Quando Jair Bolsonaro venceu o 2º turno da eleição presidencial de 2018, os augúrios de boa parte da esquerda passaram a ser de paúra e sinistrose, havendo até a formação de redes de segurança para mobilizar rapidamente apoio aqui e no exterior, caso a posse do ogro fosse seguida do desencadeamento de uma Operação Jacarta, tendo a companheirada como alvo de milicianos ensandencidos.
Orgulho-me de não ter retrocedido um milímetro sequer na linha crítica e contundente que imprimo ao blog que edito: antes, durante e após a posse, o palhaço sinistro continuou a ser tratado como sinistro palhaço.
Mas, o autogolpe que os bolsominions esperavam do seu mito foi realmente viável ao longo de 2019, só que o hesitante Bolsonaro nunca foi Hitler nem Mussolini, mas, apenas, um Bozo encenando uma farsa.
Até que ela se tornou insustentável em junho de 2020 e ele desistiu de brincar de grande ditador (na acepção chapliniana dessa expressão), curvando-se às evidências dos fatos e reatando o romance com o Centrão (pelo qual seu coração sempre balançou).
Daí eu maldosamente ter, no meu postfeito praticamente de bate-pronto, comparado a crise provocada pelo deputado careca (Sansão, sem os cabelos, perdeu a força, esse aí perdeu a capacidade de raciocínio...) àquela que serviu de pretexto para a assinatura do AI-5.
Se o genocida algum dia pensou verdadeiramente em dar o autogolpe, esta seria praticamente a última chance, porque seu governo já está derretendo e será levado de roldão pelas turbulências de 2021: a depressão econômica só tende a agravar-se cada vez mais enquanto não forem expelidos o maluco-mor e os ministros amalucados, e o empobrecido Brasil simplesmente não terá como suportá-la sem resvalar para uma explosão social de consequências inimagináveis. Quem viver, verá.
Mas o Bozo optou por ficar bem quietinho, deixando que a turma-do-deixa-disso entrasse em ação para esvaziar a crise.
Por quê? Porque desde o início ele tem blefado. Nunca esteve nos seus planos uma virada de mesa, até porque abriria caminho para a chegada ao poder de algum fascista autêntico. Os fardados brasileiros, p. ex., nunca deram golpes de Estado em benefício de capitães, mas sim de generais.
Então, podem tranquilizar-se os eternos paranoicos: o único golpe que sofreremos do Bolsonaro é sermos golpeados por sua descomunal incompetência.(por Celso Lungaretti)
"O próprio José Dirceu acabou de declarar que ganhar eleição é uma coisa, assumir o poder é outra"
(Jair Bolsonaro, sobre o verdadeiro abismo existente entre o blablablá eleitoreiro e a atuação governamental)
O Rio de Janeiro continua lindo, disse Gilberto Gil num belo samba dos idos de 1969 quando muitos brasileiros tinham que se despedir dele por perseguição ideológica. Em termos estéticos a natureza resiste; mas, em termos políticos, não estamos muito diferentes disso, por agora.
É que o Rio de Janeiro tem um prefeito que tenta acabar com o carnaval carioca por motivos religiosos e um governador que gostaria de atirar bem na cabecinha de muitos meninos levados ao banditismo porque a sociedade os segrega de modo cruel e brutal.
A lógica é matar os que não produzem valor e acabar com a alegria (invocando o nome de Deus em vão) como se o carnaval fosse coisa do diabo. O controle militar se dá para que os que dele se beneficiam cumulativamente possam desfrutar sua abastança em paz. Trata-se de uma lógica macabra que, a pretexto de proteger os que trabalham, encarniça a perseguição aos que, por exclusão involuntária, não encontram ofertas de emprego e não produzem valo, mas têm de consumir (e, portanto, são encarados como ameaças pelo sistema).
Aparentemente alegre, este samba é de um Gilberto Gil magoado com quem não o defendera quando estava numa prisão militar nem ousava apoiá-lo no
melancólico exílio londrino ("Pra você que me esqueceu, aquele abraço!")
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O controle ideológico-religioso se dá por meio da exumação de um fundamentalismo religioso ultrapassado, que teima e ressurgir das catacumbas. As duas vertentes convergem desastrosamente.
Infelizmente, o que há de maravilhoso no Rio de Janeiro se circunscreve apenas às suas belezas naturais (e até essas a ilogia do capitalismo tenta destruir). Mas o povo carioca resiste e, apesar de tudo. o samba de coração continua levantando a poeira do chão.
Quão amargurado deve estar o Sergio Cabral pai, jornalista que resistiu no Pasquim à barbárie militar dos anos de chumbo e era apaixonado pela rica cultura musical brasileira! Pior do que a morte, para ele, deve ser a trajetória antagônica do seu filho, enlameado e conivente com a corrupção crônica de um sistema que é corrupto desde a sua origem na mais-valia (a mãe de todas as corrupções!).
João Gilberto interpretando o tema composto por Tom e Vinícius para o
filme Orfeu do Carnaval, que acabaria obtendo grande sucesso em disco
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Mas considere, Sérgio, que filhos continuam merecendo o carinho dos pais, ainda que tenham deslustrado o nome destes (a necessária reprimenda, no entanto, não deve faltar)..
As tragédias cariocas governamentais e sistêmicas só fazem aumentar, como se o povo carioca pudesse sempre transcendê-las na Marquês de Sapucaí ou nos festejos mais espontâneos das grandes bandas populares durante o carnaval. Infelizmente, não é assim que a vida real encara a fantasia.
Lembremo-nos do que a bela canção de Tom Jobim e Vinícius de Moraes já dizia:
"Tristeza não tem fim; felicidade, sim./ A felicidade do pobre parece/ a grande ilusão do carnaval:/ a gente trabalha o ano inteiro/ por um momento de sonho,/ pra fazer a fantasia de rei,/ ou de pirata ou jardineira/ e tudo se acabar na quarta-feira"
Samba de Wilson Batista que melhor retratou o malandro carioca de outrora (o lenço de seda protegia o pescoço das navalhadas rivais) e foi retrucado por Noel Rosa, desencadeando uma troca de farpas musicais entre ambos
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Mas depois da 4ª feira de cinzas tudo ao volta ao (a)normal, ou seja: — o povo é obrigado a consumir a água precária e barrenta, contaminada pela geosmina ou por qualquer resíduo industrial e fecal ;
— as balas perdidas continuam alojando-se no corpo de inocentes;
— a baía da Guanabara continua recebendo dejetos de lixo e plásticos que envenenam a sua generosa conformação geográfica, tornando-a cada vez mais imprópria para o convívio com os seres vivos;
— o outrora pitoresco malandro carioca (que usava lenço no pescoço, navalha no bolso e tamanco arrastando, tocava samba e vendia o que não era dele para um turista desavisado qualquer), agora acumula riqueza, usa uma metralhador russa contrabandeada, corrompe e vicia adolescentes sem perspectiva de vida que se tornam potenciais assassinos; — os funcionários públicos aposentados se veem privados do recebimento dos salários após décadas de labuta por força da falência estatal;
Milton Nascimento recriando um tributo prestado por Luiz Antônio em 1958 à Estação Primeira de Mangueira, escola que simboliza a fase romântica e
eminentemente popular do carnaval carioca (antes da turisticização)
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— o sistema de saúde decadente priva de um bom atendimento médico os cariocas, que morrem nas portas dos hospitais e postos de saúde como se estivéssemos em tempo de guerra (ou será que estamos mesmo numa guerra civil não declarada?);
— o crime organizado, diante de um estado falido, ganha força e impõe seu poderio aos comerciantes e à população, exigindo comportamentos próprios de uma sociedade escravizada;
— morrem incessantemente policiais assinados por bandidos que são assassinados por policiais;
— pessoas expiram nas construções clandestinas erigidas pelo crime organizado, que desabam como os castelos de cartas do capitalismo, sempre destrutivo e autodestrutivo;
— as tradicionais águas de janeiro, cada vez mais volumosas graças ao aquecimento global, agora provocam destruição em maiores proporções, atingindo principalmente as populações mais pobres, obrigadas a morar em áreas de alto risco;
— os trens suburbanos, cada vez mais lotados e precários, obrigam a população a um transporte diário sufocante, que vem somar-se à exaustão de uma jornada diária de trabalho extenuante;
— as tímidas taxas brasileiras de recuperação do emprego são ainda menores no Rio de Janeiro.
Depois da quarta-feira de cinzas tudo volta ao normal (e no entanto é
preciso cantar, mais que nunca é preciso cantar e alegrar a cidade!)
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Ufa! Vamos ficar por aqui neste alinhavar de tragédias socais cariocas (a maioria das quais não menos graves que as de outras capitais e grandes cidades)...
Apesar de todas elas, contudo, os governos de direta, de centro e de esquerda se revezam no poder, inevitavelmente se desgastando e sendo substituídos por mais do mesmo sob outra embalagem ideológica (parafraseando a matemática, o rótulo dos fatores não altera o produto).
O governador Wilson Witzel elegeu-se com as mesmas bandeiras do seu congênere federal, o capitão Boçalnaro, o ignaro, um paulista que adotou o Rio de Janeiro como domicílio eleitoral e residencial. O que não impediu Witzel de romper politicamente com seu guru ideológico, numa demonstração inequívoca de crise no topo causada pelas fissuras de um discurso mentiroso cuja falta de solidez o leva a desmanchar-se no ar. O povo, induzido a eleger pseudos salvadores da pátria que permanecem a serviço de um sistema que encontrou o seu limite existencial, está convocado, com urgência, a adquirir consciência!
Cabe-nos a tarefa de defendermos e entronizarmos um diferente contrato
social, que traduza os anseios gerais por um novo dia, com o frescor
da mocidade e o compromisso solene com a plena liberdade
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Mesmo empiricamente, é cada dia mais perceptível a ineficácia da democracia burguesa; a dita cuja não é o antônimo da ditadura burguesa militar, mas o seu congênere de essência constitutiva de base, qual seja a sustentação do capital.
Não adiantam as promessas vãs do liberalismo econômico.
Não adianta o nacionalismo ultrapassado de patriotas xenófobos.
Não adiante a jactância militarista da disciplina e da ordem para o progresso.
Não adianta o keynesianismo estatista da esquerda que quer (honesta ou falsamente) humanizar o capitalismo.
Não adianta o projeto social-democrata como contraponto ao conservadorismo pretensamente eficiente dos outsiders ilusionistas.
Cabe-nos a tarefa de defendermos e entronizarmos um novo contrato social, a partir de diferente novo modo de produção, voltado apenas para a satisfação das necessidades (e não a realização do lucro, que deve ser banido das nossas existências). Só assim o Rio de Janeiro poderá aliar a sua beleza natural à alegria autêntica do seu povo, a partir de uma vida digna e prazerosa no ano inteiro, e não apenas durante o carnaval. (por Dalton Rosado)