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terça-feira, 15 de novembro de 2016

MESMERIZADA PELA INDÚSTRIA CULTURAL, A HUMANIDADE AFUNDA NUM NOVO TIPO DE BARBÁRIE.

Por Mário Sérgio Conti
A NAÇÃO MAIS DESENVOLVIDA ELEGEU UMA CRIATURA DA INDÚSTRIA CULTURAL (extrato)

"...as luzes da razão científica transmutaram-se em mistificação massificadora. Hollywood, o rádio, desenhos animados, o jazz e o pop configuravam a indústria cultural. Ela é o triunfo da mercadoria e do mito sobre o esclarecimento libertário.

As usinas da cultura oferecem produtos que são sempre a mesma coisa: mais uma novela, uma série de internet, um blockbuster, um best-seller, um meme, um funk pancadão. Na cela de seu celular, ou ante uma pergunta do Enem, o homem automático se crê livre.
Trump quando comandava o reality show O aprendiz
Divertir-se, para ele, significa teclar um like e mudar de tela, estar de acordo com a vida mutilada. Por isso, Adorno e Horkheimer afirmam que a humanidade, 'em vez de entrar numa condição verdadeiramente humana, afunda num novo tipo de barbárie'.

...A nação de maior desenvolvimento científico e cultural da Terra, de bem assentada democracia, elegeu (1) uma criatura da indústria cultural.

Um astro de reality show será presidente. Trump é uma figura do progresso. Seu modo de comunicação preferido é o Twitter. Seus comícios combinam a oratória de um rapper com a de um comediante de stand-up. Tem a retórica violenta de um blogueiro.

Reagan: canastrão em Hollywood e na Casa Branca
O racismo, a demagogia e a agressividade de Trump condizem com a tecnologia mais avançada. Com a combustão tóxica de forma adiantada com conteúdo atrasado, venceu os partidos tradicionais, a grande imprensa, os institutos de pesquisa, as opiniões bem estabelecidas, o venerado Obama e o sistema político inteiro.

Sua oponente, representante politicamente correta de Wall Street, teve mais votos populares. Mas Trump foi eleito segundo as regras da democracia americana. Elas permitem que possa deflagrar, sem consulta ao Congresso, uma guerra nuclear (2).

...Onde outros enxergavam caricaturas políticas e divertimentos inócuos, Adorno apontou as semelhanças entre a opressão fascista e a liberal. Onde o irracionalismo anárquico dava o tom, ele auscultou os mecanismos ocultos da exploração do capital."
1) já o havia feito: Ronald Reagan, que cumpriu dois mandatos presidenciais na década de 1980, tinha sido locutor de rádio, ator de cinema e apresentador de TV. Seu papel mais lembrado é o de delator dos colegas durante o macartismo. 
2) Torçamos para que ele ainda seja capaz de distinguir a realidade do faz-de-conta dos entretenimentos baratos e não sinta vontade de imitar os presidentes de filmes de sci-fi, que desencadeiam o apocalipse nuclear...  

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

HÁ UMA PROFUNDA DESCRENÇA POPULAR COM OS GESTORES DA DEMOCRACIA LIBERAL E A ESQUERDA NÃO A CAPITALIZA

Escreveu Vladimir Safatle
FENÔMENOS COMO
 DONALD TRUMP NÃO SÃO 
PASSAGEIROS, SÃO REGRA.
.
Há uma passagem na Dialética do Esclarecimento na qual os filósofos Theodor Adorno e Max Horkheimer afirmam que, muitas vezes, não há nada mais estúpido do que ser inteligente.

Nessa passagem, eles descrevem como seus amigos intelectuais tinham análises detalhadas e bastante astutas para provar de forma cabal como a ascensão do nazismo nunca seria possível. Nenhuma delas serviu para impedir o que era, no final das contas, claro como o sol ao meio-dia.

Bem, a eleição de Donald Trump é, mais uma vez, a prova de como muitas vezes não há nada mais estúpido do que ser inteligente.

Até o último dia da eleição, as chances de vitória de Hillary Clinton eram creditadas em até 90%. A inconsistência de Trump, seu caráter errático, suas falas absurdas e caricatas eram salientados a todo momento para confirmar aquilo que as pesquisas pareciam indicar: que ele nunca seria o próximo presidente dos EUA.

No entanto, Trump viu algo que ninguém queria ver, a saber, que a democracia liberal acabou, que a política não passa mais pela conquista do centro e pela boa gestão da institucionalidade atual. Ela passa pelo deslocamento em direção aos extremos e pelo decisionismo soberano. 

Tudo estava claro para quem quisesse ver. O brexit e a ascensão da xenofobia na Europa foram expressões de uma profunda descrença popular com os gestores da democracia liberal. Lembremos como os últimos anos demonstraram como as recuperações econômicas aplicadas através de planos de austeridade significaram aumento brutal da precariedade, da insegurança social e da desigualdade.

Esses planos de recuperação foram geridos de forma praticamente semelhante, tanto por liberais como pela esquerda (ou por algo que gostaria de, em certos momentos, se fazer passar por ela). A ira popular contra tal classe de gestores sociais era evidente e levaria a um forte sentimento anti-institucional.

Foi para vampirizar tal sentimento que entrou em cena Donald Trump. Denunciando a elite política e a elite midiática por esquecimento das pessoas comuns, ele, o representante maior da elite financista e rentista que mais se beneficiou das políticas econômicas dos últimos anos, fez o inacreditável papel do homem simples indignado com a impotência dos burocratas e com a inércia dos partidos.
Sua imagem de bem-sucedido, junto à sua capacidade de mudar de opinião, de se contradizer a todo momento, podia muito bem aparecer como a prova de que estávamos diante de alguém que não respeitaria limites para fazer o que deve ser feito. Foi o que aconteceu.

Fenômenos como Trump não são passageiros. Eles serão a regra daqui para frente. Clinton, com seu militarismo extremo e sua aliança orgânica com os interesses de Wall Street, era apenas uma direita mais tradicional que terá cada vez menos lugar. 

Já fenômenos como Trump se aproveitam da inexistência de esquerda no cenário político-partidário mundial e capitalizam todo o sentimento anti-institucional, dando à insegurança social o lastro do medo paranoico contra inimigos externos ou da raiva protofascista contra minorias internas. A história já demonstrou quão explosiva pode ser tal combinação.

No entanto, essa eleição mostrou também a limitação política de certas escolhas feitas ultimamente. Por coincidência, no dia da eleição norte-americana, eu estava na Universidade da Carolina do Norte, onde os estudantes fizeram várias pichações contra Trump. Na maior delas podia-se ler: "Trump: sexista, machista, racista, islamofóbico, homofóbico".

Tudo isso é verdade, mas era sintomático não haver nada sobre seu desejo em acabar com o sistema de saúde gratuito para os mais pobres ou sobre sua política econômica que implicará em concentração de renda e em aumento da precarização. De fato, a tentativa de desconstruir Trump passou, de forma majoritária, por tais pautas ligadas a políticas de reconhecimento.

Nada mais previsível, já que a luta por reconhecimento funciona atualmente como uma certa compensação à inexistência de um discurso econômico de esquerda com clara força de transformação das relações econômicas e com capacidade de implicar as classes empobrecidas.

Conseguimos transformar tais pautas, profundamente justas em si, na única modificação concreta que a esquerda consegue atualmente oferecer, já que estamos todos comprometidos com a gestão do mesmo modelo econômico, divergindo apenas sobre a intensidade da aplicação das mesmas políticas. 

Mas se o modelo econômico é o mesmo, se o problema é só de intensidade, então melhor entregar as chaves do cofre para alguém que sabe como as entranhas do capital realmente operam. Ao que parece, foi assim que metade mais um da população norte-americana pensou.

O pitaco do editor
A DEMOCRACIA LIBERAL ENTROU EM PARAFUSO. QUAIS AS CONSEQUÊNCIAS PARA A ESQUERDA?
. 
Em seu excelente artigo desta 6ª feira (11) na Folha de S. Paulo, cujos trechos principais grifei, o filósofo Vladimir Safatle veio ao encontro do que tanto o Dalton Rosado quanto eu vimos há tempos alertando: as contradições insolúveis do capitalismo atingiram tal estágio que ele cada vez desagrada mais pessoas para satisfazer menos pessoas. O preço da relativa prosperidade de poucos são agruras e sofrimentos para muitos. Com isto, a chamada democracia liberal entrou em parafuso, como cansamos de dizer e agora ele diz também.

A nós interessa, sobretudo, a principal consequência disto para a esquerda: a de que não adianta mais disputarmos eleições e tentarmos combater o stablishment com as armas do stablishment, situados dentro do stablishment. Temos de, como em 1968, abandonar os parlamentos e palácios do governo, voltando às ruas e às praças para nelas irmos forjando pouco a pouco, em sintonia com o povo e estimulando seu protagonismo, uma proposta alternativa de sociedade.

Caso contrário, acontecerá conosco o mesmo que aconteceu com o Partido Social-Democrata alemão, que tentou deter a escalada nazista dentro dos marcos da legalidade burguesa, enquanto o inimigo, sem os mesmos melindres, atuava em duas frentes: intimidava os conservadores e liberais com a truculência de suas turbas de lumpemproletários, visando inicialmente paralisá-los e depois cooptá-los nas esferas do poder formal. 

Lembrem-se: quem não aprende com as lições da História, está condenado a repeti-las. (Celso Lungaretti)

terça-feira, 26 de julho de 2011

RESCALDO DE UM ATENTADO DEBILÓIDE

O filósofo Vladimir Safatle continua sendo responsável por alguns dos fugazes lampejos de vida inteligente que ainda encontram brecha no  inferno pamonha  engendrado pela indústria cultural.

No artigo Um fantasma na Europa, ele disseca o atentado norueguês com base nas leituras que Theodor Adorno e Max Horkheimer fizeram do totalitarismo contemporâneo, acertando na mosca:
"...o fascismo conseguira se colocar como um modelo de forma de vida. No caso, uma forma de vida constituída através da transformação de comportamentos patológicos em norma social, de temáticas que normalmente aparecem em delírios paranoicos no conteúdo de discursos políticos tacitamente aceitos.

Assim, delírios de perseguição se normalizavam por meio da crença de que um elemento estranho estava infectando a bela totalidade de nosso corpo social. Elemento que destruiria, com o beneplácito de cosmopolitas ingênuos, nosso caráter nacional naquilo que ele teria de mais especial.

Força e disciplina eram convocadas para restaurar esse corpo quase moribundo separado de seu solo, mesmo que tal solo seja hoje uma fazenda de produtos orgânicos.

Por sua vez, delírios de grandeza animavam discursos que pregavam a amplidão redentora da nação. A identidade era, assim, elevada à condição de sistema defensivo ameaçado, e, por isso, compulsivamente afirmado.

Não por acaso, palavras como 'limite', 'fronteira', 'território' tornavam-se os significantes centrais do discurso político. A defesa da identidade se tornava uma patologia.
 Lembrar isso, após o massacre em que um norueguês islamófobo, cristão conservador e simpatizante de partidos de extrema-direita matou dezenas de jovens do Partido Trabalhista, é só uma forma de insistir como alguns não aprendem nada com a história.
 Tal como o direitista americano que, meses atrás, atirou contra uma deputada democrata em Tucson contrária a leis mais duras contra a imigração, o que temos aqui é simplesmente alguém que quer realizar tal forma de vida fascista com as próprias mãos.
Eles não querem esperar os partidos xenófobos ganharem para 'eliminar' os imigrantes. Preferem passar ao ato, literalizando o discurso que ouvem todos os dias".
 Vou além: a tralha que a indústria cultural despeja nas telinhas e telonas, pura lavagem cerebral, martela o tempo todo a noção de que a ameaça aos  bons, aos  normais  e  saudáveis, são os  maus, os  aberrantes  e  doentios   que vêm ameaçar o status quo, principalmente o  terrorista  e o  serial killer.

Enquanto o capitalismo solapa as próprias bases da existência humana, suas patéticas vítimas são tangidas a  sentirem  a sociedade como um  bem  a ser preservado das investidas de vilãos mefistofélicos que vêm de fora para a destruir, com o apoio de alguns traidores de dentro.

Então, não há motivo para estranharmos que o debilóide norueguês tenha levado às últimas consequências  aquilo que vem sendo plantado na sua cabeça dodói desde criancinha -- é, p. ex., o que se vê na série Harry Potter, o mundinho paradisíaco da escola de bruxaria ameaçado pelo caos que um Bin Laden de nariz achatado personifica.

A escola destruída no episódio (por enquanto...) final não se confunde, no imaginário dos videotas, com as lembranças traumáticas do WTC posto abaixo?

A  anulação do diferente  é a mensagem que os meios propagam sem parar, tangendo as pessoas à defesa obsessiva de um status quo que, ele sim, é a verdadeira ameaça à paz, à felicidade e à própria sobrevivência da espécie humana; e  imunizando-as  contra o antídoto oferecido pelos que, via transformação da sociedade, as tentam salvar.
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