quarta-feira, 29 de julho de 2020

DOCUMENTÁRIO SOBRE A PRISÃO DE CAETANO VELOSO LEMBRA UM INFERNO PELO QUAL EU PASSEI 4 MESES DEPOIS

Marcado para 2 a 12 de setembro próximos, o 77º Festival de Veneza apresentará em sua mostra não-competitiva (ou seja, sem concorrer ao Leão de Ouro e demais prêmios da seleção oficial) o documentário brasileiro Narciso em Férias, sobre a prisão de Caetano Veloso e Gilberto Gil duas semanas após a assinatura do Ato Institucional nº 5 e os 54 dias em que permaneceram encarcerados na PE da Vila Militar (RJ).

Escrito e dirigido por Renato Terra e Ricardo Kalil, o filme é focado em Caetano, hoje com 77 anos. Mostra como ele e Gil foram mantidos em solitárias durante duas semanas e depois transferidos para celas. 

Sobre a inferno da solitária, ele conta: 
"Eu tinha de comer ali no chão mesmo. Isso durou uma semana, mas pareceu uma eternidade. Eu comecei a achar que a vida era aquilo ali. Só aquilo. E que a lembrança do apartamento, dos shows, da vida lá fora era uma espécie de sonho que eu tinha tido". 
Foi durante o cativeiro que ele viu as fotos inéditas do nosso planeta, tiradas do espaço e publicadas pela revista Manchete, que o inspiraram para compor Terra dez anos mais tarde. 

E a lembrança das risadas da irmã mais nova lhe serviam de consolo, daí ter composto lá mesmo a pungente Irene.
"Eu quero ir, minha gente, eu não sou daqui/ Eu não tenho
nada, nada, quero ver Irene rir/ Quero ver Irene dar sua risada"
.
Quatro meses depois foi a minha vez de passar por aquele quartel, talvez até na mesma solitária (eram três). 

Afora comer no chão mesmo e sem talheres, havia também o buraco no solo como latrina, a falta de torneira ou chuveiro, o espaço ínfimo, o frio que fazia à noite (deixaram-me só com a cueca e sem coberta nenhuma), de forma que, mesmo sentando no chão e abraçando as pernas na tentativa de me esquentar, mal conseguia pregar o olho.

Irritava-me muito a jactância de um sargento, que fazia questão de repetir a toda hora que Caetano e Gil haviam chorado quando tiveram suas jubas raspadas a zero, ao passo que os militantes pelo menos mantinham uma compostura básica, na avaliação machista dele. 
"Quando eu me encontrava preso na cela de uma cadeia/ Foi que eu vi pela
primeira vez as tais fotografias/ Em que apareces inteira, porém lá
não estavas nua/ E sim coberta de nuvens/ Terra/ Terra"
.
Não era esse o tipo de reconhecimento que eu queria do inimigo. E percebia muito bem que aquilo era demais para um civil, mesmo não tendo ele de passar pelas sessões de tortura a que nós éramos submetidos. 

Foi lá que o cabo Marco Antônio Povoreli, um brutamontes que pesava 140 quilos, por pura maldade, estourou meu tímpano com um tapa no ouvido direito dado com a mão espalmada, quando me reconduzia à solitária após haver sido torturado com choques elétricos. (por Celso Lungaretti)

6 comentários:

Anônimo disse...

Sinto muito pelo seu sofrimento (e, claro, de todos os combatentes).

A propósito, cheguei a ler um relato de um companheiro em que ouviu o seguinte de seus verdugos:

"Aqui não tem Deus, nem pátria, nem família. Somos só nós e você".

Procede isso?

celsolungaretti disse...

Ora, em cada lugar, em cada situação, dizia-se algo.

Uma que eu escutei e hoje circula por aí é a "aqui não morre quem quer, morre quem nós queremos".

E um companheiro uma vez se saiu com esta, dirigindo-se ao capitão que aparentemente dirigia o DOI-Codi/RJ: "Você pode me estourar, mas eu vou viver mais do que você!".

O oficial, com um olhar assassino, rugiu: "Por quê?". Pensou que fosse uma ameaça.

Ele respondeu apenas isto: "Porque eu sou novo e você é velho".

Para surpresa de todos os que estávamos lá, presos e torturadores, o capitão ficou desconcertado, pensou um pouco na resposta, fez um sinal de pouco caso e foi embora.

Enfim, acontecia de tudo. E torturadores também teatralizavam um pouco a coisa, mostrando-nos bandeiras do Esquadrão da Morte, forçando-nos a roletas russas que não enganavam a nenhum de nós, etc.

André Luiz disse...

Celso, eu só queria que você encontrasse esse filho da puta hoje. Sem estar preso. Eu queria que você tivesse uma conversa com esse arrombado e cobrasse seu tímpano.
Esse tipo é covarde e iria se cagar todo...
Mas é só imaginação minha. Mas que eu queria.... Isso sim
Esse tipo de covarde dos infernos. Tomara que já tenha morrido.
Você seguiu muito bem. Sei que há o trauma
Vai fica. Mas eu odeio covardia. Desculpa o desabafo

celsolungaretti disse...

Companheiro,

seria parada indigesta. O cabo Povoreli pediu baixa juntamente com o capitão Guimarães e o acompanhou como guarda-costas.

O capitão Guimarães se tornou bicheiro, bingueiro e é um dos pais das milícias do RJ. Se o Povoreli ainda estiver vivo, eu precisaria ir acompanhado de uma tropa, e não tenho como consegui-la atualmente.

Eu até que acalentava esses desejos de vingança, principalmente do cabo Anselmo, para vingar dois grandes companheiros: o Moisés e a Lucy. Mas ele também tinha quem o protegesse (gente que era ou tinha sido do Dops paulista).

Quando, aos 50 anos, decidi que, de um jeito ou de outro, realizaria o velho sonho de ser pai biológico, desisti de acertar contas do passado. Não se bota criança no mundo para deixá-la órfã.

Hoje minhas filhas têm 18 e 12 anos. Com um pouco de sorte conseguirei estar apoiando-as até que alcancem uma situação mais definida na vida. E tenho muita curiosidade em saber como serão meus netos...

Um abração, companheiro!

André Luiz disse...

Eu entendo. Cuida das suas meninas. Tenho certeza que elas vão contribuir muito com o mundo como seres humanos.
Foi só uma opinião de tempos de pandemia KKK.
Sou do Rio. Sei como são as coisas.
De toda forma, obrigado pelo site e pelas idéias.

André Luiz disse...

Esqueci: um forte abraço também. E os agradecimentos pelas idéias são muito sinceros.

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