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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

QUEM NASCEU PARA BOB ZIMMERMAN NUNCA CHEGA A DYLAN THOMAS

O poeta galês Dylan Thomas, inconformado com a aceitação do Prêmio Nobel de Literatura por parte de Bob Dylan, mandou-lhe este recado do além: 
"Sr. Zimmerman, peço-lhe que pare de fazer alusão a mim no seu nome artístico, pois o que tal homenagem agora me causa é constrangimento. Nunca escrevi para deslumbrar acadêmicos. 
Lembro-me de uma canção do início de sua carreira, em que dois versos me chamaram a atenção: 'Quantas orelhas um homem precisará ter / para que ele possa ouvir o povo chorando?'.
Tive, naquele momento, esperança de que viesse a ser um artista de verdade. Infelizmente, o povo hoje chora como nunca, mas o sr. nem tenta mais escutá-lo. Agora seu lado é o dos jubilosos paparicados pelo sistema, aqueles para quem a vida é sempre uma festa.
O desgosto que sua tibieza me causou foi tamanho que, se eu já não estivesse morto, beberia outras 18 doses de uísque!"
 Falou e disse.
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            Por que o agraciaram, afinal? Por não compor mais canções como esta?

sábado, 22 de outubro de 2016

LEONARDO PADURA INDAGA: PRÊMIO NOBEL PARA BOB DYLAN FOI ESNOBISMO NÓRDICO OU INJUSTIÇA ARTÍSTICA?

"Vi com surpresa como se concedeu a recompensa literária que se supõe ser a mais importante do mundo a um escritor de letras de canções. Um dos maiores e mais influentes. Um poeta da canção. Claro, o grande Bob Dylan.

O Prêmio Nobel de Literatura. Esnobismo nórdico ou injustiça artística? Não sei, mas acho que não teria ocorrido a ninguém entregar um Prêmio Grammy a um poeta, um romancista ou um dramaturgo, graças à musicalidade de seus textos. 
Galhofa do site R7

Alejo Carpentier e Carlos Fuentes morreram sem o Nobel de Literatura. Milan Kundera e Philip Roth esperam pelos deles... 

Mais do que nunca, a resposta da Academia Sueca está boiando no ar." (Leonardo Padura, escritor cubano, autor do livro O homem que amava os cachorros)

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O MELHOR QUE BOB DYLAN TEM A FAZER É NÃO COONESTAR A FARSA DO NOBEL

Considero geniais algumas letras de canções de Bob Dylan (Forever young, Hurricane, I shall be released, Knockin' on heaven's doorLike a rolling stone), mas não chegam nem perto das obras-primas da poesia ela mesma, como À espera dos bárbaros (Konstantinos Kaváfis), Balada (Mário Faustino), Guantanamera (Jose Marti), Os homens ocos (T. S. Eliot)  e Romance sonâmbulo (Garcia Lorca).

Considero que, se fosse para igualarmos letristas de rock a poetas, Jim Morrison, Leonard Cohen e Paul Simon mereceriam ter sido premiados antes dele

Considero ridículas as justificativas fajutas para outorgar-lhe o Nobel de Literatura. O motivo verdadeiro: obter espaço na mídia para um prêmio que só a poucos e chatos continuava interessando. Ou seja, tudo não passou de um lance de marketing.

Mas, se Dylan continuar ignorando olimpicamente a premiação e batendo com o telefone na cara dos espertinhos da Academia Sueca que tentam arrastá-lo para o oba-oba, aí sim fará por merecer o respeito dos melhores seres humanos. 

E será meu candidato para o Prêmio Muhammad Ali de Coerência Ideológica, juntamente com:  
  • Tommie Smith e John Carlos, os atletas negros dos EUA que ergueram os punhos para o alto, fazendo a saudação do Poder Negro no pódio da Olimpíada de 1968; 
  • Marlon Brando, que não só recusou o Oscar por O poderoso chefão, como enviou à festa, para representá-lo, uma ativista da causa indígena; 
  • George C. Scott, que preferiu ficar em casa assistindo a uma partida de hóquei do que ir buscar seu Oscar por Patton, rebelde ou herói?
  • e o futebolista alemão Wilhelm Simetsreiter, que não deu a mínima para a presença de Adolf Hitler no vestiário antes da partida contra a Noruega nas Olimpíadas de Munique, ficando um tempão a amarrar suas chuteiras, enquanto os colegas, atônitos, administravam como podiam a saia justa.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

NOBEL PARA DYLAN? FOI SÓ UMA "ADMINISTRAÇÃO JUDICIOSA DA MARCA"...

O pitaco do editor
Grande desafio para um jornalista é escrever sob pressão, quando a edição está fechando e todos esperam que, de um jeito ou de outro, ele produza qualquer coisa aceitável para preencher um dos últimos espaços ainda abertos na diagramação.

Da primeira vez que me atiraram tal responsabilidade nas costas, novato, projetei mal o esqueleto da notícia e o editor, percebendo que o prazo inevitavelmente estouraria, passou a incumbência a um colega mais experiente. Fiquei arrasado, levei uns 10 minutos para conseguir me levantar e ir embora. Como o corvo de Poe, só conseguia pensar em duas palavras: nunca mais!

Dito e feito. No resto da minha longa carreira, sempre consegui me virar nessas ocasiões. Atuando como administrador de crises, p. ex., fui o autor da nota com que o WTC de São Paulo fixou sua posição sobre o ataque às torres gêmeas, escrevendo umas 50 linhas irrepreensíveis em apenas 20 minutos, enquanto toda a diretoria da instituição esperava na sala ao lado para dar seu OK. A nota, aprovada sem ressalvas, foi reproduzida na imprensa escrita ou citada na eletrônica pelo menos um milhar de vezes.

Virou hábito. Durante o Caso Battisti, p. ex., era sempre eu quem respondia em primeiro lugar a cada situação ou evolução importante, expedindo artigos para Deus e todo mundo em, no máximo, duas horas. Assim, a posição e o enfoque do comitê de solidariedade saíam na frente e influenciavam o de muitos articulistas da blogosfera, conforme desejado.

Passei a preferir um texto escrito no calor dos acontecimentos, mal a notícia chega, do que um elaborado no dia seguinte, depois de muita reflexão e de ler o que os colegas da grande mídia escreveram, aqui e no exterior. Pode ser um pouco de soberba, mas me sinto mais jornalista atuando nas mesmas condições dos que estão na ativa. 

Minha carreira profissional terminou cedo demais, por preconceitos relativos tanto a idade quanto (principalmente) a posições politico-ideológicas, e isto é duro para qualquer um engolir. Nem que seja apenas para mim mesmo, sinto-me bem demonstrando que, 14 anos depois que me fizeram pendurar as chuteiras, ainda poderia estar jogando na divisão principal. 

Foi com este espírito que redigi, nesta 5ª feira (13), o post Bob Dylan é Prêmio Nobel de Literatura. Que tal também o Messi, pela poesia dos seus gols?. Entrou no ar às 11 da matina, menos de uma hora depois de o UOL ter mancheteado o fato.

Está longe de ter sido o melhor que criei de bate-pronto, mas não poderia ser de outra maneira: nunca dei muita importância a quem ganha ou deixa de ganhar o Nobel, Oscar, Prêmio Esso de Jornalismo e outros que tais. Então, fiz o texto zombeteiro que acabaria fazendo de qualquer jeito, em uma hora ou dez. Se João Gilberto ensinou o Caetano Veloso a ser desafinado, O Pasquim me ensinou a nunca levar a sério o que não merece ser levado a sério (ou seja, quase tudo no inferno pamonha do capitalismo)...

Lendo a coluna de hoje (14) do Hélio Schwartsman, constatei que o schoolar brilhante foi, basicamente, na mesma direção do que eu. Isto é gratificante, até, por evidenciar que, apesar do sisudo patrulhamento cricri e do massacre dos humoristas do Charlie Hebdo, a irreverência de 1968 está viva.

Leiam e opinem.
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TRADIÇÃO E POPULISMO NO NOBEL
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Por Hélio Schwartsman
O Prêmio Nobel de Literatura foi para um... músico. Conceitualmente, não chega a ser um problema. Homero, o pai da literatura, pode ou não ter existido como pessoa física, mas não há muita dúvida de que o trabalho a ele atribuído fixa a tradição dos aoidoí, os menestréis que cantavam em versos.

Neste caso, porém, o comitê Nobel precisa explicar por que só tomou a decisão de devolver a tradição lírica à literatura agora, com mais de cem anos de atraso.

Outra dificuldade da Academia Sueca será lidar com as incômodas listas de ignorados, que agora ficam potencialmente bem vastas. Com efeito, o rol de escritores esquecidos pela Academia impressiona mais do que muitos dos autores que foram laureados. O primeiro time reúne nomes como Tólstoi, Tchekhov, Zola, Mark Twain, Proust, Rilke, Brecht, Joyce, Borges. O segundo traz gente como Sully Prudhomme, Rudolf Eucken, Verner von Heidenstam, Frans Sillanpää.

A partir de agora, podemos perguntar também por que Dylan e não Leonard Cohen, ou Paul Simon?
Antevisão de como vai sentir-se aceitando o Nobel?

Minha impressão é a de que os comitês que decidem o Nobel, a exemplo do ocorre no mundo inteiro, não resistem a um pouco de populismo. Não é nada muito descarado, mas algo que pode ser descrito como administração judiciosa da marca Nobel.

Qualquer nome que seja escolhido inevitavelmente recebe críticas, que o comitê acaba incorporando. Durante muito tempo, as acusações mais frequentes eram de machismo e eurocentrismo. Não demorou para que aparecessem entre os laureados em literatura mais mulheres e alguns nomes africanos e asiáticos.

Outras vezes, a Academia foi criticada por escolher autores obscuros que escrevem em línguas impenetráveis. Aí, o antídoto é premiar gente como Dylan, que encanta multidões e compõe em inglês. Assim, na média, o comitê acaba acertando.
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quinta-feira, 13 de outubro de 2016

BOB DYLAN É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA. QUE TAL TAMBÉM O MESSI, PELA POESIA DOS SEUS GOLS?

Os velhinhos da Academia Sueca são marqueteiros. Cada vez que o Prêmio Nobel de Literatura está em maré baixa na mídia mundial, agraciam alguém que provocará muitas polêmicas. Desta vez acertaram na mosca: a escolha de Bob Dylan  escandalizará parte da intelligentsia e vai deixar a outra parte com as mãos vermelhas de tanto bater palmas.

A secretária do clube dos pavões engalanados... quer dizer, da Academia Sueca, Sara Danils, elogiou um dos mais esquecíveis álbuns da carreira de Dylan, Blonde on Blonde, como "um extraordinário exemplo da sua forma brilhante de usar as rimas e refrões, e seu jeito brilhante de pensar". Já que não entende do riscado, por que não se calou?

E, para tentar fazer o lance de esperteza comercial parecer algo além disto, comparou Dylan a uns caras um pouquinho mais velhos do que ele, os poetas da Grécia antiga:
"Eles escreveram textos poéticos para ser cantados, e com Dylan é a mesma coisa. Ainda lemos Homero e Safo; e gostamos".
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Que tal da próxima vez premiarem algum dos expoentes da nossa literatura de cordel? Deles também se pode dizer que "escrevem textos poéticos para ser cantados".  E A chegada de Lampião no inferno, do José Pacheco, dá de goleada na obra de muito autor premiado pela torre de marfim sueca.
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[Lembro-me de uma Coleção Nobel que havia na biblioteca circulante do meu bairro. Meio século atrás não se retiravam livros apenas para a feitura de trabalhos escolares, muita gente lia por prazer. Mas, a tal coleção (que tinha uma obra marcante de cada contemplado) estava sempre completinha na estante. Se a abnegada bibliotecária não espanasse, abundariam as teias de aranha. Arrisquei retirar O figurão, de Sinclair Lewis. Mesmo com 15 anos  já percebi quão convencional era. Coloquei aquele canto da prateleira no meu index pessoal...]
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E há ridicularias como Winston Churchill ter recebido um Nobel por suas memórias pessoais e históricas. Aliás, as escolhas mais estapafúrdias têm sido na categoria de não-ficção.
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Dylan é realmente talentoso, mas às vezes exagera no panfletarismo politicamente correto. Se eu tivesse de apontar o maior poeta do rock, cravaria Jim Morrison sem pestanejar, com menção honrosa para o Leonard Cohen.
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Ilustrei este post evocando algumas das melhores letras com que o rock já nos brindou.

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