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terça-feira, 10 de dezembro de 2024

QUER VER COMO NASCEU A DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DO HOMEM? O BLOG DO NÁUFRAGO MOSTRA!

S
endo a revolução francesa um dos acontecimentos seminais da história da humanidade, este blog avaliou que poderia dar uma ótima contribuição ao Dia Internacional dos Direitos Humanos, hoje celebrado, disponibilizando o filme que melhor sintetiza, para os cidadãos comuns, a história desse movimento que mudou a face política do mundo.
   

Trata-se de A revolução francesa, que, apropriadamente, dá especial destaque  à gestação da Declaração Universal dos Direitos do HomemFoi lançado mundialmente em 1989, na onda do bicentenário da Grande Revolução, mas passa longe daqueles filmes de efeméride louvaminhas tipo Independência ou Morte.

São 335 minutos de reconstituição dramática (ou seja, não se trata de um documentário) do período que vai da gestação da revolta contra o rei Luís 16 até o fim do Terror, com a execução de Robespierre. 

Serve, portanto, às mil maravilhas como introdução para os que nunca se aprofundaram no assunto, pois é um perfeito resumo dos episódios mais marcantes da primeira revolução que abalou o mundo. (a inglesa também é considerada uma grande revolução, mas foi muito menos influente além-fronteiras e teve um desfecho pra lá de pífio, o estabelecimento de uma mera monarquia constitucional).

Para os revolucionários de hoje, recomendo especial atenção a algo que tirou o sono de várias gerações de nossos antecessores ilustres: os caminhos tortuosos que conduziram ao desvirtuamento de um movimento que começou com os melhores propósitos, acertando em quase tudo, mas depois descambou para matanças desnecessárias e inaceitáveis.

Até que ocorresse a Comuna de Paris, o fantasma da revolução devorando os próprios filhos assombrava os grandes nomes do marxismo e do anarquismo, como algo cuja repetição deveria ser evitada a todo custo. 

Depois, contudo, o pesadelo do Terror de 1792/1794 foi relativizado pelo massacre bestial dos communards na semana sangrenta de 22 a 28 de maio de 1871. 

Se a Revolução Francesa fora longe demais no uso da força, pareceu a muitos que a Comuna de Paris exagerara na brandura com os inimigos, ao passo que estes foram implacáveis no momento de seu triunfo.  

Enfim, há muito a ser visto e refletido a partir dos filmes da duologia A revolução francesaque reúne Os anos luminosos e Os anos terríveis. O primeiro trazendo o grande Robert Enrico como diretor e encerrando-se com o guilhotinamento do rei; e o segundo dirigido por Richard T. Heffron e findando com o guilhotinamento de Robespierre, ambos tendo o saudoso Christopher Lee no papel de carrasco (uma figura impactante, assustadora!). 

Destaque para o Danton mais discreto que Klaus Maria Brandauer compôs, em contraste com o de Gerard Depardieu em
 Danton – o Processo da Revolução (1983), de Andrzej Wajda. Parece-me um daqueles casos em que o diretor não soube ou não quis conter o estrelismo do grande ator, permitindo que ele roubasse a(s) cena(s). 

Andrzej Seweryn também é mais apropriado como Robespierre do que o escolhido por Wajda, Wojciech Pszoniak. E Sam Neill está surpreendentemente bem como La Fayette.

Vale também notar que a duologia mostra Robespierre dando uma apreciável contribuição à revolução e sendo um bom ser humano até que sua lógica inflexível o começa a tanger para decisões cada vez mais terríveis. Apesar das dificuldades daqueles momentos, é difícil entender por que ele muda tão drasticamente (por ser escravo da razão, uma fria abstração? porque o poder o desnorteia?). 

Saint-Just (Christopher Thompson) é seu parceiro na descida aos infernos, sempre estimulando-o a agir com inclemência. E Marat (o também saudoso Vittorio Mezzogiorno) é enfocado de forma surpreendente para quem guarda a lembrança de Marat/Sade, a peça célebre de Peter Weiss: não um amigo do povo (como era o nome do seu jornal), mas um sanguinário que, diante de qualquer derrota importante, clamava pela execução exemplar de 100 mil traidores! (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

NÃO TÊM PÃO, ARGENTINOS? ENTÃO COMAM BRIOCHE. E SE TIVEREM DE FAZER UMA ÚNICA REFEIÇÃO POR DIA, NÃO SE ENVERGONHEM...

Quem diria! A frase atribuída à rainha francesa Maria Antonieta, pouco antes da Revolução Francesa, sugerindo aos franceses sem pão para comerem brioche, ressurgiu com nova roupagem na Argentina.

Dois apresentadores da televisão La Nación, apoiadora do presidente Javier Milei, mostraram aos argentinos como se alimentar em tempo de crise.

Eduardo Serenellini e sua colega Viviana Valles disseram mesmo que "as pessoas não devem ter vergonha de comerem só uma vez por dia"

Diante disso, as redes sociais argentinas mostraram, já nos primeiros dias, 
as reações do povo enganado pelo palhaço presidente, cujas promessas não passavam de bolha de sabão!

Valles fez mesmo uma comparação, sugerindo que se use menos o carro, se desligue a rede Netflix e se faça uma só refeição reforçada, no jantar, para as crianças poderem dormir.

Evidentemente os nomes de Eduardo Serenellini e Viviana Valles não vão substituir o pão por brioche da rainha francesa pelo portenho "está com fome, coma menos"

Mas tal imbecilidade, dita ao povo pela televisão, mostra a que ponto podem chegar os porta-vozes dos regimes de extrema-direita.

Como estamos no fim do ano, besteira pior do que esta não deverá aparecer nos próximos dias, Será, sem dúvida, a frase mais idiota de 2023. (por Rui Martins)

sábado, 3 de outubro de 2020

MILÍCIAS TRIUNFAM NUMA SOCIEDADE QUE SE DESINDUSTRIALIZOU, QUE NÃO OFERECE EMPREGOS E NA QUAL A MISÉRIA GRASSA

mario sergio conti
LEITURA DE 'A REPÚBLICA DAS MILÍCIAS' LEVA À
CONSTATAÇÃO DE QUE
 DIAS PIORES VIRÃO
O clã Bolsonaro sempre exalta o direito dos cidadãos a ter e usar armas. Ignorante que só ela, a primeira família não usa o argumento óbvio: o direito do povo em mandar bala em quem ataca a sua soberania está inscrito na segunda emenda à Constituição estadunidense.

Diz ela: "Sendo uma milícia bem regulamentada necessária à segurança de um Estado livre, o direito do povo de manter e portar armas não deve ser violado".

Aprovada em 1791, a emenda é fruto de levantes libertários: a revolução inglesa do século anterior; a francesa, que se encontrava no auge; e a guerra estadunidense contra a Coroa inglesa pela independência, vencida poucos anos antes.

Nos três casos, a mobilização de tropas populares para enfrentar os exércitos da aristocracia foi vital para o triunfo do poder burguês, plebeu e, no caso estadunidense, anticolonial. Assim nasceu o mundo moderno, armado e atirando para matar.

O discurso de Bolsonaro é outro. Na imunda reunião ministerial de abril, gravada por ordem sua, ele rebaixou a Presidência ao seu nível, o da sarjeta: 
"Um bosta de um prefeito faz uma bosta de um decreto, algema e deixa todo mundo dentro de casa. Se tivesse armado, ia para a rua".
O que quis dizer, na sua sintaxe selvagem, é que, armado, o povo acabaria na marra com o confinamento. Fechou sua exortação assim:
"Quero dar um puta de um recado para esses bostas! Por que eu estou armando o povo? Porque eu não quero uma ditadura"

Cabe o clichê: estilo é o homem.

Na época, todos os comentaristas concordaram que o rosnado presidencial visava, sim, a imposição de uma ditadura —por meio do armamento de seus cupinchas, do núcleo duro da sua freguesia e de seu séquito de fanáticos. Mas havia algo mais no baixo calão do Cavalão.

Esse algo mais é o tema de Bruno Paes Manso em A República das Milícias – dos Esquadrões da Morte à Era Bolsonaro, um forte candidato a livro mais triste do ano. Ele esmiúça com sobriedade o processo de desagregação fluminense.

Bolsonaro e seus filhos, p. ex., frequentam com assiduidade clubes de tiro. Pimpões, posam para fotos com fuzis e metralhadoras. Não são apenas infantiloides, perversos, maníacos por símbolos fálicos que simulam disparar armas à la Rambo.

A República das Milícias conta que muitos clubes de tiro são mocós para a compra e tráfico de armas de calibre pesado. O comércio de armamento é essencial para as milícias cariocas corromperem, ocuparem novos bairros, aterrorizarem; e assim enriquecerem seus membros e padrinhos —caso de Bolsonaro et caterva.

A segunda emenda usa milícias bem regulamentadas como sinônimo de batalhões populares de libertação. Não são essas as milícias do presidente. As dele são gangues que vendem proteção, gás, conexão com a TV paga e até casas. Além de roubar e matar, suas milícias exploram o povo.

Paes Manso é um cientista político com formação de jornalista. Ele recorre à primeira pessoa para relatar seus encontros com milicianos e a paisagem social na qual se movimentam. O que o espanta é a banalidade do mal. O crime virou norma; o Estado é bandido.

A condição de paulista circunspecto não o leva ao bairrismo —seu livro anterior,
A Guerra, com a socióloga Camila Nunes Dias, é um mergulho nos infernos do PCC. Mas o fato de ser estrangeiro ao Rio lhe garante distanciamento crítico de um sistema escabroso.

É dessa forma que A República das Milícias investiga os estertores de uma sociedade em desagregação. Fala de esquadrões da morte; de militares que migraram da tortura para o jogo do bicho; do homicídio de Tim Lopes; da ocupação marqueteira da Cidade de Deus; do fracasso das UPPs; do assassinato de Marielle Franco; do espraiamento da força bruta.

A eleição de milicianos para o Planalto é o corolário de um estado de coisas. Nele se imbricam a política, a polícia, igrejas, as Forças Armadas, as rachadinhas, as Vivendas da Barra, a corrupção, a condescendência das elites.

O triunfo miliciano espelha uma sociedade que se desindustrializou, não oferece empregos e na qual a miséria grassa. E a ideologia dominante, nessa terra sem lei nem ordem, é a de cortes que desmantelam o Estado —que, justamente, deveria implementar a lei e a ordem.

Não há força social capaz de fazer frente à anomia que se instala. Por isso A República das Milícias é um livro triste. Ele não oferece soluções porque elas não parecem existir. Sua leitura leva a uma constatação amarga: dias piores virão. (por Mario Sergio Conti) 

SOBRE O MESMO ASSUNTO, RECOMENDO A SÉRIE DE 3 POSTS QUE
O BLOG PUBLICOU 3 MESES ATRÁS, DOIS CAPITÃES ENTRELAÇAM
AS MILÍCIAS DO RJ COM OS TORTURADORES DA DITADURA:
1, 2 e 3. (CL)  
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