Raúl Castro e Chávez em reunião da Alba. E os países-chaves? |
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Estas, por sua vez, alimentariam e supririam o povo venezuelano, criando um regime virtuoso de transações econômicas. A Alba – Alternativa Bolivariana para as Américas, criada em 2004, seria uma espécie de União Européia com cores de esquerda.
O projeto foi parcialmente sucedido, mas Chávez nunca conseguiu englobar os países-chaves do processo: Brasil e Argentina. Estes dois, ciosos de sua liderança regional, preferiram trilhar outros caminhos, passando ao largo do movimento bolivariano. Deste modo, a Venezuela continuou isolada, com seus petrodólares respondendo pelo bom desempenho do regime em época de valorização do barril da commodity.
Em termos gerais, a revolução bolivariana foi bem-sucedida em melhorar os níveis de vida da vasta maioria da população, mas a base de seu triunfo foi também o motivo de sua ruína.
Os EUA nunca aceitaram as reformas nacionalistas do regime bolivariano. Além de terem sido a mão que balança o berço no golpe de estado de 2002, sempre agiram para bloquear comercialmente o país. Contudo, por dependerem do petróleo venezuelano e estarem num momento de isolamento político no continente, optaram por agir inicialmente de modo sutil.
A deterioração econômica exacerbou a luta política |
Após a queda do regime líbio e o consequente controle do petróleo daquele país, além da estabilização do Iraque, o governo de Washington começou a agir de modo mais audacioso, impondo sanções econômicas mais duras.
O declínio do preço do petróleo e mudanças políticas na América Latina começaram a piorar a situação de vida da população venezuelana, subitamente confrontada com o aumento do preço dos bens importados. A escassez de alimentos e produtos de necessidade básica tornou-se prática corrente, fazendo disparar a inflação e piorar a situação do povo.
A deterioração econômica do país levou à exacerbação da luta política e a instabilidade tornou-se norma. Em resposta, Maduro, herdeiro do falecido Chávez, partiu para o reforço de aspectos autoritários do regime, tentando salvar o poder político do movimento bolivarianista.
Assim chegamos à situação atual, quando inúmeros países, capitaneados pelos EUA, não reconhecem a legitimidade presidencial de Maduro, optando, ao inverso, por apoiarem um obscuro líder da oposição para o comando da nação. Ao mesmo tempo, promove-se escancaradamente uma tentativa de invasão ao país, sob pretexto de ação humanitária.
Maniqueísmo à parte, não existe solução óbvia para a Venezuela |
Lembrando o exemplo do Haiti, acima citado, a marcha da história está sempre aberta, sem sabermos ao certo como algo terminará.
Fato é que a revolução bolivariana começou e transcorreu como um avanço ao povo venezuelano, mas é mais fato ainda que se deu dentro dos marcos sociais extremamente limitados de um país periférico e dependente da venda de petróleo.
Marx disse que a revolução teria de acontecer dentro de um contexto no qual já estivessem dadas as condições materiais de produção capazes de universalizar a riqueza, pois, do contrário, teríamos apenas a universalização da pobreza e a sociedade retornaria à situação de grave conflito interno.
Mas também foi o filósofo alemão quem alertou sobre o ser humano não fazer a história nas condições desejadas por ele, mas sim nas condições dadas pela realidade.
É a dura realidade da história concreta e contraditória.
Não deveriam os escravos haitianos se rebelarem em 1791, pois sua revolução acabaria por engendrar o país mais pobre das Américas?
"A Guerra do Iraque gerou o Estado Islâmico, o que geraria uma Guerra da Venezuela?" |
A história não é feita de modo frio e analítico; por mais que retrospectivamente possamos lamentar o desfecho, as pressões concretas do momento sempre serão o fator determinante para ação coletiva.
Nem mesmo os seres humanos individuais são obra apenas de suas escolhas individuais. Maduro não é apenas um sujeito alçado ao governo da Venezuela, ele é produto da decomposição do regime bolivariano através da exacerbação de sua razão de estado militarista.
Diante da pressão de uma estrutura social vacilante, de uma oposição fascistoide e do cerco de uma potência imperialista, o caminho do regime de Maduro foi institucionalizar um regime com cores ditatoriais.
Entregar o poder à oposição é trocar uma ditadura por outra e abrir caminho para novas lutas futuras, talvez até com novos Caracaços.
Invadir a Venezuela é um ato alucinado que poderá gerar uma nova Síria encravada no coração da América Latina, com consequências terríveis inclusive para o Brasil. A Guerra do Iraque gerou o Estado Islâmico, o que geraria uma Guerra da Venezuela?
Apoiar Maduro é simplesmente fechar os olhos aos limites do movimento bolivariano e, ainda, chancelar ações ilegais e ditatoriais daquele governo.
Na prática, então, não há saída imediata. Óbvio, a história vai seguir seu curso e uma hora ou outra as contradições explodirão.
Caso me fosse permitido uma especulação, diria que – caso não haja guerra – a tendência é Maduro institucionalizar seu regime e a Venezuela congelar durante anos, mais ou menos como Cuba congelou.
A Venezuela congelará como Cuba? |
Mas, a cada falha e beco sem saída, nós, revolucionários, aprendemos algo a mais e calibramos nossa ação.
Que a sina da Venezuela agora nos dê mais uma lição.
Que a sina da Venezuela agora nos dê mais uma lição.
(por David Emanuel
de Souza Coelho)
Um comentário:
Porque a os paises árabes como a Arabia Saudita, Iemen, vivem bem com os petrodolares e la as condicoes climaticas sao inferiores a da Venezuela. ?????
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