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domingo, 29 de janeiro de 2012

UM SAMBA DO MILICO DOIDO NO PORTAL DO GOVERNO DE SP

Grandes e eternos Demônios da Garoa!
"Joaquim José,
que também é
da Silva Xavier,
queria ser dono do mundo
e se elegeu Pedro II.
Das estradas de Minas,
seguiu pra São Paulo
e falou com Anchieta,
o vigário dos índios.
Aliou-se a Dom Pedro
e acabou com a falseta:
da união deles dois,
ficou resolvida a questão
e foi proclamada
a escravidão"
(Sérgio Porto,
Samba do crioulo doido)

A linha do tempo do site da Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo está mais para linha do contratempo, conforme pode ser constatado aqui. 

Além da justificativa grosseira do golpismo --a afirmação, retirada anteontem (27/01) sob vara, de que os forças policiais acumpliciados com a quebra da normalidade constitucional teriam traído seu dever para se porem "solidárias às autoridades e ao povo" (ver relato do episódio aqui)--, há também um estupro grosseiro da História, referente ao ano de 1970. Este:
"O Comando de Operações Especiais da Polícia Militar foi criado em 13 de março de 1970, logo após incidentes com grupos de guerrilha liderados pelo ex-capitão Carlos Lamarca. O COE funciona como tropa reserva do Comandante Geral da Polícia Militar, e tem como missões: operações especiais policiais militares; busca e captura de procurados em locais de difícil acesso...", etc.
Portanto, em 13 de março foi criada uma unidade para atuar em situações como a malograda perseguição ao comandante Carlos Lamarca no Vale do Ribeira... que só seria iniciada no dia 20 de abril!!!

Então, onde está escrito "logo após", leia-se "38 dias antes".

A mesma confusão pode ser constatada no louvaminhas verbete Comando de Operações Especiais da Wikipedia (ver aqui), evidentemente de autoria fardada. 
"Em 1970, no estado de São Paulo, Vale do Ribeira, vinham sendo registradas atividades típicas de insurgência, ações típicas de guerrilha, tendo como chefe o ex-Cap EB Carlos Lamarca e sendo que para lá, foram deslocados contingentes militares reforçados que incluíam, obviamente, homens pertencentes à milícia estadual. Em um dos combates havidos, o Aspirante a Oficial PM Alberto Mendes Junior foi tomado como prisioneiro pelos rebeldes, sendo, depois friamente assassinado.

Podemos considerar este fato - a morte do PM Alberto Mendes Junior - como a célula-máter da criação do COE, em 13 de março de 1970. O fato, dentre outras implicações, evidenciou a necessidade de se constituir uma unidade especializada, no âmbito da Polícia Militar, para desenvolver operações de contra-guerrilha".
Aí o  samba do milico  fica mais  doido  ainda, pois a morte do tenente ocorreu no dia 10 de maio.

A hipótese mais plausível é que tenham criado o COE como um reforço para o aparato repressivo destinado a combater uma eventual guerrilha rural em São Paulo (*), e estejam sendo obrigados a manter a data de 13/03/1970 por ser a que consta na papelada oficial.

Só que, para a novela ficar mais piegas, resolveram apresentar o COE como uma resposta aos eventos de abril e maio. Quem iria notar?

O atento companheiro baiano Ismar C. de Souza, militante do movimento negro e pesquisador de assuntos dos  anos de chumbo, notou... e me deu a dica. Daí estarem agora aprendendo, da pior maneira, que mentiras oficiais não permanecem em pé sem uma censura para as escorar.

Fica, enfim, mais uma vez comprovado o viés propagandístico das versões que a ditadura apresentava dos acontecimentos e suas viúvas mantêm até hoje. Nunca deram a mínima para a veracidade histórica; seguiam, isto sim, o manual de guerra psicológica.

* àquela altura, iludidos pelas balelas que o comandante Chizuo Ozawa lhes impingiu nas sessões de tortura, os militares acreditavam que a área de treinamento guerrilheiro da VPR se localizasse em Goiás.

sábado, 28 de janeiro de 2012

POLÍCIA DE SP É FLAGRADA DE NOVO EXALTANDO A DITADURA MILITAR

"Em 31 de março de 1964 iniciou-se a Revolução, desencadeada para combater a política sindicalista de João Goulart. Força Pública e Guarda Civil puseram-se solidárias às autoridades e ao povo."

Este parágrafo aberrante, tratando a quartelada de 1964 como Revolução (com inicial maiúscula!) e justificando a participação da Força Pública e da Guarda Civil no golpe contra o presidente constitucional do País, constava até esta 6ª feira (27) da página virtual da Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo, alojada no portal do Governo paulista.

Ilustrando-o, havia uma imagem apoteótica da Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade, a maior arregimentação da classe média lograda pelos conspiradores durante a preparação do cenário para a derrubada de Goulart. Em primeiro plano, um oficial fardado.

Como a permanência deste entulho autoritário veio à tona exatamente no momento em que a escalada autoritária do Governo Alckmin recebe críticas generalizadas, a SSP correu a deletar texto e foto. O ano de 1964 foi apagado da linha do tempo, que agora salta diretamente da criação da Polícia Científica em 1956 para a instituição do Departamento de Trânsito em 1967.

Ao portal Terra foi encaminhada nota afirmando o seguinte:
"O texto relacionado ao ano de 1964 não reflete o pensamento da Secretaria da Segurança Pública e foi retirado do site. A SSP agradece a observação, sempre atenta, da imprensa".
A última atualização da página havia sido efetuada em 2010 --ou seja, 25 anos depois da virada dessa página infame da nossa História, a SSP continuava exaltando o arbítrio e o totalitarismo... à custa dos impostos dos contribuintes de São Paulo!

NA DERRUBADA DE GOULART, A ROTA
ESTAVA "APOIANDO A SOCIEDADE"?!

E não se tratou de caso isolado: também a unidade mais truculenta da Polícia Militar paulista, a Rota, vangloriava-se no seu site da seguinte  campanha de guerra: 
"Revolução de 1964, quando participou da derrubada do então Presidente da República João Goulart, apoiando a sociedade e as Forças Armadas, dando início ao regime militar com o Presidente Castelo Branco" (o grifo é meu).
Indignado com esta exaltação do golpismo e, noutro trecho, com os autoelogios da Rota ao seu papel de coadjuvante das Forças Armadas na repressão aos cidadãos que pegaram em armas contra a ditadura militar, enderecei carta aberta ao então governador José Serra em outubro de 2008.

Tive de repetir a dose com os governadores Alberto Goldman e Geraldo Alckmin, escrever mais de duas dezenas de textos (ver balanço aqui) e esperar quase três anos para ver suprimida, pelo menos, a referência à derrubada de Goulart.

Até então, a PM descumprira promessa feita ao portal Brasil de Fato, de eliminar tais absurdos; e Serra, respondendo a uma pergunta que lhe enderecei na sabatina da Folha de S. Paulo, admitira publicamente que tal retórica era despropositada, sem que Goldman (o vice a quem transmitira o cargo para disputar a eleição presidencial) tomasse qualquer providência.

Até que Ivan Seixas --também ex-preso político e meu companheiro nesta denúncia-- cientificou a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, cujo firme posicionamento finalmente demoveu Alckmin da intransigência que ele e os outros governadores tucanos vinham mantendo. Em  setembro de 2011!

Salta aos olhos que o ranço totalitário ainda não foi extirpado da polícia paulista, daí o papel chocante que vem desempenhado ultimamente, com tanta  convicção: na USP, na cracolândia e no Pinheirinho, foram os brucutus da ditadura que atuaram --prendendo, batendo, arrebentando e expulsando.

Não os efetivos policiais de um estado de direito.
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