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sábado, 24 de janeiro de 2026

DUELO ENTRE BANDIDOS E DISPARATADOS ESTÁ CHEGANDO AO 60º ANIVERSÁRIO

F
oi em 1966 que se deu a disputa mais acirrada dos grandes festivais de MPB, entre torcedores da Disparada (que os adversários apelidaram de disparatados) e de A Banda (zoados como bandidos).

Vandré vinha de vitória no 2º Festival da TV Excelsior, com "Porta-Estandarte", além de haver criado uma trilha  musical  superlativa para o filme A Hora e  Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos, na qual se destacavam "Réquiem para Matraga", "Modinha" ("Rosa, Hortência e Margarida") e a vigorosa “Cantiga Brava”.

Tendo pesquisado a obra do Guimarães Rosa para criar a trilha daquele filmaço, isto deve tê-lo influenciado quando compôs a “Disparada”, com letra dele e música do Théo de Barros, merecidamente uma das ganhadoras do 2º Festival da Música Popular Brasileira que a TV Record promoveu em setembro/outubro de 1966.

Épico sertanejo, “Disparada” coroa as pesquisas de Vandré no sentido de definir um idioma musical comum ao Centro-Nordeste e às pessoas egressas dessas regiões que se estabeleceram no chamado  Sul Maravilha, mas ainda traziam as marcas do êxodo para as cidades grandes.

É a saga do peão que, após longo tempo cumprindo tarefas subalternas (“na boiada já fui boi”), ascende a boiadeiro, “por necessidade do dono de uma boiada/ cujo vaqueiro morreu”.  

Contar com uma montaria é uma verdadeira realização para aquele homem simples, mas “o mundo foi rodando, nas patas do meu cavalo”, até que, de repente, ele acorda de sua euforia e se descobre “valente lugar-tenente de dono de gado e gente”.
 
Então recusa a condição de braço-direito do latifundiário, “porque gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente”. 

A interpretação foi de Jair Rodrigues, a simpatia em pessoa. Não percebia, contudo, que o público explodia em aplausos no trecho "mas, com gente é diferente" como um desabafo contra a ditadura; sua inadequada reação era abrir um largo sorriso ao invés de adotar um tom dramático. 

De resto, chamou a atenção o uso, como instrumento musical, de uma queixada-de-burro, na verdade mais uma atração exótica do que qualquer outra coisa.

“Disparada” dividiu o primeiro lugar com “A Banda”, de Chico Buarque, interpretada pelo autor juntamente com a Nara Leão.

Carioca radicado em São Pulo, Chico em pouco tempo saltou da boêmia universitária para a consagração nacional, apontado como um novo Noel Rosa.

As letras de precoce desencanto faziam a delícia das mocinhas românticas, como também sua timidez e os paparicados olhos verdes.
Suas composições mais características eram do tipo “Meu Refrão”, “Olê Olá” e “A Banda”, com lirismo, tristeza e rimas certinhas.

Vez por outra incursionava no campo das preocupações sociais, mais por influência do ambiente político que frequentava. Caso, p. ex., da “Pedro Pedreiro”.

Fãs menos atentos acabaram identificando-o também com os poemas (de João Cabral de Melo Neto) que Chico musicou para a peça famosa do Tuca, Morte e Vida Severina. Superestimavam-no.

O público teve participação intensa neste festival, praticamente se dividindo no apoio à “Disparada” e “A Banda”. Como se estivessem num estádio de futebol, os torcedores hostilizavam o time adversário, xingando-se uns aos outros.

Por estreita diferença, o júri concedeu o 1º lugar a Chico Buarque que insurgiu-se contra sua vitória! Dela cientificado pelos organizadores antes de ser chamado ao palco para o anúncio da decisão, dignamente se recusou a aceitar o prêmio, por não considerar "A Banda" melhor do que "Disparada". Impasse estabelecido, a saída foi proclamarem ambas como vencedoras.
Outros destaques foram a quinta colocada, “Ensaio Geral”, de Gilberto Gil, por Elis Regina (um erro de cálculo do Gil: pensando que a fase ainda fosse de marchas-ranchos, ele foi na cola do Vandré, inscrevendo uma espécie de Porta-Estandarte 2...).

E a belíssima “Um Dia” ("Eu não estou indo embora, 'tou só preparando a hora de voltar"), merecia muito mais do que o prêmio de melhor letra.  Até hoje, ao ouvi-la, sentimos saudades do simpático Caetano Veloso de antes do endeusamento e da máscara... 

Na definição lapidar de Paulo Francis, o Caetano era então um ser humano vulnerável, sensível, tanto que um dia foi parar na PE do Rio, “mas isto foi em outro país e aquele rapaz morreu”. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

"TANTA VIDA PRA VIVER/ TANTA VIDA A SE ACABAR/ COM TANTO PRA SE FAZER/ COM TANTO PRA SE SALVAR"

Este é o ano do cinquentenário de A hora e vez de Augusto Matraga, um filme hoje muito difícil de encontrar, mas que vocês podem assistir, completo, na janelinha lá de baixo.

Trata-se de outro de nossos grandes nordesterns (*) dos anos 60, ao lado dos glauberianos Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969).

Representou o Brasil no Festival de Cannes de 1966 e poderia ter vencido, pois era infinitamente superior aos banais Um homem e uma mulher (d. Claude Lelouch, 1966) e Confusões à italiana (d. Petro Germi, 1966), que dividiram a Palma de Ouro.

Mas, não foi o único injustiçado. O incrível exército Brancaleone (d. Mario Monicelli, 1966) e Gaviões e passarinhos (d. Pier Paolo Pasolini, 1966) também concorriam...

A mesma sina tivera Deus e o diabo dois anos antes. Como o juri pôde ser tão obtuso a ponto de preteri-lo em benefício do bobinho Os guarda-chuvas do amor (d. Jacques Demy, 1964)?!

Pelo  jeitão  e pela proximidade (pouco mais de um ano os separa), Matraga é geralmente comparado a Deus e o Diabo, mas as pretensões do Glauber eram bem maiores: ele concebeu um enredo que lhe permitisse transmitir seus conceitos acerca do subdesenvolvimento, da miséria nordestina, do latifúndio, do catolicismo, de Canudos, do cangaço, das vias para a libertação do povo, etc.

Roberto Santos, menos ambicioso, empenhou-se em contar bem uma história empolgante de João Guimarães Rosa, sobre fazendeiro poderoso que perde tudo, é dado como morto e se reconstrói trocando a antiga arrogância pela humildade e religiosidade. Trabalha para o casal de camponeses idosos que o socorreu, fazendo de ambos suas figuras paternas.

Mas, depois de certo tempo, a inquietação retorna e ele resolve sair em busca do seu destino, às cegas, deixando que o jumento o conduza ("Tou aqui quase contente, mas agora vou-me embora", comenta um dos temas da belíssima trilha musical").

Acaba topando com um motivo para empunhar de novo as armas, a serviço do que lhe parece ser uma boa causa. Sua opção, contudo, é depreciada na canção que encerra o filme ("Se alguém tem de morrer/ que seja pra melhorar/ Tanta vida pra viver/ Tanta vida a se acabar/ Com tanto pra se fazer/ Com tanto pra se salvar/ Você que não me entendeu/ Não perde por esperar"), dando um nó na cabeça de muitos espectadores.

Além da direção correta de Roberto Santos e das magníficas atuações de Leonardo Villar e Jofre Soares, destaque para as composições inspiradíssimas de Geraldo Vandré. Três delas foram lançadas em compacto e mais tarde incluídas em LP: "Cantiga brava", "Modinha" e "Réquiem para Matraga".

Um detalhe que a grande maioria desconhece: na primeira, Vandré utilizou como ponto de partida uma quadra que já constava do conto de Guimarães Rosa ("O terreiro lá de casa/ Não se varre com vassoura/ Varre com ponta de sabre/ e bala de metralhadora"). E deixou de aproveitar outros quatro versos: "A roupa lá de casa/ Não se lava com sabão/ Lava com ponta de sabre/ E bala de canhão".

Por último: o único filme derivado de Guimarães Rosa que ombreia com Matraga em termos de excelência cinematográfica é o igualmente raríssimo Sagarana, o duelo (1974), quase desconhecido porque se tratou de uma produção bem menos marqueteada e badalada do que a concorrência.  Está disponibilizado neste link.

O roteiro de Sagarana, simplesmente primoroso, é do também diretor Paulo Thiago. Utiliza um conto curtinho como fio condutor e agrega personagens e situações de outras histórias, com tamanha felicidade que o espectador jamais suporia tratar-se de uma colcha de retalhos --desta vez no bom sentido.


* Estou ciente, claro, de que a história de Matraga transcorre no sertão mineiro e não na caatinga nordestina. Mas, as características das sociedades neles retratadas e a abordagem dada pelos diretores (inclusive com um duelo como grande final), justificam a inclusão do filme de Roberto Santos neste filão. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

"TERÁ QUEM ANDAR COMIGO SUA VEZ E SUA HORA"

A hora e vez de Augusto Matraga (1965), que vocês podem ver completo na janelinha abaixo, é outro de nossos grandes  nordesterns  (*) dos anos 60, ao lado dos glauberianos Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969).

Representou o Brasil no Festival de Cannes de 1966 e poderia ter vencido, já que era incomensuravelmente superior aos banais Um homem e uma mulher (d. Claude Lelouch, 1966) e Confusões à italiana (d. Petro Germi, 1966), agraciados com a Palma de Ouro.

Mas, não foi o único injustiçado. O incrível exército Brancaleone (d. Mario Monicelli, 1966) e Gaviões e passarinhos (d. Pier Paolo Pasolini, 1966) também concorriam...

A mesma sina tivera Deus e o diabo dois anos antes; como o juri pôde ser tão obtuso a ponto de preferir Os guarda-chuvas do amor (d. Jacques Demy, 1964)?!

Pelo  jeitão  e pela proximidade (pouco mais de um ano os separa), Matraga é geralmente comparado a Deus e o Diabo, mas as pretensões do Glauber eram bem maiores: ele criou um enredo que lhe permitisse transmitir seus conceitos acerca do subdesenvolvimento, da miséria nordestina, do latifúndio, do catolicismo, de Canudos, do cangaço, das vias para a libertação do povo, etc.

Roberto Santos, menos ambicioso, empenhou-se em contar bem uma boa história de João Guimarães Rosa, sobre um  poderoso que perde tudo, é dado como morto e se reconstrói trocando a antiga arrogância pela humildade e religiosidade. Trabalha para o casal de camponeses idosos que o socorreu, fazendo de ambos suas figuras paternas.

Mas, depois de certo tempo, a inquietação retorna e ele resolve sair em busca do seu destino, às cegas, deixando que o jumento o conduza ("'Tou aqui quase contente/ mas agora vou-me embora", comenta um dos temas  da belíssima trilha musical).

Acaba topando com um motivo para empunhar de novo as armas, a serviço do que lhe parece ser uma boa causa. Sua opção, contudo, é depreciada na canção que encerra o filme ("Se alguém tem de morrer/ que seja pra melhorar/ Tanta vida pra viver/ Tanta vida a se acabar/ Com tanto pra se fazer/ Com tanto pra se salvar/ Você que não me entendeu/ Não perde por esperar"), dando um nó na cabeça de muitos espectadores.

Além da direção correta de Roberto Santos e das magníficas atuações de Leonardo Villar e Jofre Soares, destaque para as composições inspiradíssimas de Geraldo Vandré. Três delas foram lançadas em compacto e mais tarde incluídas em LP: "Cantiga brava", "Modinha" e "Réquiem para Matraga".

Um detalhe que a grande maioria desconhece: na primeira, Vandré utilizou como ponto de partida uma quadra que já constava do conto de Guimarães Rosa ("O terreiro lá de casa/ Não se varre com vassoura/ Varre com ponta de sabre/ e bala de metralhadora"). E deixou de aproveitar outros quatro versos: "A roupa lá de casa/ Não se lava com sabão/ Lava com ponta de sabre/ E bala de canhão".

Por último: embora bem menos badalado do que outros filmes derivados de Guimarães Rosa, o único que ombreia com Matraga em termos de excelência cinematográfica é o raríssimo Sagarana, o duelo (1974).

O roteiro, também do diretor Paulo Thiago, é simplesmente primoroso. Utiliza um conto curtinho como fio condutor e agrega personagens e situações de outras histórias, com tamanha felicidade que o espectador jamais suporia tratar-se de uma colcha de retalhos. 



* Estou ciente, claro, de que a história de Matraga transcorre no sertão mineiro e não 
na caatinga nordestina. Mas, as características das sociedades neles retratadas 
abordagem dada pelos diretores (inclusive com um duelo como grande 
final), justificam a inclusão do filme de Roberto Santos neste filão. 
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