segunda-feira, 22 de junho de 2020

OS POLÍTICOS PROFISSIONAIS DISCUTEM SEXO DOS ANJOS NA IMINÊNCIA DE UMA DEVASTADORA DEPRESSÃO ECONÔMICA

dalton rosado
NÃO À REGRESSÃO SOCIAL EM CURSO!
"No exato momento do triunfo ocidental consecutivo ao fim da URSS, os dias da sociedade mercantil mundial
estão contados, pois o fim do socialismo real
apenas representa uma etapa final da 
expansão capitalista"
(Robert Kurz)
O sujeito automático fetichista da valorização do valor (a lógica do capital) impõe a abertura genocida das relações mercantis mesmo diante do aumento dos números de contaminações viróticas e de óbitos: subjugada, a ciência médica está sendo submetida ao império da morte capitalista! 

Anselm Jappe, professor de estética na École d’art de Frosinone e de Tours, em artigo citando Robert Kurz e seu livro Dinheiro sem valor, comentou que, com efeito, o capitalismo está anulando até mesmo os magros progressos que trouxe e incessantemente exigindo dos homens sacrifícios para a salvação do fetiche-dinheiro. 

Os cortes na saúde pública são até negativamente comparados por Kurz aos sacrifícios humanos de outrora, para acalmar deuses furiosos ou obter benesses (boas colheiras, p. ex.): 
"Os sacerdotes sanguinários astecas foram humanos e doces, se comparados aos burocratas-sacrificadores do fetiche global do capital ao ter atingido seu limite interno histórico".
Toda emissão de dinheiro sem valor, como agora está acontecendo no mundo (com prejuízos maiores para as economias de moedas frágeis, como a do Brasil, que não consegue aceitação do real no mercado financeiro internacional), aponta para uma hiperinflação sem precedentes, e que ainda não começou apenas por estar sendo neutralizada pela recessão mais aguda desde 1929/1930, superior, inclusive à crise de 2008/2009. 

A inflação é um roubo monetário dos salários dos trabalhadores, à medida que estes não acompanham o aumento dos preços das mercadorias compradas com a mercadoria-salário que recebem mensalmente e se desvaloriza a cada dia.

A deflação é ainda pior, já que se trata da desvalorização das mercadorias pela incapacidade aquisitiva em grande escala dos trabalhadores desempregados.  É o que está ocorrendo no Brasil. 

Neste momento em que aumentam no mundo as mortes causadas pela Covid-19, vemos a abertura das atividades como forma de sustentação mínima da economia, ainda que isto vá provocar milhões de óbitos nos próximos meses: o capital tem uma pulsão de morte!

O mais grave é que os segmentos representativos da política discutem o sexo dos anjos, perdendo o foco do que está realmente ocorrendo: a crise mais profunda do capitalismo desde a sua configuração como relação social predominante. 

A reversão desse quadro não se dará a partir das mesmas ferramentas que causam o impasse social mundial representado pelo limite interno da expansão capitalista diante de suas fronteiras históricas. 

O dinheiro sem valor aposta num extração de mais valia e de lucros futuros que jamais virão. A inadimplência mundial causada pelo desequilíbrio fiscal  evidenciado no momento em que essa verdade se tornar explícita fará voar pelos ares toda e qualquer tentativa de solução pelas ferramentas tradicionais da ciência econômica. 
As lideranças político-partidárias das mais variadas tendências ideológicas pronunciam discursos diferenciados na superfície mas idênticos na sua base original, presos que estão à ontologização da forma-valor, que tomam como eterna e não como um dado histórico sujeito às mudanças ditadas pelo curso da História. 

O impeachment de Boçalnaro, o ignaro é importante? Sim, é necessário para o bem do Brasil e para a adoção de novas diretrizes nas áreas da educação e saúde, vítimas preferenciais da insanidade do atual governo. 

Podem ser citados outros possíveis benefícios localizados (que, vale frisar, nada são além disto); 
— o abandono da ortodoxia do ajuste fiscal e a emissão de moeda para salvar vidas, seja por causa do isolamento preventivo de contaminação pelo coronavírus, seja pela necessidade de propiciar-se alguma renda para a grande maioria da população desempregada, pois se trata da única possibilidade de obterem sustento numa sociedade regida pelo dinheiro; e
— o abandono dos discursos nazistas de fechamento do Congresso Nacional  e do Supremo Tribunal Federal, bem como dos apelos por um golpe militar, importante para garantir a sobrevivência e manutenção das franquias civilizatórias e também para evitarse uma guerra civil declarada.

Mas, não se discute nem se analisam com realismo as consequências das soluções sob a lógica do capital para os trabalhadores assalariados, que sempre e em última linha social, são as que arcarão com os ônus de uma dívida pública que se anuncia como acentuadamente superior à nossa capacidade fiscal de endividamento estatal. 

Com empresas falidas, dívida pública muito acima do PIB, restrição de crédito por parte do sistema financeiro internacional (já credor de dívidas impagáveis), desemprego nas alturas e a necessidade de impor sacrifícios a uma população já exaurida para fazer face a essa falência sistêmica, as perspectivas de futuro para o ano que vem são absolutamente sombrias. 

Entretanto, mesmo diante dessas perspectivas sombrias, há muito esquerdista obcecado com eleições vindouras (que podem ser levadas de roldão pelos desastres anunciados) e não se trava discussão científica séria e destemida sobre o tsunami com o qual inevitavelmente nos defrontaremos no pós-pandemia: a pior depressão econômica da era capitalista! 

Diferentemente dos pós-guerra, esta é uma crise de fundamentos; das categorias capitalistas; algo como um câncer em metástase no organismo das relações sociais.

Não se pode admitir que os pobres da periferia capitalista sejam sacrificados nesse futuro imediato por medidas de austeridades econômicas extremas que, possivelmente, serão impostas pelas baionetas, em nome de uma superação econômica que jamais virá, à medida que a causa última de tais agruras é a falência das categorias capitalistas básicas (valor, dinheiro, mercadoria e mercado).

Mesmo antes da crise epidêmica, já não se produzia valor (mais-valia e lucro) na proporção necessária; e muito menos se produzirá o dito cujo numa economia de terra arrasada. 

Os atuais níveis de produtividade de economias tecnologicamente desenvolvidas (como a alemã, que já sinaliza encolhimento do PIB nos dois primeiros trimestres de 2020) numa guerra concorrencial de mercado cada vez mais aguerrida pela diminuição do valor das relações mercantis em curso, indicam que a situação tende a piorar, com o desemprego estrutural aumentando.

É que elevação dos níveis de produtividade somente são possíveis com investimentos de capital em equipamentos sofisticados que reduzem o custo da hora de trabalho abstrato indispensável à vitória na disputa fratricida dos capitalistas entre si. Mas, tal busca de redução de custos de todos e em todos os recantos do mundo aponta para a autodestruição do capital e não para o seu fortalecimento.

Os empresários confundem lucro empresarial localizado com redução da massa de valor global produzida, e assim vão insensivelmente matando a galinha dos ovos de ouro, felizes (os vitoriosos na guerra concorrencial de mercado) com seus lucros individuais. 

Mas, com isto, quem primeiro paga o pato são os trabalhadores assalariados que tentam vender a mercadoria força de trabalho sujeita à famigerada lei da oferta e da procura num mercado pouco comprador, no qual a oferta e infinitamente superior à demanda.

Nesse contexto, os trabalhadores são forçados a se submeterem às mais detestáveis perdas dos direitos outrora conquistados, principalmente na fase de ascenso capitalista (ao custo de muito sangue!) e veem, também, toda a sociedade (e sindicatos) serem impelidos a aceitar sorumbático(as) o discurso desumano da lógica liberal aplicada à economia. 

Mas a terra é redonda e continua girando, tal como a roda da História, que aponta para um novo contrato social imposto pelo empirismo da mais absoluta necessidade de sobrevivência da humanidade. 

Estamos bem próximos de uma necessária discussão que saia dos marcos estreitos de uma modo de produção que se tornou obsoleto e ora evidencia, mais do que nunca, o seu caráter genocida. (por Dalton Rosado)

Um comentário:

Anônimo disse...

Com a frase "o sujeito automático fetichista da valorização do valor" você resumiu em pouquíssimas palavras o que seja dinheiro. Isso demonstra o seu profundo conhecimento do tema e assim pode simplificá-lo e explicá-lo de forma sucinta e correta. Essa capacidade é rara.
Baseado por seus conceitos, decidi realizar um projeto de criação de valor, que não seja o dinheiro, e que traga benefícios gerais e irrestritos. Para tanto, optei por plantar uma goiabeira no canteiro central da avenida em que está a casa onde moro. Plantei uma que já crescia num vaso (pretendia fazer um bonsai). Ela cresceu rapidamente em um ano já estava produzindo. Graças ao tráfego intenso as goiabas não tem bichinhos, pois as moscas das frutas não conseguem nem voar em meio a tantos carros e poluição. Isso fiz e fico feliz toda vez que vejo alguém colhendo os frutos dessa goiabeira. Sim, valor criado a partir de um gesto simples para o gaudio de quantos colhem essas goiabas. Eu inclusive
Dessa forma informo-lhe que é sim possível criar valor sem a interferência de dinheiro, cercas, embalagens, vigilâncias e outras coisas existentes na doentia sociedade capitalista.
Vale também dizer da íntima satisfação que se sente, que eu descreveria como um alegria sem causa egoísta*, e que me coloca no plano do ideal. Da ideia da possibilidade de paz e riqueza compartilhada.
É um valor intangível que obtive. A princípio, eu queria sentir que feria o capitalismo ao plantar a minha goiabeira, ou seja, uma motivação bélica, mas o auxílio que tive dos roçadores do canteiro que respeitaram a pequena fruteira que eu havia plantado, me fez ver que outros tem o mesmo ideal generoso e sabem que se devem plantar fruteiras onde der.
Até os motoristas inconscientemente afastam as drosófilas.
Animado, plantei agora uma mangueira, a uns cinco metros da goiabeira. De igual maneira o pessoal que cuida do canteiro tem cuidado dela. Até aguarão quando chegar o ápice da seca por aqui.
Eu disse "plantei", mas na verdade pedi para um senhor plantar, pois o meu corpo já não tem tanta mobilidade para fazer isso.
Esse fato me fez ver que basta ter um ideia boa e pedir a quem pode fazer que faça.
Como você faz nos seus artigos, nos quais desvela a doença que é o fetiche-dinheiro e os loucos sacrifícios que fazem e permitem que se cometam os homens endinheirados.
De maneira que seu ideal encontrará eco em quem o queira realizar na prática.
Eu consegui com uma fruteira e você mais conseguirá com a sua concisão, eloquência e inteligência.

*Não me atrevo a dizer que sou altruísta.

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