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sábado, 4 de abril de 2020

UMA TRAGÉDIA BRASILEIRA É TER COMO PRESIDENTE, EM PLENA PANDEMIA, UM GROTESCO RESSENTIDO DO SUBSOLO

joão pereira coutinho
BOLSONARO SE ALIMENTA DO RESSENTIMENTO
CONTRA A TIRANIA DOS ESPECIALISTAS
Aqui de longe, na Europa, acompanhando o cenário de medo e morte que corre por estas bandas, confesso um certo fascínio com a irresponsabilidade de Jair Messias Bolsonaro. 

De onde vem essa hubris que leva o presidente a desprezar um vírus potencialmente letal?

De onde vem a atitude guerreira de desconfiar do confinamento, o único método comprovadamente eficaz para evitar o crescimento exponencial de casos e o colapso do sistema de saúde?

A Itália, convém lembrar, tem um bom sistema de saúde, com um número razoável de unidades de cuidados intensivos. Já enterrou 14 mil mortos. Espanha, aqui ao meu lado, mais de 10 mil.

A ignorância não é explicação. Há momentos em que o ignorante, assoberbado pela violência das circunstâncias, procura ajuda competente.

A preocupação com a economia seria uma atitude compreensível porque sem dinheiro não haverá saúde para ninguém –razão pela qual a Alemanha pondera criar certificados de imunidade, documentos que atestam a recuperação total de alguns cidadãos que poderiam, assim, voltar ao trabalho.

Mas a imprudência de Bolsonaro se alimenta de outras águas –um ressentimento antigo, quase instintivo, contra a tirania dos especialistas

A grande diferença, desta vez, é que o lobo existe mesmo e os especialistas, os verdadeiros especialistas, têm razão em temer o bicho.

Uma boa forma de compreender o impasse do momento é ler um autor singular com um ensaio de mesmo nível. O nome é Martim Vasques da Cunha, que concedeu uma entrevista importante à Folha de S. Paulo a propósito do seu livro A tirania dos especialistas – da revolta das elites do PT à revolta do subsolo de Olavo de Carvalho.

É um ensaio notável e denso, em que o Brasil é apresentado como vítima de duas tenazes.

De um lado, existe o que Vasques da Cunha designa por revolta das elites, uma expressão cara a Christopher Lasch, e que significa a adesão do intelectual orgânico à velha tentação demiúrgica de transformar a realidade à luz dos seus princípios iluminados.

As elites das universidades, da cultura, da mídia, gravitando em torno desse planeta imenso chamado PT, foram construindo, ao longo dos anos, uma narrativa que não apenas ignorava a realidade como a procurava suplantar.

E quando essa mesma realidade dava sinais de vida, procurando romper as muralhas fechadas do castelo, a função do intelectual nunca passou por escutar ou compreender o rumor que ascendia do solo e do subsolo. 
Faz parte do racionalismo em política reduzir qualquer dissonância, e, sobretudo, qualquer dissonância de natureza prática, a uma mera questão técnica, que a razão facilmente classifica e resolve.

O que a razão, por si só, não é capaz de classificar e resolver, não demonstra, ipso facto, as limitações epistemológicas do sujeito. Mostra, isso sim, as limitações das massas que devem ser simplesmente ignoradas como primitivas que são.

O grande problema, esclarece Vasques da Cunha, é que as massas do subsolo não desparecem. Elas vão se constituindo como um exército vitimário e ressentido, pronto para a sua revolta.

Se juntarmos a esse exército faminto um líder de seita que fez do curto-circuito de paralogismo a sua igreja –a transformação do autoexílio e da automarginalidade em fonte de autoridade e poder incorruptível– temos os condimentos para o grande enfrentamento entre as elites do PT e o subsolo de Olavo de Carvalho.

O livro de Vasques da Cunha é precioso para entendermos a constituição desses dois exércitos no século 21 brasileiro. Mas seria um erro olhar para ambos como planetas distantes. Na verdade, são espelhos um do outro no mesmo desejo de poder e na mesma ambição de criar ou recriar o mundo à luz das suas ideias.

Cumprindo o calvário clássico do neurótico, eles se veem como vítimas e como deuses, o que os exclui do círculo da dúvida e da responsabilidade. São perigosos e nem sabem como o são.

Se nem toda a gente sente o que digo, a falta é minha, escreveu Montaigne.

Mas os especialistas tirânicos, de esquerda ou de direita, do PT ou de Olavo, não têm qualquer falta. Se nem toda a gente sente o que eles dizem, o problema é dos outros e os outros que se danem.

Em condições normais, essa mistura de alienação e pleonexia seria cômica –apenas um espetáculo grotesco para divertir os intelectos civilizados.

Em tempos de peste, deixar no comando um ressentido do subsolo é uma forma cruel que o destino encontrou para punir esses pequenos deuses. (por João Pereira Coutinho)

sábado, 20 de julho de 2019

OS SÚDITOS DE HOJE NEM SEQUER SABEM QUE NÃO SABEM QUAL É A VERDADEIRA CAUSA DE SUAS ADVERSIDADES – 1

dalton rosado
O TIRANO É ABSTRATO, AINDA QUE
 TENHA REPRESENTANTES FÍSICOS 
"Sede resolutos em não servir mais e sereis livres. Não
vos peço que o enfrenteis ou o abaleis, mas apenas
que não o sustenteis mais, e o vereis, como um
grande colosso do qual se retirou a base,
despencar e despedaçar-se debaixo
do próprio peso" (Étienne de
La Boétie, filósofo)
Considero a pequena obra do francês Étienne de La Boétie (1530-1563), escrita por volta de 1548, quando tinha apenas 18 anos, denominada Discurso sobre a servidão voluntária, como o mais vigoroso e lúcido libelo acusatório da tirania absolutista.

Esta já começava a dar sinais de inaptidão, não só pela sua obsolescência histórica, mas por estar diante da nova ordem mercantilista que pedia passagem para estabelecer-se, substituindo a ordem fisiocrata feudal então vigente.

As transformações provocadas pelas mutações no modo de produção de uma sociedade se operam dentro de um tempo histórico que costuma ser bem diferente do tempo de vida de um ser humano. 

As ebulições sociais que fervilhavam ao seu tempo de vida, expressas nas guerras religiosas e no cisma católico, provocaram o massacre de São Bartolomeu, em Paris, com o assassinato em massa dos convertidos pela reforma protestante, defensora do direito à usura, o lucro, antes somente permitido para determinadas castas sociais.

Tais conflitos se apaziguaram (relativamente) em 1598, com o édito de Nantes, que estabeleceu a liberdade de culto religioso, somente vindo a eclodir no final do século 18, com a revolução francesa; ou seja, mais de 200 anos após, e assim mesmo com as marchas e contramarchas ocorridas durante o século seguinte. 

Observe-se que até o culto religioso obedece às mutações no modo de produção social, numa demonstração inequívoca do liame indissolúvel entre economia, política e religião (tal como agora ocorre no Brasil). 

O Discurso sobre a servidão voluntária tinha um cunho revolucionário para a época, daí só ter sido impresso, secretamente, por volta de 1588, depois da morte do autor e  por iniciativa de Michel de Montaigne, um seu companheiro de ideias. Étienne de La Boétie morreu cedo, aos 31 anos, sem imaginar que a sua obra teria tanta repercussão futura.  

A atualidade da obra de La Boétie se deve a ele haver detectado e discorrido de modo brilhante, há cerca de 500 anos, sobre a aceitação voluntária da tirania pelos seus súditos e o desconhecimento da própria força por parte dos ditos cujos, tal como agora ocorre. 

Naquele tempo o poder monárquico-eclesiástico era personalíssimo, e se desejava, ainda embrionariamente, torná-lo menos pessoal, diluindo-o em esferas distintas sob o império da lei que, imaginava-se, daria tratamento isonômico a todos. Este era o conteúdo revolucionário da obra de Boétie, capaz de levá-lo à guilhotina por subversão à ordem decadente então estabelecida.

Não foi preciso condená-lo à morte porque ele sofreu um óbito natural e precoce, para felicidade dos tiranos de então; os seus seguidores é que sofreram o diabo devido às (pretensas) heresias defendidas. É sempre assim, a vanguarda sempre paga um alto preço perante os Brilhantes Ustras de cada período, até seus expoentes se tornarem reconhecidos como autênticos heróis e mártires. 

Nos tempos atuais a coisa está mais grave justamente porque, dada a decadência de um modo de produção que já não se coaduna com as necessidades de suprimento das demandas sociais de consumo (a forma entrando em choque com o conteúdo), sucedem-se no poder político governantes dos mais vaiados matizes ideológicos, num movimento que denomino de pêndulo da ineficácia, à medida que os súditos (os eleitores) são levados a crer que, com uma mera troca de governantes, resolver-se-ão os problemas sociais crescentes. 

A diferença daquela pretensão revolucionária de Boétie para os dias de hoje é que o tirano de agora é uma lógica abstrata, ainda que representada por pessoas do mundo econômico (principalmente) e por políticos que são submissos ao fetichismo da mercadoria e da sua funcionalidade autotélica, que enquadra toda a sociedade num racionalismo cartesiano no qual pontuam chocantes posturas anti-civilizatórias. 

São os casos de se deixar que morra (ou mesmo que se mate dolosamente) uma parte da população para que a outra sobreviva; e de se considerarem tais crimes contra a humanidade como procedimento correto e racional! 
Por Dalton Rosado

A expulsão de imigrantes desesperados é o exemplo mais eloquente do racionalismo desumano ao qual já me referi neste artigo recente, caracterizado pela preponderância do irracional sobre o racional a partir de uma lógica obtusa que tudo justifica. Um absurdo! 
(continua neste post)
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