia mais dirigentes que fizessem questão de que eu fosse mantido como bode expiatório de fatos ocorridos em 1970. O problema era eu não aceitar a infalibilidade dos comandantes. Minha reabilitação implicaria o reconhecimento de uma injustiça dos mandachuvas, ainda que de outra organização, e era isto que os incomodava.
Mas ceder a eles seria a negação de tudo que aprendera na prisão quando, finda a fase das torturas, refletia longamente sobre o que acontecera conosco. Era difícil eu aceitar que, embora estivéssemos basicamente certos, houvéssemos sofrido tamanho massacre.
Como começarmos a desconstruir tal colosso? Minha única certeza é de que não será a partir das eleições de cartas marcadas da democracia liberal. São um engodo. Reproduzem infinitamente o capitalismo, mesmo no seu estado terminal de hoje em dia.
Tantos espertinhos já se proclamaram corregidores de Marx, mas a contradição básica do capitalismo permanece a mesma: ao descolar a produção do consumo, permite que uma parte dos indivíduos viva de forma nababesca e outra parte seja reduzida à pobreza. Então, entre a extrema pobreza e a pobreza em países de renda média, cerca de 44% da população mundial são pobres. Os ricos, aproximadamente 10%.
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