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quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

A TRAGICÔMICA MICARETA GOLPISTA NOS EUA SÓ SERVIU PARA APOSENTAR TRUMP SOB UMA TEMPESTADE DE SOM E FÚRIA

Não fossem os mortos e feridos, a micareta golpista deste 6 de janeiro nos Estados Unidos nada teria sido além de um episódio histriônico: desde o primeiro momento se sabia que o efeito prático seria nenhum, apenas servindo para encerrar com uma tempestade de som e fúria a carreira política de Donald Trump.

Ainda não chegou a hora dos bárbaros nas democracias burguesas dos países economicamente mais desenvolvidos, tanto que suas fileiras continuam incapazes de produzir duces de primeira grandeza (ao invés do bilionário trapalhão que mais parece um aprendiz de fascismo) nem ideólogos mais focados nos cenários futuros do que nas picaretagens presentes (como o estelionatário cujas estratégias não funcionam nem mesmo para conceber fraudes financeiras  indetectáveis pela polícia).

Passando ao largo dos aspectos espetaculosos do dia em que os estadunidenses provaram as emoções de uma república das bananas, eis as conclusões a serem tiradas da ópera bufa:
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— o excesso de poder concentrado no governo federal sob o presidencialismo é um convite à dança para os golpistas, que, quando não forem tão patetas como o Trump e o Bozo, causarão estragos bem maiores;
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— o parlamentarismo, da forma como é praticado nos países europeus, funciona melhor e seria uma boa alternativa para... os EUA e o Brasil (claro!);
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— mas, o fundamental é que o capitalismo esgotou sua vida útil e, enquanto continuar prolongando sua sobrevivência parasitária, produzirá cada vez mais desigualdade econômica e social, depressões econômicas, turbulências políticas, danos ambientais e... barbárie! (claro!);
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— deixando de lado as teorizações pomposas, o que estamos vendo é a mera comprovação do que Marx e Engels afirmavam já no século retrasado (ou seja, que ao se retirar de boa parte da população as condições financeiras para adquirir os itens socialmente produzidos, geram-se desequilíbrios em escala cada vez maior entre a oferta e a procura, até que as contradições econômicas fazem ruir esse edifício erguido sobre alicerces minados);
— 
e é ainda em Engels que encontramos a melhor explicação para o capítulo a que acabamos de assistir da novela A lenta, tortuosa mas irreversível agonia do capitalismo (numa de suas afirmações menos divulgadas, ele previu que, esgotadas as possibilidades de as forças produtivas continuarem se desenvolvendo sob relações de produção tornadas disfuncionais, mas cujos beneficiários fossem bem sucedidos em seus esforços para perpetuá-las a ferro e fogo, sobreviria a barbárie).

Ele refletia, obviamente, sobre o fim do Império Romano, que estagnou ao não dar o único passo adiante que abriria novos horizontes para sua expansão: o fim da escravidão e consequente criação de enormes contingentes e a serem atendidos em suas necessidades e anseios, destravando e revitalizando a economia.

Derrotada a revolta dos gladiadores de Spartacus cerca de 70 anos antes de Cristo, a decadência do império, à medida que perdia pujança econômica e cada vez mais via crescer o número de povos não submetidos à pax romana a rondarem suas fronteiras, levou também à entrega do poder supremo a cesares malucos e grotescos como Calígula, Nero e Cômodo, alguns até proclamados pelas tropas.

É mais ou menos o que estamos vendo, não sendo difícil, inclusive, identificar muitas semelhanças entre os imperadores romanos da decadência e os Trumps e Bozos que emergiram com a onda ultradireitista e estão imergindo agora, após ela ter morrido na praia. (por Celso Lungaretti) 

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

TERÃO TRUMP E BOLSONARO SIDO APENAS UM MOMENTO PSIQUIÁTRICO NA HISTÓRIA? ESTAREMOS AGORA VOLTANDO AO NORMAL?

marcelo coelho
ELEIÇÕES MOSTRAM ALGUM ARREFECIMENTO
DO SURTO DESTRUTIVO BOLSONARISTA
D
e 2018 para cá parece ter havido alguma mudança. Maior controle sobre fake news? Contas extremistas bloqueadas? Robôs menos atuantes? 

A força demonstrada por partidos tradicionais nestas eleições não deixa de ser, em parte, resultado dos velhos filmetes e jingles da propaganda eleitoral, com sua propensão para buscar algum consenso mais centrista.

Assim como Antonio Prata, senti um grande alívio ao ver os primeiros pronunciamentos de Joe Biden depois da vitória.

Candidato sem brilho, meio engessado e com sabor de chuchu, ele se mostrou ao menos capaz de mostrar respeito pelas pessoas e pelo cargo.

Será que Trump e Bolsonaro foram apenas um surto, um momento psiquiátrico na História, e estamos aos poucos voltando ao normal?

A questão é que foi esse mesmo estado de coisas normal que produziu tamanhas aberrações. O desemprego, o desmonte do Estado, o crescimento do fundamentalismo evangélico, o ressentimento racista, machista e xenófobo —tudo isso vem de antes. Não sei o quanto políticos moderados e tradicionais, como Biden, são capazes de mudar esse quadro.

Estranhamente, o que estamos vendo é a colisão entre dois surtos: o do populismo de extrema-direita e o de
covid-19.

Bolsonaro e Trump poderiam ter se fortalecido na pandemia; bastava não se comportarem como Nero ou Calígula. O menosprezo pelas centenas de milhares de mortes aumentou sua rejeição —mas não tanto como seria justo esperar.

Poderíamos então pensar que, sem a covid, Bolsonaro não teria se saído tão mal nestas eleições. Não se trata de especulação ociosa: trata-se de ver se, quando tudo voltar ao normal, teremos de fato um declínio da extrema-direita.

Sem dúvida, Bolsonaro poderá amargar as consequências de uma recessão prolongada, de uma alta da inflação, de acordos fisiológicos, de escândalos em família e das inúmeras besteiras que ainda haverá de fazer. 

Mas fico em dúvida quanto à possibilidade de se desfazer o clima ideológico predominante. A classe média que votou em Bolsonaro se mantém firme, acho, na ideia de que os pobres têm de se virar por própria conta e que a atuação do Estado é um entrave para o desenvolvimento.

Verdade que a resistência ao racismo e à homofobia se mostra vigorosa, e há grande futuro político para quem representa os jovens negros da periferia, vitimados pela violência policial e pelas péssimas condições de ensino.

Não me parece igualmente forte a presença de políticos que defendam abertamente o fim da hegemonia neoliberal; com Palocci e Joaquim Levy no Ministério da Fazenda, Lula e Dilma seguiram a onda, que no fim os destruiu. 
Ciro Gomes, que concentra seu discurso na crítica ao neoliberalismo, não sei se terá tanta penetração.

E quando um dos principais adversários do bolsonarismo, hoje, é João Doria, a perspectiva de uma virada antidireitista continua distante.

Sim, Bolsonaro foi um surto, um ataque de fúria destrutiva e antidemocrática que tomou a maioria do eleitorado. O ódio ao PT e à esquerda arrefeceu. Guilherme Boulos e Manuela d'Ávila mostram força.

Mas os majores, os capitães e os delegados que se elegem vereadores por todos os cantos do país, por partidos tradicionais ou não, mostram que o declínio de Bolsonaro não é o declínio do bolsonarismo.

Uma volta aos políticos normais me traz grande alívio, claro. Mas o normal, passada a demência de Trump ou Bolsonaro, vai ainda precisar de muito conserto. (por Marcelo Leite)
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