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terça-feira, 14 de dezembro de 2021

JÁ AJUSTAMOS O TERMOSTATO DO PLANETA PARA A POSIÇÃO "GRATINAR OS IDIOTAS"

leonardo sakamoto
TRAGÉDIA NA BA E EM MG E SECA  NAS USINAS
ANUNCIAM ERA DA MUDANÇA CLIMÁTICA
As fortes chuvas que mataram e desabrigaram no Sul da Bahia e Norte de Minas Gerais são o tipo de evento extremo que os cientistas têm em mente quando alertam para as mudanças climáticas. 

Não significa que grandes tempestades deixariam de ocorrer sem o aquecimento global, mas a frequência delas passa de séculos ou décadas para anos. Eventos que afetam a todos, mas tiram a vida principalmente dos mais vulneráveis, ou seja, dos pobres. 

Da mesma forma, a seca que atingiu os reservatórios das hidrelétricas no Sudeste, levando a conta de luz a patamares nunca antes alcançados e trazendo o apagão de volta ao vocabulário popular, vai se repetir mais e mais vezes. 

O governo federal afirma que o problema é pontual, o que não se sustenta. Estudo do MapBiomas, p. ex., mostra que o Brasil perdeu 15,7% de sua superfície coberta de água entre 1985 e 2020. E vai perder mais.
Ainda se discute o impacto do aquecimento global sobre a formação de tornados, ao contrário do consenso sobre furações, mas eles têm vindo com mais frequência. No final de semana, dezenas de mortes foram registradas quando uma série deles deixou um rastro de destruição nos Estados do Kentucky, Arkansas, Illinois, Missouri e Tennessee nos Estados Unidos. 

No Brasil, vamos entrar na temporada de chuvas e teremos deslizamentos em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, entre outras regiões. Eventos assim matarão mais gente na medida que as mudanças do clima se fizerem sentir. 

Parte das mortes poderia ser evitada com a construção de moradias populares decentes, medidas eficazes de alerta com antecedência às comunidades e o poder público parando de encarar o aquecimento global como uma hipótese remota e adaptar urgentemente o Brasil para o pior. 

O que temos visto, contudo, é o governo federal e sua base de apoio no Congresso Nacional correndo para afrouxar regras e leis. Para nosso azar, o ministro mais competente de Jair Bolsonaro foi Ricardo Salles, que atuou para reduzir a proteção ambiental e ajudar desmatadores. 

Sua recomendação ao presidente, de aproveitar o foco nas mortes da covid-19 para "passar a boiada" sobre regras e normas, tornou-se um dos símbolos do atual governo. 

Neste 2021, brasileiros assistiram assustados a tempestades de areia engolirem cidades no interior de São Paulo e do Mato Grosso do Sul, a rajadas de ventos fortes causarem mortes (como as ocorridas num naufrágio de um barco-hotel no rio Paraguai em outubro) e a água faltar na torneira das cidades, na irrigação da lavoura, no calado das hidrovias. 

O que muitos chamaram de inferno é apenas um aperitivo de nosso novo normal. Já ajustamos o termostato do planeta para a posição gratinar os idiotas

E, neste momento, diante da falta de medidas eficazes tomadas por governos para reduzir as emissões de carbono (como pudemos ver no blá-blá-blá da COP-26, em Glasgow), estamos nos esforçando apenas para que o assado fique pronto antes da hora. 

Nosso país foi uma das estrelas do encontro, aliás, ostentando um abismo entre a promessa vazia de metas grandiosas e a prática cotidiana de destruição da Amazônia, do Cerrado, do Pantanal, da Mata Atlântica, impulsionada pelo desmonte da fiscalização e pela boiada de projetos que facilitam a grilagem e a destruição do meio ambiente e tornam vulneráveis populações indígenas, tudo sob a batuta do presidente da Câmara Arthur Lira. 

Nas próximas décadas teremos:
— milhões de refugiados ambientais por conta da subida no nível dos oceanos e pelos eventos climáticos extremos;
— 
fome em grande escala devido à redução e desertificação de áreas de produção e à perda da capacidade pesqueira; e
— aumento na quantidade de pessoas doentes e subnutridas, além de conflitos e guerras em busca de água e de terra para plantar. 

Muita gente vai morrer no Brasil e no mundo. E os sobreviventes terão de adaptar sua vida para conviver com um ambiente mais hostil. 

O mundo tentava manter o aumento da temperatura global em 1,5 graus Celsius até 2100, o que deve ser praticamente impossível dada a nossa incompetência. Podemos chegar a 3, 4 ou 5 graus a mais. 

De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, com um limite de aumento de 2 graus Celsius na temperatura global:
— 37% da população global estará exposta a ondas de calor severas pelo menos uma vez a cada cinco anos;
— o nível do mar vai subir quase meio metro até 2100; 
— a pesca reduzirá a produção em 3 milhões de toneladas; e
— a agricultura produzirá 7% a menos de trigo nos trópicos. 

Já adentramos uma nova era de extinção em massa de uma série de espécies. Talvez menos a nossa. Pois, ao final, os ricos comprarão sua proteção ambiental e herdarão a Terra. 

E o que restará para a população pobre do Sul da Bahia, p. ex.? 

Mortes que poderiam ter sido evitadas, como as duas de Amargosa, as duas de Itaberaba, as três de Itamaraju, a de Macarani, a de Prado, a de Ruy Barbosa, a de Jucuruçu.
                                                               (por Leonardo Sakamoto)

terça-feira, 26 de novembro de 2019

O CAPITALISMO TEM PULSÃO GENOCIDA

Nunca é demais lembrarmos que o capitalismo foi implantado pela força das armas, trazendo, portanto, no seu DNA uma pulsão de morte gerada pela coerção da escravidão pelo salário. 

Nos primórdios tal fato se deu unicamente pela coerção armada; agora se dá, também, pela coerção de uma relação social na qual somente se pode obter o sustento pessoal e familiar a partir da venda da força de trabalho. 

Isto, claro, a menos que se tenha juntado capital (que é acúmulo de trabalho abstrato transformado em valor) e se possa viver de rendas, mas disto só é capaz uma parcela ínfima da população.

Na coerção da relação social sob o capital, além da imposição segundo a qual se precisa vender a força de trabalho (valor) para se obter valor e, com ele, garantir-se minimamente o sustento, vive-se sob a tutela de uma força militar pronta para manter incólume essa (des)ordem institucional. Assim, o governo do capitão Boçalnaro, o ignaro (uma mistura contraditória de nacionalismo e liberalismo) insiste em proposições que visam preservar pela força militar a propriedade (dos que a têm em abundância), a qual nada mais é do que capital acumulado.

Mas a pulsão genocida do capital não se restringe aos confrontos bélicos que se iniciaram há pouco menos de 200 anos: eles vêm desde 1848, quando  da transição generalizada para o republicanismo mercantil da 1ª Revolução Industrial, passando pelas duas guerras mundiais e pelos temores subsequentes de uma guerra nuclear que extinguisse a espécie humana, além de também se corporificarem nas atuais insurreições civis e guerras localizadas mundo afora.
Desde 1848 pipocam os terríveis desperdícios de vidas decorrentes da punção genocida do capital
Ditas insurreições têm DNA capitalista, pois tudo remonta a uma relação social que coloca os indivíduos sociais (transformados em cidadãos de 1ª ou 2ª classe) como adversários entre si na competitividade fratricida pela busca da impossível melhora salarial coletiva, abrangente, até porque ela está tensionada pela supressão desses mesmos salários em face do desemprego estrutural, pela redução média dos salários e pelo não atendimento eficiente por parte do Estado das demandas sociais previstas constitucionalmente. 

Mas, a pulsão de morte não é apenas expressa na imprescindível (para o capital) força militar subvencionada pelos impostos cobrados a cidadãos exauridos economicamente, mas também, e de modo cada vez mais acentuado, pela agressão ecológica.

Esta última, vale ressaltar, provoca a degradação ambiental planetária (e não apenas localizada). Isto tem preocupado os países ditos ricos, acostumados a constatar a miséria das nações pobres com hipócrita indiferença, atribuindo às suas vítimas a culpa pela própria miséria social, sem jamais considerarem que o capital não pode promover a riqueza em simetria mundial: a cada ilha de riqueza corresponde um oceano de pobreza!    
Taalas: hora de determos a marcha para o abismo

Recente relatório da Organização Mundial Meteorológica da ONU, organismo da ordem capitalista, destaca que a quantidade de CO2 que vem sendo emitida na atmosfera, provocando o efeito-estufa e o aquecimento global (como se fosse um lençol que impede a dissipação dos gases na estratosfera), aumentou 146% da era pré-industrial para cá, ou seja, desde antes de 1750.

O secretário da dita OMM, Peterri Taalas, adverte: 
"Sem cortes rápidos dos níveis de emissão de CO2 e outros gases, a mudança climática trará impactos destrutivos e irreversíveis cada vez maiores na vida em nosso planeta, e a chance de agir está quase fechada.  
Na última vez que o Planeta experimentou uma concentração comparável de CO2 foi entre 3 a 5 milhões de anos atrás, quando as temperaturas eram entre 2°C e 3°C mais quentes e o nível do mar era entre 20 e 30 metros mais alto do que agora"
A OMM informa, ainda, que as concentrações de metano e óxido nitroso também subiram. Ao mesmo tempo, ressurgiu uma substância potente de gases de efeito-estufa e destruidora da camada de ozônio, a chamada CFC-11, que é regulada por um acordo internacional para proteger a camada de ozônio.

Mesmo diante dos graves alertas dos cientistas, a reunião do Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática, marcada para a próxima quinzena, tende a ser mais um protocolo de boas intenções a ser descumprido pelas ordens ditatoriais emanadas da lógica do capital para os seus súditos governamentais insensíveis e emparedados pelo poder que encarnam
Gatti: agronegócio é o grande vilão do efeito-estufa no Brasil

Numa entrevista recente, a coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito-Estufa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, Luciana Vanni Gatti, informou que, segundo um novo estudo, 71% das emissões do país vêm do agronegócio. 

Ela acrescentou que por causa da pressão econômica, o cenário brasileiro é dos mais críticos: 
"Existe esta pressão econômica, o governo quer fechar a balança comercial, as contas públicas, então incentiva-se a exportação, mas, por trás disso, vem o desmatamento. 
É preciso se repensar sobre a alimentação, sobre a criação de gado, da gente pensar em não derrubar florestas, criar o gado num manejo diferente que mantenha a floresta em pé, a gente tem de sair daquelas velhas práticas da agropecuária e descobrir maneiras para que não emitam tantos gases na produção de alimentos".
Segundo Gatti, se as emissões continuarem aumentando, as mudanças climáticas terão um impacto muito maior do que o desejado para que a vida continue como ela existe hoje no planeta. Entre os efeitos que já são observados, ela destacou as mudanças no regime de chuvas, a perda de áreas de praia com o avanço do mar e a ocorrência de eventos extremos. 
Nós, vítimas da irracionalidade capitalista, temos de reagir

Ela também citou uma pesquisa na Amazônia, dando conta de que a floresta está apresentando um comportamento diferente em termos de precipitações e temperatura. A Amazônia também estaria absorvendo menos gases de efeito-estufa do que na década passada. 

Gatti é taxativa:
"A gente tem de acordar, tem de realmente reduzir a emissão, e isso desde o ser humano, desde o indivíduo, na hora que ele resolve, ao invés de ligar o ar condicionado, ligar o ventilador; ao invés de abastecer o carro com a gasolina porque ela fica um pouquinho mais barata, abastecer com o etanol.  
A gente tem que mudar o nosso padrão de vida e realmente emitir menos, inclusive nas grandes políticas públicas".
Mas, ao invés de nos preocuparmos com tais amaças à vida planetária, o que vemos é o ministro Paulo Guedes reverberando pronunciamento de um dos filhos zero à esquerda do capitão, sobre a possibilidade de um novo AI-5, que representaria licença para matar. 

Cada vez fica mais claro que Guedes tem consciência de que as medidas restritivas de direitos econômicos ditadas pelo liberalismo capitalista (Estado mínimo mais exploração e força máximas) na fase insustentável dessa forma de relação social segregacionista, acarretará a adoção de instrumentos institucionais excludentes legais (ou não) de criminalidade para conter a onda de insatisfação que varre o mundo e que é bastante aguda em nosso país. 

Cabe a nós, as vítimas dessa irracionalidade capitalista, evitarmos que a verdadeira virtude seja negada em nome de falsas virtudes liberais apregoadas durante a demagógica campanha eleitoral das fake news eletrônicas de massa que transfiguraram a odiosa guerra em falacioso prenúncio de paz. 

A pulsão genocida do capital que se expressa em diferentes frentes de conduta (escravista, bélica e ecológica) precisa ser compreendida na sua dimensão histórico-científica, a fim de que possamos evitar o desastre humanitário para o qual nos encaminhamos ao marcharmos insensivelmente para o abismo. (por Dalton Rosado)

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

NÃO SE ILUDAM: O AQUECIMENTO GLOBAL É "CONTINUO E ACELERADO"!

Quando a eleição presidencial estiver decidida e o respeitável público de novo dedicar alguma atenção aos assuntos sérios, eis uma série de constatações que não podem passar em branco:

"O ritmo das mudanças climáticas não diminuiu. Se você olhar para o sistema climático inteiro, e não só as temperaturas superficiais, o que verá é um aquecimento contínuo e acelerado.

A atmosfera e os oceanos se aqueceram, a quantidade de neve e gelo diminuiu, o nível do mar subiu e as concentrações de gases-estufa aumentaram.

A Organização Meteorológica Mundial confirmou recentemente que 13 dos 14 anos mais quentes da história ocorreram no século 21. A década 2001-2010 foi a mais quente já registrada.

...não houve pausa no aquecimento total. Logo, não temos tempo adicional para implementar soluções.

Sabemos que as mudanças climáticas já têm efeito sobre a agricultura, a saúde, os ecossistemas, os recursos hídricos e os meios de subsistência. O aspecto que chama a atenção nos impactos é que estão correndo dos trópicos aos polos, de ilhas pequenas a grandes continentes e dos países mais ricos aos mais pobres. E temos sinais precoces de que o sistema de recifes de corais e o sistema ártico estão passando por modificações irreversíveis".

Quem apresenta este quadro, extremamente preocupante, é Rajendra Kumar Pachauri, que há 12 anos preside o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima.

A contagem regressiva para o fim da espécie humana continua em curso, tudo levando a crer que medidas à altura da magnitude dos desafios só começarão a ser tomadas quando já estivermos nos defrontando com as piores catástrofes. 

Vamos torcer para que a ficha não caia tarde demais.
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