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quarta-feira, 7 de outubro de 2020

NOSSA CAPACIDADE CEREBRAL RACIONAL AINDA ESTÁ LONGE DE HAVER ATINGIDO O ÁPICE DO SEU POTENCIAL – 1

dalton rosado
SOBRE AS AMENIDADES EM TEMPOS SOMBRIOS
Nós, colabores permanentes do blog, rebelamo-nos contra as mazelas sociais justamente porque não somos obsessivos em relação ao fetichismo da mercadoria e a toda a engrenagem das categorias capitalistas que interagem na sua construção e manutenção escravista. 

Gostamos de futebol, que não é necessariamente o ópio do povo, mas não gostar de futebol também não significa obtusidade; cada um tem o direito de gostar do que lhe dá mais prazer.

Gostamos de música, sem qualquer preconceito quanto ao ritmo, razão pela qual já discorremos em artigo deste blog sobre o tema, ressaltando a origem popular dos ritmos musicais que se consolidaram como vertentes musicais de grande envergadura, após serem rejeitados pelas elites como arte de qualidade inferior, ou sub-arte.

falamos sobre a origem do samba, ritmo originário dos batuques das senzalas que, após a Lei Áurea, quando os escravizados negros foram ocupar os morros onde ninguém queria morar em face das dificuldades de subir neles diariamente e de abastecimento de água (Lata d’água na cabeça/ Lá vai Maria, lá vai Maria/ Sobe o morro e não se cansa/ Pela mão leva a criança/ Lá vai Maria...  uma marchinha de carnaval cantada por Marlene que está na memória do povo), foi aperfeiçoado para depois tornar-se símbolo musical da nossa brasilidade. 
Este é o clássico de Assis Valente, Alegria, sempre 
lembrado pelo estribilho "Salve o prazer, salve o prazer!"
.
Já falamos, também, dos outros ritmos famosos mundo afora que nasceram nos guetos, como o tango argentino, o blues estadunidense, o reggae jamaicano, o hip hop e, agora, o originalíssimo funk brasileiro (que é diferente do funk de James Brown), etc., etc., etc.

Gostamos do carnaval, a grande catarse social na qual, durante alguns dias, uma multidão de pessoas vai para as ruas extravasar toda a opressão a que é submetida (Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí/  Em vez de tomar chá com torradas, ele bebeu Parati/ Levava um canivete no cinto e um pandeiro na mão/ E sorria quando o povo dizia: sossega leão... – música de Assis Valente).

Respeitamos o direito à fé, mas não gostamos quando o fundamentalismo obtuso de uma religiosidade castradora quer privar o povo também do carnaval, essa manifestação catártica legítima. Aliás, contestamos tanto a religiosidade penitente, que ensina a aceitação da opressão e sofrimento como forma de se chegar ao paraíso após a morte, quanto a elegia a uma prosperidade baseada em falsas premissas, e que enriquece charlatães.  
Recriminamos toda manifestação de incentivo à violência a partir do uso das armas, pois as ditas cujas, juntamente com o aumento da criminalidade, impulsionam a generalização da miséria social que facilita a ocorrência de tantos assassinatos de meninos pobres, principalmente se forem pretos e residentes na periferia.

Defendemos a posição de que, ao invés de armarmos o povo com revólveres, fuzis e metralhadoras, fortalecendo assim o faturamento da indústria bélica, devemos armar o povo com livros, computadores (já que agora é fácil se obter informação via internet) e uma educação libertadora na qual escolas e professores sejam prioridades.

Quando criticamos o antagonismo social próprio a uma sociedade estratificada em classes sociais superiores e subalternas, decorrente da dinâmica social subtrativa do capital, é porque acreditamos que as relações humanas podem processar-se num clima de solidariedade contributiva na qual cada ser humano seja o artífice da construção coletiva dos enfretamentos que qualquer modo de relação social pode apresentar.   
Não acreditamos que seja saudável (e não é) vivermos numa sociedade competitiva no sentido mais pejorativo do termo, na qual cada ser humano é um potencial adversário do próprio ser humano.

Quando falamos da possibilidade de um produzir social diferenciado, sem as amarras da produção voltada para o mercado, que exige de poucos uma carga excessiva de trabalho, ao mesmo tempo que nega o mesmo trabalho a uma parcela cada vez maior da população, queremos alertar para a emancipação do trabalho (e não no trabalho).

Quando recriminamos o trabalho abstrato, produtor de valor e de mais-valia, estamos falando de uma utilização integrada do esforço de produção, que, com a ajuda substancial do saber adquirido pela humanidade ao longo de séculos e desenvolvida com mais intensidade nos últimos 150 anos, implicará uma redução do esforço individual na labuta diária e a liberação de tempo para o desfrute do chamado ócio produtivo. (por Dalton Rosado)
(continua neste artigo)

domingo, 10 de maio de 2020

ODE A LITTLE RICHARD (1932-2020)

Quem é o rei do rock’n roll? Little Richard. 

Aliás, ele também é considerado como rainha do rock, graças à sua androgenial performance.

Ao Elvis Presley, com sua capacidade interpretativa, mise en scene em palco e excelência instrumental, devemos fazer reverências, mas não se pode retirar de Little Richard esse título. Tanto que o próprio Elvis o apontava como the best. Tinha razão.

Richard Wayne Penniman nasceu em 5 de dezembro de 1932, em Macon, Georgia, no seio de uma família evangélica. Frequentando a igreja, foi nela que aprendeu a tocar saxofone e piano.

A sua condição de gay não era bem aceita pelo conservadorismo religioso familiar, o que lhe acarretou rejeição, empurrando-o para a convivência com o mundo da música considerada profana, notadamente o ritmo eletrificado de matriz africana conhecido como rhythm'n blues.

Transitou do blues gospel (religioso) de sua pre-adolescência para o boogie-woogie, funk e jump blues, até se projetar com o ritmo alucinante do rock’n roll: "Tutti Frutti", composição de sua autoria que gravou em 1955, fez estrondoso sucesso e o colocou no rol das estrelas de primeira grandeza. 

A bela música cantada com entusiasmo e gestual pela etnia negra nos cultos religiosos estava então confinada aos espaços das igrejas, permitidos e delimitados pela segregação racial na Georgia; tratava-se da forma de expressão cultural possível, face aos obstáculos erguidos pelo preconceito. 
Little Richard, discriminado por sua condição homossexual e temperamento comportamental espetacular, evidentemente não se coadunava com as amarras impostas pelos brancos e pela visão conformista religiosa cristã de parte da comunidade mais antiga de sua etnia. A sua geração clamava por liberdade.

Libertado parcialmente das amarras religiosas, à qual sempre voltava vinculado pela memória de sua educação juvenil, pôde dar vasão à sua excentricidade comportamental e talento para a música que já vinha demonstrando seja como instrumentista ou cantor nos cultos religiosos.

Viveu por toda a vida a contradição que se auto-impunha como resultado dos limites impostos pela sua formação religiosa cristã e a sua natureza musical e comportamental rebelde. Não raro procurou nas drogas a ilusória, efêmera e escravizante felicidade. 

Desde muito cedo se colocou como promessa de grande interprete. Aos 13 anos de idade foi convidado pela já famosa Sister Rosetta Tharpe, talentosa cantora gospel e de rhythm'n blues, a cantar no palco em Maicon. Mais tarde ele afirmou que Rosetta lhe servira como inspiração para o que seria uma gloriosa carreira artística.

Suas principais influências originais foram Mahalia Jackson, Brother Joe May e Marion William, de quem aprendeu o sofejo whooooo, tão frequente nas suas composições e interpretações.

O jeitão colorido e extravagante do seu figurino (de início bem comportado, já que nas salas dos elegantes clubes frequentados unicamente por brancos,  eram-lhe era exigidos terno e gravata) foi inspirado no cantor Billy Wright, conhecido como o príncipe do blues.

Como cantor adulto conseguiu seu primeiro contrato de gravação em 1951, aos 19 anos, mas sem fazer muito sucesso. Em 1952, quando gravava para o selo RCA Camden, foi informado de que seu pai havia sido assassinado com um tiro, o que o abalou profundamente, apesar das suas desavenças de natureza moral e religiosa com o pai. 

Traumatizado, além de desiludido com a pouca repercussão de suas gravações, ele chegou a sustentar-se com o trabalho de lavador de pratos.

Somente em 1955, aos 23 anos, é que a sorte começou a sorrir para Little Richard. Tudo começou a ficar diferente quando ele impôs o seu jeito de tocar e cantar, juntamente com seus músicos. 

Little Richard passou a tocar o piano como se, no ritmo woogie boogie, espancasse toda a segregação que havia sofrido na sua vida inteira; este foi o mote para a gravação de "Tutti Frutti", que originalmente tinha forte apelo homossexual, daí as modificações que seus versos sofreram para se tornarem mais palatáveis para o público branco, que gostava do ritmo mas era conservador quanto aos conceitos ali expressos. 
Little Richard com os Beatles em 1962
Na esteira do sucesso inicial vieram muitos outros hits inesquecíveis, como "Long Tall Sally", "Rip It Up", "Lucille" e "Good Golly Miss Molly".

Little Richard, o menino pobre da Georgia, influenciou gerações de roqueiros brancos que se encantaram com as suas músicas. A lista, que se iniciou com Elvis Presley, incluiria os Beatles (que chegaram a abrir os seus shows numa turnê  à Inglaterra no início dos '60), Rolling Stones e Elton Jones. 

O legado deixado pela música de matriz africana no seu país de origem, que tanto maltratou e maltrata (a exemplo do que ocorre também por aqui, de modo menos explicito, mas não menos cruel) os estadunidenses de sua etnia, tem em B. B. King, Chuck Berry, James Brown, Jimi Hendrix,  Little Richard, Louis Amstrong, Muddy Waters, Nat King Cole e Ray Charles representantes da melhor qualidade. 

O mundo, hoje, reverencia a musicalidade nascida nos campos de algodão do sul dos EUA, quando os escravos trazidos da África cantavam as suas mágoas e suas dores com o lamento blues sussurrado (justamente porque não lhes era permitida uma exteriorização mais vibrante de suas alegrias e extroversões naturais). 

Little Richard é a síntese musical dessa dor, expressa com a beleza e doçura de sua agressão rítmica ao piano. 

Obrigado por sua denúncia de uma moral capenga e estética vetusta, e por nos ter dado a conhecer sua música magistral. E nos desculpe a todos pela passividade diante de tanta agressão racial à sua etnia; e homofóbica a você, particularmente. (por Dalton Rosado)
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