segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

NO NOVO GOVERNO, A MÃO INVISÍVEL DO MERCADO EM FIM DE FEIRA DÁ ORDENS DITATORIAIS PARA A POLÍTICA

dalton rosado
A DITADURA DO MERCADO
 SUBJUGA O BRASIL
"Assim, o mercador ou comerciante, movido apenas pelo seu próprio interesse egoísta, é levado por uma mão invisível a promover algo que nunca fez parte
do interesse dele: o bem-estar da
sociedade" (Adam Smith)
A célebre frase de Adam Smith, como de resto toda a sua obra, corresponde à exaltação das virtudes do sistema produtor de mercadorias e do mercado como forma de equilíbrio do valor das ditas mercadorias e de estímulo à maior produção destas e à redução do seus valores, tornando-as acessíveis a uma pretensa aquisição social mais quantitativa e qualitativa. 

Smith toma como base de sua reflexão e conclusão o benefício de um sentimento humano menor, individualista e mesquinho, o egoísmo, como ponto de apoio da promoção do bem social, ainda que involuntário.

Admite equivocadamente a possibilidade de que a negatividade social de um desvalor moral abjeto como o egoísmo possa ser socialmente benéfico, tudo com o objetivo teleológico de exaltar os valores econômicos pretensamente virtuosos, sem aperceber-se de que esses conceitos e valores se situam no mesmo campo de similaridades repulsivas. 

É considerado como o pai da liberalismo econômico e da teoria do laissez-faire segundo a qual o Estado deve se restringir:
— às questões administrativas do que seja público; 
— às funções legislativa e judiciária; 
— à defesa militar; e
— à regulamentação e controle monetário, sem imiscuir-se nas questões de mercado que seriam auto-reguladas por sua própria natureza seletiva. 

O festejado economista clássico não se apercebeu de que é justamente por se tratar de uma forma de relação social opressora que o capitalismo precisa da proteção do Estado e seus cânones igualmente opressores.

Nascido na Escócia, Smith foi reitor da Universidade de Glasgow, alcançando a notoriedade, contudo, na Inglaterra, onde seus ensinamento formulados no século 18 serviram de base para a primeira revolução industrial (que viria no século seguinte). Ademais, eles até hoje servem de base para políticas econômicas como a adotada pelo ministro Paulo Guedes no Brasil. 

Diferentemente, contudo, de tais discípulos retrôs, Smith exaltava os benefícios do desenvolvimento proporcionado pelo sistema produtor de mercadorias mas não negava a existência de um contraponto: 
"Onde há grande propriedade, há grande desigualdade. Para um muito rico há, no mínimo, quinhentos pobres, e a riqueza de poucos presume a indigência de muitos".
O pensamento de Adam Smith é incompleto, mas fundamentalmente contraditório, senão conscientemente oportunista. 

Incompleto porque não explicou cientificamente como se acumula a riqueza e sua natureza concentradora, segregacionista.
Contraditório porque, ao mesmo tempo em que ele afirma que o egoísmo impulsiona o bem-estar coletivo pelo estímulo à produção de bens servíveis ao consumo humano e ao aumento da riqueza fundada no valor, ele reconhece que tal riqueza econômica acarreta na mesma proporção, e de modo inverso, a criação da pobreza social e coletiva.

Mas, nem este reconhecimento fê-lo optar pela crítica da economia política como forma de relação social. Por quê?

Certamente Smith era sabedor dos benefícios que adviriam para a Grã-Bretanha como emergente produtora de mercadorias manufaturadas por meio desse processo que lhe interessava, podendo ser este o motivo de haver calado sobre os seus malefícios sociais e auto-destrutibilidade a longo prazo. 

Coube a Karl Marx, um século depois, desvendar tal mistério ao explicar que essa proporção inversa entre riqueza de uns e pobreza da maioria reside exatamente no fato de que o capital produtor de mercadorias se apropriava cumulativamente de parte do valor produzido nas jornadas diárias de trabalho assalariado de todos os trabalhadores (daí ser trabalho abstrato, porque simultaneamente produtor de valor e remunerado por valor, uma abstração).

Estava explicado o fenômeno da extração de mais-valia como forma de dar sustentação a uma abstração numérica, o valor, mas que se torna real, materializada numa mercadoria e socialmente acreditada como válida, mas vazia de conteúdo concreto virtuoso, e que somente sobrevive pela dinâmica de autovalorização contínua e concentrada, mas que tem data marcada para a própria destruição graças às suas contradições internas inconciliáveis.   

A principal contradição consiste na necessidade de acumulação crescente do capital tendente ao infinito, enquanto a capacidade de aquisição de mercadorias e, consequentemente, de sua produção, tem limite mercadológico (que é ainda mais reduzido pelo uso da tecnologia aplicada à produção de mercadorias).

Assim, o capital cresce na exata e necessária proporção da acumulação de milhões de tempos de trabalhos abstratos não remunerados, coagulados nas mercadorias. Toda riqueza abstrata, personificada nas mercadorias, é um grande somatório do roubo de tempo de trabalho (valor) nelas coagulado. 

Tudo passou, então, a ser mercadoria; e o mercado, o grande templo dessa relação social destrutiva da vida social e autodestrutiva da própria forma e conteúdo no longo prazo.      

Mas, como diz o sábio adágio popular, não há mal que dure para sempre: a negatividade contida no egoísmo de uma relação social injusta desde o seu nascimento, fundada numa contradição matemática que infelicita a maior parte da humanidade, não pode sobreviver indefinidamente.   

Assim, as pretensas virtudes do mercado exaltadas pelo ministro Guedes como fator de redenção da humanidade, corresponde a uma ditadura de mercado e se constitui como o grande altar do sacrifício social da maioria da população.
O projeto liberal brasileiro, recém-instalado sob a batuta de Paulo Guedes (cujo conteúdo complexo o próprio Boçalnaro, o ignaro, desconhece), tem divergências internas profundas com boa parte da diversidade de pensamentos políticos e corporativos oportunistas e conflitantes que compõem o novo governo, estando, portanto, fadado ao fracasso e à impopularidade de médio prazo graças à previsível intensificação da penúria popular.

Estão sendo tomadas medidas como: 
 a redução dos direitos trabalhistas e previdenciários; 
 a intensificação do combate à corrupção com o dinheiro público (bandeira estatal, capitalista, que não incide sobre a corrupção original: a do capital, que subtrai e se apropria do valor socialmente produzido); e
 a elaboração de leis com maior rigor penal (sem analisar a catastrófica situação carcerária do Brasil, que é o país de maior percentagem mundial do número de presos por população e de outros tantos condenados e foragidos).  

Tudo é muito socialmente inconsistente, resumindo-se a um pacote de medidas econômico-sociais que visam à salvação da falência do estado protetor do capital e à intimidação pela força para prevenir possíveis atos de rebeldias sociais quando evidenciar-se para o povo o que realmente significa a ditadura do mercado. 

Tais medidas são autoritárias, conservadoras (além de inócuas), inerentes e imanentes ao liberalismo mundialmente fracassado; propõem a intensificação da penúria a pretexto de combaterem a penúria.

Ao invés de se superar o modo de produção de mercadorias que já não encontra solução na ditadura do mercado, prefere-se estabelecer regras liberais de competitividade de mercado que consistem na redução de custos de produção que representam a imposição pela força da penúria social (com o apoio da mídia de comunicação mercadológica e da subserviência política ao capital).

A verdade é uma só: a ditadura do mercado se constitui na grande condottiere da vida social e dá ordens à política, que lhe é submissa. Todos os preceitos doutrinários que o ministro Guedes vem defendendo e submetendo à apreciação legislativa e governamental nada mais são que uma completa capitulação às regras de mercado.

Como a produção de mercadorias encontra no mercado o seu ponto de informação sobre a capacidade produtiva do capital (custos de produção, qualidade e quantidade a ser produzida) e nesse ponto (e somente neste) se traduz como a expressão da verdade, e justamente aí que se opera a sinalização sobre o que fazer politicamente, ainda que isso intensifique a miséria social.

Se a produção de mercadorias não pode efetivar-se por causa dos direitos trabalhistas ou alto custo salarial, o capital migra para locais onde tal problema possa ser removido. É por isto que se retiram direitos trabalhistas no Brasil para reduzir custos de produção de mercadorias e fazer face à concorrencial mundial de mercado.
Ressalte-se que nessa questão a esquerda e o sindicalismo trabalhista se equivocam, pois a questão primordial não é a defesa da melhora ou conservação dos direitos trabalhistas, mas a superação do próprio trabalho produtor de valor que alimenta o capitalismo.

Se o Estado tem déficit na previdência social pública, que se retirem direitos previdenciários para se poder pagar os juros da dívida pública (que para o Brasil são especialmente altos).

Se o crime aumenta em razão do desemprego estrutural, que se criem leis mais severas, trabalhos forçados, prisões em massa (e que até mesmo se tolerem as mortes por milícias), afora outros mecanismos para conter a insatisfação popular.

Isso tudo num país que já não suporta o alto custo financeiro do volume de presos encarcerados e muito menos teria como fazer frente à prisão das centenas de milhares condenados que permanecem soltos por incapacidade do Estado de os capturar.       

A mão invisível do mercado em fim de feira dá ordens ditatoriais para a política. 

A atual onda de introdução de novos procedimentos jurídico-processuais nas áreas dos costumes e da economia, defendidas pelo governo recém-eleito e pelo segmento político-parlamentar que está na base do seu apoio fisiológico ou ideológico, representam o velho e arcaico conservadorismo de antanho, que nos conduzirá a um retrocesso civilizatório e não, jamais, a um avanço promissor para o futuro! (por Dalton Rosado) 

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