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sábado, 31 de outubro de 2020

JAMES BOND? MUITO MAIOR DO QUE ELE FOI SEAN CONNERY (1930-2020)

S
ean Connery morreu dormindo aos 90 anos, de causa não revelada; provavelmente não foi de covid-19, pois tinha problemas de saúde havia alguns meses. 

Foi, provavelmente, o ator mais carismático que vi nas telas – tanto que, quem o assistiu no papel de James Bond, jamais engoliu os paspalhos que ousaram depois interpretar o espião criado por Ian Fleming. 

De uma família pobre de Edimburgo, Escócia, chegou a trabalhar como polidor de caixões, leiteiro e salva-vidas, até que seu belo físico lhe rendeu, entre 1954 e 1962, uma discreta carreira em seriados e filmes para TV, acabando por chegar ao cinema como coadjuvante. 

A única fita mais conhecida na qual atuou durante tal fase foi O mais longo dos dias, superprodução sobre o desembarque dos aliados na Normandia durante a 2ª Guerra Mundial, na qual seu nome era o 12º em importância do elenco.

Tudo mudou num passe da mágica ao ser escolhido para personificar o agente 007 em O Satânico Dr. No (dir. Terence Young, 1962). A Eon, uma pequena produtora nascente, decerto não podia bancar a contratação de um grande astro, então deve tê-lo escolhido por sua enorme semelhança com o personagem concebido por Fleming.

Bond foi introduzido nos livros como um proletário que, na Marinha, chama a atenção da espionagem britânica e é por ela recrutado. A nova carreira lhe traz conhecimentos e sofisticação, mas sua origem popular é responsável pela desenvoltura com que enfrenta situações de perigo e pela forte atração sexual que desperta nas mulheres. 

É difícil imaginarmos outro ator que, por sua própria história de vida, se encaixasse tão bem neste perfil.
  Um papel inesquecível: como líder de trabalhadores irlandeses que, por meio de atentados, reagiam às condições desumanas de trabalho nas minas de carvão da Pensilvânia, em 1876
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E Connery não foi nenhum deslumbrado com o sucesso imprevisto (o Dr. No estourou nas bilheterias e ele foi um grande beneficiado, claro): teve o bom senso de evitar ficar marcado como ator de um papel só. 

Fez questão de alternar as sete fitas mirabolantes de espionagem com trabalhos mais sérios, inclusive negociando com os produtores o direito de, como contrapartida para continuar interpretando Bond, estrelar cinco filmes cujas história e diretor ele próprio escolheria.  

Acertou em cheio. Esses papéis mais dramáticos lhe permitiram ir crescendo como ator e, quando a idade tornou cada vez mais desgastante a permanência na franquia 007 (o jovem Apolo que praticava fisicultura se tornara um adulto que era obrigado a usar peruca e a espremer-se com uma faixa acima da cintura para as plateias não perceberem que o James Bond... era barrigudo!), sua imagem já estava consolidada: podia fazer os filmes que quisesse. E os fez.
Richard Lester, que dirigia os filmes dos Beatles, criou este épico outonal, com
 Connery como um Robin Hood idoso que ainda enfrenta o xerife de Notthingam
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Do seu quase meio século de carreira, repleto de desempenhos marcantes, eu destaco estes 10, começando pelos dois melhores filmes da franquia 007 até hoje (CL)
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Moscou contra 007 (dir. Terence Young, 1963)
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007 contra Goldfinger (dir. Guy Hamilton, 1964)
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A colina dos homens perdidos (dir. Sidney Lumet, 1965)
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 Ver-te-ei no inferno (dir. Martin Ritt, 1970)
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 Até os deuses erram (dir. Sidney Lumet, 1973)
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 Zardoz (dir. John Boorman, 1974)
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 O homem que queria ser rei (dir. John Huston, 1975)
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 Robin e Marian (d. Richard Lester, 1976)
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 O nome da Rosa (d. Jean-Jacques Annaud, 1986)
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 A casa da Rússia (dir. Fred Schepisi, 1990) 
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Atualização: a viúva informou depois que Connery vinha,
 nos últimos anos, sofrendo de demência. "Pelo menos,
ele morreu durante o sono e foi tão pacífico."
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Filme que Connery fez em 1964 (logo após Dr. No
Moscou contra 007), ao lado de Gina Lollobrigida 

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A GRANDE ESPERANÇA BRANCA

É o título de um ótimo filme de 1970, dirigido por Martin Ritt, sobre o pugilista com que a máfia estadunidense do boxe conta para despojar o campeão negro do seu título, ainda que recorrendo a meios escusos.

Tratava-se de um evidente paralelo com o episódio de Muhammad Ali, a quem destronaram sob o pretexto de não haver atendido à convocação para a Guerra do Vietnã.

Para os que lutávamos para salvar Cesare Battisti da  vendetta   dos neofascistas italianos, a  grande esperança branca, no segundo semestre de 2009, era José Antonio Dias Toffoli, que o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicara para uma vaga no Supremo Tribunal Federal.

Poderia ser dele o voto decisivo para a permanência de Battisti no Brasil, pois os prognósticos indicavam placar apertado.

Em termos estritamente jurídicos, era uma indicação bem discutível; afinal, Toffoli havia se lançado como advogado do PT e passara diretamente a advogado geral da União.

Gilmar Mendes alertou a direitalha midiática que Toffoli atuaria como fantoche de Lula no STF e logo apareceu uma enxurrada de editoriais questionando seu mérito para ocupar tal posição.

De nossa parte, avaliamos que ninguém conseguiria ser pior ministro, mais tendencioso e caricato do que o próprio Mendes, então não vimos problema em defender Toffoli. E o fizemos.

No entanto, os dois personagens tiveram um encontro reservado, após o qual Gilmar Mendes mudou o tom de suas declarações. Deixando estupefatos  seus aliados nos jornalões e revistonas, passou a defender a confirmação de Toffoli como novo ministro. E ele foi confirmado.

Face a tão inverossímil reviravolta, ficamos  com a pulga atrás da orelha. E não deu outra: Toffoli se declarou impedido de participar do julgamento de Battisti.

A decisão mais vergonhosa do STF desde o caso de Olga Benário só foi evitada porque outro ministro caiu em si e não ajudou Gilmar Mendes e Cezar Peluso a usurparem a prerrogativa do presidente da República, de dar a última palavra no caso. Se dependesse de Toffoli, Battisti já estaria na Itália... ou morto.

Desde então, destacou-se principalmente por seu posicionamento contra a aplicação imediata da Lei da Ficha Limpa, nos processos de Joaquim Roriz e Jader Barbalho.

Foi muito criticado o apoio da Caixa Econômica Federal à sua festa de posse no Supremo: um patrocínio de R$ 40 mil que, segundo o senador Pedro Simon, constituiu-se num "absurdo desnecessário".

Agora, Toffoli está de novo sob os holofotes da mídia, como se vê na edição desta 6ª feira (22) da Folha de S. Paulo:
"O ministro do STF José Antonio Dias Toffoli faltou a um julgamento na corte para participar do casamento do advogado criminalista Roberto Podval na ilha de Capri, no sul da Itália. Ele não informa quem pagou pela viagem.
Os noivos ofereceram aos cerca de 200 convidados dois dias de hospedagem no Capri Palace Hotel, um cinco estrelas cujas diárias variam de R$ 1,4 mil a R$ 13,3 mil...
Procurado pela Folha, Toffoli não esclareceu se a viagem, os deslocamentos internos e a hospedagem foram cortesias de Podval. O advogado também não quis falar sobre o assunto.

No STF, Toffoli é relator de dois processos nos quais Podval atua como defensor dos réus. Ele atuou em pelo menos outros dois casos de clientes de Podval".
Que cada um tire suas conclusões.

domingo, 28 de setembro de 2008

QUE PAUL NEWMAN CONTINUE SE DIVERTINDO LÁ EM CIMA...

Paul Newman morreu, aos 83 anos. Não era um ator extraordinário, mas tinha carisma e um faro quase infalível para escolher papéis que o destacariam.

Parecia ser um sujeito simpático e de bem com a vida. Mas não lhe faltava coragem nem discernimento político, pois fez campanha por Eugene McCarthy, pré-candidato à presidência que, já em 1968, propunha-se a tirar os EUA do Vietnã.

Não era qualquer celebridade que ousava associar sua imagem à do santo guerreiro Gene, tão amado pelos estudantes quanto detestado pelos conservadores e reacionários de todos os matizes (que seriam apropriadamente designados por Richard Nixon como maioria silenciosa, em contraposição à minoria que falava porque tinha o que dizer...).

Ao desacelerar sua carreira cinematográfica, continuou em evidência como um dos proprietários da equipe Newman-Hass, uma das principais escuderias da Fórmula Indy.

Mesmo com câncer terminal, respondia com gracejos às indagações sobre seu estado de saúde. Impossível não simpatizarmos com ele.

Os críticos ressaltarão, como sempre, os seus olhos azuis. O que mais me chamava a atenção era a voz grossa, que parecia pertencer a um grandalhão, não a um indivíduo de porte mediano.

O boxeador Rocky Graziano foi seu primeiro grande personagem, em Marcados Pela Sarjeta (dirigido por Robert Wise, 1956). Houve quem dissesse tratar-se da cinebiografia do lendário Rocky Marciano (até eu caí nessa...), mas eram dois pugilistas diferentes.

Newman estrelou um filme antológico em 1962: Desafio à Corrupção (d. Robert Rossen). Foi a melhor atuação de sua carreira, como o craque da sinuca Eddie Felson, que enfrenta o grande campeão Minnesota Fats (Jackie Gleason) e, embora seja mais talentoso, perde por falta de personalidade. Começa, então, a descida aos infernos na qual ele forjará seu caráter, a um preço terrível.

Em qualquer outro ano, Newman certamente ganharia o Oscar. Naquele, entretanto, teve de competir com outra culminância: Gregory Peck, em O Sol É Para Todos (d. Robert Mulligan).

Também Desafio à Corrupção não levou sorte, pois bateu de frente com o superlativo Lawrence da Arábia (d. David Lean).

Para compensar, a Academia o premiou por retomar o personagem Eddie Felson numa medíocre seqüência cometida por Martin Scorcese em 1986: A Cor do Dinheiro.

Muito mais merecedoras de estatuetas foram suas performances em obras-primas como Um de nós Morrerá (d. Arthur Penn, 1958), O Indomado (d. Martin Ritt, 1963), Rebeldia Indomável (d. Stuart Rosenberg, 1967), Hombre (d. Martin Ritt, 1967), Oeste Selvagem (d. Robert Altman, 1976), Quinteto (d. Robert Altman, 1979) e O Veredicto (d. Sidney Lumet, 1982).

Aliás, mesmo seu desempenho em amenidades simpáticas como Butch Cassidy (d. George Roy Hill, 1969), Golpe de Mestre (d. George Roy Hill, 1973) e Roy Bean, o Homem da Lei (d. John Huston, 1972) foi artisticamente superior ao de A Cor do Dinheiro, um papel sem verdadeiras exigências, que ele representou correta mas burocraticamente.

O personagem também não ajudava. Scorcese pisou feio na bola. Felson termina Desafio à Corrupção como um homem que se reconstruiu ao confrontar e vencer a podridão ambiente. E começa A Cor do Dinheiro como o veterano que adestra outro jovem para seguir o caminho que ele, enojado, rejeitara. Talvez Newman tenha percebido esta incongruência e optado por manter algum distanciamento.

De resto, é impressionante a lista de grandes diretores com quem Newman trabalhou. Aos citados acima devem-se acrescentar, ainda, Richard Brooks (Gata em Teto de Zinco Quente, 1958, e Doce Pássaro da Juventude, 1962) e Otto Preminger (Exodus, 1960).

Na Hollywood de então, não se era cineasta de primeira linha sem saber dirigir atores. Esses medalhões souberam extrair de Paul Newman atuações quase sempre marcantes, que não sairão tão cedo da lembrança de quem, como eu, curtia intensamente o cinema nas décadas de 1950, 60 e 70 – as do seu apogeu.

Que descanse em paz. Ou, melhor ainda, que continue se divertindo lá em cima...
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