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terça-feira, 7 de março de 2023

NOVA ESTRATÉGIA DE LULA É SER OPOSIÇÃO A SI MESMO


 Incapaz de responder aos graves desafios do país, pois para isso seria necessário questionar o próprio capitalismo, particularmente em sua forma brasileira, Lula parece ter lançado nova estratégia, de se adiantar ao surgimento de uma oposição à esquerda e tornar-se ele próprio crítico de seu governo.

Assim, tem ele feito críticas a posições que são tomadas por seus próprios ministros e assessores, além de atacar a composição política constituída no Congresso. O caso mais cômodo tem sido o embate com o Banco Central do iletrado Campos Neto, onde a autonomia da instituição escuda o presidente de qualquer responsabilidade com suas ações. 

Escuda em parte, pois é de conhecimento até em Júpiter o quanto Lula poderia destronar Campos Neto facilmente, com uma simples ação no Senado para seu impeachment. Ora, aqui não é os EUA ou a Inglaterra - lugares onde mesmo hoje o derretimento das instituições ocorre a olhos vistos - e os excelentíssimos senadores da República não iriam criar grandes percalços para a derrubada de um desafeto do chefe do executivo. Tudo depende do acordo certo. 

Para além do caso do BC, em outras áreas é ainda mais patente o papel presidencial, pois ele é quem nomeia ministros, secretários e dá o sinal verde para acordos. Já seria assim em qualquer regime presidencialista, com alguém tão personalista e centralizador quanto Luiz Inácio isso é mais patente ainda. 

Então, ao se criticar, o presidente no fundo apenas tenta fazer manobra performática tentando se colocar acima de si mesmo. Caso ele quisesse de fato seguir outro caminho, bastaria usar o poder da caneta. Ao não agir, busca na retórica uma compensação simbólica frente a seus eleitores, introjetando um discurso que deveria ser de uma oposição de esquerda. 

Ao fazer isso, Lula cumpre duplo objetivo: por um lado esvazia possível oposição ao seu governo, trazendo para dentro as críticas que deveriam vir de fora; e por outro lado, coloca-se acima do próprio governo, como se pudesse apenas assistir os confrontos das facções, mas sem intervir. Ou seja, se finge de impotente e também se antecipa aos críticos. 

Por quanto tempo e em qual nível esta estratégica terá efeito, é algo a se observar no futuro, mas sua existência atual é signo do quanto Lula 3 está perdido. (por David Emanuel Coelho


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

POR TRÁS DA BRIGA LULA X BANCO CENTRAL SÓ EXISTEM MANIPULAÇÕES E POLITICAGEM

 


A
última algavaria do presidente Lula é atacar o Banco Central e seu chefe, Roberto Campos Neto, descendente do ministro, e uma das grande eminências pardas da ditadura, Roberto Campos, e que possui mandato eletivo à frente da autarquia. 

Lula critica a recente alta na taxa de Juros SELIC e, sobretudo, o fato do BC ter se tornado independente durante o governo Bolsonaro, fato impedidor de um controle direto da Presidência da República sobre a política monetária do país.

A grande mídia patronal, obviamente, sai em defesa da independência da instituição e de sua política de juros, acusando Lula de atrapalhar a economia e impedir o combate à inflação. 

De fato, aqui é uma daquelas situações onde todo mundo está certo e todo mundo está errado, constituindo-se mais em uma briga de vilões querendo ser mocinhos, medíocres gatuneiros, cada qual puxando a brasa para o seu lado. 

Comecemos pela mídia. Não é segredo para ninguém o quanto os donos dos grandes conglomerados de mídia no Brasil possuem boa parte de sua riqueza relacionada ao sistema financeiro. Inclusive, alguns grupos de mídia estão atreladas a instituições de cunho bancário. Daí, haver um claro conflito de interesses quando a mídia defende com tanta paixão a política de juros na estratosfera. Porém, o discurso oficioso dela não deixa de ter um grão de verdade.

Tendo livros de autoajuda como principal
referência teórica, Campos Neto faz no Banco Central o
que qualquer macaco amestrado faria
.
O discurso oficioso é o de controle da inflação. Isso é verdade, a taxa SELIC na estratosfera ajuda a controlar a depreciação monetária. Porém, o que ninguém vai achar nas análises ditas técnicas da grande mídia é  o porquê da economia brasileira necessitar dos juros em níveis tão elevados, isso quando sabemos ser a taxa brasileira uma das maiores do mundo. Ou seja, qual o motivo de outros países terem taxas baixas e o Brasil não?

Primeiro, no entanto, é preciso entender o que é a inflação. Dito de modo simplificado, a inflação é um descompasso entre o valor de face da moeda e o valor efetivo das mercadorias. Pela teoria marxista, o valor de uma mercadoria é dado pelo tempo médio socialmente necessário para faze-la. O dinheiro é a medida da grandeza deste valor. Quanto mais mercadorias forem produzidas, mais valor haverá na sociedade, gerando aquilo denominado pitorescamente por Marx de geleia de valor

Ora, é o tamanho desta geleia o determinante para a força do dinheiro. Uma geleia rala determinará um dinheiro fraco, mas uma geleia densa significará um dinheiro forte. No primeiro caso, existe a inflação, isto é, o dinheiro vale menos que as mercadorias, enquanto no segundo há deflação, com o dinheiro valendo mais. No meio dos dois extremos existe o difícil equilíbrio de dinheiro e mercadoria se equivalerem, existindo no mundo real uma dinâmica entre deflação e inflação marcada pelo vai e vem dos preços. 

Seguindo esta linha de raciocínio, a explicação midiática para os juros altos é justamente que há uma geleia rala, aguada, mas muito dinheiro na praça. Daí, é necessário enxugar o dinheiro do mercado para tentar estabelecer o equilíbrio entre grana e coisas. Aumentar a SELIC é o instrumento para isso, pois torna o acesso ao dinheiro mais caro e as pessoas passam a querer deixar suas moedas junto ao governo, através da compra de títulos públicos, ao invés de usa-las no cotidiano. Este sistema pode efetivamente manter a inflação baixa, mas ao custo da paralisia econômica, pois torna o investimento produtivo, o qual demanda empréstimo bancário, proibitivo. 

Ao falar de inflação, a mídia esconde a verdade, 
que o capitalismo brasileiro é um fiasco absoluto.

Então, a mídia está certa neste aspecto, mas o que ela não explica é o motivo da geleia de valor no Brasil ser deteriorada e é aqui onde começam as mistificações, pois para ela o controle inflacionário seria necessário ou porque a economia está aquecida - mesmo com o PIB brasileiro crescendo pifiamente há uns 30 anos - ou porque seria necessário criar terreno para um crescimento sustentável, o qual nunca chega. 

Na realidade, a razão está na débil condição produtiva brasileira, ou seja, no pífio capitalismo nacional, incapaz de gerar riqueza com razoável qualidade. Basta pegar os números do PIB per capita do país para se ter uma ideia elementar deste fato. A produção irrisória de valor em terras tupiniquins causa uma depreciação do dinheiro, algo passível de ser acentuado em um contexto de super endividamento público.

Não à toa, o auge do descontrole nacional foi durante os estertores da ditadura militar, quando o Estado fomentava a presença das multinacionais através do seu próprio endividamento. Mesmo tendo chegado a ser uma das maiores economias industriais do período em números absolutos, o Brasil nem timidamente se aproximava da força produtiva do centro capitalista - sobretudo porque parte considerável do valor produzido aqui era drenado para lá -, gerando uma presença interna de valor em nível rebaixado e, por isso, o governo era obrigado a cobrir sua dívida, feita majoritariamente em dólar, mediante a emissão de moeda sem lastro, provocando um tsunami inflacionário responsável pela bancarrota da década de 1980 e início da de 1990.

Ao fiasco do Milagre, seguiu-se a 
ingovernabilidade da hiperinflação no Brasil.

O maior perigo de uma moeda sem valor é a ingovernabilidade política associada, fato claramente expresso nas derrocadas da Ditadura e do governo Collor. Portanto, a primeira razão para se debelar o processo hiper inflacionário era manter o regime burguês de pé, pois hoje eram governos a cair, amanhã poderia ser o sistema como um todo. 

A vitória sobre o Dragão aconteceu graças ao Plano Real que trouxe em seu bojo a ideia da meta inflacionária e a instituição da taxa Selic. Na realidade, tal plano teve êxito graças a ter sido efetivado justamente no momento de reconfiguração histórica da economia brasileira, passando de uma expansão industrial para uma regressão neoextrativista. Quando isso ocorreu, o país abandonou a política da substituição de importações e iniciou um processo forte de desindustrialização, passando a depender da importação de mercadorias industrializadas. Neste cipoal, o valor do câmbio tornou-se o elemento mais importante na economia: é preciso sua valorização constante para manter sobre controle o preço dos produtos e, logo, a inflação. 

Daí, inclusive, o Real ter começado com a paridade absoluta frente ao dólar, abandonada posteriormente pelo câmbio flutuante. Justamente com a flutuação implementada é que a SELIC surge, não enquanto mecanismo para enxugar dinheiro da praça, mas para forçar o câmbio para baixo mediante a atração maciça de dólares, pois quanto mais dólares o caixa governamental tiver, mais valorizado o Real e menor o custo dos produtos comercializados por aqui. 

Os títulos públicos dos EUA são o santo graal
capitalista, pois o governo estadunidense
dificilmente dará um calote nos credores.

Por isso, a métrica da SELIC é a taxa básica de juros dos EUA, subindo ou baixando de acordo com os movimentos feitos pelo Banco Central daquele país, sempre, no entanto, buscando estar dezenas de vezes mais alto que lá, pois apenas deste modo o investidor estrangeiro pode se arriscar a adquirir título de dívida de um país tão frágil quanto o nosso. Aí está também o segredo do fim da dívida externa, feito tão alardeado por Lula, ela virou dívida interna, de títulos emitidos pelo Banco Central do Brasil. 

Ou seja, o controle da inflação passa pela taxa SELIC elevada porque o câmbio valorizado, isto é, o dólar a um preço baixo, é uma condição sine qua non para uma inflação baixa, pois as mercadorias circulantes no Brasil - sejam elas prontas ou ou seus componentes essenciais - são esmagadoramente de origem importada, tendo o país recuado ao papel de exportador mundial de comodities. 

Dito isso, voltemos ao ponto inicial. A mídia, portanto, não explica por completo qual é, afinal, o galho da SELIC. E o senhor Lula, estará ele certo em suas reclamações? Novamente, sim e não. 

Sim, ele está certo que é impossível desenvolver a economia com taxas tão altas de juros, e também um BC independente é uma aberração cujo objetivo é tirar do controle democrático a política monetária. No entanto, o presidente fez algo remotamente diverso neste quesito quando de sua primeira passagem no Palácio do Planalto? A resposta é um rotundo não!

Lula já esqueceu ter entregue o Banco Central
 em seus primeiros dois governos 
ao companheiro Henrique Meirelles ?
Em 2003, em um BC sobre controle direto de Lula, a taxa básica de juros era de 25%, enquanto a dos EUA era de 1,26%. Uma diferença de 19 vezes! Já em seu último ano de governo, 2010, o petista deixou a taxa nacional em 10,75%, sendo a dos EUA na mesma época 0,18%. Incríveis 59 vezes de diferença! A rigor, portanto, efetivamente a taxa de juros cresceu no primeiro e segundo governos de Lula, se comparado com a base concreta que é a praticada pelo Banco Central estadunidense. 

Portanto, sua política monetária efetiva não foi nada de diferente  da praticada hoje por Campos Neto, com o agravante do BC não possuir independência à época. Pra quê, então, Lula reclama? Teria ele virado completamente a chave, logo quando está em um contexto muito mais frágil que há 20 anos?

Não acredito em Papai Noel e tão pouco em discurso de político. Na verdade, penso, Lula usa um trambique retórico para culpar a política monetária do BC pela baixa performance da economia, aproveitando para isso da independência da autoridade monetária, pois, deste modo, se exime de responsabilidade, pois ele não possui qualquer controle das decisões do presidente do Banco Central. Melhor ainda, pois Campos Neto é herança de Bolsonaro e é possível, portanto, também ajuntar ao discurso a tese de uma ação orquestrada do antigo governo contra o novo. 

Independente ou não, o BC seguirá as ordens 
do poder econômico dominante.

Por isso, Lula não vai mexer na autonomia do Banco Central, pois ela é, agora, útil à sua estratégia e, futuramente, quando for a hora de escolher o novo mandatário daquele órgão, será útil para colocar lá dentro os companheiros certos. Lembremos ter o projeto da independência contado com votos do PT à época de sua apreciação no Congresso e que, inclusive, o próprio Haddad defendeu a ideia em sua fracassada campanha eleitoral de 2018. 

Pregar a revisão da autonomia, na realidade, é mais uma estratégia retórica do lulopetismo para galvanizar setores da esquerda e mantê-los em sua órbita. Enquanto se gasta energia com algo oco de fundamento e propósito, a real luta contra a sociedade capitalista fica em segundo plano. 

À esquerda não deve interessar bancos centrais e suas falidas políticas, tentativas quiméricas de controlar o incontrolável - o modo de produção capitalista -, mas a destruição total e completa desta forma societária injusta e desumana. Só o caminho revolucionário deve nos guiar. (por David Emanuel Coelho)



segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

O REFLEXO INTELECTUAL DE UM PAÍS QUE DECAI SEM NUNCA TER CHEGADO AO AUGE

Campos Neto, quando algum repórter lhe
pergunta se o dólar vai parar de subir
É
possível compreendermos o nível social de um país a partir do nível intelectual de suas principais figuras. 

O que se lê dos ocupantes de posiçõeschaves de uma nação reflete de modo razoável a condição geral deste mesmo país, pois não apenas influencia nas decisões a serem tomadas, mas é também índice do nível geral de cultura e aperfeiçoamento, pois se tais figuras, com tais mentalidades, chegaram aos lugares centrais, é porque há um clima social a favorece-las.

Então, é importante chamar a atenção para reportagem da revista Época a respeito do que leram algumas personalidades brasileiras. Elenco dois casos para mostrar o nível da crise nacional, pois são casos de indivíduos com relevância atual no país: um na direção econômica/política e outro no esporte. 

Roberto Campos Neto é presidente do Banco Central e hoje está diante da dura tarefa de combater uma crise econômica crônica, que jogou milhões na miséria e na fome. O que ele lê? O ego é seu inimigo como dominar seu pior adversário, de Ryan Holiday.

Sim, o principal livro lido por ele foi um lixo da autoajuda, literatura pseudo-psicológica que abunda entre os yuppies.
Cuca, que não era tão devoto quando
do escândalo de Berna (vide aqui)

E Alexi Stival, mais conhecido como
Cuca, técnico campeão brasileiro e da Copa do Brasil pelo Atlético Mineiro? O que lê o principal treinador do futebol nacional na atualidade? Nada. Ou melhor, em suas palavras:
"Eu não li livro nenhum em 2021. Leio a Bíblia, parábolas, versículos..."

Sim, principal expoente do futebol tupiniquim, cotado até mesmo para assumir o time da CBF (vulgo, seleção), é um analfabeto funcional que apenas lê vulgatas religiosas.

E nem se trata do senso comum de que o mundo do futebol é ignorante, pois Abel Braga, o português bicampeão da Libertadores lê Klop: o técnico heavy metal que transformou o Borussia Dortmund e Liverpool FC – e que está mudando o panorama do futebol na Europa, de Raphael Honigstein. De acordo com ele:
"O livro sobre o Jurgen Klopp fala muito sobre o que ele realizou no Borussia Dortmund. Gosto de biografias de treinadores para me atualizar, ficar por dentro de como trabalham, de como agem. Aprendemos com isso".
Enquanto Abel busca aprender mais lendo a respeito de um dos maiores técnicos mundiais da atualidade, Cuca lê a bíblia.

Até por isso, Abel ganha com tática e racionalidade, Cuca ganha com superstição e camisas religiosas. Superstição versus racionalidade. Bem, na Copa do Mundo a gente verá quem vence.
Campos Neto recomenda. Já o
avô dele vomitaria em cima...

Na realidade, Cuca e Campos Neto se equivalem. Autoajuda não passa de literatura para mascarar o analfabetismo funcional das elites econômicas e seus imitadores, sendo também uma forma de religiosidade mascarada de conhecimento. A diferença, portanto, é que Cuca não se envergonha de assumir-se como o que realmente é: um diletante avesso ao estudo.

Cuca pode exibir-se sem retoques porque seu meio, o futebol brasileiro, é o reino da ignorância metódica. Tipos iguais a Renato Gaúcho podem até mesmo fazer propaganda aberta da preguiça intelectual e da incultura, que tudo continuará bem. Já Campos Neto está num ambiente no qual todo mundo é inculto, mas convém fingir o contrário.

E assim o Brasil afunda, na economia e no futebol. É um país que decai melancolicamente sem nunca ter chegado ao auge.

Predominam a incultura, a ignorância, a preguiça e a rapinagem. Superstições existem aos montes, afinal apenas se conta com a intervenção sobrenatural de uma santa para ganhar o campeonato ou para fazer o PIB crescer. (por David Emanuel Coelho)

segunda-feira, 9 de março de 2020

O DÓLAR FURADO SINALIZA O COMEÇO DO FIM DO CAPITALISMO, DIZ DALTON ROSADO

"Não estou preocupado com a alta do dólar" (ministro Paulo Guedes)
O dólar se valoriza no Brasil e faz sucesso na periferia do capitalismo, tal qual fez o filme italiano O dólar furado, estrelado por Giuliano Gemma e que é muito lembrado também pela música principal, Si tu non fossi bella come sei, um dos maiores sucessos da carreira de Fred Bongusto. [Curiosamente, foi esta produção de 1965 que lançou a onda dos spaghetti westerns nas bandas de cá, enquanto na Europa eles emplacaram desde o filme inicial, Por um punhado de dólares, de 1964.]

Há somente uma justificativa para tal valorização: o fato de que, como moeda meramente fiduciária que é (sem lastro em qualquer mercadoria que lhe corresponda valor), mas admitida como moeda internacional desde o final da 2ª Guerra Mundial, ela representa o mais alto grau do fetichismo da mercadoria. 

Tal como um quadro de Van Gogh, que vale milhões de dólares não pelo seu valor intrínseco (gastos com tela, pintura, moldura, horas de trabalho, etc.), mas apenas pela lei da oferta e da procura que o valoriza em razão de sua excelência e raridade como obra de arte, o dólar estadunidense vale apenas porque o mundo inteiro o aceita como uma mercadoria especial que serve de referência para a aquisição de todas as demais mercadorias. 
Mais uma vez a vida imita a arte...

O dólar é moeda oficial falsa, como costumo afirmar. Explico.

Se um falsário emitir dólar impresso numa gráfica qualquer estará cometendo um crime, principalmente por prejudicar, caso entre em circulação, o valor da moeda oficial.

Entretanto, quando o FED (o Banco Central dos Estados Unidos) emite dólares ao seu bel prazer, sem que isso cause inflação interna em razão de eles serem aceitos mundialmente tal qual uma nota promissória emitida por um banco falido, mas tido como merecedor de credibilidade (como era o Lehman Brothers, lembram-se?). 

Tal promissória circula no mercado até que, um dia, chega a hora da verdade: a data do seu vencimento sem que seja resgatada.

A emissão pelos EUA de moeda falsa oficial, sem lastro, não é crime, mas um dia restará evidenciado que se trata de uma falcatrua em desfavor dos países mundo afora. Será a sua hora da verdade.

Nas últimas semanas, alguns bilionários investidores de Wall Street viram seu dinheiro bilionário virar fumaça com a desvalorização das suas ações negociadas em bolsa, numa demonstração cabal da abstração representada pelo valor que elas representavam.

Quando as reservas guardadas em dólar (nos colchões e cofres residenciais, nos depósitos bancários ou nos créditos em dólar dos títulos das dívidas públicas e privadas impagáveis) demonstrarem a inocuidade do valor que lhes são admitidos, o dólar virará fumaça.

Será o grande crash no mundo financeiro, a partir do qual a imposição da predominância da riqueza material sobre a riqueza abstrata produzirá novas relações sociais, norteadas por valores humanistas e não pelos critérios escravistas atuais.  
Guedes deverá viajar na mesmíssima maionese do Lula em 2008
Todos os que se debrucem mais detidamente sobre os números dos fundamentos da economia estadunidense verão que os resultados de superfície (alto nível de empregabilidade, crescimento linear do PIB, capacidade de investimento estatal em demandas sociais e infraestrutura da produção, etc.) são cosméticos. 

Motivo: assentam-se sobre premissas artificialmente mantidas e que mais cedo ou mais tarde evidenciar-se-ão como insustentáveis por falta de solidez de base, ou seja, de fundamentos sólidos que lhe assegurem consistência.

Os principais fundamentos que auguram um futuro sombrio para a economia estadunidense (a única que difere dos demais países mundo afora) são:
—  endividamento público e privado crescente, que excede o PIB;
  déficit fiscal continuado e crescente;
  balança comercial deficitária causada pelo maior volume de importação de mercadorias em relação às exportações, como consequência da migração da alta produção industrial para fora do país determinada pela guerra concorrencial de mercado (com a redução cada vez mais acentuada da remessa de lucros exigida pelos países onde tais indústrias estão sediada, ou por questões tributárias locais subsidiadas). O protecionismo comercial ora praticado daí decorre; e
  gastos militares cada vez maiores, por conta do patrulhamento ideológico-econômico que exerce perante a ordem política mundial. 

Entretanto, diante da depressão econômica mundial, os Estados Unidos se apresentam como uma ilha de prosperidade e exemplo a ser seguido.

Como as mercadorias mundialmente produzidas perdem valor, seja pela redução da capacidade de consumo mundial ou pela mecanização de sua produção, ocorre o fenômeno da retroalimentação da estagnação econômica.
O mundo vinha aceitando a emissão desembestada de dólares sem lastro: chega a hora da verdade!
A redução dos custos de produção industrial com a mecanização produz o desemprego estrutural. Não se compra porque se reduzem os salários e se desempregam trabalhadores numa proporção maior que a dos novos nichos de emprego que surgem (como a uberização); e não se produz mercadorias porque as ditas cujas não são vendidas. 

Para agravar a crise, eis que surge a queda do preço do barril de petróleo em razão dos desentendimentos na Organização dos Países Produtores de Petróleo, a qual, diante da queda do consumo e aumento da oferta mundial, resolveu oferecer o seu petróleo de boa qualidade a preço aproximadamente 20% menor, cerca de U$$ 35 o barril.

Como o petróleo é a rainha das commodities, a consequência dessa tomada de posição da Opep deverá causar uma queda ainda maior dos preços da ações nas bolsas mundiais, bem como uma redução no custo da produção de mercadorias.

Esta é uma guerra comercial que pode ser mais devastadora do que os estragos causados pelo covid-19 na já combalida economia mundial. 
Os donos do PIB já percebem a roubada em que embarcaram ...

No caso da Petrobrás e do Brasil, que têm alto custo de extração de petróleo do pre-sal, tal queda dos preços do barril de petróleo deverá ser funesta tanto para o desempenho geral da economia quanto para a arrecadação fiscal e orçamento público.

A produção de mercadorias não visa à satisfação das necessidades, mas apenas faz uso do lucro que elas proporcionam. Quando isso deixa de ser viabilizado economicamente, como agora ocorre, decai a produção e a massa global de valor produzido. Simples assim.

Este é o limite do ciclo da socialização pela forma-valor no momento da contradição máxima entre forma e conteúdo. 

Quando toda a produção e serviços necessitavam da força de trabalho humana (questão de forma), era factível a substituição da escravização direta (seres humanos como propriedade de outros) pela escravização indireta do trabalho abstrato produtor de valor (escravização pela extração de mais-valia, questão de conteúdo). Mas tudo mudou. 

Outrora a relação social sob a forma-valor passou a ser mais interessante do que a escravização direta para a acumulação da riqueza sob a forma abstrata que tudo compra, bem como mais palatável pela hipocrisia da visão civilizatória cristã. A nova forma, a riqueza abstrata, era muito mais fácil de ser administrada pelos senhores escravistas, detentores do capital.

Agora, entretanto, quando a força de trabalho humana se tornou dispensável em maior parte graças ao desenvolvimento tecnológico aplicado à produção de mercadorias, a produção de valor definha e, com isto, se desfaz todo o castelo de cartas construído a partir de um modo de relação social inumano e contraditório, cujo ciclo de vida sempre esteve previamente fadado ao seu final histórico.
...pois só o que receberão de Guedes são pastéis de vento.
Atualmente verificamos a valorização, no Brasil e noutras partes do mundo, de algo que não tem valor nenhum: o dólar dos Estados Unidos.

Como as mercadorias estão perdendo valor (sejam elas ações, objetos de vida perecível no curto prazo, ou de vida duradoura como bens imóveis), muitos dos detentores de capital têm buscado no dólar estadunidense, mais do que um porto pretensamente seguro, um ganho especulativo. 

Ora, a busca frenética de aquisição do dólar para entesouramento como forma de pretensa proteção de desvalorização das mercadorias em geral promove a subida de valor da moeda em relação às outras que circulam no mercado financeiro por conta da lei da oferta e da procura, daí resultando em lucro dos especuladores, que ganham dinheiro sem maior esforço (eles, sim, são os verdadeiros parasitas). Mas o final desse processo especulativo será desastroso para tais especuladores. 

Diferentemente do que avalia o nosso ministro da Economia Paulo Guedes, a subida vertiginosa do dólar estadunidense causa mais malefícios do que benefícios ao Brasil. 

Se nossas exportações de commodities são beneficiadas pela subida do dólar, pois isso representa maior volume de reais para uma mesma quantidade de mercadoria exportada, por outro lado todos os nossos produtos originários de outros países têm seus valores aumentados em reais. 

É o caso da pãozinho de trigo importado, comida básica de todo brasileiro, principalmente dos pobres. 
Conclusão óbvia: é hora de buscarmos novos caminhos.

Além disto, setores importantes da indústria brasileira paralisam suas atividades em razão de os componentes industriais importados em dólar tornarem inviáveis as produções cujos custos majorados não podem ser repassados aos consumidores daqui e de outros países. 

A nossa dívida externa pública e privada em dólar fica mais alta em reais e os juros idem, fato que representa um aumento substancial no nosso déficit público e queda dos ativos financeiros privados em reais. 

Além de afetar a produção, o dólar alto pressiona o aumento da inflação interna. 

É graças a isso que, contraditoriamente, enquanto Guedes afirma que o dólar alto é bom para o Brasil, a Banco Central torra parte das suas reservas em dólar para frear a alta do dito cujo. 

Quem está certo, o ministro da Economia ou o presidente do BC? Deste imbróglio só se pode tirar uma conclusão: esse governo está perdidinho da silva

Mas podemos tirar, também, uma conclusão mais abrangente e que representa o começo do fim capitalista: a moeda internacional, o dólar, está furado! (por Dalton Rosado)
Fenômeno: este filme ficou mais de 1 ano sendo exibido em Sampa 
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