Mostrando postagens com marcador Paulo Cesar Pinheiro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Paulo Cesar Pinheiro. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

10 ANOS DO BLOG 'NÁUFRAGO DA UTOPIA': SEJA LÁ COMO FOR, O IMPORTANTE É QUE NOSSAS SEMENTES FRUTIFIQUEM...

Admirador de José Marti, tento ser sempre um homem sincero. Daí não omitir que o 10º aniversário deste blog caiu no pior momento de sua trajetória.

A morte do inestimável amigo e companheiro Apollo Natali, há oito dias, afastou de de mim e do restante da equipe qualquer espírito festivo por um bom tempo. Tratou-se de uma perda dolorosa demais para ser assimilada rapidamente.

Quando me dei conta de que os 10 anos se completariam logo na semana seguinte, meu primeiro impulso foi o de deixar que a data passasse em branco. 

O pensamento seguinte, contudo, foi o de que o Apollo tinha muito orgulho de sua participação no blog, tanto que até fazia cópias coloridas dos posts de sua autoria para enviar por carta aos amigos jornalistas. 

Então, ele certamente seria o primeiro a objetar; e, com ou sem sua presença física, era obrigatório levarmos em consideração tudo que ele fez pelo blog em oito anos de colaboração inspirada. Isto decidiu a questão.

Mas, antes mesmo do terrível dia 31 de julho já nos sentíamos em pleno inverno de nossa desesperança, como diria o John Steinbeck.

As trevas das quais acreditávamos nos ter definitivamente livrado em 1985 ressurgiram, como nos pesadelos: as pregações obscurantistas obtiveram uma adesão popular que não vinham tendo desde 1964, quando o golpe serviu-se da classe média para efeito de imagem pública mas logo arrancou a máscara, entrincheirando-se no seu bunker e habitat natural, a caserna, para a partir dali impor a ordem unida do arbítrio a todos os brasileiros.
"Cada verso é uma semente/ no deserto do meu tempo"
.
Há mais de meio século não corríamos tanto perigo quanto na paralisação selvagem dos caminhoneiros, que deu aos fascistas dos grotões e das periferias a oportunidade para ocuparem momentaneamente o centro do palco, apostando numa violência cega, sem propósito e sem plano de voo, repudiada até pelas lideranças ultradireitistas não totalmente desprovidas de massa encefálica. 

Em seguida, a candidatura presidencial de Jair Bolsonaro tentou surfar nessa onda, com insinuações grosseiras de que seria uma opção menos traumática do que a invasão bárbara das hordas que clamam por uma intervenção militar.

O fato de a pretensão da extrema-direita, de chegar ao poder via urnas, já ser página virada à medida que a campanha do Bolsonaro está se esfarelando, não deve nos tranquilizar.

Constatou-se que uma expressiva parcela dos brasileiros pode ser seduzida pela retórica do despotismo, da truculência e da desumanidade, jogando no lixo o pouco que construímos de civilização. É um caldo de cultura que provavelmente ainda gerará mais alguma tentativa golpista similar à que pegou carona no movimento dos caminhoneiros..
"Começar de novo/ E contar comigo/ Vai valer a pena/ Ter amanhecido"
.
Por último, aquela esquerda que foi atropelada pelo aguçamento da crise capitalista e reduzida à impotência pelos erros gritantes que cometeu continua esperneando para não morrer, empilhando derrotas e bloqueando o caminho pelo qual deveria estar passando uma nova esquerda, mais coerente e muito mais combativa.

O quadro é desalentador, dá-nos a impressão de termos entrado num túnel do tempo e voltado ao marasmo do final da ditadura, quando o pior do terrorismo de Estado já tinha passado mas a esperança não brotava.

Mas é também o que justifica a existência deste blog, um dos poucos (bem poucos!) que ainda discute o quadro atual sem antolhos partidários, fiel aos ideais históricos da esquerda mas não aos desvirtuamentos das últimas décadas.

Quem nos lê, tem a noção exata de que chegamos ao fundo do poço e só nos resta arregaçar as mangas e, penosamente, voltar à superfície..

Quando as redes sociais são cada vez mais tangidas para o fanatismo cego, com as forças majoritárias passando como rolos compressores sobre as tendências minoritárias dos respectivos campos, aqui o pensamento crítico e o debate civilizado ainda têm vez.
"Levante-se, companheiro/ Que se hoje somos cem/
Amanhã serão milhões/ Os que estaremos em pé"
.
É um blog que não influi tanto quanto os financiados por agrupamentos políticos para a produção em série de prosélitos? Sem dúvida. Mas, há também um lado positivo em inexistirem patrocínios e não termos de prestar contas a nenhum seguidor ou repetidor. 

Quem nos divulga –e não impomos restrição nenhuma nem cobramos absolutamente nada dos que o fazem– age apenas por convicção, assim como nossa recompensa pessoal é apenas a certeza de termos sido fiéis às nossas convicções.

Enquanto tivermos pique e lucidez, o Dalton, o Rui e eu continuaremos plantando nossas sementes de um Brasil melhor, livre da ganância predatória e da aberrante desigualdade econômica atual.

Torcendo para que outros jovens, seguindo os passos do David, incorporem-se a nossa equipe se preparem para, num futuro inevitável, receberem o bastão que nós três carregamos há uma década juntos e há um século e meio na soma das trajetórias individuais. (por Celso Lungaretti)
"Só se for seja lá como for/ O importante é que nossa emoção sobreviva"

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

DE VOLTA À BATALHA, SONHANDO COM A PAZ

Passei quatro dias na aprazível Lindóia (SP), com as pessoas que mais amo no mundo, minha companheira e as duas filhas: a que vive comigo e tem oito meses; e a que mora distante e tem quase sete anos.

Por medida de economia, infelizmente necessária, ficamos num hotel-fazenda, que oferece paisagem de cartão postal mas tem o inconveniente de não disponibilizar internet. Absorvido pelos programas familiares, acabei permanecendo cinco dias desconectado do insensato mundo.

O contato com as pessoas simples e a rotina amena da região entre SP e MG reavivou em mim aquele velho sonho dos guerreiros cansados, magnificamente expresso na canção Toada Brasileira, de Ivor Lancelotti e Paulo César Pinheiro.

De volta à cidade grande onde, dizem os versos igualmente inspirados de Alceu Valença, "tudo corre tão depressa que, se você tropeça, não vai levantar", restou-me um tanto de melancolia. Até quando teremos de nos ocupar de atrocidades e horrores como os da campanha israelense na faixa de Gaza, quando poderíamos estar desfrutando a vida em harmonia e com fraternidade?

Como é pouco conhecida, vale a pena registrar aqui a letra de Toada Brasileira, de cristalina beleza e um humanismo que faz imensa falta nos tristes tempos presentes:

Eu fiz com meu trabalho
A vida inteira
Uma casinha branca no sertão
De frente prum caminho de palmeira
Do lado de nascente e ribeirão
De dia o galo canta na porteira
E a passarada vem comer na mão
E à sombra de uma jabuticabeira
Passo a manhã contando uma canção

No almoço uma caninha costumeira
Vem do fogão de lenha um cheiro bom
Eu como uma comidinha mineira
Pra cochilar sob o caramanchão
No fim da tarde um banho na ribeira
Deitar na rede e olhar pra essa amplidão
A estrela Dalva é a estrela primeira
E o canto da cigarra é a saudação

De noite vem o perfume da roseira
E a lua tece rendas no portão
Eu tenho a paz com minha companheira
Mas muita mágoa no meu coração
Por que não ser assim com a Terra inteira
Por que uns conseguem e outros não?
Eu canto uma toada brasileira
Pedindo um mundo
Assim pros meus irmãos
Related Posts with Thumbnails