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quinta-feira, 21 de abril de 2022

ELE QUERIA FECHAR O CONGRESSO. SERÁ FECHADO NA CELA.

josias de souza
SUPREMO USA SILVEIRA PARA INFORMAR QUE
 BOLSONARISMO PETULANTE
 DÁ CADEIA
Ao condenar Daniel Silveira, o Supremo Tribunal Federal fez um risco no chão. Demarcou a fronteira que separa a liberdade de expressão do crime. 

"Está claro que o deputado não é um bom exemplo", disse à coluna um dos ministros da Corte. "Mas ele acabou servindo como um ótimo aviso." 

Silveira foi usado pelo Supremo para informar aos seus semelhantes, inclusive ao presidente da República, que o bolsonarismo petulante, quando descamba para o ódio e passa a ameaçar a democracia, dá cadeia. O deputado recebeu quatro pauladas:
1. cana de oito anos e nove meses, em regime inicialmente fechado; 
2. perda do mandato; 
3. inelegibilidade, com o consequente sacrifício de sua candidatura ao Senado; e
4. multa estimada em cerca de R$ 192 mil.

Além de insultos e xingamentos, ardiam no caldeirão em que se formaram as culpas de Daniel Silveira:
1. ameaças de agressão física a ministros do Supremo; 
2. incitação à invasão e ao fechamento do Congresso e da Suprema Corte; e
3. fabricação de animosidade entre as Forças Armadas e as instituições civis. 

O aviso do Supremo foi extensivo ao Legislativo. O Conselho de Ética da Câmara já havia aprovado uma punição para Daniel Silveira: suspensão do mandato por seis meses. O castigo mixuruca depende do aval do plenário da Casa. 

Cabe ao presidente da Câmara, o réu Arthur Lira, incluir a encrenca na pauta de votação. Mas Lira, movido à base de orçamento secreto e rendido às conveniências de Bolsonaro, mantém a parecer do Conselho de Ética na gaveta há nove meses. 

Com sua decisão, os ministros do Supremo informaram a Lira e seus cúmplices que aqueles que dizem que alguma coisa não pode ser feita são geralmente surpreendidos por alguém fazendo a coisa. A cassação do mandato transformou em piada a ideia de premiar Silveira com uma folga hipertrofiada de seis meses. 

Bolsonaro e seus devotos apostavam que o ministro André Mendonça pediria vista do processo, engavetando-o por tempo suficiente para que o réu chegasse até as urnas de outubro. Deu errado. 

Além de não travar o julgamento, o terrivelmente evangélico Mendonça compôs a maioria de 10 votos favoráveis à condenação de Silveira. Ficou isolado na dosimetria da pena. Atribuiu culpa a Silveira apenas na imputação de estimular a violência ou grave ameaça contra autoridades para favorecimento próprio. Fixou a pena em 2 anos e 4 meses, em regime aberto.

Apenas o ministro Nunes Marques, descrito por Bolsonaro como 10% de mim dentro do Supremo, votou pela absolvição de Silveira. Considerou o comportamento e as declarações do deputado inaceitáveis. Mas sustentou que tudo não passou de  ilações e conjecturas inverossímeis
Nessa versão, Silveira teria pronunciado
bravatas sem credibilidade. Coisas incapazes de intimidar quem quer que seja

Carmen Lúcia ironizou o voto do colega. Disse que, se o Supremo aguardasse pela concretização das ameaças, o julgamento de Silveira não ocorreria, pois o deputado arguiu a suspeição de nove dos 11 ministros da Corte. 

Para a defesa de Silveira, apenas André Mendonça e Nunes Marques teriam isenção para julgar o deputado. Se prevalecesse o entendimento de Nunes Marques, Silveira seria apenas um inofensivo neurótico que constrói castelos no ar. Ou um psicótico, que mora nos castelos de vento. 

Para azar do bolsonarismo, a maioria do Supremo optou por se comportar como o psiquiatra, que cobra o aluguel do maluco. 

A certa altura, o relator Alexandre de Moraes evocou um raciocínio de Albert Einstein:
"Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta". 
Por vias oblíquas, Moraes como que convidou o eleitor do Rio de Janeiro a refletir sobre as razões que levaram um pedação da sociedade fluminense a escolher a estupidez como sua representante na Câmara federal. 

Daniel Silveira é um ex-PM. Passou seis anos na corporação. Nesse período, puxou 26 dias de xadrez. Colecionou 14 repreensões e duas advertências.

Antes de entrar para a polícia, trabalhou como cobrador de ônibus. Valia-se de atestados médicos falsos para faltar ao serviço. 

Um personagem assim podia ser enviado para muitos lugares, exceto para o Congresso. (por Josias de Souza)

terça-feira, 6 de abril de 2021

TERÃO OS EVANGÉLICOS SE TORNADO PIORES DO QUE O CORONAVÍRUS?

V
ocês me desculpem, mas parece não haver mais jeito. O Brasil vai acabar. 

Vai acabar o Brasil da época de minha mocidade e de ainda há alguns anos. O Brasil da alegria solta e descompromissada, que fez nosso sucesso no estrangeiro. 

O Brasil do Ari Barroso, Dorival Caymmi, Chico Alves, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e tantos outros cantando nossa maneira livre de viver, nossa irreverência, nosso gosto pelo sabor do pecado, pelo rebolar das cabrochas, pelas morenas dengosas, nossas gargalhadas gostosas, nosso riso incontido, nossa inconsequência, nosso samba, nosso Carnaval... tudo isso acabou, vivemos agora uma 4ª feira de cinzas sem fim.

E de onde nos vem essa desgraça, essa maldição, essa tristeza constante, esse olhar perdido de condenados, esse medo do além, esse desejo de submissão, essa vontade covarde de criar calos nos joelhos dobrados, esse remoer de novenas, esses cantos soturnos de salmos e hinos de condenados, anestesiados de tanto ouvir o repetir de mentiras, sem coragem e nem força de se rebelar? 
Quem nos roubou nossa consciência de povo feliz, mesmo na pobreza mas sempre na luta por conquistas sociais, aqui, agora, para nossos filhos e nossos netos. Quem promete o paraíso em troca de uma vida no inferno?

É uma praga, que se alastra, corrói e destrói. Mais forte que o coronavirus porque justifica o genocídio, rejeita as vacinas, se opõe ao confinamento e aceita esse tipo de holocausto como uma vontade divina indecifrável ou castigo mesmo imerecido, ou ainda sinal de fim do mundo, que nega existir um culpado. 

Essa praga tem um nome chama-se fanatismo e só cresce e se desenvolve em terreno incultos, regados pela ignorância. 
É uma degenerescência da mensagem de paz e amor, no contato com o cultivo do ódio, adubado com o mais baixo populismo, por aproveitadores, hipócritas e enganadores da pior espécie.

Quem poderia prever que do protestantismo —um dos elementos detonadores e inspiradores, no século XVI, dos movimentos de ruptura com as trevas medievais do absolutismo religioso e político, dos quais decorreram a liberdade de interpretação das Escrituras antes intocáveis e, por tabela, a liberdade de expressão e a democracia— iria sair essa excrecência evangélica dos nossos dias?

Hoje os evangélicos são cerca de 70 milhões de pessoas, cerca de um terço da população, e a principal coluna de apoio do governo Bolsonaro. 

Difícil de entender como o programa de governo do candidato Bolsonaro atraiu os evangélicos, mais difícil ainda de compreender como essa base de apoio se manteve fiel diante da crise do coronavírus, tornando-se negacionista com relação às vacinas e ao confinamento, sendo envolvida pelas teorias de conspiração de QAnon, acreditando piamente nas notícias falsas (ou fake news) distribuídos pelo chamado gabinete do ódio.

O evangelismo brasileiro deixou de ser um movimento religioso reacionário, um subproduto de seitas populares evangélicas estadunidenses, para se transformar num movimento neofascista de sustentação do governo Bolsonaro. 

Como isso ocorreu, e tão rapidamente, a ponto de logo suplantar o tradicional culto católico, merece uma pesquisa aprofundada. 

Os evangélicos seguidores de Bolsonaro, pouco diferem dos evangélicos seguidores de Trump, mesmo se existe uma contradição doutrinária com o credo político e com o comportamento desses dois políticos.

Fator novo na política brasileira, a fidelidade política decorrente de um fanatismo religioso teleguiado por redes de Internet e dirigido por pastores, na maioria sem formação teológica, na verdade espertos vendedores de planos de salvação post mortem, vai conduzir o Brasil a um retrocesso social ditado por princípios religiosos. 

E, caso prossiga o aumento dos fiéis evangélicos, o Brasil acabará abandonando sua tradição republicana, democrática e laica para ser catalogado como país religioso, teocrático, como são os países muçulmanos e budistas.

A reabertura das igrejas para os fiéis, por decisão do mais recente juiz do STF nomeado por Bolsonaro, é mais que sintomática. Hoje os demais juízes reagem, porém estão previstas novas substituições por Bolsonaro, uma delas já prometida aos evangélicos. Serão novos juízes que, durante algumas décadas, sedimentarão os novos comportamentos sociais defendidos pelo populismo evangélico.

Será o fim do teatro de críticas sociais e de certa liberdade, assim como será o fim da música brasileira irreverente e crítica substituída por canções próximas do gospel evangélico. Será o fim de todas as artes. 

Se os partidos da oposição abrirem mão de um próximo pedido de impeachment de Bolsonaro, aceitando esperarem as eleições do próximo ano, será tarde demais. 

Perderemos nossas grandes empresas, perderemos nossas liberdades e perderemos nosso jeito brasileiro de viver, de cantar e de rir. Bolsonaro e os evangélicos terão acabado com o Brasil. (por Rui Martins)
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