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sábado, 15 de fevereiro de 2025

NO JARDIM DAS ROSAS, DE SONHO E MEDO, PELOS CANTEIROS DE ESPINHOS E FLORES, LÁ QUERO VER VOCÊ ME PEGAR!

Se eu tivesse de apontar o melhor filme brasileiro que não obteve o reconhecimento que merecia, cravaria sem pestanejar: Sagarana, o duelo (1974).

Por que os apreciadores do cinema nacional, na sua grande maioria, passaram batidos por esta que é a melhor transposição para as telas do universo riquíssimo de João Guimarães Rosa (além de contar com uma trilha musical exuberante do Tom Jobim)? Eis algumas hipóteses: 
  • por não ser uma produção cara (embora a precariedade não transpareça nem tenha prejudicado o resultado final)?
  • porque Paulo Thiago não era diretor-estrela como Glauber Rocha? 
  • porque não havia entre os atores nenhum grande chamariz de bilheteria?
  • porque quase não se investiu no lançamento?
  • porque muitos críticos destacavam e favoreciam preferencialmente os produtos da Embrafilme (com a qual tinham, digamos, comunhão de interesses)?
Provavelmente, por estes fatores e mais alguns que não me tenham ocorrido.

O certo é que se tratou de uma enorme injustiça. Eu não hesitaria em colocar este 
Sagarana, o duelo como um dos dez mais do cinema nacional (ao lado de outra preciosidade que as novas gerações precisam igualmente descobrir, A margem, de Ozualdo Candeias).

O filme se baseia num pequeno conto de Guimarães, sobre a interminável perseguição que um antigo policial (Milton Moraes) move contra um tocaieiro (Joel Barcellos) duplamente azarado: 

  • em primeiro lugar, porque sua mulher (Ítala Nandi) o traía; e
  • depois, por ter errado de pessoa ao disparar o tiro da vingança, matando o irmão do seu temível alvo. 
Vale lembrar que, nessas questões de amor e honra no sertão, Deus mesmo, quando vier, que venha armado...

O roteiro de Thiago é maravilhoso, entrelaçando com esta pequena saga os personagens e situações de outras histórias de Guimarães, com tal perfeição que nenhum incauto percebe tratar-se de uma colcha de retalhos. 
Duvido que o filme ficasse tão bom atendo-se ao conto O desafio, que, aliás, só seria suficiente para a realização de um curta-metragem.

A visão que ele lança sobre o grande sertão e as veredas de Minas Gerais, seus personagens e suas lendas, é inesquecível. Mostra, p. ex.:

  • a disputa de poder entre o coronelão à moda antiga (Jofre Soares) e a versão mais urbanizada (Sadi Cabral); 
  • um chefe de jagunços que garante ter visto uma santa no meio da batalha e, noutra situação, enfrenta o próprio demônio;
  • um pistoleiro que tem pacto com o capeta (Paulo Villaça);
  • um rezador e contador de histórias errante  (Paulo Cesar Pereio); 
  • uma caravana de ciganos (incluindo Wilson Grey e a bela Ana Maria Miranda); 
  • um circo mambembe e sua tosca encenação de O Conde de Monte Cristo;
  • um macumbeiro cujo feitiço poderoso impede que caçador e caça se vejam frente a frente; 
  • um barqueiro que depois se torna cobrador de trem, continuando a levar as pessoas ao seu destino, etc.
É uma variante brasileira dos westerns outonais estadunidenses e italianos, pois fica sempre evidente que o progresso implacável está expulsando de cena aquelas figuras tão interessantes e pitorescas. O enterro do velho coronel nas águas do rio dá bem a ideia do que é tudo aquilo: um magnífico canto do cisne.

E bota magnífico nisto! Recomendo com entusiasmo. (por Celso Lungaretti)

Clique aqui para assistir a Sagarana: o duelo, completo, no Youtube.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

"TANTA VIDA PRA VIVER/ TANTA VIDA A SE ACABAR/ COM TANTO PRA SE FAZER/ COM TANTO PRA SE SALVAR"

Este é o ano do cinquentenário de A hora e vez de Augusto Matraga, um filme hoje muito difícil de encontrar, mas que vocês podem assistir, completo, na janelinha lá de baixo.

Trata-se de outro de nossos grandes nordesterns (*) dos anos 60, ao lado dos glauberianos Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969).

Representou o Brasil no Festival de Cannes de 1966 e poderia ter vencido, pois era infinitamente superior aos banais Um homem e uma mulher (d. Claude Lelouch, 1966) e Confusões à italiana (d. Petro Germi, 1966), que dividiram a Palma de Ouro.

Mas, não foi o único injustiçado. O incrível exército Brancaleone (d. Mario Monicelli, 1966) e Gaviões e passarinhos (d. Pier Paolo Pasolini, 1966) também concorriam...

A mesma sina tivera Deus e o diabo dois anos antes. Como o juri pôde ser tão obtuso a ponto de preteri-lo em benefício do bobinho Os guarda-chuvas do amor (d. Jacques Demy, 1964)?!

Pelo  jeitão  e pela proximidade (pouco mais de um ano os separa), Matraga é geralmente comparado a Deus e o Diabo, mas as pretensões do Glauber eram bem maiores: ele concebeu um enredo que lhe permitisse transmitir seus conceitos acerca do subdesenvolvimento, da miséria nordestina, do latifúndio, do catolicismo, de Canudos, do cangaço, das vias para a libertação do povo, etc.

Roberto Santos, menos ambicioso, empenhou-se em contar bem uma história empolgante de João Guimarães Rosa, sobre fazendeiro poderoso que perde tudo, é dado como morto e se reconstrói trocando a antiga arrogância pela humildade e religiosidade. Trabalha para o casal de camponeses idosos que o socorreu, fazendo de ambos suas figuras paternas.

Mas, depois de certo tempo, a inquietação retorna e ele resolve sair em busca do seu destino, às cegas, deixando que o jumento o conduza ("Tou aqui quase contente, mas agora vou-me embora", comenta um dos temas da belíssima trilha musical").

Acaba topando com um motivo para empunhar de novo as armas, a serviço do que lhe parece ser uma boa causa. Sua opção, contudo, é depreciada na canção que encerra o filme ("Se alguém tem de morrer/ que seja pra melhorar/ Tanta vida pra viver/ Tanta vida a se acabar/ Com tanto pra se fazer/ Com tanto pra se salvar/ Você que não me entendeu/ Não perde por esperar"), dando um nó na cabeça de muitos espectadores.

Além da direção correta de Roberto Santos e das magníficas atuações de Leonardo Villar e Jofre Soares, destaque para as composições inspiradíssimas de Geraldo Vandré. Três delas foram lançadas em compacto e mais tarde incluídas em LP: "Cantiga brava", "Modinha" e "Réquiem para Matraga".

Um detalhe que a grande maioria desconhece: na primeira, Vandré utilizou como ponto de partida uma quadra que já constava do conto de Guimarães Rosa ("O terreiro lá de casa/ Não se varre com vassoura/ Varre com ponta de sabre/ e bala de metralhadora"). E deixou de aproveitar outros quatro versos: "A roupa lá de casa/ Não se lava com sabão/ Lava com ponta de sabre/ E bala de canhão".

Por último: o único filme derivado de Guimarães Rosa que ombreia com Matraga em termos de excelência cinematográfica é o igualmente raríssimo Sagarana, o duelo (1974), quase desconhecido porque se tratou de uma produção bem menos marqueteada e badalada do que a concorrência.  Está disponibilizado neste link.

O roteiro de Sagarana, simplesmente primoroso, é do também diretor Paulo Thiago. Utiliza um conto curtinho como fio condutor e agrega personagens e situações de outras histórias, com tamanha felicidade que o espectador jamais suporia tratar-se de uma colcha de retalhos --desta vez no bom sentido.


* Estou ciente, claro, de que a história de Matraga transcorre no sertão mineiro e não na caatinga nordestina. Mas, as características das sociedades neles retratadas e a abordagem dada pelos diretores (inclusive com um duelo como grande final), justificam a inclusão do filme de Roberto Santos neste filão. 

quarta-feira, 23 de abril de 2014

UM DOS MELHORES E MENOS RECONHECIDOS FILMES NACIONAIS DE TODOS OS TEMPOS...

...é Sagarana, o duelo (1974), que tenho enorme satisfação em (graças ao Youtube) disponibilizar neste espaço, contribuindo para que mais pessoas travem contato com uma indiscutível obra-prima. 

Por que os apreciadores do cinema brasileiro, na sua grande maioria, passaram batidos por esta que é a melhor transposição para as telas do universo riquíssimo de João Guimarães Rosa? Por não ser uma produção cara (embora a precariedade não transpareça nem tenha prejudicado o resultado final)? Porque Paulo Thiago não era diretor-estrela como Glauber Rocha? Porque não havia entre os atores nenhum grande chamariz de bilheteria? Porque quase não se investiu no lançamento? Porque muitos críticos destacavam e favoreciam os produtos da Embrafilme (com a qual tinham, digamos, comunhão de interesses)? Provavelmente, por estes fatores e mais alguns que não me tenham ocorrido.

O certo é que se tratou de uma enorme injustiça. Eu não hesitaria em colocar este Sagarana, o duelo como um dos dez mais do cinema nacional (ao lado de outra preciosidade que as novas gerações precisam igualmente descobrir, A margem, de Ozualdo Candeias).

O filme se baseia num rápido conto de Guimarães, sobre a interminável perseguição que um antigo policial (Milton Moraes) move contra um tocaieiro (Joel Barcellos) duplamente azarado: primeiramente, porque sua mulher (Ítala Nandi) o traía; depois, por ter errado de pessoa ao disparar o tiro da vingança, matando o irmão do seu temível alvo. Nessas questões de amor e honra no sertão, "Deus mesmo, quando vier, que venha armado"...

O roteiro de Thiago é maravilhoso, entrelaçando com esta pequena saga os personagens e situações de outras histórias de Guimarães, com tal perfeição que nenhum incauto percebe tratar-se de uma colcha de retalhos. Duvido que o filme ficasse tão bom atendo-se ao conto "O desafio", que só respaldaria a realização de um curta-metragem.

A visão que ele lança sobre o grande sertão e as veredas de Minas Gerais, seus personagens e suas lendas, é inesquecível. Mostra, p. ex.:
  • a disputa de poder entre o coronelão à moda antiga (Jofre Soares) e a versão mais urbanizada (Sadi Cabral); 
  • um chefe de jagunços que garante ter visto uma santa no meio da batalha e, noutra situação, enfrenta o próprio demônio; 
  • um pistoleiro que tem pacto com o capeta (Paulo Villaça); 
  • um rezador e contador de histórias errante  (Paulo Cesar Pereio); 
  • uma caravana de ciganos (incluindo Wilson Grey e a bela Ana Maria Miranda); 
  • um circo mambembe e sua tosca encenação de O Conde de Monte Cristo;
  • um macumbeiro cujo feitiço poderoso impede que caçador e caça se vejam frente a frente;  
  • um barqueiro que depois se torna cobrador de trem, "continuando a levar as pessoas ao seu destino", etc.
É uma variante brasileira dos westerns outonais estadunidenses e italianos, pois fica sempre evidente que o progresso implacável está expulsando de cena aquelas figuras tão interessantes e pitorescas. O enterro do velho coronel nas águas do rio dá bem a ideia do que é tudo aquilo: um magnífico canto do cisne.

E bota magnífico nisto! Recomendo com entusiasmo.
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