domingo, 2 de agosto de 2020

O LOBO BOZO SE TRAVESTE DE CORDEIRO

Há um traço comum entre o populismo de esquerda e o populismo de direita: a distribuição de migalhas aos pobres como forma de manutenção do poder político que serve ao capitalismo!

Pois não é que o capitão Boçalnaro, o ignaro virou o paladino da sensibilidade com o sofrido povo dos grotões pobres do nordeste, com chapéu de couro e tudo???

A brusca reviravolta equivale a uma admissão do fracasso de suas posturas anteriores:
 a sua cantilena contra o Supremo Tribunal Federal (aquele mesmo que poderia ser fechado com um cabo e um soldado, segundo um dos seus filhos zero à esquerda) não intimidou o Poder Judiciário, que tem consciência de que sua função de proteger os cânones do republicanismo burguês lhe garante o apoio da elite político-empresarial brasileira; 
 a sua agressão verbal às casas legislativas federais a que pertenceu por longos 28 anos, integradas por deputados e senadores eleitos em sua grande maioria com o apoio econômico-político conservador, não iria funcionar; e
 o pretendido apoio ao seu projeto absolutista primário por parte das Forças Armadas (ainda ressabiadas com a experiência fracassada de poder de 1964 a 1985), no sentido de que avalizassem o seu discurso golpista, não viria. 

Então, rapidamente ele fez um giro de 180°, tornando-se o Boçalnaro paz e amor!!! 
"um passo atrás para dar dois adiante"

Em substituição ao projeto liberal heterodoxo que não vingaria num mundo que antes mesmo da pandemia já prenunciava uma recessão global e que foi gravemente atingida pela paralisia provocada pelo alastramento das gripezinhas, o governo passou a assenta-se em novas premissas:
 aceno aos deputados do Centrão com distribuição de cargos importantes do Poder Executivo, em troca de apoio político governamental que evitasse o seu impeachment;
— aumento de impostos (que afirmou em campanha ser impossível de acontecer no seu futuro governo) via uma sub-reptícia reforma tributária que inclui, rebatizada, a impopularíssima CPMF;
 distribuição de dinheiro sem valor para os brasileiros que estão na rua da amargura (seja pelo desemprego estrutural capitalista que já era acentuado antes da pandemia, seja pelo agravamento dessa crise estrutural em razão da paralisia provocada crise sanitária), medida emergencial de fôlego curto e que adiante causará graves consequências às nossas já combalidas finanças privadas e públicas;
 abandono do projeto liberal e adoção do keynesianismo estatal intervencionista na economia tão caro à esquerda no poder político burguês, combinado com a suspensão temporária do discurso de venda das estatais (Petrobrás, Banco do Brasil, etc.).

Se por acaso Fernando Haddad houvesse sido eleito, as circunstâncias da conjuntura econômica capitalista lhe imporiam medidas similares, com diferenciações cosméticas. 

É que não existe soberania de vontade política no capitalismo, de vez que é o poder econômico o verdadeiro condottiere das ações político-governamentais mais importantes e da catástrofe social dele decorrente.

Nada mais liberal do que um governo keynesiano em tempos de ascensão capitalista; nada mais keynesiano do que um governo liberal em tempos de crise aguda do capitalismo.
Até onde irá sua nova imagem paz e amor?

Os governos não governam, mas são governados, tal qual um surfista que se equilibra na onda sem nela interferir. Este é o ponto fundamental de unidade entre projetos políticos diferentes no discurso, mas que se assemelham na forma e conteúdo.  

Ainda que se possa admitir maior sensibilidade social a um ou ao outro, o populismo eleitoral é o que pontua em ambos os projetos, apesar das diferenças cosméticas entre eles. 

A história, que pode ser contributiva educadora do presente, está a nos ensinar que as ditaduras usam e abusam de seu discurso de defesa dos trabalhadores e do trabalho, sem que ditos trabalhadores desconfiem dos seus propósitos tenebrosos mais recônditos.

Os trabalhadores e o trabalho abstrato, que se constituem como artífices da própria opressão da qual são vítimas, nem desconfiam que, ao produzirem valor e se deixarem explorar pela extração de mais-valia, estão a reforçar o discurso populista dos pais dos pobres

Não é por menos que:
 o partido nazista se auto-intitulava nacional-socialista dos trabalhadores
 Mussolini promulgou a Carta del Lavoro  italiana, que criou a legislação trabalhistas  daquele país e na qual estavam inclusas bandeiras socialistas que encobriam  sua verdadeira face fascista (que levou a Itália ao desastre genocida da 2ª Guerra Mundial); 
 Stalin, assassino de verdadeiros revolucionários, trazia na bandeira a foice e o martelo, símbolos do trabalho e dos trabalhadores, processando e matando seus opositores em nome da defesa do pretenso Estado proletário (acabou, contundo, por criar as bases do leviatã capitalista atual, sob o comando de um ditador não menos populista, Vladimir Putin);  
"a guinada de 180º está deixando atônitos os seguidores"
 Getúlio Vargas, conhecido admirador de Mussolini, abrasileirou a legislação trabalhista do fascismo italiano, o que lhe permitiu posar de pai dos pobres;
 Mao Tse Tung criou as bases que conduziriam a China ao capitalismo de Deng Xiao Ping, mais predador do que qualquer outro e sob um regime politicamente fechado;
 Hugo Chávez conduziu a Venezuela à bancarrota de Nicolás Maduro, sob o argumento populista de defesa contra o imperialismo estadunidense e congêneres, sem levar em conta que lá também se praticava e continua praticando o capitalismo com o uso de todas as suas categorias econômicas (valor, trabalho abstrato extrator de mais-valia, mercado, mercadoria, Estado, política, etc.);
 Fidel Castro deixou intacta as categorias capitalistas mediadoras das relações sociais cubanas, agora até com liberação para desenvolvimento capitalista privado em algumas áreas, tudo em nome da libertação proletária;
 Ronald Reagan e Margaret Thatcher conduziram com mãos-de-ferro as políticas dos Estados Unidos e Reino Unido, sendo responsáveis por guerras e exploração das nações mundo afora;
 o ditador generalissimo Francisco Franco tanto matou e torturou os espanhóis revolucionários que foi passou à história como um genocida repudiado pela maioria do povo espanhol;
 o ditador Antonio Salazar infernizou a vida dos portugueses por décadas, até que a revolução dos cravos destituísse o regime ditatorial populista apodrecido.   
"a brusca reviravolta equivale a uma admissão do fracasso de suas posturas anteriores"
Todos estes ditadores atuaram sob bases capitalistas, com diferenciações na condução política de assunção ao poder e sua governança, mas que se confundem nos pressupostos de modo de produção capitalista, que é o que define o caráter essencial da sociedade (Marx).

Não, Boçalnaro, você não nos engana. 

O seu histórico de vida pessoal de militar conspiratório e de político sem proposição e com discurso homofóbico, racista, ditatorial, belicoso e primário, depõe contra a sua atual tentativa oportunista e populista.

Aliás, sua nova postura deve estar deixando atônitos os seus bovinizados seguidores, que já não sabem como se posicionar diante dessa guinada retórica de 180º, como forma de sua sobrevivência no poder político que você mesmo (por mero primarismo e obtusidade) acreditava ser maior do que aquele com o qual se deparou ao assumir a Presidência da República. 
"não, Boçalnaro, você não nos engana"

A atual fase de lobo travestido de cordeiro do Boçalnaro apenas demonstra a fragilidade de princípios e o caráter falacioso do discurso contra a velha política, a corrupção, e outros temas.

Tudo se resume ao velho passo atrás para (se reeleito) dar dois passos à frente, reassumindo a sua verdadeira face ditatorial.

Sua esperança é a de que, após a presente tormenta, sobrevenha a (impossível) tranquilidade político-econômica que lhe permitiria implementar aquilo que traz no seu íntimo: o desejo de governar sem os pesos e contrapesos políticos da democracia burguesa. 

Pois, apesar das lições que está recebendo da história, ele ainda não compreendeu, em toda a sua extensão, que sob o capitalismo quem manda é o capital. (por Dalton Rosado)

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