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terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

COMBATES À MISOGINIA E AO RACISMO INTEGRAM A LUTA CONTRA O CAPITALISMO–2

(continuação deste post)
N
ão estamos aqui incensando o ódio entre raças mas justamente o contrário, denunciando o ódio racial como uma contribuição para que tanto ele quanto sua coexistência dissimulada sejam suprimidos.  

O racismo estrutural brasileiro tem origem no período colonial. Os brancos europeus que para cá vieram no final dessa etapa (e até em passado mais recente, quando seu destino foi principalmente o sul do país) são tratados com alguma aceitação social, ainda que o capitalismo os explore e segregue na maioria dos casos.  

Entretanto, os negros e índios, bem como os caboclos nordestinos, encontram dificuldades bem maiores para furar o bloqueio da exclusão étnica elitista existente no Brasil. 

O negro que consegue ficar rico (o capitalismo permite que alguns poucos consigam amealhar capital), mesmo morando num ambiente de brancos e sendo dono dos bens que o dinheiro consegue comprar, é recebido com restrições nos ambientes frequentados pela elite branca, ainda que sejam cantores ou futebolistas famosos. Pior ainda se ele pretender paquerar alguma moça branca e rica. 

O Brasil tem a justa fama de promover um ambiente de concórdia e civilidade entre etnias que nos seus países de origem têm conflitos raciais. 

Árabes e judeus, eslavos e celtas, japoneses e chineses, indianos e ingleses,; armênios e turcos, ucranianos e russos, etc., convivem sem as feridas ancestrais, diferenças e restrições étnicas que subsistem em seus locais de origem; esta é uma miscigenação louvável. 

Mas, como disse, com razão, Roswitha Scholz, o capitalismo é ocidental, branco e masculino e, portanto, patriarcal.   
Apesar de ser impessoal, pois o dinheiro consegue comprar todos tipos de mercadorias e quem o possui se torna proprietário de bens independentemente da cor da pele ou da origem étnica, o capitalismo tem, também, uma característica patriarcal predominante, e é neste sentido que as mulheres, p. ex., são discriminadas.  

A aspiração das mulheres à igualdade de tratamento social é bandeira louvável do movimento feminista; entretanto, o homo economicus ao qual elas desejam equiparar-se é um ser subjugado pelo capital, explorado e segregado. Noves fora, valerá a pena sair de uma discriminação social e cair noutra?

As lutas contra o racismo e a misoginia devem incluir, indissociavelmente, a luta contra o capitalismo (e não a sua humanização, como querem segmentos equivocados da esquerda institucional) porque as primeiras têm como essência constitutiva a luta pela igualdade social, impossível de acontecer sob o capital, que, de tão autocêntrico, submete todos à  sua autofagia e ilogia segregacionista e destrutiva. 

Os movimentos sociais antifascistas, antirracistas, feministas e sindicais precisam ser norteados pelo pensamento humanista: suas batalhas setorizadas só vão ser consequentes e capazes de garantir conquistas definitivas se tiverem como leitmotiv fundamental a grande guerra a ser por todos eles enfrentada: a da superação do capitalismo como modo de mediação social estabelecido.

Assim é que:
— os emancipacionistas (e todos os genuínos antifascistas) devem denunciar a farsa da democracia capitalista; 
— os defensores da miscigenação e convívio fraterno entre as raças devem denunciar o racismo elitista do capital; 
— as feministas devem defender a igualdade de gênero e denunciar o patriarcado capitalista; e
— os sindicatos devem defender o fim da categoria capitalista trabalho abstrato (cellula mater do capital) e o fim dos partidos trabalhistas.    

Todas as lutas dos movimentos sociais cujas reivindicações estiverem atreladas à imanência capitalista não passam de paliativos; precisam ser norteadas por um princípio redentor emancipacionista que negue em definitivo o capital. 

Um escravo da senzala ao qual o amo permitisse batucar seus jongos no pátio, sem questionamento do escravismo em si, continuaria sendo apenas e tão-somente um escravo.

Liberdade e igualdade se conquistam. Para tanto, faz-se necessário remover o móvel moderno da existência de uma opressão social cada vez maior: o capital. (por Dalton Rosado) 

domingo, 19 de novembro de 2017

NÃO CABE À MULHER REIVINDICAR DIREITOS DO MACHO, SUBSTITUINDO-O NO ODIOSO EXERCÍCIO DE UMA DOMINAÇÃO NEGATIVA!

O EQUÍVOCO DO MOVIMENTO FEMINISTA

"O valor é masculino, branco e ocidental"
(Roswitha Scholzpublicista alemã)
O movimento feminista teve e tem como bandeira referencial de sua luta o combate à discriminação da mulher pelo homem, como se esta questão estivesse preponderantemente circunscrita apenas a uma postura machista patriarcal consciente (que, contudo, existe).

Tal movimento está inserido na imanência capitalista, assim como todos os demais movimentos reivindicadores de direitos dentro da modernização capitalista. E passou a reivindicar historicamente as pretensas vantagens do macho (dizemos pretensas por se situarem existencialmente no invólucro segregacionista da forma-valor, estando, portanto, por ele contaminadas e depauperadas) como pretenso modo de obtenção de sua emancipação.    

A luta feminista se traduziu (e se traduz, até aqui) em maiores oportunidades de emprego para mulheres na atividade produtora de mercadorias; salário igual para o mesmo tipo de trabalho; participação em igualdade de condições na esfera política; combate à violência contra si; enfim, igualdade de tratamento conferido aos homens, estes últimos também vítimas da segregação social que a todos atinge, ainda que de modo heterogêneo. 

Tal foco reivindicatório, por mais legítimo que pareça ser, carece de consistência emancipatória, limitando-se à mendicância de direitos dos servos do trabalho abstrato (homens e mulheres produtores de valor) aos senhores do capital, ratificando o dito cujo ao invés de negá-lo. Assim, ainda que parte das reivindicações seja justa, elas não têm nada de consistente e definitivamente emancipatórias.

Este enfoque imanente à forma-valor torna inevitável uma disputa nefasta por hegemonia entre homens e mulheres. O capital mantém os indivíduos sociais em permanente oposição (ora explícita, ora dissimulada) aos outros indivíduos sociais, dividindo-os para reinar sobre todos eles. Isto se dá tanto no mercado de trabalho quanto na vida social e privada, como se fossem indivíduos ontologicamente antagônicos e destinados ao eterno conflito de interesses.

Foi graças à solidariedade grupal e ao sentimento gregário que nossos ancestrais longínquos sobreviveram a animais maiores e mais fortes do que eles, garantindo a sobrevivência da espécie. A socialização pela forma-valor representa uma violência à natureza humana e gera distorções como o pretenso e fratricida antagonismo homem/mulher. 

Ao patriarcado assumido das sociedades pré-capitalistas sucedeu o patriarcado velado do moderno sistema produtor de mercadorias em esferas separadas, em que ao homem foi reservado o papel de reprodução do valor por meio do trabalho abstrato, sua substância; e à mulher, as tarefas de reprodução da força de trabalho pela afetividade, maternidade, gerenciamento das tarefas domésticas, etc. 

Tal lógica faz com que o papel do homem prepondere sobre o da mulher, pois ao sistema produtor de mercadoria interessa sobretudo a reprodução do valor e não da vida, da qual faz uso oportunista e descartável (como ocorre agora com o ser humano, que, por haver-se tornado supérfluo na reprodução do valor, já que a tecnologia de produção microeletrônica o substitui com vantagem, está sendo condenado à morte). 
A negatividade contida na relação social forma-valor, sujeito autômato das sociedades mercantis, transforma tanto os homens como as mulheres em seus vassalos submissos, que apenas servem à realização do seu vazio fim em si. 

Agora o sistema produtor de mercadorias, como consequência de suas contradições internas, está no limite de sua capacidade auto-reprodutiva; isto aguça a crise da dissociação de gênero por ele mesmo provocada. 

Mais do que nunca os movimentos sociais, inclusive o feminista, devem pugnar pela superação da forma-valor, desobstruindo o caminho para o estabelecimento de uma relação vital, complementar e solidária entre homens e mulheres.   

O MUNDO DO MACHO ACABOU!

A moderna sociedade patriarcal produtora de mercadorias, enquanto modo fetichista de relação social, entrou em disfunção existencial e já não consegue ser nem precariamente eficaz como era no passado. 
Outrora, logrou desenvolver-se e manter-se dominante graças à violência (guerras, repressão militar); à exclusão social (ilhas de prosperidade e oceanos de miséria); e à segregação da mulher, à qual foi reservado um papel socialmente secundarizado e sub-repticiamente sacralizado de reprodução da vida como rainha do lar

Naquele contexto, o movimento feminista, juntamente com tantos outros movimentos de esquerda, sem o saber, sem o querer (ou, em alguns casos, conscientemente), reafirmou a forma-valor no seu invólucro do capital, seja no formato político liberal (democracias burguesas), seja no estatal (socialismo real). 

Agora, o mundo do valor (do macho) entra em acelerado e profundo processo de disfunção social, face à sua dessubstancialização pelo desuso substancial do trabalho abstrato na produção de mercadorias. 

Trata-se de um fato social que gera incapacidade reprodutiva de valor e tem, como uma de suas consequências, a de tornar evidente a falta de sentido contestatório das reivindicações de direitos imanentes a tal lógica destrutiva. 

Ditas reivindicações, por seu atendimento haver se tornado impossível graças à crise do capital (que, no mundo inteiro, cancela os direitos outrora concedidos), podem e devem ser feitas no sentido da afirmação da necessidade de ruptura com as categorias capitalistas fundantes: trabalho abstrato, dinheiro, mercadoria, mercado, estado, política, socialismo, democracia. Só assim, sob outra forma de relação social, poderão doravante ser atendidas. 

Faz-se necessária, neste sentido, um claro discernimento do que deve ser feito para a superação do eterno antagonismo homem/mulher (como, de resto, os remanescentes entre todos os indivíduos sociais  que foram tornados adversários entre si) engendrado pelo sistema produtor de mercadorias e suas categorias funcionais e institucionais. 

Além das acima referidas, são reivindicações históricas do movimento feminista:
Angela Davis: mulheres deveriam combater também o capitalismo

— o direito ao voto; 
— maior espeço na política; 
— espaço de ascensão funcional na vida pública e privada; 
— salário igual para idênticas tarefas profissionais; 
— reconhecimento dos direitos patrimoniais no casamento; 
— igualdade de tratamento no direito civil, etc.

Estas e outras reivindicações imanentes à lógica do valor evidenciam agora, com maior nitidez, seu anacronismo enquanto bandeiras contestatórias (que outrora foram, em boa parte, justas) e se tornam obsoletas juntamente com aquilo que lhe é subjacente: a sociedade do valor!           
A sociedade do valor, que é a sociedade do macho por excelência, sucumbe atualmente pelos seus próprios fundamentos contraditórios, e com ela sucumbe, também, o mundo do macho. 

Assim, já não cabe à mulher reivindicar direitos do macho e  reproduzir a sua dominação negativa substituindo-o nesse odioso papel, mas negar o próprio poder social de um gênero sobre o outro, superando radicalmente todos os construtos sociais do capital por uma nova forma de relação social, omnidimensional

Por Dalton Rosado
Neste deprimente período de avanço do pensamento conservador, uma suicida e ditatorial fuga pra frente, cabe ao movimento feminista, como aos demais movimentos sociais, tomar as praças e ruas com suas bandeiras emancipacionistas, que devem consistir na negação de todos os construtos do capital.

Diante da perspectiva do medo, não se deve ter medo de nada!

quinta-feira, 2 de março de 2017

A TENEBROSA NUVEM DE MORTE NO OCASO DEFINITIVO DA GENOCIDA CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL CAPITALISTA

"Vocês preparam os gatilhos 
para os outros atirarem. 
Então vocês se afastam e assistem 
a contagem dos mortos aumentar"
(Bob Dylan em Masters of war)
.
O valor é ocidental, branco e masculino (Roswitha Scholz). Constitui-se numa forma de relação social que tem como objeto teleológico o vazio fim em si mesmo da acumulação de dinheiro e mercadorias; e como resultante inevitável, a segregação social. 

É evidente que tal conceito de relação social não pode terminar bem, tanto que estamos a vivenciar uma aguda decomposição sócio-ambiental.

Nada foi mais oportuno para o desenvolvimento de uma civilização escravista e segregacionista do que a descoberta e desenvolvimento da escravização indireta pelo salário (trabalho abstrato), mais apropriada à hipócrita razão iluminista que deu suporte filosófico à lógica mercantil capitalista em substituição à truculenta escravização direta dos devedores inadimplentes, dos derrotados nas guerras, dos negros e dos índios.

Foi com a escravização direta e indireta, que portugueses, espanhóis, ingleses, irlandeses, franceses e holandeses chegaram às Américas, à Ásia, à Oceania, e à África para colonizar os autóctones segundo os seus conceitos civilizatórios.

Tal sentimento de superioridade xenófobo, que considerava as raças inferiores como semi-humanas, deu suporte ideológico e psicológico para:
– o quase extermínio dos peles-vermelhas e a escravização negra nos Estados Unidos por parte de ingleses e irlandeses;  
– a carnificina indígena e escravização negra da América espanhola e portuguesa, com a apropriação do ouro e da prata; 
– o abuso sexual disfarçado por uma poligamia hipocritamente consentida;  
– a guerra dos bôeres na África do Sul, entre holandeses e ingleses pela imposição do apartheid;  
– o domínio inglês na Índia e demais países asiáticos;  
– a exclusão dos aborígenes australianos.
Tais exemplos históricos (há outros) são os marcos de uma civilização que nega o mais elementar conceito humanista de civilidade.

Na sequência da colonização veio o início do desenvolvimento da era capitalista, quando o mercantilismo transcontinental fez o fausto europeu e estadunidense com as revoluções industriais. 
Tudo se fabricou, vendeu-se, comprou-se (matérias primas) e financiou-se para o chamado 3º mundo segundo a lógica do lucro e da usura. Na era industrial se impôs o êxodo rural e com ele a formação dos guetos.

Mas, das contradições inerentes à dinâmica funcional capitalista recém-instalada decorreram crises cíclicas e a 1ª e 2ª guerras mundiais, com o genocídio de 70 milhões de pessoas.
.
ARMAMENTISMO À VISTA?

Agora, presenciamos o deslocamento da produção para países populosos e subdesenvolvidos, em busca de mão-de-obra barata com o uso da tecnologia; trata-se de um novo ciclo mercantil. 

Tal fenômeno, que representa o último suspiro do capitalismo moribundo, provoca a exclusão crescente de grandes contingentes humanos do processo de produção e da vida social. 

É por causa deste impasse de natureza congênita que um governante míope como Donald Trump, com sua mentalidade microeconômico, está querendo que a galinha volte para dentro do ovo. 

O impasse assume proporções gigantescas e o fenômeno da debacle capitalista (como consequência de suas contradições internas inconciliáveis sob sua própria lógica) está provocando turbulências tão graves quanto perigosas. 

Quando vemos um Trump solicitar o aumento em 10% do orçamento militar estadunidense (que já é o maior do mundo), nós temos motivos para supor que, ao invés de caminharmos para uma cultura de paz, marchamos para a intensificação da cultura de guerra. 

É que bilionários como o recém-empossado presidente dos Estados Unidos não conseguem raciocinar de outra forma senão objetivando preservar os conceitos e valores capitalistas; e, para defenderem tais pressupostos conceituais de vida social e interesses privados, não hesitam em fazer o uso da força. É aí que reside o perigo, face ao poderio bélico hoje existente. 

Para eles não existe alternativa de modelo social senão aquele que lhes oferece poder; então, o defunto tem de caber no caixão, independentemente do seu tamanho.

Governar hoje, em qualquer lugar do mundo (aí incluídos países que se dizem anticapitalistas, como Cuba, Coréia do Norte ou Venezuela), significa administrar o poder político do Estado dentro do interesse da lógica capitalista mundial. E como dita lógica entrou no seu estágio de autofalência, os governantes experimentam rejeições e impopularidades crescentes mundo afora, quaisquer que sejam as suas orientações políticas. 

Trata-se do interminável pêndulo da ineficácia, no qual os governantes se alternam no poder sem sair do lugar, com o povo padecendo as consequências de um modelo que clama por superação. 

É neste sentido que considero um erro grave de quem se proclama anticapitalista querer assumir o controle político do Estado, ao invés de negá-lo. 

Constituíram-se num equívoco as manifestações públicas generalizadas durante o carnaval na linha do Fora Temer!. Não porque o Presidente Temerário mereça continuar no governo com suas falaciosas afirmações de recuperação da economia (no que é ajudado pela grande mídia), mas porque colocar outro no lugar significaria apenas mais do mesmo. A palavra de ordem mais apropriada e consequente seria Fora tudo, fora todos!

Ou será que podemos encarar esse interminável pesadelo de massacres e segregação social como uma verdadeira civilização, considerando que tudo se resume à qualidade e compromisso dos governantes eleitos? 

Até quando fingiremos não perceber que tais governantes, longe de terem autonomia na tomada de decisões, são eles próprios governados por uma lógica abstrata decadente? (por Dalton Rosado)
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