Tal consciência me fez ficar bem mais preocupado com o legado que deixaria para os pósteros, pois não tinha certeza de quanto tempo me restava para produzi-lo, nem sabia se teria condições para reproduzir fielmente o que vivenciara lutando pelos ideais revolucionários.
Talvez haja sido mais eficiente em forjar meu legado na ação concreta do que em colocá-lo na tela e no papel como uma espécie de autobiografia precoce (lembrando o livro de Yevgeny Yevtushenko que tanto me impressionou quando eu ainda era um aprendiz nas lutas sociais). Pois é disto que se trata: dar, ainda vivo, uma interpretação final da minha trajetória no bom combate.
Espero que este balanço da minha jornada sirva da inspiração para os que virão depois, já que é remota a perspectiva de ver em vida germinarem as sementes revolucionárias que plantei.
Tudo começou na virada de 1967 para 1968, quando, depois de uns poucos dias de imersão, junto com outros recrutas, nas obras dos papas do marxismo (bem no estilo do filme A Chinesa, do Godard), decidi dedicar a minha vida à revolução.
Mal acabara de completar 18 anos, portanto poderia estar apenas lançando palavras ao vento. Mas, no meu íntimo, já a considerava uma missão para a vida inteira.
| Colegas no primário e depois companheiros de militância |
A coisa começou a mudar de figura com o AI-5, que marcou a transição da ditadura militar para o terrorismo de estado pleno, tornando a militância revolucionária quase kamikaze. Não ignorávamos os riscos que correríamos com a radicalização repressiva e, mesmo assim, os oito líderes da Frente Estudantil Secundarista na zona leste paulistana optamos por seguir adiante.
Aí sim se estabeleceu uma diferenciação, pois muito maior foi o número dos passeateiros que se omitiram quando a radicalização ditatorial deu um salto qualitativo com a assinatura do AI-5, preferindo não encarar o combate nas trevas.
Nosso grupo de jovens (o mais novo com 17 anos e o mais velho com 21) preferiu os perigos bem maiores que passaram a existir para quem estava na linha de frente, descartando a autopreservação pusilânime. As mortes de dois dos nossos, Eremias Delizoicov e Gerson Theodoro de Oliveira, foram um dos preços que pagamos por nosso destemor. A prisão e as torturas que cinco de nós sofremos, outro.
Tereza Ângelo foi poupada de ambas, mas mesmo assim se tornou paranoica, imaginando estar sendo perseguida pela repressão mesmo após o fim da ditadura. Não foi por pouca coi: teve seu companheiro e seu irmão assassinados pelos exterminadores do regime.
Mal acabávamos de ser admitidos na Vanguarda Popular Revolucionária, em abril de 1969, fui surpreendido pela surpreendente designação para criar um setor de Inteligência em São Paulo, ou seja, fui alçado de imediato ao segundo escalão da VPR. Acima, só estava o Comando Nacional.
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| Gerson morreu baleado na rua |
Os acasos, no entanto, me projetaram muito acima do que eu pudesse imaginar ou, mesmo, quisesse. Começando por ter alugado um apartamento em parceria com outro comandante estadual, José Raimundo da Costa, pelos prosaicos motivos de que a grana estava curta para nós ambos e meu nome real poderia ser usado no contrato de locação, pois ainda não caíra.
A convivência com o Moisés (seu codinome), remanescente das escaramuças da marujada contra a direita golpista no pré-1964. me permitiu tomar rapidamente conhecimento da história da VPR e de suas lutas internas.
Ele tinha na ponta da língua cada detalhe e eu sede de conhecer o passado da organização. Também me interessavam muito os acontecimentos do período em que a esquerda deixara a épica vitória de 1961 se transformar na derrota sem luta de 1964.
Graças ao Moisés, fiquei conhecendo a encarniçada disputa de poder interno ao longo de 1968, entre as chamadas tendências militarista e massista, a primeira priorizando as ações armadas contra a ditadura e a segunda insistindo na manutenção de vínculos orgânicos com os movimentos de massa.
O acerto de contas acabou ocorrendo no início de 1969, paralelamente à pior crise de segurança até então enfrentada pela VPR, com quedas de alguns de seus quadros mais importantes.
Houve, em seguida, um congresso na praieira Mongaguá, para colocar a casa em ordem. Foi quando Carlos Lamarca se tornou o líder explícito da organização. E eu, que deveria apenas presenciar as discussões como convidado, acabei tendo o mesmo direito de palavra dos 12 participantes.
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| O Moisés foi executado na Casa da Morte de Petrópolis |
Eu era, certamente, o mais subestimado de todos, mas o meu patamar hierárquico inspirava respeito. As chamadas Teses de Jamil já não podiam ser ignoradas e mantidas desdenhosamente à parte do debate das propostas estratégicas a serem discutidas no Congresso de Teresópolis, tanto que neo-massistas correram a lançar documentos refutando-as agressivamente. A luta interna voltava com força total.



4 comentários:
... e sofreram... e morreram
‘Vingança para todos’: ..... a longa história de guerras e abusos globais dos Estados Unidos.
https://www.aljazeera.com/news/2026/4/17/vengeance-for-all-how-irans-lego-videos-won-narrative-war-against-trump
Mas e quanto ao Raymundo???
Se você se refere ao Moisés, ele foi executado na Casa da Morte e, com isso, a VPR optou por dissolver-se;
Celso,
O que aconteceu a vocês naquele período realmente difícil, foi uma total covardia não só por parte das Forças Armadas, mas como também por parte de policiais civis, igualmente covardes e igualmente assassinos, como foram inúmeros militares naquele período que tanto emporcalhou a história do Brasil com sangue. Mesmo assim, você e outros tantos companheiros, sempre terão a minha admiração, além dos companheiros que já se foram, mas que permanecerão na memória dos brasileiros ainda solidários, que restaram neste totalmente paranoico século 21 em que infelizmente estamos vivendo, infestado de políticos medíocres, com promessas patéticas, que nenhum cidadão brasileiro acredita mais, e não é de hoje.
Só mesmo os próprios cegos que se recusam a enxergar, cometeria a loucura em acreditar em tantos palhaços, que não deveriam sequer estar ocupando cargo público, lugar que deveria ser ocupado por profissionais sérios, que ainda se interessam em prestar serviços de verdade a brasileiros que ainda vivem na miséria, na pobreza, além dos trabalhadores que ainda são tão explorados e ganham tão pouco para se submeterem a uma antiga situação, de séculos, onde só ainda restou a sobrevivência.
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