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domingo, 3 de agosto de 2025

NUNCA DEIXE PARA AMANHÃ O PROCESSO CONTRA TORTURADORES E GOLPISTAS QUE VOCÊ PODE ABRIR HOJE

Darín é o promotor Strassera em Argentina, 1985
P
or que, depois de assistirmos em janeiro de 2023 ao filme O golpe flopado dos palhaços, estamos vendo agora uma sequela, O golpe flopado dos palhaços 2 - O Império contra-ataca?

Porque não tivemos culhões para para resolver logo este assunto, ao contrário dos hermanos argentino. Eles não ficaram esperando a Justiça cair do céu:
— Raúl Alfonsin tomou posse em 10 de dezembro de 1983 como o primeiro presidente constitucional após a ditadura militar que durou de 1976 a 1983; 
— em 13 de dezembro de 1983 assinou o decreto 158, que deu início ao processo judicial contra os criminosos dos porões do período ditatorial;;
— dois dias depois foi instituída a Conadep - Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas
— o julgamento começou em 22 de abril de 1985 e as audiências duraram até agosto de 1985, tendo sido ouvidas 839 testemunhas em cerca de 530 horas de audiências até o dia 9 de dezembro de 1985, quando se deu o anúncio da sentença (quatro chefes militares foram absolvidos e cinco condenados);  
— dentre os condenados estavam os principais responsáveis pelo terrorismo de estado, o presidente Jorge Rafael Videla e o almirante Emilio Massera, que comandara o pior centro de torturas argentino (ambos pegaram prisão perpétua com destituição das Forças Armadas).

Reparem que apenas dois anos após a posse de Alfonsin  os carrascos mais poderosos já começavam a pagar por seus crimes. 
Massera (esq.) e Videla viram o sol nascer quadrado
Aqui no Brasil, dois anos e meio depois da vandalização da sede dos Poderes, só os lambaris cumprem pena, enquanto os tubarões conspiram com um governo estrangeiro para evitar a prisão do líder indiscutível da tentativa de autogolpe mediante uma absurda chantagem contra as exportações brasileiras.

Houve resistência das viúvas da ditadura contra a determinação do governo de fazer cumprir a lei? Houve e o filmaço Argentina, 1985, de Santiago Mitre, dá uma boa ideia de como foi difícil superá-la 

Um grande mérito do promotor Julio César Strassera, interpretado por Ricardo Darín, foi começar a apuração pelos maiores culpados, ao contrário do que fez nosso Supremo Tribunal Federal, dando tempo para os vencidos se reagruparem. Então, aqui estão esperneando como nunca e até traindo a pátria no desespero de safarem-se da prisão anunciada..

Argentina, 1985 pode ser visto no streaming da Prime Vídeo. Na linha, p. ex., dos clássicos de Costa-Gravas  como Z e Desaparecido - Um grande mistério, vale muito a pena. 

Felizardos são os argentinos, que podem orgulhar-se de como derrotaram os assassinos a soldo do poder, enquanto os filmes daqui, para nossa imensa vergonha, são exatamente o contrário, mostrando como os congêneres nacionais continuam impunes 40 anos após o fim da ditadura militar, tendo sido condenados apenas em ações civis, sem que nem um único deles cumprisse pena de prisão. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

MESSI QUER VER PREMIADO O FILME QUE MOSTRA O TORTURADOR MASSELA E O DITADOR VIDELA CONDENADOS À PRISÃO

D
iscreto, mas não omisso, o melhor futebolista do século 21 fez questão de dar uma força ao concorrente de seu país ao Oscar de melhor filme internacional:
"Que grande filme Argentina, 1985, com Ricardo Darín, que está indicado ao Oscar. Vamos pelo terceiro!"
A referência de Leonel Messi é às duas produções argentinas que anteriormente receberam a mesma estatueta, A História Oficial (dirigido por Luis Puenzo, 1985)  e O Segredo dos seus Olhos  (d. Juan José Campanella, 2009)

O filme de Santiago Mitre relembra o primeiro julgamento dos  responsáveis pelas torturas e mortes dos opositores ao regime. 

O alvo inicial foram os maiores culpados, os ex-ditadores e os antigos comandantes das Forças Armadas, tendo sido condenados à prisão perpétua os dois réus mais conhecidos:
—  o general Jorge Videla, que integrou a Junta Militar e depois exerceu a ditadura; e
— o almirante Emilio Massera, outro participante da Junta, que encabeçou centenas de sequestros, torturas e assassinatos à frente da Escola de Mecânica da Armada (Esma),  

Desobstruído o caminho, os executantes das ordens hediondas seriam objetos de outros processos. Estima-se que, nos porões da ditadura mais sanguinária da América Latina, tenham sido exterminados cerca de 30 mil argentinos, entre 1976 e 1983.

Argentina, 1985 é muito impactante para quem não conhece a história terrível dos anos de chumbo em nosso continente, e menos para quem conviveu com os mesmos horrores por aqui. 

É difícil para os que (como eu) conhecem essa história de cor e salteado, comoverem-se tanto tempo depois com os dramas praticamente idênticos de companheiros de outros países, após passarem uma vida adulta inteira lamentando o martírio daqueles que fizeram parte das suas vidas.

Nunca me conformei, nem me conformarei, com as perdas dos melhores dentre os melhores que a esquerda brasileira já produziu. Nunca os esquecerei. 

E é óbvio que ver bons argentinos agindo com tanta dignidade e coragem só faz crescer meu desprezo pelos frouxos brasileiros que não ousaram pagar pra ver quando os veteranos do arbítrio blefavam descaradamente para garantir sua impunidade, seja em em  1979, seja em 1985, seja no final da década retrasada.

No fundo, uma sensação de fracasso me fustiga, pois tanto empenhei-me, em vão, para que o pusilânime governo lulista deixasse seus dois ministros mais corajosos (Tarso Genro e Paulo Vannuchi) articularem a revogação da anistia de 1979, única hipótese em que a corja dos porões poderia ir parar atrás das grades. 
Foi uma das piores das minhas batalhas perdidas. Mas pode ser superada pela impunidade de Jair Bolsonaro, cuja sabotagem ao combate científico à pandemia de covid o fez responsável pelo extermínio de centenas de milhares de brasileiros (pobres e idosos, principalmente), afora o genocídio de indígenas. Só uma ampla mobilização popular impedirá mais essa infâmia.    

Argentina, 1985 pode ser assistido no streaming da Prime Vídeo ou baixado, p. ex., neste blog. É informação das mais necessárias e relevantes para as novas gerações.

Por último, uma interessante coincidência: foi no dia seguinte àquele no qual o dr. Sócrates faria 69 anos (19.02) que Messi ousou associar o seu nome a um filme que confronta incisivamente os gorilas argentinos do passado (duvido que a raça esteja extinta, pois a cadela do fascismo, como disse Brecht, está sempre no cio).

Não o fez de forma panfletária, mas quem assistiu ao filme percebe claramente que ele terá desagradado a muitos dos piores seres humanos de seu país, no qual pretende residir quando encerrar a carreira. 

Sei lá se o melhor jogador de todos os tempos foi o do século passado ou o do século atual, pois o futebol  mudou tanto que não há como fazer uma comparação consistente. Mas, em matéria de caráter, Messi ganha de goleada. (por Celso Lungaretti)
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