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terça-feira, 3 de outubro de 2023

TRANQUILIZANDO O ETERNO MUTANTE: NÃO VIREI BOLOR AOS 60 ANOS, NEM VOU VIRAR AINDA QUE EU CHEGUE ATÉ 100.

Por mero acaso, procurando um post antigo, topei com outro do qual havia esquecido por completo, tendo como título uma indagação do Arnaldo Dias Baptista (o Mutante inconformista, que continuou roqueiro mesmo quando poderia lucrar mais com o pop inofensivo): será que eu vou virar bolor?

Escrevi tal texto quando estava prestes a me tornar sexagenário. E percebo que estar agora acrescentando à conta mais 13 invernos não alterou em nada meu sentimento. 

Quando tinha uns 15 anos, gostava muito desta estrofe da canção Viramundo, do Gilberto Gil: "Prefiro ter toda a vida/ a vida como inimiga,/ a ver na morte da vida/ minha sorte decidida". 

Continuava mantendo tal convicção ao completar 60 anos, continuo agora e espero continuar ainda que me torne centenário.

Então, como curiosidade vou reproduzir abaixo o post que quis porque quis ser reencontrado hoje. (CL).
SERÁ QUE EU VOU VIRAR BOLOR?
"Venho me apegando aos meus sonhos
e à minha velha motocicleta.
Não gosto do pessoal da Nasa,
cadê meu disco voador?
O que é isso, meu amor?
Será que eu vou morrer de dor,
será que eu vou virar bolor?"
(Arnaldo Dias Baptista)
Atingir tal ou qual idade deixa de ser realmente importante para nós depois de completarmos 18 anos. Aí já estamos na posse de todos os nossos direitos civis, podemos votar, dirigir quaisquer veículos, assistir a todos os filmes e peças que quisermos...

Mas, em termos simbólicos, continuamos acreditando que, quando totalizamos um certo número de décadas, nossa vida muda.

A Geração 68, p. ex., conviveu com aquela palavra-de-ordem das barricadas parisienses, "não confie em ninguém com mais de 30 anos!". Houve até uma musiquinha oportunista por aqui aproveitando a onda.

Esperei com impaciência o fatídico dia em que eu deixaria de ser confiável para os contestadores do stablishment. Mal acabara de despertar, fui correndo me olhar no espelho, para ver se tinha sofrido uma metamorfose durante o sono. Que alívio! Continuava o mesmo de sempre, mais para bicho-grilo do que para caretão (era o tempo em que editava revistas de rock)...

Aos 50, entretanto, tomei a decisão de mudar toda a minha vida, saindo de um casamento desgastado, procurando uma nova companheira, tendo filhas. Foi só coincidência ou, realmente, chegar àquela idade mexeu com minha cabeça? Sei lá...

No ano passado, o grande pensador Luiz Inácio Lula da Silva colocou outra pedra no meu futuro, ao dizer que os sexagenários, ou se tornam conservadores como ele, ou têm um parafuso solto na cabeça.

O pior é que David Mamet, o melhor dramaturgo estadunidense das últimas décadas, estava com exatos 60 anos ao dar entrada no cemitério dos mortos-vivos (que saudades do Henfil!). Foi quando declarou:
"Como quase todos os liberais americanos, consumo produtos de corporações e muitas vezes anseio por eles. Então, por que sempre vociferar contra as grandes empresas e dizer que são a encarnação do mal? 
Percebi que nem tudo está sempre errado à minha volta. Que aceitar uma sociedade de livre mercado é muito mais condizente com a minha experiência de vida do que a visão que eu mantinha antes – a crença de que uma sociedade em que o estado intervém é melhor. 

E, ainda, que não posso abominar todos os que são de direita, porque convivo com eles no trabalho, na reunião de pais e mestres, na minha rua, e gosto de muitos deles"
Será que, em outubro de 2010, eu também vou virar bolor? Quero crer que não.

Talvez porque as geringonças fabricadas pelas grandes empresas nunca tenham sido fundamentais para mim. Algumas me proporcionam conforto e simplificam minha vida, claro. Mas, já passei muito tempo sem elas e posso voltar a fazê-lo, sem traumas.
Quando começava minha carreira, conheci um veterano jornalista do Diário do Comércio (SP), chamado Waterlando João Alípio, que garantia ser capaz de sobreviver mesmo que a civilização acabasse: sabia caçar, pescar e não se incomodava de viver no meio do mato.

Sem chegar a tal exagero, acho que também conseguiria, mesmo que a duras penas, adaptar-me a um mundo pós-apocalíptico. Sou um bocado teimoso.

Da perspectiva que tenho nestes tristes trópicos, que me desculpe o Mamet, tudo está realmente sempre errado à minha volta. O tal do livre mercado me fornece qualquer coisa que queira comprar, desde que, com sangue, suor e lágrimas, consiga pagar as prestações. De quebra, às vezes me faz comer o pão que o diabo amassou por conta de uma recessão que não causei.

Cá com meus botões, nunca deixarei de pensar que, dispensando tudo que é parasitário e inútil (bancos, governos, burocracias, propaganda, cursos emburrecedores, objetos de luxo e mil etceteras), cada cidadão do País e do planeta poderia dispor do necessário para uma existência realmente digna – trabalhando muito menos do que agora.
Também abomino uma sociedade em que o Estado mete o nariz em tudo e até grampeia nossos telefones. Aliás, estou com Proudhon e não abro:
"Ser governado é ser guardado à vista, inspecionado, espionado, dirigido, legislado, regulamentado, identificado, doutrinado, aconselhado, controlado, avaliado, pesado, censurado, comandado por outros que não têm nem o título nem a ciência, nem a virtude. (...) 

Depois, ao menor resmungo, à primeira palavra de reclamação, reprimido, multado, enforcado, hospitalizado, espancado, desarmado, garroteado, aprisionado, fuzilado, metralhado, julgado, condenado, deportado, sacrificado, vendido, traído, e por cúmulo, jogado, ludibriado, ultrajado, desonrado".
Mas, quem disse que a estatização é a única opção em relação ao livre mercado? Por que não podemos nos associar livremente para criarmos outro tipo de sociedade, com os cidadãos assumindo e repartindo as funções hoje desempenhadas pelo Estado?
Interpretando "Immigrant Song", Jeff Beck teve como convidado
o Jimmy Page (que se fantasiou de idoso, mas tocou como sempre) 

Isso era bem mais difícil de viabilizar no século 19 do que agora. Só falta vontade política e – por que não dizer? – espírito de luta. Isto os contemporâneos de Proudhon tinham muito mais do que nós.

Finalmente: quanto às pessoas de direita, não vou destratá-las apenas por serem escravas do sistema. Afinal, além de brasileiro cordial,  sigo alguns preceitos do Cristo, como este: perdoo os que não sabem o que fazem (ou dizem).

Por tudo isto, confio em que, tanto quanto o eterno Mutante, eu não vá virar bolor. Aos 60 ou aos 100 anos.

Vai ver que tenho mesmo o tal parafuso solto... 

quarta-feira, 23 de março de 2016

TEORI NÃO ASSISTIU A "O VEREDICTO"

O melhor filme de tribunal de todos os tempos se chama O veredicto. É de 1982. Foi resultado de uma sinergia de talentos superlativos.

O diretor Sidney Lumet já mostrara sua afinidade com o gênero desde a estréia no cinema com outro clássico inesquecível: 12 homens e uma sentença (1957). Dramas tensos e contundentes, flagrando as contradições de uma sociedade desumana, são sua especialidade.

O roteirista (e também autor teatral) David Mamet vem sendo, nas últimas décadas,  a mais saliente manifestação de vida inteligente em Hollywood e na Broadway.

Paul Newman está entre os melhores atores da segunda metade do século passado e interpretou um dos papéis culminantes de sua carreira em O veredicto (o outro foi em Desafio à Corrupção).

Igualmente magníficos eram James Mason, Jack Warden e Charlotte Rampling.

Infelizmente, o filme não está disponível para visualização cá no blogue. Quem sabe fazer o download, poderá baixá-lo aqui

Lembrei-me de O veredicto ao ler que o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, mandou trancar a sete chaves o que consta no inquérito da Operação Lava-Jato a respeito do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 

Desde que foi indicado pela presidente Dilma Rousseff, suas decisões tendem a alinhar-se com as posições situacionistas. O que pode indicar apenas que se trata de um senhor que admira quem tem o poder e se enraivece quando um Sérgio Moro da vida ousa escancarar a nudez de reis e rainhas, na esperança de abrir os olhos do povo.

Aliás, desde o caso do Luiz Fux, todas as indicações presidenciais ficaram sob suspeita. Fux, como se sabe, fez o Zé Dirceu crer que, uma vez empossado, ajudaria os réus do mensalão a escaparem da condenação (ele admitiu que criava tal impressão dizendo "deixa comigo que eu mato no peito e chuto").

Quando já estava garantido na condição de ministro do STF, chutou, isto sim, os mensaleiros para  o xilindró. Nos bastidores do PT, ficou sendo tão odiado quanto o Joaquim Barbosa.

Em O veredicto, o advogado Frank Galvin (Paul Newman) que se abatera após sofrer terrível injustiça, tornando-se alcoólatra e decadente, se vê às voltas com um caso que pode ser a chance de acertar as contas com o destino.

Como da primeira vez, do outro lado estão os poderosos, com a força da grana, da mídia e da respeitabilidade acadêmica. A luta é desigual ao extremo. Mas, se não vencer, ele nunca se reerguerá. "Não existe outro caso, este é o caso!" --afirma, a quem tenta consolá-lo com a perspectiva de vitórias vindouras.

Quando o inimigo, além de tudo, recorre ao suborno e ao jogo sujo, acuando-o, só lhe resta jogar sujo também. Viola sigilo de correspondência, desencava uma testemunha-bomba e prova irrefutavelmente ao júri que sua cliente fora transformada em vegetal por causa de um erro médico cometido pelo luminar de um conceituado hospital católico, que abafou o caso e esquivou-se de arcar com suas responsabilidades.

O brilhante líder do escritório de advocacia contrário (James Mason), apelando para filigranas jurídicas, consegue que o testemunho seja impugnado. O juiz manda os jurados esquecerem o que ouviram. 

Em suas alegações finais, Galvin invoca o espírito de Justiça. Diz que tudo aquilo (o tribunal imponente, o símbolo da balança, as togas antiquadas) é apenas uma representação da vontade que os homens têm de serem justos. E, quando a letra da Lei se choca com a verdade que está em nossos corações, é a estes que devemos ouvir.

O júri não só lhe concede a vitória, como pede licença ao juiz para aumentar o valor da indenização por ele pleiteada.

Da mesma forma, Teori está de acordo com a letra da Lei ao nos pedir que esqueçamos o que lemos, ouvimos e que, por vir ao encontro do que já sabíamos ou intuíamos, era a peça que faltava para completarmos o quebra-cabeças.

As pesquisas de opinião atestam que, desde então, formou-se uma convicção; as pessoas perspicazes já sabem qual é a verdade. Estão, portanto, condenadas ao fracasso as tentativas de colocar o gênio de volta na garrafa. 

sábado, 7 de julho de 2012

MAMET, A PERSPICÁCIA E A 'GANSA' DOS OVOS DE OURO

Nas últimas décadas, David Mamet tem sido o responsável por algumas das raríssimas manifestações de vida inteligente que ainda se detectam no planeta Hollywood.

A ele devemos o roteiro de O Veredicto (d. Sidney Lumet, 1982), o derradeiro grande clássico em filmes de tribunal, no nível de 12 homens e uma sentença (d. Sidney Lumet, 1957), Testemunha de Acusação (d. Billy Wilder, 1957), Anatomia de um crime (d. Otto Preminger, 1959), Julgamento em Nuremberg (d. Stanley Kramer, 1961) e O sol é para todos (d. Robert Mulligan, 1962).

Sem atingir a mesma excelência, mas igualmente incisivo no questionamento das injustiças praticadas pelos poderosos, vale citar o seu (também dirigiu) Cadete Winslow, de 1999.

Também prezo muito sua coragem de remar contra a corrente em obras como Olleana (idem, 1994), mostrando os exageros a que pode levar o modismo do assédio sexual: aluna com mau desempenho escolar acusa professor apenas para o retaliar e a comunidade universitária acredita preconceituosamente nas suas invencionices, destruindo a carreira do coitado.

Meu preferido, dentre os politicamente incorretos, é O jogo de emoções (idem, 1987), no qual coloca em confronto um vigarista  íntegro  segundo os parâmetros de sua visão de mundo, pois tem certos princípios e a eles sempre obedece, e uma  aclamada   schoolar   que cede à sua fascinação pelo mal, mas, no limite, revela-se incapaz de aguentar a barra e acaba virando a mesa. Lembra um pouco, em espírito, a música "Like a rolling stone", do Bob Dylan.

Enfim, depois desta introdução que é mais uma dica, cheguemos ao ponto.

Um episódio jornalístico dos últimos dias me fez lembrar um diálogo do filme O sucesso a qualquer preço (d. James Foley, 1992), uma das muitas peças teatrais de Mamet que ele roteirizou para o cinema. Trata-se de uma visão corrosiva, devastadora, da atividade de vendas, uma das molas-mestras do capitalismo.

O vendedor mais hábil de uma equipe (Al Pacino) está passando a conversa num otário quando passa um colega (Alec Baldwin), mete o bedelho e solta desnecessariamente uma informação que espanta a presa.

O primeiro, inconformado, dá uma esculhambação no intrometido, repisando-lhe o abecê do ofício: nós sobrevivemos graças à  p-e-r-s-p-i-c-á-c-i-a, e quem não a tem está no lugar errado.

Isto também se aplica, claro, ao jornalismo. Para registrar o que um entrevistado diz, basta um gravador; e para transcrever, um digitador. Repórter serve para avaliar se o que ele diz é toda a verdade, meia verdade ou completa mentira; e para tentar discernir o motivo de estar dizendo aquilo.

Então, quando o médico do Santos reconheceu que a volta precipitada de Paulo Henrique Ganso aos gramados poderia ter prejudicado sua recuperação de uma cirurgia, saltava aos olhos que havia algo de errado. Soltar uma informação destas à imprensa poderia até custar seu emprego. Por que o fez?

Só havia uma explicação plausível: Ganso retornou cedo demais por decisão de quem não tinha o direito de decidir. Ou seja, alguém assumiu o risco de prejudicá-lo por considerar mais importante ganhar do Corinthians na Copa Libertadores.

Deu no que deu. O atleta, visivelmente sem condições de jogo, teve atuação apagadíssima. E o Santos ficou sem a a vaga na final. Perda total.

O doutor, certamente, temia ser responsabilizado caso Ganso não tivesse condições físicas para atender à convocação olímpica, então quis deixar bem claro:  a culpa não foi minha...

Hoje se sabe que sua participação nas Olimpíadas ainda é dúvida; e se lê que o jogador resolveu, por si próprio, não atuar neste domingo (8) contra o Grêmio, preservando-se para a Seleção, cujos treinamentos começam no dia seguinte.

Pior: o técnico Muricy Ramalho queira tê-lo, sim, na partida do Brasileirão e engoliu a recusa com evidente desagrado.

Fez-me lembrar o extraordinário Mané Garrincha jogando  baleado, à custa de infiltrações, porque nas excursões do Botafogo havia cláusula contratual exigindo sua presença, caso contrário o clube receberia bem menos. Até hoje os insensatos continuam matando as  gansas  dos ovos de ouro.

Se os repórteres e comentaristas esportivos fossem mais perspicazes, ou menos comprometidos com os interesses econômicos que avassalam o futebol, contariam esta história como eu estou contando. Mas...

 Um momento maior do cinema: o
sumário de Paul Newman em "O Veredicto".

quarta-feira, 20 de maio de 2009

SERÁ QUE EU VOU VIRAR BOLOR?

CHARGE DE CLEUBER (clique para ampliar)
http://www.tracodeguerrilha.blogspot.com


"Venho me apegando aos meus sonhos
e à minha velha motocicleta.
Não gosto do pessoal da Nasa,
cadê meu disco voador?
O que é isso, meu amor?
Será que eu vou morrer de dor,
será que eu vou virar bolor?"
(Arnaldo Dias Baptista)

Atingir tal ou qual idade deixa de ser realmente importante para nós depois de completarmos 18 anos. Aí já estamos na posse de todos os nossos direitos civis, podemos votar, dirigir quaisquer veículos, assistir a todos os filmes e peças que quisermos.

Mas, em termos simbólicos, continuamos acreditando que, quando totalizamos um certo número de décadas, nossa vida muda.

A Geração 1968, p. ex., conviveu com aquela palavra-de-ordem das barricadas parisienses, "não confie em ninguém com mais de 30 anos!". Houve até uma musiquinha oportunista por aqui aproveitando a onda.

Esperei com impaciência o fatídico dia em que eu deixaria de ser confiável para os contestadores do stablishment. Mal acabara de despertar, fui correndo me olhar no espelho, para ver se tinha sofrido uma metamorfose durante o sono. Que alívio! Continuava o mesmo de sempre, mais para bicho-grilo do que para caretão (era o tempo em que editava revistas de rock)...

Aos 50, entretanto, tomei a decisão de mudar toda a minha vida, saindo de um casamento desgastado, procurando uma nova companheira, tendo filhos. Foi só coincidência ou, realmente, chegar àquela idade mexeu com minha cabeça? Sei lá...

No ano passado, o grande pensador Luiz Inácio Lula da Silva colocou outra pedra no meu futuro, ao dizer que os sexagenários, ou se tornam conservadores como ele, ou têm um parafuso solto na cabeça.

O pior é que David Mamet, o melhor dramaturgo estadunidense das últimas décadas, estava com exatos 60 anos ao dar entrada no cemitério dos mortos-vivos (que saudades do Henfil!). Foi quando declarou:

"Como quase todos os liberais americanos, consumo produtos de corporações e muitas vezes anseio por eles. Então, por que sempre vociferar contra as grandes empresas e dizer que são a encarnação do mal? Percebi que nem tudo está sempre errado à minha volta. Que aceitar uma sociedade de livre mercado é muito mais condizente com a minha experiência de vida do que a visão que eu mantinha antes – a crença de que uma sociedade em que o estado intervém é melhor. E, ainda, que não posso abominar todos os que são de direita, porque convivo com eles no trabalho, na reunião de pais e mestres, na minha rua, e gosto de muitos deles".

Será que, em outubro de 2010, eu também vou virar bolor? Quero crer que não.

Talvez porque as geringonças fabricadas pelas grandes empresas nunca tenham sido fundamentais para mim. Algumas me proporcionam conforto e simplificam minha vida, claro. Mas, já passei muito tempo sem elas e posso voltar a fazê-lo, sem traumas.

Quando começava minha carreira, conheci um veterano jornalista do Diário do Comércio (SP), chamado Waterlando João Alípio, que garantia ser capaz de sobreviver mesmo que a civilização acabasse: sabia caçar, pescar e não se incomodava de viver no meio do mato.

Sem chegar a tal exagero, acho que também conseguiria, mesmo que a duras penas, adaptar-me a um mundo pós-apocalíptico. Sou um bocado teimoso.

Da perspectiva que tenho nestes tristes trópicos, que me desculpe o Mamet, tudo está realmente sempre errado à minha volta. O tal do livre mercado me fornece qualquer coisa que queira comprar, desde que, com sangue, suor e lágrimas, consiga pagar as prestações. De quebra, às vezes me faz comer o pão que o diabo amassou por conta de uma recessão que não causei.

Cá com meus botões, nunca deixarei de pensar que, dispensando tudo que é parasitário e inútil (bancos, governos, burocracias, propaganda, cursos burrificantes, objetos de luxo e mil etceteras), cada cidadão do País e do planeta poderia dispor do necessário para uma existência realmente digna -- trabalhando muito menos do que agora.

Também abomino uma sociedade em que o Estado mete o nariz em tudo e até grampeia nossos telefones. Aliás, estou com Proudhon e não abro:

"Ser governado é ser guardado à vista, inspecionado, espionado, dirigido, legislado, regulamentado, identificado, doutrinado, aconselhado, controlado, avaliado, pesado, censurado, comandado por outros que não têm nem o título nem a ciência, nem a virtude. (...) Depois, ao menor resmungo, à primeira palavra de reclamação, reprimido, multado, enforcado, hospitalizado, espancado, desarmado, garroteado, aprisionado, fuzilado, metralhado, julgado, condenado, deportado, sacrificado, vendido, traído, e por cúmulo, jogado, ludibriado, ultrajado, desonrado".

Mas, quem disse que a estatização é a única opção em relação ao livre mercado? Por que não podemos nos associar livremente para criarmos outro tipo de sociedade, com os cidadãos assumindo e repartindo as funções hoje desempenhadas pelo Estado?

Isso era bem mais difícil de viabilizar no século 19 do que agora. Só falta vontade política e - por que não dizer? - espírito de luta. Isto os contemporâneos de Proudhon tinham muito mais do que nós.

Finalmente: quanto às pessoas de direita, não vou destratá-las apenas por serem escravas do sistema. Afinal, além de brasileiro cordial, sou cristão. Perdoo os que não sabem o que dizem.

Por tudo isto, confio em que, tanto quanto o eterno Mutante, eu não vá virar bolor. Aos 60 ou aos 100 anos.

Vai ver que tenho mesmo o tal parafuso solto...
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