domingo, 8 de novembro de 2020

TEMPESTADE DE SOM E FÚRIA SIGNIFICANDO NADA , A ONDA ULTRADIREITISTA ESTAVA DESDE O INÍCIO DESTINADA AO RALO

P
assei 2018 inteiro advertindo para o risco Bolsonaro e conclamando os dirigentes da nossa esquerda a colocar como prioridade máxima, na eleição presidencial daquele ano, barrar-lhe o caminho.

Temia uma repetição de 1989, quando já em abril advertia, praticamente sozinho, que Fernando Collor seria capaz de eleger-se presidente, mas os geniais estrategistas do nosso campo o encararam como fogo de palha ou cavalo paraguaio até o quarto trimestre, quando o erro de avaliação já lhes explodia na cara. 

Não deu outra. Novamente subestimamos o inimigo cuja vitória nos seria mais danosa, e já lá se vão dois anos em que estamos pagando o altíssimo preço de nossa incompetência. 

Pode soar paradoxal, mas eu tinha certeza de que a nova direita de Steve Bannon e Olavo de Carvalho nada mais seria do que uma repetição como farsa daquele devastador populismo ultradireitista que provocou a tragédia da 2ª Guerra Mundial. Produziria consideráveis estragos mas não seria capaz de estabilizar-se no poder, jamais igualando Hitler (12 anos como chanceler do Reich) ou Mussolini (21 anos como primeiro ministro).

Motivo: o nazismo e o fascismo não entregavam apenas catarse e terror, mas também resultados. O führer reergueu a Alemanha dos escombros da 1ª Guerra Mundial e da hiperinflação de 1923, enquanto houve marcantes avanços econômicos e os trens realmente chegavam na hora certa quando o duce mandava na Itália.

Mas, sob o capitalismo agônico da atualidade, a margem de manobra de Trump e Bolsonaro seria necessariamente das mais limitadas: 
— 
o que era possível fazer para dar-lhe sobrevida, já estava sendo feito; 
— ir na direção contrária, com o estúpido antiglobalismo e a volta à barbárie medieval, só agravaria os problemas, ao invés de resolvê-los.

O xis da questão é que a saúde do capitalismo depende de uma expansão econômica contínua, hoje impossibilitada por chocar-se com a tendência (por enquanto irresistível) ao aumento também contínuo da desigualdade social e com a finitude de vários recursos necessários à existência humana.

Ou seja, os ricos demais acumularam poder econômico suficiente para não só resistirem às pressões no sentido de uma divisão menos injusta dos frutos do trabalho humano, como também para continuarem impondo a prioridade do lucro sobre quaisquer outras considerações, inclusive a própria perpetuação da espécie humana (é chocante que até hoje não se tenha sequer começado seriamente a substituir os combustíveis fósseis por energia limpa!).

A terrível depressão econômica que deverá desabar sobre nós na década prestes a iniciar-se e os numerosos indícios de que o aquecimento global se agrava e começará a causar alterações climáticas cada vez mais catastróficas são motivos mais do que suficientes para passarmos a buscar uma saída do inferno que criamos para nós mesmos. Mas, temo que a coisa terá de piorar mais ainda antes de tal ficha cair para a humanidade.

O resultado é continuarmos  patinando sem sair do lugar, a alternar fases:
— em que se tenta criar ambientes econômicos favoráveis ao grande capital, mediante a imposição de sacrifícios de variável intensidade (ainda suportáveis para a classe média, mas que reduzem  enormes contingentes a condições de vida simplesmente subumanas) à grande maioria, enquanto uma ínfima minoria de biliardários se apropria de uma fatia desmesurada do bolo; 
— e outras em que, à beira da explosão social (e para evitá-la), o sistema permite uma pequena recomposição de padrões mais compatíveis com a dignidade do ser humano, quase uma mera pausa para retomada de fôlego.

Estamos na virada da chave do modo chicote para o modo cafuné. Mas, daqui a uma ou duas décadas, uma nova temporada de rigores nos aguarda

E por que, sabendo de tudo isto, sempre  fiz tudo ao meu alcance para evitar (depois abreviar) a duração da onda ultradireitista? Porque sabia que, enquanto persistisse, destruiria um número incomensurável de vidas, seja eliminando-as fisicamente, seja precarizando-as ao extremo. 

Entra Biden e promete colocar todo o peso da nação economicamente mais poderosa do mundo no combate às mudanças climáticas. Talvez seja pouco, mas tínhamos menos do que nada e agora passará a existir uma mínima esperança de retardarmos a contagem regressiva para o apocalypse now...

É óbvio que, para irmos à base dos nossos problemas ao invés de os circundarmos como temos feito até agora, será preciso um formidável esforço no sentido de unir a todos nos esforços para a sobrevivência. 
Será difícil, quase impossível. Temos, contudo, algo melhor para fazer nos anos que nos restam? 

Mais: seremos tão insensíveis a ponto de, por preguiça ou falta de fé, legarmos uma sentença de morte para nossos filhos e/ou netos e/ou bisnetos?

Nunca pensei que um dia invejaria os estadunidenses. No entanto, eles acabam de fazer o que já deveríamos ter feito pelo menos um ano atrás com o Trump de cá (um verdadeiro recordista de crimes de responsabilidade mais do que suficientes para justificar seu afastamento do cargo!). 

Até quando permaneceremos deitados eternamente num berço que nada tem de esplêndido? (por Celso Lungaretti)

5 comentários:

Anônimo disse...

Grande Celso!

O monstro menos monstruoso foi eleito, mas eu olho, por sinal, que mais de setenta milhões votaram no Trampe.
Foi quase empate e, estatisticamente, não há inferências a fazer no sentido positivo, a não ser a que o pensamento trampiano reverbera no coração dos USA. Lá no miolo. Basta ver o mapa da eleição.
E bem claro que ele (o pensamento que representa) continuará influenciando as diretrizes do governo estadunidense.
De resto, o mimimi por parte das trampetes está insuportável.
Exatamente igual ao da esquerda...
São todos farinha do mesmo saco.
***
Ah! As perguntas retóricas!
O mundo jaz nas falácias e na retórica.


Tendo mais passado que futuro, entrego-me à veleidade de responder perguntas retóricas...

"Será difícil, quase impossível. Temos, contudo, algo melhor para fazer nos anos que nos restam?

Sim, claro! Nós, os velhinhos, devemos aproveitar tudo de bom que conseguimos e nos preparar para aquele compromisso que não podemos evitar: o dia da nossa morte.

"Mais: seremos tão insensíveis a ponto de, por preguiça ou falta de fé, legarmos uma sentença de morte para nossos filhos e/ou netos e/ou bisnetos?

Sim.
Desde que nascem esse é o único legado firme e certo que deixamos para nossos descendentes, e que nossos acendentes nos deixaram: uma sentença de morte (e com menos sofrimentos do que tivemos no interstício entre nascer e morrer, diga-se).

Vocẽ lutou até o extremo por um mundo melhor, mesmo com todas as limitações que teve (imagine aparelhos celulares nas mãos de seu grupo? Ninguém lhes pegaria!).
Ficou com cictrizes.
É sujeito que, vez por outra, num átimo, cenas dolorosas aflorem da sua memória... mas você deu de si, altruisticamente, e pagou o preço de sair do egoísmo para pensar um pouco nos demais e na humanidade.
Além do que, até o momento, persevera no bom combate com as possibilidades de que dispõe.

Ocorre que os nossos filhos, netos e bisnetos tem, hoje, uma qualidade de vida e oportunidades de crescimento que nós nem sequer sonhávamos quando eramos jovens.
Não vejo por que acharmos que temos (ou tivemos) algum tipo de preguiça ou falta de fé.
O que não dá para deixar de ver é a preguiça e má-fé por parte de quase a totalidade dos jovens.
Comodismo, narcisismo e todos os tipos de vícios estão potencializados, assim como também todas as possibilidades de virtude.
A decisão, a luta e os resultados pertencem a eles.
***
SF

celsolungaretti disse...

SF,

depois de passar o ano de 2019 em situação financeira extremamente precária, torcendo para que os equipamentos que eu possuía, todos no bico do corvo, não chegassem ao fim da linha, pude este ano dar a volta por cima e atualizá-los. Que alívio!

Ontem fiquei sem computador, enquanto o técnico preparava o novo para uso. Hoje voltei ao ar, mas cheio de pendências, então vou ter de responder rapidamente seu comentário e em seguida sair para resolver vários problemas.

O importante era agora, não o mapa da eleição ou o que virá depois. Como cansa de dizer o Dalton, alternaremos fases de rigores que lembram até o capitalismo selvagem com fases de afrouxamento dos parafusos para evitar a explosão social, até dermos a única solução possível à agonia do capitalismo: sua superação.

Infelizmente, a massa, mesmerizada pela sociedade de consumo e pelos meios de comunicação, segue a onda. Daí eu ter colocado que a mudança depende de pioras que façam a ficha finalmente cair para para os eternos manipulados: ou nos unimos para sobreviver ou morreremos juntamente com o capitalismo.

E, como o agravamento dos fatores causadores das alterações climáticas leva tempo para se traduzir em catástrofes, temos, sim, uma responsabilidade para com os que virão depois: se deixarmos o barco correr, é capaz de a situação já ter chegado a um ponto de não-retorno quando eles perceberem toda a extensão das ameaças que se avolumam dia a dia.

A sentença de morte a que me refiro não é, portanto, a inevitável que paira sobre a cabeça de todos nós, mas a dos óbitos evitáveis (assim como a administração genocida da pandemia maximizou o número de óbitos).

E eu vejo, sim, nos sobreviventes da minha geração uma tendência a darem o dever por cumprido quando verdadeiramente não o fizemos. Eu via muitos poucos da minha idade nas manifestações contra o genocida por meio das quais reconquistamos as ruas.

As duas últimas, dos secundaristas e dos torcedores de futebol na av. Paulista e no largo da Batata foram fundamentais para o Bozo desistir de subjugar o STF e o Congresso, conformando-se em apenas ser mais um presidente fisiológico tentando salvar a própria pele e a dos filhos.

E, se muitos jovens ainda não aprenderam a lutar ou se deram conta da necessidade de lutar, é porque não fizemos direito nosso papel. Então, está muito longe da hora de desfrutarmos do repouso do guerreiro.

Um forte abraço!

william orth disse...

Boa tarde Celso. Hoje o poder da grampo através de celular e internet é imenso. A própria segurança pública não tolhe os celulares em presídios pois sabe que é uma forma de monitorar as organizações criminosas. O colega de cima postou uma inverdade. com relação às torcidas e largo da Batata não surtiram efeito pois havia a covid. Se a Direita não podia se reunir a esquerda também não. Bolsonaro desistiu de peitar o STF pois percebeu que seria mais fácil se juntar ao Centrão. O STF queimou o filme com a libertação de André do RAP. Com um País dividido ao meio como os EUA falar que a onda direitista foi para o ralo é muita inocência. Abraço.

celsolungaretti disse...

William,

a direita estava fazendo manifestações todo domingo em Brasília, sem respeitar quarentena nenhuma, e a esquerda desfibrada não entrava em campo, preferindo perder por WO.

Mas aquelas duas manifestações que os secundaristas e os torcedores fizeram na raça, enquanto o Lula desaconselhava por causa da quarentena, viraram o jogo: na da Paulista os bolsonaristas tiveram de esconder-se atrás dos policiais; e na do Largo da Batata não deram a cara, preferindo juntar uns 50 gatos pingados no Viaduto do Chá.

Foi o fim de uma hegemonia nas ruas que os bolsonaristas vinham mantendo desde a campanha do impeachment da Dilma. E, tenha ou não sido este um dos motivos, o certo é que alguns dias depois o Bolsonaro deu uma guinada de 180º, parou de peitar o STF e o Congresso, exonerou o Moro e se compôs com o Centrão.

De resto, nem o Brasil nem os EUA estão divididos ao meio. O que conta mesmo são os ativistas, não os votantes. Os votantes mudam ao sabor da melhora ou da piora da situação econômica, da manipulação dos meios de comunicação, etc. O Nordeste não era um grande reduto lulista? Agora que ele está sem poder, o que sobrou? O Bolsonaro vai lá e é recebido com flores, não com ovos podres...

Anônimo disse...

Tranquilo William.
Não foi uma inverdade (a popular mentira), tratou-se de uma conjectura - um aposto - a título de exemplo da precariedade dos meios de que dispunham o Celso e seus companheiros quando eles resolveram lutar.
SF

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