sexta-feira, 22 de maio de 2026

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO/14

A
s estranhas coincidências continuaram dando o ar de suas graças.

Assim é que, no final de 2008 recebi um telefonema do Comitê de Solidariedade a Cesare Battisti pedindo minha ajuda na batalha de opinião contra a extradição do escritor italiano. A vitória conquistada no episódio dos quatro de Salvador  chamara a atenção desses seus apoiadores.

A prestação de solidariedade a perseguidos políticos é dever de todo revolucionário, embora a maioria tire o corpo fora. Eu não. Aceitei de imediato, sem ilusão nenhuma quanto a tão imensas seriam as dificuldades que enfrentaria. 

Não deu outra. Passei dois anos e meio correndo o Brasil para fazer palestras; participar de debates, mesas redondas e atos públicos em defesa do Cesare. Compareci às sessões de julgamento no Supremo Tribunal Federal para, se a decisão fosse pela extradição,  reagir imediatamente, pois deveríamos contrapor nossa verdade às mentiras que vinham da Itália e eram repercutidas caninamente pela imprensa brasileira.

No meio de tudo isso, um dia me lembrei do primeiro livro para adultos que lera na vida, lá pelos meus 14 anos: A tragédia de Sacco e Vanzetti, do Howard Fast, que escolhi na Biblioteca Circulante da Mooca baseado apenas na orelha.

A história era a de dois anarquistas italianos acusados e executados em Massachusetts por um assalto à mão armada com duplo homicídio que, contudo, não haviam cometido. 
Parlamentares visitaram o Battisti na Papuda

Tratava-se apenas de um exemplo chocante para intimidar os imigrantes que chegavam aos EUA com ideais esquerdistas.

Embora a inocência de ambos estivesse mais do que provada e manifestações de protesto pipocassem por várias nações (até o Papa pediu pela vida deles), os assassinatos pela via judicial acabaram ocorrendo. Cinquenta anos depois o governador de Massachusetts reconheceu que havia sido cometido um erro jurídico, reabilitando-os postumamente.

Esse livro impactou muito em mim quando o li, mas tantos outros haviam depois passado por minhas mãos que eu esquecera dele. 

Quando afinal percebi que, de certa forma, estava tentando corrigir o passado, fiquei surpreso: estatisticamente, a possibilidade de um dia eu estar envolvido com um episódio semelhante era irrisória. Mais ainda pelo fato de eu nem sequer ser de esquerda quando retirei aquele livro da biblioteca.

Não foi esta a única coincidência inverossímil. Apesar de minhas famílias paterna e materna não terem interesse pela política, um antepassado meu, Angelo Longaretti, havia assassinado um fazendeiro truculento que espancava seu pai.

Haviam discutido pelo valor que o pai dele, um homem idoso, tinha a receber, pois estava de saída daquela fazenda. Isto se misturava com o assédio que a filha sofrera de um dos filhos do mandachuva, Finalmente, ao ver o seu pai agredido e aparentemente morto (tinha só desmaiado), Angelo o matou com um tiro fortuito de uma garrucha enferrujada. 
O Crítica Radical foi muito atuante em defesa do Cesare


A colônia italiana se mobilizou em peso, mas o julgamento foi de cartas marcadas. Não se providenciou sequer tradutor, de forma que as testemunhas de Angelo, também italianas de nascença ou de ambiente familiar, depuseram à toa. 

O morto era irmão de Campos Sales, o quarto presidente da República do Brasil, o qual tentou mudar a lei, com a introdução da pena de morte para que em seguida fosse aplicada retroativamente contra Angelo. Mas acabou desistindo dessa ideia de jerico por pressão da Inglaterra, que atuava como uma espécie de guardiã da aplicação correta da lei noutros países.

Sem vínculo comigo, mas igualmente repulsivas foram a decisão do STF favorável à extradição de Olga Benário Prestes para a Alemanha nazista, embora estivesse grávida de brasileiro; e a omissão do ditador Getúlio Vargas, que dava a última palavra em casos como esse e poderia ter impedido tal infâmia.

A esquerda perdoa alguns ditadores que passam para o seu lado, como Vargas, que em 1950 se tornaria nacionalista como retaliação aos EUA por terem, em 1945, apoiado sua destituição. Eu, que passei pelos porões de uma ditadura e quase morri, não perdoo ditador nenhum. 

Mas, voltemos ao Caso Battisti. Minha melhor contribuição foi haver lançado artigos praticamente todo dia, resgatando a memória: 
-- dos grandes atentados fascistas que ficaram impunes ou receberam sentenças ínfimas, começando pelo da Piazza Fontana em 1969 (16 mortos e 88 feridos) e culminando no Massacre de Bolonha ((85 mortos e mais de 200 feridos).;
-- da lei inacreditável que vigorou nos
anos de chumbo italianos, prevendo prisões preventivas de mais de 10 anos para os acusados de terrorismo, que bem poderiam ser inocentes;
-- pelo fato de que as acusações do governo do debochado Silvio Berlusconi contra o Cesare já estavam prescritas, mas o prazo foi escamoteado para justificar a perseguição ao escritor;
-- pela buffonata de atribuírem a Battisti quatro assassinatos, dois dos quais simultâneos, sem levarem em conta que era humanamente impossível ele percorrer em tempo a distância entre duas dessas cidades  (quando esse pequeno detalhe foi atirado na cara dos pubblici ministeri, eles alteraram a acusação para três homicídios cometidos pessoalmente e autoria intelectual do quarto),

Muitos exemplos semelhantes comprovam que na Itália perdurava um estado de guerra silenciosa, o que justificaria uma anistia aos envolvidos ao invés de penas rigorosíssimas para uns e benevolentes para outros.

O pedido de extradição feito apela Itália ao Brasil desembocou numa guerra de versões até então nunca vista, entre a grande imprensa e as redes sociais.

Num primeiro momento, prevaleceu o posicionamento do jornalista e escritor Mino Carta, muito paparicado pelo PT. Quem não estava a par do confronto repetia as diabretes do Mino, sem saber que ele, como os comunistas tradicionais, detestava a nova esquerda e, consequentemente, o Battisti.
O sátiro Berlusconi queria exibir a cabeça do Cesare 

Um episódio interessante foi eu logo ser convidado a entrevistar o Cesare sobre semelhanças e contrastes de dois guerreiros dos
anos de chumbo. 


O Gilmar Mendes jamais consentiria, então tratei de entrar na Papuda acompanhando uma pessoa que tinha o direito de estar lá. Entrevistei-o longamente, anotando apenas uma palavra de cada resposta dele, para não dar na vista.

Nunca havia feito isso, mas consegui lembrar a entrevista inteira. Ela foi publicada no Congresso em Foco, que me contratara o serviço, e, depois de uma semana, massificando-a para que atingisse maior público. Coincidência ou não, foi nesse período que Cesare começou a conquistar as redes sociais.

Quando entrei na batalha de opinião, trazendo a experiência das disputas encarniçadas do movimento estudantil, a coisa foi mudando de figura, Tentei várias vezes acelerar o processo desafiando o Mino a polemizar comigo, mas ele evitou o confronto. 

Escapou da derrota, mas não da corrosão de sua popularidade, Teve de abandonar o blog pessoal por não suportar os questionamentos que seu próprio público lhe fazia,

Numa noite em que vários veículos da grande imprensa levaram ao ar reportagens altamente desfavoráveis ao Cesare, deixando forte impressão de que se tratava de uma ação concertada, consegui redigir, em pouco mais de uma hora, e enviar para minha rede uma refutação que acabaria sendo copiada por um grande número de portais e blogs. Foi o melhor texto que escrevi durante a campanha toda, aproveitando ao máximo o que aprendera no jornalismo.


Doutro lado, deixo registrado que, como relator do caso no STF, Cezar Peluso conseguiu alinhavar  várias e várias dezenas de motivos para enviá-lo à Itália e uns 2 ou 3 que o favoreciam. Foi o relatório mais parcial que eu vi em toda a minha carreira e em toda a minha vida.

O empenho de Gilmar Mendes (presidente da Corte) e Peluso (relator) em crucificar Battisti era desmedido. E, quando terminou o período de Mendes como presidente, foi substituído por... Peluso! E quem foi indicado por Peluso para assumir a relatoria? Ele mesmo: Gilmar Mendes!

Apesar de termos contra nós um país do primeiro mundo cujo presidente era um depravado ultradireitista; quase toda a grande imprensa brasileira; e adversários ocupando o tempo todo as posições mais importantes do julgamento, vencemos.

O fator decisivo foi que jornalistas renomados, confiando em que eu respeitaria suas revelações em off, me transmitiram tudo que eu precisava saber sobre o Lula. Inclusive que ele dissera ao Gilmar Mendes que, se o STF decidisse extraditar o Cesare sem intervenção dele, Lula, repetiria a indignidade do Getúlio Vargas, deixando tal desfecho vergonhoso acontecer; mas, se fosse dele a palavra final, não extraditaria.

Graças a isso, a escritora francesa Fred Vargas, o ex-integrante da Anistia Internacional na Argentina Carlos Lungarzo, o Eduardo Suplicy e eu conseguimos impedir que apoiadores desatinados lançassem  uma campanha para o Lula retirar o processo das mãos do STF e decidir sozinho. Teria sido derrota na certa.
Cezar Peluso e Gilmar Mendes tudo fizeram contra Cesare 

E movemos céus e terras para que os 4x5 que vínhamos recebendo nas votações anteriores se tornassem 5x4 para nós no tópico principal: se o Supremo decidiria sozinho ou a palavra caberia ao condutor das relações internacionais do Brasil (o presidente da República).


Como nas outras situações nas quais tal dilema havia sido discutido prevalecera a prerrogativa presidencial, fizemos campanha cerrada para que os defensores da tradição repetissem o voto dado noutras ocasiões. 

Caso do Ayres Britto que, corajosamente, manteve seu posicionamento costumeiro, apesar de o Gilmar Mendes ter sido até deselegante no discurso irado com que tentou fazê-lo mudar o voto. (por Celso Lungaretti

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