sexta-feira, 17 de abril de 2026

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO (PARTE 1)

Nunca superestimei a duração da minha existência, mas um grave atropelamento e duas hospitalizações por problemas cardíacos me alertaram de que estar vivo era um acaso e eu poderia morrer de um momento para outro, às vezes sem sequer perceber. 

Tal consciência me fez ficar bem mais preocupado com o legado que deixaria para os pósteros, pois não tinha certeza de quanto tempo me restava para produzi-lo, nem sabia se teria condições para reproduzir fielmente o que vivenciara lutando pelos ideais revolucionários.

Talvez haja sido mais eficiente em forjar meu legado na ação concreta do que em colocá-lo na tela e no papel como uma espécie de autobiografia precoce (lembrando o livro de Yevgeny Yevtushenko que tanto me impressionou quando eu ainda era um aprendiz nas lutas sociais). Pois é disto que se trata: dar, ainda vivo, uma interpretação final da minha trajetória no bom combate.

Espero que este balanço da minha jornada sirva da inspiração para os que virão depois, já que é remota a perspectiva de ver a em vida germinarem as sementes revolucionárias que plantei. 

Tudo começou na virada de 1967 para 1968, quando, depois de uns poucos dias de imersão, junto com outros recrutas, nas obras dos papas do marxismo (bem no estilo do filme A Chinesa, do Godard), decidi dedicar a minha vida à revolução.

Mal acabara de completar 18 anos, portanto poderia estar apenas lançando palavras ao vento. Mas, no meu íntimo, já a considerava uma missão para a vida inteira. 

Colegas no primário e depois 
companheiros de militância
 
Rico em aprendizado, o ano de 1968  daquele grupo de oito secundaristas da zona leste paulistana não diferiu dos de tantos outros companheiros que iam às ruas confrontar a ditadura militar. Aceitávamos todas as missões e nos desincumbíamos delas com o arrojo próprio da idade. 

A coisa começou a mudar de figura com o AI-5, que marcou a transição da ditadura militar para o terrorismo de estado pleno, tornando a militância revolucionária quase kamikaze. Não ignorávamos os riscos que correríamos com a radicalização repressiva e, mesmo assim, os oito líderes  da Frente Estudantil Secundarista na zona leste paulistana optamos por seguir adiante. 

Aí sim se estabeleceu uma diferenciação, pois muito maior foi o número dos passeateiros que se omitiram quando a radicalização ditatorial deu um salto qualitativo com a assinatura do AI-5, preferindo não encarar o combate nas trevas. 

Nosso grupo de jovens (o mais novo com 17 anos e o mais velho com 21) preferiu os perigos bem maiores que passaram a existir para quem estava na linha de frente, descartando a autopreservação pusilânime. As mortes de dois dos nossos, Eremias Delizoicov e Gerson Theodoro de Oliveira, foram um dos preços que pagamos por nosso destemor. A prisão e as torturas  que cinco de nós sofremos, outro. 

Tereza Ângelo foi poupada de ambas, mas mesmo assim se tornou paranoica, imaginando estar sendo perseguida pela repressão mesmo após o fim da ditadura. 

Mal acabávamos de ser admitidos na Vanguarda Popular Revolucionária, em abril de 1969, fui surpreendido pela surpreendente designação para criar um setor de Inteligência em São Paulo, ou seja, fui alçado de imediato ao segundo escalão da VPR. Acima, só estava o Comando Nacional.

Visto por alguns veteranos como um estranho no ninho, pois não possuía os méritos que eles haviam acumulado em duras batalhas nas fases anteriores (muitos deles vinham na luta desde a vitoriosa resistência à tentativa golpista de 1961), me tratavam, quanto muito, com uma postura condescendente.

Gerson morreu baleado na rua
Era, ao que eu saiba, o mais jovem comandante de uma organização revolucionária brasileira nos anos de chumbo, mas isto não me iludia: percebia claramente que a minha participação no congresso de abril/1969 da VPR, embora vistosa, não  promoção tão precoce

Ademais, tinha sido designado para um trabalho pioneiro (não havia comandante de Inteligência nas demais organizações) e sem peso real na correlação interna de forças da VPR, já que eu não comandava militantes, apenas coordenava simpatizantes e aliados.

Os acasos, no entanto, me projetaram muito acima do que eu pudesse imaginar ou, mesmo, quisesse. Começando por ter alugado um apartamento em parceria com outro comandante estadual, José Raimundo da Costa, pelos prosaicos motivos de que a grana estava curta para nós ambos e meu nome real poderia ser usado no contrato de locação, pois ainda não caíra.

A convivência com o Moisés (seu codinome), remanescente das escaramuças da marujada contra a direita golpista no pré-1964. me permitiu tomar rapidamente conhecimento da história da VPR e de suas lutas internas. 

Ele tinha na ponta da língua cada detalhe e eu sede de conhecer o passado da organização. Também me interessavam muito os acontecimentos do período em que a esquerda deixara a épica vitória de 1961 se transformar na derrota sem luta de 1964. 

Graças ao Moisés, fiquei conhecendo a encarniçada disputa de poder interno ao longo de 1968, entre as chamadas tendências militarista massista, a primeira priorizando as ações armadas contra a ditadura e a segunda insistindo na manutenção de vínculos orgânicos com os movimentos de massa.

O acerto de contas acabou ocorrendo no início de 1969, paralelamente à pior crise de segurança até então enfrentada pela VPR, com quedas de alguns de seus quadros mais importantes. 

Houve, em seguida, um congresso na praieira Mongaguá, para colocar a casa em ordem. Foi quando Carlos Lamarca se tornou o líder explícito da organização. E eu, que deveria apenas presenciar as discussões como convidado, acabei tendo o mesmo direito de palavra dos 12 participantes.

O Moisés foi executado na 
Casa da Morte de Petrópolis
O Comando Nacional da VPR passou a ter quatro integrantes incumbidos de preparar o desencadeamento da guerrilha rural e um à ligação com os comandos estaduais. 

A fusão pouco depois com o Comando de Libertação Nacional, uma organização congênere, manteve o mesmo desenho: quatro comandantes incumbidos da luta principal e dois de fazerem o meio de campo com as cidades.

Começamos a divagar sobre a possibilidade de, aproveitando a realização do congresso nacional convocado pela VAR-Palmares para legitimar a união VPR-Colina, colocarmos em xeque a própria fusão, preconizando a retomada da identidade de VPR. Parecia-nos que fora o ingresso dos militantes de origem Colina que impulsionara o fortalecimento da ala massista

Ademais, os comandantes estaduais de São Paulo passamos a ter vários motivos de insatisfação com os dois comandantes nacionais aos quais estávamos subordinados, Antônio Roberto Espinosa e Carlos Franklin da Paixão Araújo. Até que o Moisés e eu chegamos à conclusão de que eles, na prática, agiam para sabotar a luta principal e inchar a organização nas cidades, ressuscitando a derrotada tendência massista

Mas, é quase certo que ambos desistiríamos de dar um passo tão maior do que nossas pernas se uma munição inesperada não houvesse caído do céu. Ao percebermos que circulava internamente, mas sem ser levado a sério, um texto que propunha a melhor resposta aos impasses da esquerda armada naquele momento, eu não vacilei, endossando-o de imediato com um artigo que, sem ser brilhante, cumpriu a função de tornar mais compreensível o que Jamil (Ladislau Dowbor) teorizava.

A coisa então mudou de figura, pois se tratava da concordância estridente de um comandante estadual (o Moisés, mais discreto por natureza, era um comandante paulista que pensava igual, mas só deu a conhecer mais tarde o seu posicionamento).

Eu era, certamente, o mais subestimado de todos, mas o meu patamar hierárquico inspirava respeito. As chamadas 
Teses de Jamil já não podiam ser ignoradas e mantidas desdenhosamente à parte do debate das propostas estratégicas a serem discutidas no Congresso de Teresópolis, tanto que neo-massistas correram a lançar documentos refutando-as agressivamente. A luta interna voltava com força total. 
Com a indispensável ajuda do Moisés, eu coloquei em movimento a roda do destino de uma forma insólita, ainda mais por isto estar provindo de quem tinha tão pouca influência, prestígio e poder dentro da organização. 
E, claro, atraí sobre mim os piores pesadelos imagináveis.

Mas, toda vez que alguém me pergunta se isso valeu a pena, eu respondo que o Brasil seria um país patético se pelo menos uns 3 mil dos seus 9,05 milhões de habitantes de então não houvessem arriscado a vida na luta desigual contra uma ditadura bestial e infame. 

Assim como a Resistência francesa na segunda guerra mundial, não vencemos, mas salvamos a honra do nosso país. (por Celso Lungaretti) 
"O que sou nunca escondi/ Vantagem nunca contei/ Muita luta já perdi/
Muita esperança gastei/ Até medo já senti/ E não foi pouquinho,
não/ Mas fugir, nunca fugi/ Nunca abandonei meu chão"

Um comentário:

Neves disse...

... e sofreram... e morreram
‘Vingança para todos’: ..... a longa história de guerras e abusos globais dos Estados Unidos.
https://www.aljazeera.com/news/2026/4/17/vengeance-for-all-how-irans-lego-videos-won-narrative-war-against-trump

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