domingo, 4 de julho de 2010

UM ARTIGO EXEMPLAR: "A PÁTRIA SEM CHUTEIRAS"

Quando eu disse as mesmíssimas coisas, antes da vaca ir pro brejo, muitos se indignaram, inclusive alegando que enfoques políticos não cabem na análise futebolística.

Cabem sim, como prova, de forma exemplar, o veterano jornalista Jânio de Freitas -- um dos que, como eu, mantêm vivos na memória os anos terríveis da ditadura militar, não se conformando com a permanência de práticas autoritárias no país redemocratizado.

Sua coluna deste domingo (4), A Pátria Sem Chuteiras, é tão boa que merece ser reproduzida na íntegra -- mesmo porque endosso e subscrevo cada uma das palavras:
"A Seleção Dunga trouxe à tona um remanescente, na vida brasileira, de que o país tanto deveria se livrar quanto se recusa a encarar.

"Tudo na seleção, desde o primeiro momento, baseou-se em um exíguo corpo de ideias, e consequentes práticas, que caraterizam o mais deslavado autoritarismo.

"Era a velha e sempre viva regra: contra a liberalidade descontrolada, não a busca do equilíbrio, mas o autoritarismo.

"No estilo anos 30 do século passado, o instrumento simbólico foi o patriotismo (com ou sem aspas). Os chamados à seleção seriam os que Dunga considerasse 'dispostos a defender a seleção brasileira com todos os sacrifícios'.

"Se assim foi o começo, no fim derrotado Dunga exaltava 'esses jogadores que ficaram 52 dias distantes de tudo'.

"Proibidos de contato com a vista do seu público, proibidos de conversar com jornalistas, proibidos de reunir-se a familiares, proibidos, proibidos. Os 52 dias não foram de concentração, foram de repressão de uma parte e sujeição passiva de outra.

"Exigência que Dunga estendeu à imprensa, posta, com bastante passividade, sob a boçalidade como tratamento pessoal e a censura como prática, nas proibições ao trabalho habitual de reportagem e na exiguidade das informações permitidas à população ansiosa.

"Autoritarismo explícito, na forma mais sentida pela imprensa, e nem por isso mais intolerada. Críticas houve, sim, cautelosas e superficiais; reação, nenhuma.

"Nem quando Dunga investiu, ao vivo e em cores, contra um comentarista equilibrado, competente, sempre bem humorado e educado, Alex Escobar, nem aí houve sequer um mínimo ato representativo de repulsa ao autoritarismo.

"Dunga brindou-se como um ser coerente e foi consagrado como tal, nas ressalvas incluídas pelos críticos às próprias críticas. Ficou dado, assim, um novo nome para a prática da injustiça.

"Na concepção 'coerente' de Dunga, de nada valeram o esforço e o mérito de ser o melhor ou estar melhor.

"Se jogadores caídos na reserva em seus times são chamados a preterir jogadores em fase de excelência, que seleção é essa? E o que significa para os preteridos? E com que autoridade representa o estágio verdadeiro futebol do país? Apenas valeu o voluntarismo autoritário.

"Neste sentido, Dunga fez uma síntese exemplar, quando explicou a convocação de um jogador que está como terceiro goleiro no seu time: 'Quando eu convoquei o Dani da primeira vez, ele veio contra a vontade do técnico dele e por isso foi posto na reserva quando voltou pra lá. E o que os outros jogadores iam dizer agora? Olha o que o Dunga fez com ele...

"A prioridade não era a seleção, no sentido esperado, eram considerações particulares. Impostas a partir do poder. Não da coerência, do reconhecimento justo e dos deveres da função.

"A todas as críticas, ou ao que sua visão paranóide tomou por tal, Dunga ofereceu como contraste a devoção e a entrega dos seus cativos à pátria. Não por acaso, na hora de partir para a cruzada patriótica a seleção fora receber a bênção do primeiro mandatário e de sua mulher devidamente paramentados em verde e amarelo.

"Mas brasileira é que a seleção não foi, nunca. Futebol fosco e tosco, de gente insegura e desnorteada ante a possível adversidade, nenhum momento de brilho verdadeiro, jamais um encanto de brasilidade.

"E um histérico à beira do campo ao ver que seu autoritarismo não transpunha fronteiras.

"Tudo não passou de uma manifestação a mais, e inconteste, do autoritarismo persistente na vida brasileira".

11 comentários:

João Batista Ferreira disse...

Eu concordo! Eu concordo! "Pátria sem chuteiras" é uma análise (psico) perfeita do que o que Dunga representa, do lixo que ainda não foi removido. Eu também escrevi sobre a mesma coisa com emoção parecida: "Vamos derrubar o Muro da Copa 2010" no meu blog: http://jbatistaj2blog.com.br Como o Jânio, sou de Niterói, exilado em São Paulo. jbatista@j2b.com.br

lucia disse...

Há controvérsia LungarettiL,há controvérsia. No caso do Alex Escobar "santinho" da Globo. Estavam todos ofendidos por Dunga não ter dado exclusividade à poderosa...

Você se recorda do oba oba de 2006. Era Fátima Bernardes dentro da concentração, mostrando o samba dos jogadores, como dormiam,como comiam, como se divertiam, tudo com um reporter da Globo acompanhando.

Na verdade Dunga carregou nas tintas, mas em grande parte ele estava certo.

Anônimo disse...

Acesso o seu espaço todo o dia e politicamente sou afinado com sua visão.
Mas amigo, não concordo em muitas partes do seu texto.
Só um exemplo:o Dunga está dando uma entrevista e o reporter falando ao celular e balançando a cabeça negativamente.
Você se esquece que há dois anos atrás o sr Galvão, Arnaldo C Coelho, Murici e um falastrão Renato Mauricio Prado, deu em primeira mão que o novo técnico é o Murici (que ficou um pouco constrangido).
Acontece que o Dunga ganhou a Copa América a Copa das Confederações e com ótimos resultados na classificação para a Copa.
A rasteira da Grobo foi por água abaixo.
Agora você quer que o Dunga seja um doce com essa gente?
O Dunga cortou previlégios da primeira dama do JN, e agiú com igualdade com os outors concorrentes e aí passou a ser este aquele, redicularizando-o quando falave com nós em vez de connosco.
Sou fã do Julio Cesar, mas um erro daqueles é indmisível numa Copa do Mundo e o Dunga é o culpado, tenha dó.
Vou misturar um pouco de política Dilma 2010.
Se tiver erro de português não ligue, não sou jornalista.
Fernando

Tiago Aguiar disse...

Tostão, na Folha, sobre a derrota do Brasil:

“O Brasil repetiu a Copa de 2006, quando o Brasil foi eliminado nas quartas-de-final pela França. O interessante é que o Brasil que sempre fez muitos gols em jogadas aéreas levou dois gols em jogadas aéreas. O Brasil, que ficou quatro anos procurando um lateral esquerdo acabou levando gols em jogadas que iniciaram ali na lateral esquerda. O Brasil perdeu, como em 2006, para um time que não é inferior, isso que é importante, é um time do mesmo nível, não foi uma zebra, não foi nenhuma tragédia, nenhum desastre do ponto-de-vista técnico, porque o time da Holanda é tão bom quanto o do Brasil, assim como o time da França era tão bom ou até melhor que o do Brasil em 2006. O Brasil fez um primeiro tempo belíssimo, foi o melhor primeiro tempo da Copa, do Brasil, e o pior segundo tempo, onde deu tudo errado. Também como era previsto, todo mundo tinha medo que o Felipe Melo ia acabar sendo expulso num jogo da Copa e aconteceu no pior momento, na hora em que o Brasil perdia o jogo e precisava reagir. E aí, o desespero, o Brasil com um a menos, quase que leva o terceiro gol, eles tiveram mais chance de fazer o terceiro que o Brasil empatar o jogo. O Brasil precisa perder a soberba de achar que só o Brasil que é bom de bola e que só o Brasil tem craques, do outro lado tinha Sneijder, tinha Robben, tinha grandes jogadores, como em 2006 tinha Zidane, tinha Henry, então do ponto-de-vista técnico foi um resultado normal”.

Saudações, Celso!

Celso Lungaretti disse...

Lúcia,

no fundo, estamos travando um diálogo de surdos.

Sou um libertário e Dunga representa aquilo que eu quero ver eliminado da vida brasileira.

Você é inimiga da Rede Globo e o admira por ter peitado a emissora.

Mas, existe um porém.

A Rede Globo cumpre uma função necessária para o capitalismo. Se conseguirmos desacreditá-la, alguma concorrente passará a cumprir o mesmíssimo papel. Então, não basta acabarmos com a Globo, tentáculo do capitalismo. Temos de acabar com o próprio capitalismo.

Já a luta contra as manifestações de autoritarismo na vida brasileira produz resultados.

Vide agora: o autoritário Dunga foi demitido e o perfil do novo técnico deverá ser o de um anti-Dunga. É o que se comenta na CBF.

Alguém que se imponha pela autoridade moral e não pelo mandonismo.

Alguém que convoque os melhores futebolistas brasileiros em atividade e não os mais submissos.

Alguém que saiba conviver com jornalistas e torcedores.

Alguém que transmita firmeza e serenidade aos jogadores nos momentos difíceis, e não o primeiro a ficar histérico.

Ou seja, um homem amadurecido e civilizado, não um traumatizado e rancoroso, em guerra contra tudo e contra todos.

É provável que seja o Mano Menezes o escolhido.

Responda com sinceridade: para as pessoas fracas, que precisam mirar-se em alguém, não é muito melhor que tenham um Mano Menezes como exemplo, do que um Dunga?

Quem você preferiria ter como vizinho, o Mano ou o Dunga?

Quem você escolheria como professor de seus filhos, o Mano ou o Dunga?

Pense nisso.

Celso Lungaretti disse...

Fernando,

os frangaços que o Felix tomou em 1970, nos dois jogos finais, foram piores do que o 1º gol da Holanda.

Mas, a Seleção do tri tinha homens de personalidade, não vaquinhas de presépio.

Carlos Alberto, Brito, Piazza, Clodoaldo, Gerson, Tostão, Pelé e até o novato Rivelino sabiam reagir às adversidades, não se deixavam abalar.

Hoje mesmo vi uma entrevista do Clodoaldo, contando como eles se relacionavam com o técnico Zagallo: EM PÉ DE IGUALDADE.

Elenco e treinador tomavam as decisões juntos. E o elenco sabia honrar a responsabilidade assumida: nos momentos difíceis, mantinha o sangue frio e dava a volta por cima.

Já o Dunga, como bem frisou o Jânio de Freitas, colocou-se como o poder absoluto, não dando espaço para que o grupo escolhesse/forjasse líderes.

Só havia um líder, no banco. No campo, nenhum, porque o do banco não queria concorrência. Não convocou quem pudesse sê-lo e esmagou com seu autoritarismo os que ousaram mostrar um mínimo de independência, como Robinho, coagido a uma vexatória "mea culpa".

Quando as coisas começaram a ir mal para o selecionado sem líderes no campo, o que aconteceu?

O do banco foi o primeiro a perder a cabeça, dando um deprimente espetáculo de desequilíbrio.

Aí a Seleção se desmilinguiu psicologicamente e virou presa fácil dos holandeses.

O Dunga seria, sim, o grande culpado pela derrota, se tivesse os predicados para exercer a função de técnico da Seleção brasileira.

Mas, como nem de longe os possuía, então a culpa maior é de quem o colocou lá: Ricardo Teixeira.

Ao Dunga ainda podemos perdoar, pois não sabia o que fazia.

O Ricardo Teixeira, não. Já havia escolhido técnicos para conduzir o Brasil em cinco Mundiais.

Mesmo assim, conseguiu escolher para o de 2010 um pior ainda do que o Sebastião Lazaroni em 1990...

Celso Lungaretti disse...

Fernando,

piores ainda foram os frangos que o Félix tomou na semifinal e na final de 1970, sem que o time desmoronasse.

A diferença é que aquela seleção tinha jogadores com personalidade, que discutiam de igual para igual com o técnico e depois, em campo, honravam a responsabilidade assumida no vestiário.

Já a convocação do Dunga privilegiou submissos e obedientes, descartando líderes. Pois o único líder deveria estar no banco, não no campo.

Quando Robinho mostrou um mínimo de independência, foi coagido a uma vexatória "mea culpa".

Então, sem líderes no campo, aquele grupo de fracos dependia imensamente do homem forte que estava no banco.

Quando as coisas começaram a ir mal, entretanto, o do banco foi o primeiro a se descontrolar.

E contagiou com sua insegurança a seleção, que entrou em parafuso a partir do 1x1, quando nada estava perdido.

O Dunga só não é o principal culpado pela derrota porque nunca reuniu os predicados para a função de técnico da seleção brasileira.

Então, a responsabilidade maior é de quem o escolheu e lhe deu carta branca para cometer os piores erros: Ricardo Teixeira.

É o parasita incrustrado na CBF quem merece ser alvo do mais veemente repúdio dos torcedores, não o Dunga nem o Felipe Melo, que jamais deveriam ter representado o Brasil na África do Sul.

Celso Lungaretti disse...

Tiago,

o Tostão é um cavalheiro. Elegante no teclado como era no gramado.

E está certo quanto à qualidade da seleção francesa de 2006.

A holandesa de 2010, entretanto, é outro papo. O Brasil a teria nocauteado no 1º tempo se fosse pra cima após o gol do Robinho. Estava entregue.

Tivemos a partida na mão e não a decidimos. Aí ela reagiu, aproveitando as deficiências que todo mundo sabia existirem do nosso lado: lateral esquerdo péssimo e sem alguém para ajudá-lo, falta de um jogador que ditasse o ritmo no meio de campo, instabilidade emocional do Felipe Melo, reservas tão ruins que de nada serviriam numa emergência, etc.

Na desclassificação anterior, a partida nunca esteve verdadeiramente a nosso favor.

Desta vez, estava facílima e deixamos o caldo entornar.

Tiago Aguiar disse...

Caro Celso.

Levamos gols de bola parada. Não foi em uma jogada trabalhado, foi com fatalidades.

Sei que tens um olhar crítico ao Dunga por seus métodos e mecanismos, mas se você olhar os 90 minutos, a Holanda aproveitou todas as chances que teve.

Enfim, é futebol.

Abraços!

Lucia disse...

"..Você se recorda do oba oba de 2006. Era "...Fátima Bernardes dentro da concentração, mostrando o samba dos jogadores, como dormiam,como comiam, como se divertiam, tudo com um reporter da Globo acompanhando..."

É o que vai acontecer com o Mano, vai ter que abrir privilégios para a globo. Vai ser tudo como dantes no quartel de abrantes.

A globo é o maior mal desse país. Foi assim na ditadura, continua assim na política e, ainda por cima, tem um elenco de funcionários que "se acha a última coca-cola do deserto"! lembre-se que um bordão criado na globo, é repetido do Oiapoque ao Chui, é muita força não é?

Um mostro dessa tamanho ganhou peso, força e forma na ditadura militar, (sei que falar isso pra vc pode parecer que sou uma tola e talvez até seja - logo a vc né?) e a partir dai tudo que contraria seus interesses ela reduz a "pó de traque".

Não vou fazer coro com ela. A briga entre O Dunga e a Globo é a mesma que se dá entre a formiga e o elefante. E nesse caso, sou a formiga, mesmo que ela tenha sido um pouco inconveniente. A ousadia (da "formiga") a redime.

rs rs rs Não gostaria de ter um vizinho tipo Dunga, e não gostaria de viver num país que tem uma rede de televisão com um poderio desses.

Um abraço Celso, respeito muito seu pensamento, aprendo com eles, e nesse texto, especificamente, entendi o que vc quis dizer. Eu é que sou imediatista, entre combater o Dunga e combater a Globo...

Daniel disse...

Lungaretti, Félix não levou nenhum frango nos dois jogos finais. Contra o Uruguai, o malandro chutou uma bola quase sem ângulo. Mérito pro cara, não? Contra a Itália, a falha de Clodoaldo, ao tentar sair driblando e a bola sobrar pra Bonisegna. Julio César, sim, melhor goleiro de mundo de meia-tigela. Como é cria do Mengão, queridinho da Poderosa, jamais será execrado como Barbosa. E seu erro grosseiro, típico de goleiro de várzea, nem se compara a suposta falha de Barbosa.

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