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quinta-feira, 3 de agosto de 2023

A DESUMANIDADE DA GUERRA VISTA ATRAVÉS DE UM CLÁSSICO DA ANIMAÇÃO

 


Com a estreia recente do filme Oppenheimer, de Christopher Nolan, volta ao centro das atenções a Segunda Guerra e seu desfecho tenebroso. Existem debates na historiografia de que o Japão já teria se rendido à época do lançamento das duas bombas nucleares ou que a rendição teria ocorrido muito mais devido à eminente entrada da URSS nos combates contra o regime de Tóquio, pois antes ainda reinava o tratado de não agressão entre os dois países. 

Seja como for, é preciso considerar o quanto a guerra foi desigual para os povos. A URSS, por exemplo, perdeu cerca de 26 milhões de pessoas, entre soldados e civis. A Alemanha, mais de 5 milhões e o Japão cerca de 1,5 milhão. Os EUA tiveram perdas majoritariamente militares, visto que os combates ficaram distantes de seu território principal, em cerca de 300 mil. 

Contudo, acima do número de mortes está o sofrimento social vivido pelas populações, forçadas a viver em regime extremo de carestia, com comida racionada e em fuga. Nesse aspecto, a população japonesa sofreu profundamente, muito antes das bombas de Oppenheimer, o físico da morte, tivesse caído por lá. 

Um filme clássico que aborda os impactos do conflito entre a população japonesa é Túmulo dos Vagalumes (Hotaru no Haka) obra de Isao Takahata, do mítico estúdio Ghibli. Lançado em 1988, o filme, que pode ser visto no Youtube através da janela ao final deste post, acompanha os irmãos Seita e Setsuko em sua luta pela sobrevivência após ficarem órfãos da mãe, morta durante um bombardeio estadunidense, e com a ausência do pai, embarcado na Marinha japonesa. 

O triste retrato colocado no filme nos faz lembrar que para além das ações dos militares, com seus cientistas e bombas, em toda guerra existem pessoas comuns afundando no desalento. (por David Emanuel Coelho) 




quarta-feira, 7 de junho de 2023

ERA UMA VEZ EM TÓQUIO ABORDA TEMAS PERENES DAS RELAÇÕES ENTRE PAIS E FILHOS

 

O filme para assistir hoje é o clássico japonês Era Uma Vez em Tóquio (Tōkyō Monogatari) de 1953 do diretor Yasujiro Ozu. Em um país em processo de reconstrução, o filme aborda os dilemas e desencontros entre gerações de pais e filhos. 

Na história, o casal de idosos Shūkichi e Tomi Hirayama - interpretados por Chishu Ryu e Chieko Higashiyama, respectivamente - saí do interior do Japão para visitar seus dois filhos, a filha e a viúva do quarto filho. Contudo, com exceção da viúva, nenhum dos filhos possui tempo para dedicar ao casal que acaba relegado e esquecido em uma Tóquio moderna e americanizada, muito diferente da época em que os dois eram jovens. 

Desgostosos com a recepção, o casal decide voltar para o interior, mas Tomi, a mãe, acaba passando mal durante o caminho e os dois se veem obrigados a fazer uma escala na cidade do filho mais novo, onde ela acaba por falecer. A breve reunião da família acaba ocorrendo em razão do funeral e dura apenas o período da cerimônia, pois logo os filhos retornam para seus afazeres regulares e mesmo a viúva manifesta sua necessidade de voltar a Tóquio. 

Com um enredo sutil e mesmo poético, Era Uma Vez em Tóquio consegue abordar o tema perene da velhice, da alienação geracional e do quanto os laços familiares acabam se enfraquecendo com o passar do tempo e com as ocupações diárias. Além disso, também traz à baila o choque entre duas culturas em um Japão em acelerada mudança: de um lado, a cultura ancestral de valorizar os laços familiares e comunitários e, de outro, a nascente sociedade japonese ocidentalizada, com valores individualistas e a busca pelos interesses privados acima de todo o resto. Quando se considera que hoje naquele país a solidão dos idosos é um dos grandes males sociais, é possível compreender o quão premonitório foi o filme de Ozu.

Por fim, a bela fotografia em preto e branco, o excelente trabalho dos atores e cenas nas ruas da Tóquio da década de 1950, em franco processo de americanização, possuem atrativo suficiente para se assistir a esse clássico do cinema mundial. (por David Emanuel Coelho) 





terça-feira, 23 de abril de 2019

O MUNDO ESTÁ PRENHE DE REVOLUÇÕES – 2

(continuação deste post)
A cena africana – o continente africano, com seus cerca de 1,2 bilhão de habitantes, padece com o aumento da incidência de doenças que poderiam ter sido erradicadas a partir da descoberta de vacinas e medidas médicas preventivas. Além disso, aparecem e se disseminam moléstias antes desconhecidas como a Aids e vírus como o ebola.

Os efeitos do aquecimento global se fazem sentir especialmente na África, seja pela desertificação de regiões inteiras ou pela intensificação de aguaceiros como os que ora atingem a região de Moçambique e países próximos, matando milhares de pessoas e desabrigando outras tantas. 


As ebulições africanas diante da intensificação da miséria generalizada provoca a queda de ditadores, mas não correspondem a evoluções emancipatórias que caminhem para a superação dessa mesma miséria; direcionam-se, isto sim, para a reprodução de governos autoritários militarizados, que tentam manter pela força a submissão dos desesperados. 

Boko Haram: de volta às trevas medievais.

É deste caldo de cultura que surgem organizações fundamentalistas político-místicas como o Boko Haram, negando todas as conquistas civilizatórias da humanidade e pregando a volta de práticas religiosas que remontam à chamada idade das trevas.

A África, mais do que qualquer outro continente, é atingida pela disparidade dos níveis tecnológicos mundiais de produtividade das mercadorias; tal desfasagem lhe retira qualquer possibilidade de competição no mercado internacional, a não ser com a exportação dos minerais existentes em seu subsolo, controlados por gangues governamentais aliadas às empresas internacionais que enriquecem indiferentes miséria do povo africano.


A África mãe, pode ser considerada como o mais pobre continente nesse mundo capitalista promotor da miséria, cujas poucas ilhas de prosperidade não deveriam servir de modelo a ser imitado, como ainda ocorre. 

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A cena asiática – o continente asiático, com sua imensidão territorial (corresponde a 1/3 das áreas sólidas da Terra e reúne 60% de toda a população mundial) e com características geográficas as mais variadas, também retrata a falência do modelo capitalista, hoje nos seus estertores.
O demônio que mais assusta os japoneses hoje é a recessão...

Ainda que se possa atribuir ao capitalismo e sua dinâmica os avanços havidos no mundo asiático, retirando da ignorância milenar e da opressão feudal mais atrasada muitos povos da região (o que é uma verdade relativa, não absoluta, diferentemente do que afirma Paulo Guedes), isto não significa que outro modelo social não pudesse fazer o mesmo, e de modo pacífico e humanizado. 


Dividido em seis grandes regiões geográficas (o Oriente Médio; o subcontinente indiano; o sudeste asiático; o centro-leste; o extremo oriente; e a parte asiática da comunidade de Estados independentes), a análise que podemos fazer é a de que, após o surto desenvolvimentista original decorrente do desenvolvimento do intelecto humano, observa-se o recrudescimento da miséria, atingindo a maior parte de sua população.


O saber tecnológico adquirido pela humanidade (embora impulsionado pelo capitalismo que atingiu todos os poros das sociedades mundiais, não oportunizando a existência de outro modelo) não deveria permitir a volta da barbárie e das opressões religiosas fundamentalistas ali existentes, mas o capital, que promoveu o resgate do atraso milenar e da ignorância, é o mesmo que ora dissemina a barbárie por força das contradições dos seus próprios fundamentos irracionais.

...enquanto o dragão chinês ameaça precipitar... 

Mesmo o Japão, considerado o mais desenvolvido dos países asiáticos, habitado por um povo culto e disciplinado, é exemplo da disfunção do modo de produção capitalista no atual estágio de incompatibilidade entre forma e conteúdo. 


O aumento do PIB do Japão em 2018 foi de 1,1%, um índice de crescimento quase nulo. Como a dívida pública e privada do Japão corresponde a 240% do seu PIB, orçado em USD 5,0 trilhões, a dedução lógica é que a sua dívida colossal é impagável sob os critérios estabelecidos e de curto prazo.


O Japão só sobrevive porque os juros incidentes sobre sua dívida são bastante reduzidos quando comparados àqueles cobrados aos países emergentes ou subdesenvolvidos. Mas a recessão japonesa fará com que, já e já, os credores internacionais, por precaução, retirem os créditos baratos concedidos; isto causará a elevação das taxas de juros, agravando o quadro recessivo.


A China, país com cerca de 1,4 bilhões de habitantes (que corresponde a 20% da população mundial) e detentor do segundo maior PIB mundial, é o país asiático mais representativo da realidade falimentar do capital, embora seja alardeado por muitos desavisados como locomotiva vitoriosa do capitalismo sob critérios chineses. Passa-se justamente o contrário.  

...a derrocada do capitalismo em escala mundial...

O desenvolvimento econômico chinês —
baseado no culto à riqueza abstrata; no endividamento público e privado; e na completa restrição de direitos trabalhistas e baixos salários médios, além da prática descarada de procedimentos não convencionais na guerra concorrencial internacional de mercado—, antes de demonstrar a validade dos fundamentos capitalistas, atesta a sua irracionalidade. Como justificar, p. ex., a insuportável poluição em Pequim?! 

Ademais, com suas práticas contraditórias, a China impulsiona em ritmo caminho o capitalismo para o abismo.   

Trata-se de um dragão asiático que atingiu o seu limite externo de crescimento em padrões elevados, quando comparados aos padrões internacionais. Assim, como a roda do crescimento econômico tem de ser mantida numa mesma velocidade como forma de tornar saldáveis e saudáveis os compromissos financeiros assumidos, o emperramento do crescimento do PIB chinês e a ameaça de sua redução tem causado um frisson em todo o sistema de crédito mundial, igualmente ameaçado de insolvência. 

...fazendo a Grande Depressão parecer refresco.
A globalização da economia e a inserção da China dita comunista no mercado internacional, com sua produção de mercadorias cujo valor é dessubstancializado, tornou-a dependente da lógica capitalista, do mesmo modo que o capitalismo mundial se tornou dependente da China; ambos estão perplexos, como dois náufragos num mar revolto.

O tal comunismo chinês (rótulo hoje discutível) se tornou defensor do livre comércio mundial (liberal por excelência na economia e keynesiano no sistema de governo) e os Estados Unidos, outrora defensores do livre mercado, tornaram-se protecionistas e nacionalista, com restrições à economia de mercado (liberal no discurso e keynesiano na prática). 

Tal fenômeno sino-estadunidense é a prova mais evidente de que a política está subsumida ao capital, que tem regras absolutistas próprias e segregacionistas de funcionamento. 


A dívida pública chinesa corresponde a 140% do PIB e está assentada numa perspectiva de geração de valor advinda de lucros e extração de mais-valia (capitalismo puro) na produção de mercadorias que cada vez mais se tornam improváveis
. (por Dalton Rosado).
                    (continua neste post) 
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