sábado, 25 de abril de 2026

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO (parte 5)

Era de manhã cedinho numa quinta-feira, 16 de abril de 1970. Ao me retirarem o capuz,  vi-me no setor de registro dos novos prisioneiros que chegavam àquele quartel que, soube depois, era o da Polícia do Exército no bairro carioca da Tijuca, onde operava o DOI-Codi, reunindo efetivos da repressão originários das três Armas.

Como silenciei, recusando-me inclusive a dizer quem eu era, fui logo encaminhado para a sala de torturas, no fundo do quartel. Durante dois meses e meio sofreria todo tipo de intimidação e sevícia, conforme relatei no primeiro volume desta duologia, bem como em vários artigos e entrevistas. 

Avalio como desnecessário e deprimente repetir os pormenores da minha descida ao inferno. Melhor falar nas lições que extraí, algumas no próprio momento, outras repassando os tormentos na memória, de volta à cela.

Os torturadores tudo faziam para me desnortearem, impossibilitando-me de pensar. Assim, a primeira sessão de torturas foi com a sala lotada de oficiais, agentes, motoristas de viaturas, etc. Agrediam-me de todo lado, faziam perguntas ao mesmo tempo e desferiam murros e pontapés por eu não conseguir responder a todos . Além disto, recebia sucessivos choques elétricos.

Depois, já pendurado no pau-de-arara, começava a ser realmente interrogado. E aí se iniciava a verdadeira batalha. Como a intensidade das torturas era demasiada, tinha de ir buscar nas minhas convicções mais profundas a força para nada dizer a esmo. 

Logo percebi que, ao contrário das fantasiosas bravatas a posteriori de muitos dos companheiros que haviam passado por tais horrores, era quase impossível um ser humano confrontar arrogantemente aquelas bestas-feras, nada respondendo do que queriam saber. Aí a tortura se prolongaria indefinidamente, até o ponto em que o torturado já não teria mais nenhum controle sobre o que revelava.

Felizmente não me perguntaram logo nas primeiras sessões de tortura o que eu mais temia deixar escapar. 

Ou, talvez, tenha sido mero acaso: os companheiros que haviam participado da reunião com o Lamarca na área de treinamento não marcaram pontos comigo logo para o dia em que retornassem, pois tinham problemas mais urgentes para resolverem com outros quadros. A Inteligência podia esperar dois ou três dias.

Sou sincero: não consegui depois reconstituir boa parte  do que ocorreu comigo naqueles primeiros dias de sofrimentos dilacerantes. 

Seja por ter conseguido trancar na minha mente os dados dos pontos que teria com os comandantes superiores organicamente a mim e com os que eram do mesmo escalão, seja porque não tinha nada para discutir de imediato com eles, o certo é que aqueles que, ao caírem, causaram mais danos à VPR, o fizeram antes de quando eu os encontraria. Por mérito ou por acaso, não foi graças a mim que a repressão ficou sabendo o suficiente para nos impor as quedas em cascata.

Mas não fui nem poderia ter sido capaz de convencer a repressão de que nada sabia. Para desviar a atenção dos inquisidores de nossos tesouros, fui obrigado a entregar-lhes algum calhau. O que me pareceu justificado naqueles  momentos terríveis (e só neles!). 

Passei o resto da vida lamentando a escolha que acabei fazendo, entre a prisão de algum comandante que poderiam causar dezenas de quedas e a prisão de um aliado cujo único contato com a organização era exatamente comigo. 

Só que o aliado Roberto Macarini (foto ao lado) morreu, seja como consequência das torturas, seja escapando da escolta e atirando-se do Viaduto do Chá por não estar mais conseguindo suportá-las. Nunca soube ao certo. 

Que direito tinha eu de definir, por critérios utilitários, quem seria barbaramente torturado e talvez até morresse, expondo-o para preservar os líderes da nossa organização? Nenhum. Amaldiçoei-me por perceber isto tão tardiamente.

Após minha libertação, nunca mais cogitei voltar a assumir as mesmas responsabilidades como militante. Sabia que, se o fizesse, ficaria novamente conflitado face à questão de quais companheiros eram descartáveis e quais não. Uma vez já tinha sido demais.

Quanto à injusta estigmatização que sofri por atribuírem-me uma responsabilidade que jamais tive na queda da área 2 de treinamento guerrilheiro, às vezes fico pensando que poderia ter provado a minha inocência muito antes se não carregasse tamanho remorso por, numa circunstância extrema, haver agido como o soldado que coloca o patamar hierárquico acima de tudo e não como o homem justo que sempre procurei ser.  (por Celso Lungaretti) 

3 comentários:

Angelo Genovesi disse...

Companheiro,
Naqueles tempos você e outros companheiros que se recusaram em aceitar tanta injustiça, tanta exploração, tanta intimidação que utilizou de militares para observarem cada passo que os jornalistas davam, naquele dificílimo período, antes de publicar alguma notícia, chegando-se ao cúmulo de ocuparem espaços vazios com receitas de bolo, coisa que até os mais velhos e também atentos naquele período, conseguiam notar claramente, já que a própria rispidez no meio militar era totalmente indisfarçável, coisa que acabava não só assustando a própria população brasileira, como tudo isso reforçava a determinação da verdadeira esquerda em não ficar parada, não vendo outra saída, a não ser pegar em armas, para enfrentar as Forças Armadas, deixando claramente que a verdadeira esquerda também não estava brincando, quando defendeu com total bravura o povo sofrido naquele período totalmente infernal no Brasil.
Mesmo que até hoje ainda exista tanta incompreensão contra a verdadeira esquerda, que sempre defendeu com bravura a verdadeira solidariedade, a verdadeira justiça entre os seres humanos, coisa que sempre incomodou os exploradores e sempre vai incomodar, já que os exploradores só pensam neles mesmos e como isso já ficou mais que comprovado só de observar a própria conduta dos seres totalmente egoístas, que sequer disfarçam a própria arrogância característica de quem, por própria natureza, sente o prazer em explorar angustiantemente o povo sofrido.
Desde a minha adolescência me interessei em ler o que a verdadeira esquerda sempre publicava com toda a força em sites que já denunciavam sobre o verdadeiro inferno que os militares fizeram naquele passado realmente difícil e que só terminou por causa da crise econômica que os militares acabaram preferindo jogar diretamente nas mãos dos civis, para que estes fizessem alguma coisa, quando o Brasil já se encontrava totalmente afundado em plena década de 1980, chegando-se ao cúmulo de péssimos políticos brasileiros, na época, responderem descaradamente que estava tudo bem no Brasil, sendo que isso jamais foi verdade.
O blog Náufrago da Utopia sempre se empenhou em abrir os olhos dos inconscientes e sinto-me feliz em ver que o blog continua se empenhando com toda a firmeza, digna dos verdadeiros brasileiros, que sabem claramente o quanto a humanidade está andando para trás e agora com o uso da alta tecnologia, pelas mentes sujas, que tentam mascarar a difícil realidade, ainda tão presente no Brasil, só que as mentes lúcidas jamais vão acreditar, já que só se recusa a enxergar, o pior dos cegos, coisa que sempre vale lembrar, até o último dia das nossas vidas.
Sempre estarei ao lado da verdadeira esquerda, que nunca suportou a ideia em enganar o povo sofrido.
Todos os seres humanos erram, mas só permanece errando, quem se recusa a aprender com os próprios erros, que podem perfeitamente serem corrigidos e tudo isso só depende de nós mesmos, como sempre foi e sempre será, desde o início de toda a história da humanidade.

Neves disse...

https://jornalgrandebahia.com.br/2025/04/livro-revela-identidade-e-estrutura-de-atuacao-de-torturadores-durante-a-ditadura-militar-no-brasil/

Anônimo disse...


Imagens raras da repressão na ditadura: UNE - Praia do Flamengo 132(com legenda)
https://www.youtube.com/watch?v=gA_wPt-zf4M

Related Posts with Thumbnails