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terça-feira, 7 de janeiro de 2025

AS GUERRAS NUNCA MATARAM TANTO COMO NOS ÚLTIMOS 200 ANOS: SÃO OS ESTERTORES DO CAPITALISMO AGÔNICO

dalton rosado
O ADENSADO MÓVEL DA GUERRA
"A primeira vítima da guerra é a verdade"
(Hiram Johnson, político profissional
estadunidense do século passado) 
As guerras, ao longo dos tempos, sempre se caracterizaram pelo desejo de subjugação política territorial com sentido de exploração de riquezas materiais ou escravização de uns grupos por outros. 

Entretanto, em nenhum momento da história humana as guerras mataram tanto como nos últimos 200 anos de dominação capitalista, que vão desde as campanhas napoleônicas até as ameaças de hecatombe nuclear dos dias atuais, passando por dois conflitos mundiais.   

O capital é belicosamente genocida, individualista, antissolidário, negativamente meritocrata competitivo, mesquinho, racista, misógino, xenófobo e prepotente porque dá ordens absolutistas letais aos seus súditos inconscientes da servidão a que se prestam. 

O pequeno comerciante de bairro, outrora assalariado, tem como objetivo inescapável o desejo de ampliar mercado, porque mesmo sem compreender cientificamente a essência constitutiva do capital e sua necessidade de autorreprodução ad infinitum (já aí uma contradição com os limites do consumo) sem a qual o dito cujo sucumbe, ele percebe, na sua sensibilidade de esperto negociador, que há uma lei de mercado segundo a qual quem não cresce, decresce

Assim, ele é inimigo na guerra concorrencial de mercado com seu congênere de bairro, ainda que se cumprimentem nas reuniões da escola privada a que os dois têm acesso, de vez que não querem que seus filhos estudem na escola pública carente de tudo (são membros da precária elite entre os muitos comunitários pobres). 

Este é um exemplo microssocial do caráter negativamente individualista, antissolidário e negativamente competitivo da relação social sob o capital que se reproduz na escala macrossocial política e econômica.  

O capitalista conservador inverte os conceitos e transforma o que é negativo em positivo. Vejamos alguns poucos exemplos: 
-- a história da negação vacinal remonta, no Brasil, aos idos de 1904, quando Osvaldo Cruz aconselhou a vacinação obrigatória contra a febre amarela, varíola e peste bubônica, causando revolta na população do Rio de Janeiro, mesmo diante das muitas mortes epidêmicas que estavam ocorrendo (dizia-se que Deus era contra aquela bruxaria, algo parecido como virar jacaré ou homossexual); 
-- a vitória destrutiva do outro na competição mercantil fratricida se transforma em justa recompensa segundo o viés da meritocracia;
-- o rico é rico porque é inteligente enquanto trabalhador é pobre porque é ignorante ou preguiçoso;
-- as melhorias urbanas dos bairros ricos, contrastando com os bairros pobres de uma cidade socialmente cindida, são justificados pela retórica da necessidade de se promover o turismo, por questão de antiguidade residencial, das edificações públicas importantes, pela cobrança diferenciada de impostos sobre a propriedade urbana, etc.;  
-- o engarrafamento do trânsito nas grandes cidades entupidas de carros e sem transporte público adequado, se deveria à incompetência administrativa governamental, e não ao irracional comodismo individual dos burgueses, que fazem questão de usar seus carros confortáveis;
-- o incrível aumento da criminalidade se deveria à deficiência policial e abrandamento das penas e liberalidades aos presos, sem se levar em conta o alto custo de combate à criminalidade numa sociedade que produz altos níveis da dita cuja pela desigualdade social e maus exemplos (o capital é intrinsecamente corrupto), e por aí vai.
       

Ora, plasmadas sob um contrato social injusto, como poderiam as nações, constituídas sob um nacionalismo capitalista xenófobo, praticarem uma cultura de paz? 

A guerra já começa no interior de uma sociedade socialmente cindida que induz a um processo de criminalidade impossível de ser contido pela força militar, sem se levar em consideração o alto culto do combate à dita cuja, que vai desde o policiamento ostensivo preventivo, processamento judicial e aprisionamento carcerário. Um crimino preso, processado e condenado, é muito mais caro do que um professor.  

A guerra nada mais é do que a explicitação genocida de uma concepção de relação social política e econômica injusta praticada no interior das nações e nas relações destas com todas as outras.  

Os antigos feudos transitaram das guerras de conquista desde antes do Império Romano até a criação das nações numa tentativa de moderna hegemonia econômica destas e, agora, por blocos capitalistas insanos.    

Assim como as cidades burguesas são cindidas em bairros pobres (a maioria) e bairros ricos (a minoria), os países nacionais, mesmo com gradações diferenciadas de consumo dos seus habitantes, e de acordo com seus padrões de produção de mercadorias e exportação destas com valores agregados, obedecem a critérios de pobreza e riqueza próprios à exploração do capital. E as nações, entre si, obedecem a estas características de ilhas de riqueza e oceanos de pobreza. 

Ora, se desde o pequeno comerciante de bairro se processa uma guerra autofágica na qual se concentra a riqueza e se destrói pela competitividade o concorrente, como se pode querer que as nações sejam solidárias uma com as outras evitando as guerras genocidas de conquista quando dependem do mesmo critério existencial autofágico de busca de conforto e bem-estar?    

Não se trata, portanto, de uma questão de falta de consciência humanitária, ainda que isto se manifeste claramente, mas de uma concepção de relação social decadente que busca nas guerras uma solução que jamais virá por essa via e que ameaça a todos de extinção.  

O Fundo Monetário Interacional avisa que a fome no mundo está aumentando. Ora, quando se busca a sobrevivência de um contingente humano diante da escassez de provimento desta mesma sobrevivência, a resultante lógica é a guerra fratricida. 

A queda na capacidade de consumo pelo critério da compra e venda representa redução da produção de mercadorias, uma vez que sob a lógica capitalista somente se produz o que se vende e este é o começo do final da linha histórica.  
O fluxo da economia necessita de produção de valor a qualquer custo, principalmente para financiar o setor terciário (da mercadoria serviços, maior parcela componente dos PIBs mundo afora, que não produz valor novo). Contudo, valor válido somente pode existir pela produção de mercadorias dos setores primário (agronegócio) e secundário (industrial).  

Aí está o nó górdio da crise do capital, porque a emissão de moeda sem valor válido representa vida artificial capitalista por aparelhos, que não se sustenta por muito tempo.  

Tal é o móvel do adensamento das guerras atuais: a tentativa inglória de sobrevivência nacional dentro de um modelo que atingiu o seu limite de expansão interno (a impossibilidade de reprodução de valor válido) e externo (a impossibilidade de contenção da crise ecológica que lhe é incidental).      

A transição para uma hipotética, mas muito desejável terceira natureza humana --e isto desde que não sucumbamos à sanha genocida do capital que precisa urgentemente ser superado sem as firulas de reformas que apenas o conservam na sua essência--, representará a ruptura com a irracionalidade socialmente destrutiva e autodestrutiva da própria forma abstrata de comando negativo da relação social sob a qual vivemos. 

Tal ruptura promoverá o raiar luminoso de um novo dia. (por Dalton Rosado)     

quarta-feira, 5 de junho de 2024

SOMOS UMA SOCIEDADE DOENTE, MAS AINDA DÁ TEMPO PARA EVITARMOS A NOSSA EXTINÇÃO COMO ESPÉCIE

dalton rosado
GUERRA NUCLEAR E AQUECIMENTO GLOBAL SÃO AS DUAS GRANDES AMEAÇAS À HUMANIDADE

"Temos potencial nuclear de destruição da civilização. A Russia está preparada para a guerra nuclear" (Putin)

Leio no noticiário internacional: Putin ordena exercícios nucleares com tropas perto da UcrâniaOcidente condena nova ameaça nuclear da Rússiaa Rússia ameaça bombardear militares britânicos na Ucrânia e aumenta a tensão, e por aí vai...

A hecatombe nuclear mundial já pode ocorrer, pois, infelizmente, está à mão de tiranos governamentais.

Ligo a televisão e vejo em tempo real o maior desastre natural da história do Rio Grande do Sul, com centenas de mortes e desaparecidos em face de uma submersão de parte do Estado gaúcho sob tempestades de vento e inundações nunca antes experimentadas. 

O aquecimento global, causado principalmente pelos Estados Unidos e China, locomotivas do capitalismo mundial pela emissão incontrolável de gás carbônico na atmosfera que produz o efeito estufa retendo os raios solares, já toma ares de irreversibilidade, segundo os cientistas.  

Na rua em que moro, ou em qualquer local da minha cidade, ou de qualquer outra cidade do Brasil, não se pode sair a pé com um celular porque corre-se de ser roubado, e quase todas as pessoas têm histórias de assalto ou tentativa de tal violência para contar, etc.  

Segundo dados da Food and Agliculture Organization, a fome aumenta mundo afora, e mais de 700 milhões de pessoas (cerca de 10% da população mundial), tem subnutrição alimentar crônica, mesmo com todo o desenvolvimento da engenharia agrícola.  

Três fatores contribuem para o aumento da fome no mundo, por conta da concentração absurda da riqueza abstrata e da terra agricultável:
 a desertificação pela escassez de água;
— a produção voltada para a exportação para quem pode comprar (o Brasil é o segundo maior produtor de alimentos no mundo e seu povo passa fome); e
 o uso de equipamentos em substituição preponderante ao trabalho abstrato, contradição capitalista basilar.  
 
Recentemente formos vítimas de uma pandemia devastadora que causou a morte de cerca de 7 milhões de pessoas num processo de propagação mundial acelerado, reeditando em menor parte a peste bubônica do século 14, e no qual o Brasil foi o infeliz campeão na estatística de mortos por habitantes. 

Sob pretexto de combate ao grupo Hamas, o governo sionista de Israel impõe um genocídio aos palestinos indefesos com mortes e provocando uma diáspora destes mundo afora, reeditando a própria história de que os judeus foram vítimas, numa prova atual da desarmonia de convivência humana.   

Ao ficarmos indiferentes às causas de tudo isto, estaremos sendo negacionistas?
 
Por que, em plena terceira década do século 21, era da tecnologia de ponta e dos ganhos inimagináveis do saber em todas as áreas, estamos tão ameaçados de extinção? 

A resposta a tal indagação não pode ser outra, senão a de que 
somos sociedades mundiais doentes.  

Quando se está doente, a primeira providência para a cura da enfermidade é o diagnóstico desta. Só a partir do diagnóstico se pode pensar no remédio.  

Há hoje uma completa inadequação entre forma e conteúdo da relação social atual, por obsolescência dos seus fundamentos existenciais. Entretanto, ao invés de se estudar as causas primárias de tal enfermidade, prefere-se usar antitérmicos para aplacar a febre sem atacar a doença (e por medo do desconhecido!). 

É evidente que a fórmula social própria ao sistema produtor de mercadorias, que sempre foi excludente e segregacionista, agora encontrou o seu limite existencial por conta de suas contradições endógenas. Encarar a existência humana como somente possível pela via da produção de mercadorias, no exato momento em que tal produção se inviabiliza, é submeter a vida da humanidade a um reducionismo irracional. 

Metaforicamente falando, é a irracional insistência em tentar fazer com que uma massa corpórea maior caiba dentro de um invólucro menor que está a provocar os problemas ora vividos pela humanidade.  

É claro que, sob outro critério de produção e forma de organizações sociais, e com o uso de todos os saberes adquiridos pela humanidade, poderíamos ter uma vida completamente diferente, seja do ponto de vista da subsistência da vida material, seja como racional harmonia social promotora da paz e sustentabilidade ecológica. 

Já não se produzem mercadorias, mais-valia e lucro nos níveis exigidos pela economia porque não há quem compre tudo que se precisa produzir em valor (decresce a massa global de valor pela queda de valor de cada mercadoria e volume de produção destas).

E não há quem compre porque o consumo humano tem limites, mas, principalmente, porque o trabalho abstrato, única forma de produção de valor, está sendo substituído pela máquina em maior proporção. 

Na política, as velhas formas de acesso ao Estado, e a própria função social do Estado como pretenso provedor das demandas sociais (obrigação constitucional nunca cumprida a contento por conta da verdadeira essência opressora do estado como serviçal do capital), denunciam a falência sistêmica com dívidas públicas crescentes e juros sacrificantes para os países pobres, e o ridículo da incompetência de suas funcionalidades.   

A fórmula de relação social do passado escravista mais remoto (após a introdução da forma-mercadoria e abandono da partilha), a escravização direta, como no Império romano (Roma, no ano zero da era cristã, tinha uma população de 1 milhão de habitantes, e 80% eram escravos) funcionou pela força das armas brancas.
  
Foi a relação social imposta pelo mercantilismo das armas de fogo que criou a produção de valor pelo trabalho abstrato pretensamente livre, e que funcionou como forma de relação social capitalista dita mais civilizada em substituição ao escravismo direto do feudalismo fisiocrata (a abolição dos escravos no Brasil, há pouco mais de cem anos, atendeu a um objetivo mercantilista interesseiro). 
Tal relação social de produção baseada no trabalho abstrato agora foi substituída pelas máquinas que não produzem valor, impondo a concorrência de mercado. Esta é uma contradição fundamental: mata-se a galinha dos ovos de ouro (o trabalho abstrato), confirmando o prognóstico de Marx de que 
o capitalismo cava a própria sepultura.    

Basta considerarmos que em nenhum dos bens de consumo tangíveis, e em nenhum tipo de serviço de que necessitamos, há um grama sequer de dinheiro, e que podemos produzir e consumir sem a intermediação dessa coisa demoníaca (mas aparentemente ingênua) que é a troca de mercadorias. 

Como disse Belchior, não devemos temer o novo que sempre vem, mas, mesmo assim, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais.  

Ainda dá tempo para evitarmos a nossa extinção como espécie. Mas, quando é que vamos sair da casa antiga deteriorada e disfuncional e construirmos uma nova morada para uma vida social adulta? (por Dalton Rosado) 
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