Mostrando postagens com marcador lista negra. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador lista negra. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

QUEM ORDENOU A ELABORAÇÃO DO DOSSIÊ SOBRE "ANTIFAS" NÃO FOI UM MINISTRO DA JUSTIÇA E SIM O "GOVERNO CLANDESTINO"

Barrado pelo Supremo Tribunal Federal por 9 votos a 1, o dossiê ILEGAL sobre grupos e personagens antifascistas, pretensamente decidido pelo Ministério da Justiça, foi iniciado... QUANDO A PASTA ESTAVA ACÉFALA!!!

É o que se depreende de afirmações de dois ministros do STF durante o julgamento realizado nesta 5ª feira (20), sobre a legitimidade ou não da arapongagem perpetrada na moita pelo Governo Bolsonaro.

Edson Fachin e Gilmar Mendes, ao darem seus votos, ressaltaram que a empreitada teve início em 24 de abril último, dia em que Sergio Moro anunciou sua saída da Pasta e André Mendonça ainda não havia sido para ela nomeado.

Ou seja, tão logo Moro deixou o cargo, já foi iniciada uma investigação de quase mil pretensos inimigos do Estado, da qual resultaria uma lista negra de 579 nomes (servidores públicos e agentes de segurança na maioria, mas também jornalistas e professores).

Para piorar, Moro e seu substituto André Mendonça (que só seria anunciado no dia 28 de abril) foram unânimes em afirmar que só tomaram conhecimento da existência de tal dossiê pelo noticiário.

A constatação é óbvia: a iniciativa foi do GOVERNO CLANDESTINO e não das autoridades constituídas a quem caberia desencadear tal caça às bruxas.

Então, impedir que tal dossiê infame continue a ser produzido era só a primeira providência obrigatória. A segunda é identificar e punir quem deu a ordem de o produzirem.

As digitais na arma do crime, para surpresa de ninguém, parecem ser as presidenciais. Na abjeta reunião ministerial de 22 de abril, cujo vídeo depois permitiria ao povo brasileiro ficar conhecendo bem o bando de medíocres e celerados que o governa, Bolsonaro afirmou:
"Sistemas de informações? O meu funciona. O meu particular funciona. O que tem oficialmente desinforma. E voltando ao tema: prefiro não ter informação do que ser desinformado por sistema de informações que eu tenho".
Enquanto não surgir outro suspeito, tudo nos faz supor que o sistema de informações ILEGAL do Bolsonaro é que pariu a lista ILEGAL de quase um milhar de antifascistas a  terem suas vidas ILEGALMENTE devassadas.

Resumo da ópera: os antifascistas jamais poderiam ter sido investigados, mas os responsáveis por tal ILEGALIDADE jamais poderão ser deixado impunes, caso contrário urge trocar o nome desta joça para República Federativa da Mãe Joana. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 14 de julho de 2020

OS CAÇADORES NÃO CAÇAM SOMENTE AS BRUXAS, MAS TAMBÉM AS POÇÕES VITAIS QUE SÓ ELAS SABEM FAZER

joão pereira coutinho
ANTES COMUNISTAS, HOJE AS BRUXAS SÃO
 BRANCAS, PRIVILEGIADAS E CISGÊNERO
"somos herdeiros do Iluminismo, não da Santa Inquisição"
Caçar bruxas? Não depende apenas da vontade dos caçadores. É preciso cúmplices. Gente que fica de bico calado, tornando a vida dos caçadores mais fácil.

O macartismo é um exemplo. Falo da paranoia persecutória que o senador Joseph McCarthy lançou contra comunistas, reais ou imaginários, nos Estados Unidos da década de 1950. 

Fato: as perseguições começaram antes de McCarthy (para sermos exatos, em 1938). Mas foi ele quem levou as perseguições a um novo patamar de violência e delírio. E por quê?

Porque a Suprema Corte deixou. Porque as universidades, as empresas, os sindicatos deixaram. 

E porque os estúdios de Hollywood deixaram, elaborando as famosas listas negras com nomes de atores, roteiristas, diretores ou técnicos problemáticos aos olhos do delirante McCarthy. 

E quem era McCarthy?

Ninguém, como se viu em 1954. Bastou o advogado Joseph Welch lhe fazer uma pergunta retórica durante uma audição pública –“O senhor não tem nenhum sentido de decência?”– para que o inquisidor-mor explodisse.

O rei, afinal, estava nu. Mas o mal estava feito. Não apenas o mal objetivo de ter destruído milhares de carreiras e aprisionado centenas de pessoas.
Quando o homem enfim deixará de ser o lobo do homem?
Também houve um preço artístico. Os historiadores são unânimes ao considerar a década de 1950 uma das piores da história do cinema americano, como se a energia e a criatividade tivessem sido sugadas da indústria.

Como escreve Peter Biskind no seu Easy Riders, Raging Bulls, foi preciso esperar por 1967 –ano de Bonnie e Clyde e A Primeira Noite de um Homem– para que o cinema estadunidense voltasse ao mundo dos vivos. Em certos casos, com nomes que estiveram na lista negra

Lição de aviso: os caçadores não caçam apenas as bruxas, mas as poções vitais que só elas sabem fazer.

E o que é válido para o macartismo de direita é válido para o novo macartismo de esquerda –a chamada cultura do cancelamento que, por enquanto, só arruína reputações e carreiras. A prisão será o próximo passo?

Isso depende do silêncio dos cúmplices, razão pela qual é sempre de aplaudir Uma Carta sobre Justiça e Debate Aberto, que 150 autores, de esquerda ou de direita, brancos ou negros, mulheres ou homens, publicaram na revista Harper’s.

O que eles dizem é banal. Ou era, alguns anos atrás, e se divide em duas premissas.

Para começar, uma sociedade livre, politicamente livre, define-se pela troca de ideias e de informações, não pela conformidade ideológica e pela humilhação pública de heréticos.
Joseph McCarthy, o Grande Inquisidor do século passado

Para acabar, essa liberdade também é fundamental por razões extrapolíticas: ela é o alicerce do pensamento e da criação. Preferimos o mundo fossilizado da década de 1950 ou a voragem criativa de 1970?

Sem surpresas, a carta teve reações. E a mais impressiva foi uma outra carta, igualmente assinada por mais de 150 intelectuais, e publicada no site The Objective.

É um casus belli de má-fé: os subscritores não se limitam a discutir argumentos. Preferem, como os velhos caçadores, inaugurar a caçada com duas perguntas que destroem o debate:
Quem são as bruxas?
Onde se escondem elas?

Ontem, as bruxas eram comunistas, simpatizantes de comunistas, ou nem uma coisa nem outra. E se escondiam atrás da lealdade ao partido e a Moscou.Hoje, as bruxas são majoritariamente brancas, privilegiadas e cisgênero.

E se elas advogam liberdade de expressão para todos, isso significa, ipso facto, liberdade de expressão só para elas, que não querem ser criticadas.

Encontrar uma ponta de lógica nessa última frase é tempo perdido. A má-fé cria a sua própria lógica.
Gênios do cinema que sofreram estigmatizações ignóbeis 
Comecei pelo cinema, termino com ele. Em 1976, Woody Allen interpretou o melhor papel da sua carreira em filme de Martin Ritt. 

Falo de Testa-de-ferro por acaso e o personagem de Woody, Howard Prince. 

Ele é, como o título indica, um testa-de-ferro de um roteirista perseguido por Joe McCarthy. O que significa que Howard assina os roteiros como se fossem da sua autoria e recebe uma percentagem pelo serviço.

Até ser intimado a depor no Comitê de Atividades Antiamericanas. A sessão de perguntas e respostas é antológica.

Mas mais antológica ainda é a forma como Howard termina com a farsa: não reconhece legitimidade aos inquisidores e se despede deles com um intraduzível you can all go fuck yourselves.

Em 2020, e contra os novos caçadores, eis a resposta que não envelheceu uma ruga. (por João Pereira Coutinho)
Frase lapidar de Rosa Luxemburgo, que captou no nascedouro o desvirtuamento do regime soviético
Toque do editor — Depois de tudo por que passei em 1970 nos porões da ditadura e dos quatro processos a que respondi em auditorias militares durante uns três ou quatro anos, afora um patético quinto processo de caráter censório por minha atuação jornalística no início dos '80, só poderia ser, como sou, totalmente contrário a qualquer tipo de censura e ad hominem, provenha da direita, do centro ou da esquerda, dá tudo no mesmo. Censores são, antes e acima de tudo, censores. 

Devemos combater com argumentos as opiniões das quais discordamos, não amordaçar os que as defendem. 

A esquerda existe para alçar a humanidade ao reino da liberdade, não para promover retrocessos históricos. 
Ele deveria é ter dito you can all go fuck yourselves

Somos herdeiros do Iluminismo, não da Santa Inquisição.

Isto várias vezes me colocou em choque com o politicamente correto, que eu rebatizei de patrulhamento cricri. E continuo convicto de que devemos é mudar o mundo, ao invés de perdermos tempo policiando a forma como as pessoas se referem às coisas do mundo. 

Quanto mais depressa desencanarmos dessas besteirinhas, mais chance teremos de obter êxito nas batalhas que realmente precisamos vencer. 

Pouco importa se os negros são chamados de pretos, crioulos, afrodescendentes, etc. Importa mesmo é que morrem quando um policial pisa no pescoço deles. 

Então, ocupemo-nos antes do mais difícil: darmos um fim aos abusos e à truculência dos policiais, por exemplo. Assassinar reputações pela internet é fácil, basta não ter escrúpulos em atacar os outros pelas costas ou depois de mortos.  (por Celso Lungaretti)  

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

DALTON TRUMBO DERA ALGUMAS VACILADAS, MAS LUTOU COMO UM LEÃO CONTRA O MACARTISMO.

Ao embarcar para o cumprimento da pena (ficou preso 11 meses)
Trumbo - lista negra, que acaba de estrear nos cinemas paulistanos, aborda acontecimentos históricos importantes e que até hoje são pouco mostrados ao grande público (*). Tomara que, juntamente com Ponte dos espiões (d. Steven Spielberg, 2015), abra caminho para obras com propostas mais ambiciosas e maior densidade artística. 

Lembra a histeria anticomunista que tomou conta dos Estados Unidos a partir de 1950, com foco numa de suas principais vítimas na indústria cinematográfica, o roteirista Dalton Trumbo.

A 2ª Guerra Mundial terminara com duas novas potências ascendendo inesperadamente ao primeiro plano, enquanto Inglaterra, França, Alemanha e Itália despencavam. O noviciado custou caro: passamos perto de uma guerra nuclear que provavelmente nos devolveria para as cavernas.

Os EUA acreditaram --e fizeram seu povo acreditar-- que a supremacia atômica seria suficiente para manter os soviéticos quietinhos no seu lugar, mas dois choques de realidade os abalaram profundamente: em agosto de 1949, a URSS entrou para o clube nuclear, testando com êxito seu primeiro petardo; e dois meses depois a revolução triunfou na China, com Mao Tse-tung assumindo o poder.

O macartismo foi uma reação típica de cidadãos imaturos e acovardados, face a uma surpresa das mais inquietantes; tinham de achar bodes expiatórios, malhar alguns Judas, enquanto tentavam afastar de suas mentes a paúra de virarem pó ou tochas vivas, como os moradores de Hiroshima e Nagasaki.
Dando depoimento hostil aos caçadores de bruxas

As vítimas mais estridentes desta caça às bruxas extemporânea foram dois comunistas de passeata que levaram recados de um lado para outro, tendo desempenhado papel dos mais insignificantes na transmissão de segredos atômicos aos soviéticos. Hoje é ponto pacífico que foram grandes cientistas os autores da proeza, temendo que a concentração de tamanho poder destrutivo nas mãos de uma única nação acarretasse outros massacres dantescos. Quiseram criar um equilíbrio do terror.

Como pegava mal os EUA torrarem luminares da ciência, despacharam o pobre casal Rosenberg para a cadeira elétrica e fizeram vistas grossas à infidelidade dos gênios. Pessoas próximas aos três líderes do projeto nuclear estadunidense (Robert Oppenheimer, Enrico Fermi e Leo Zsilárd) é que vazaram os segredos, sabe-se lá se com ou sem a anuência dos ditos cujos. Quem pagou o pato foram os estafetas.

Sob a batuta do senador Joseph McCarthy, tendo como fiel escudeiro Richard Nixon, armaram-se investigações espetaculosas da infiltração comunista em campos de atividades mais salientes, como o cinema (quando essa corja quis fazer o mesmo com as Forças Armadas, levou um pontapé nos fundilhos, pois os militares jamais consentiriam que tal circo debilitasse o sistema de defesa do país).

Enquanto isso, milhares de infelizes dedicados a atividades menos atraentes para a mídia também comiam o pão que o diabo amassou, submetidos a investigações governamentais ou privadas, perdendo os empregos e a saúde, vendo suas famílias esfacelarem-se e, levados ao fundo do poço, se matando. Desses pouco se falou na época e seu martírio não inspira filmes hoje. Foram os destruídos anônimos.
O Trumbo verdadeiro...

Sob pressão da imprensa e de associações fascistoides semelhantes à TFP daqui, os grandes estúdios cinematográficos cederam, colocando muitos profissionais brilhantes numa lista negra que, em tudo e por tudo, lembrava o index no qual a Igreja medieval sepultava obras tidas como heréticas. Assim como o calvário dos perseguidos, presos, discriminados, maltratados, humilhados e ofendidos tinha muita semelhança com o festival de horrores da Inquisição.

O filme apresenta um dos principais roteiristas da época, Dalton Trumbo, atravessando sofridamente a intempérie e fazendo da luta para resgatar sua carreira uma batalha contra a própria existência da lista negra. É comovente, claro, e o ator Bryan Cranston está simplesmente perfeito no papel. Merece muito mais o Oscar do que Leonardo DiCaprio.

Já o diretor Jay Roach e o roteirista John McNamara desperdiçaram ótima oportunidade de criarem uma verdadeira obra-prima, ao heroicizarem demais seu herói, na melhor tradição hollywoodesca.

A partir do momento em que se tornou vítima do marcatismo, Dalton Trumbo foi exemplar e digno, ponto final.

Antes, contudo, tinha sido um stalinizado típico. É mostrado a discursar numa greve por aumento de salários, mas a influência esquerdista nos estúdios serviu também para torpedear a realização de filmes que criticavam o grande ditador do Kremlin, como dois projetos derivados de obras do escritor Arthur Koestler, aliás um dos alvos da caça às bruxas que também houve no lado de lá. Ironias da História.

Pior, quando a União Soviética enfrentava os nazistas, Trumbo virou falcão convicto: não só mandou a editora cessar a distribuição e recolher as edições restantes nas livrarias do seu velho livro pacifista Johnny vai à guerra (o qual se tornara inconveniente naquele momento em que os comunistas ansiavam pela entrada dos EUA na guerra e muita gente estimulava a neutralidade face ao conflito europeu), como denunciou ao FBI o nome de pessoas aparentemente simpáticas ao nazi-fascismo que lhe escreveram tentando obter edições da sua obra. Isto lhe seria cobrado até o fim dos seus dias e ele admitiu que se tratara de uma terrível vacilada.
...aqui, com o bigode raspado.

O lado negativo que aparece no filme, para aparentar alguma isenção, é o de que, a certa altura, Trumbo praticamente tiranizou a família, exigindo dedicação integral da mulher e filhos à sua cruzada para continuar exercendo a profissão na moita.  Mas, naquelas circunstâncias, isto era mais do que desculpável, um pecadilho. Já se tornar censor da própria obra e dedar à polícia os interessados em adquirir seu livro foram pecados mortais.

Assim como é indesculpável a fita dar a entender, para maior glória do cinebiografado, que foi Dalton Trumbo a primeira vítima do macartismo cinematográfico a desafiar ostensivamente a lista negra.

Tal primazia coube ao também roteirista Carl Foreman em 1952, no superlativo Matar ou morrer (d. Fred Zinnemann), tão acachapante que despertou ira exacerbada nos reaças de carteirinha assinada como o John Wayne.

Nele, um xerife (Gary Cooper) é ídolo na sua cidade, mas não recebe apoio de ninguém quando está na iminência de enfrentar quatro temíveis pistoleiros. Os conhecidos e amigos de uma vida inteira tiram o corpo fora, exatamente como ocorreu no auge das perseguições macartistas a figuras queridas de Hollywood. O xerife sai da encrenca ajudado apenas pela esposa e, ao partirem para sempre, atira a estrela de lata no chão, enojado.

* Filmes sobre o macartismo que vale a pena assistir: Testa-de-ferro por acaso, Culpado por suspeita e Boa noite, boa sorte.
Related Posts with Thumbnails