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quinta-feira, 30 de novembro de 2023

GOVERNABILIDADE PARA QUÊ?


 Há um consenso de que não dá para governar o Brasil sem se ceder às exigências do parlamento, pois esse jamais terá hegemonia partidária da esquerda, e isso ocorre em todo o mundo com maior ou menor intensidade. 
Mas, apesar disso, todos querem que o pé de laranja dê manga, ou seja, que haja governabilidade mesmo dentro dos parâmetros existentes. 

A direita ocupa sempre majoritariamente as cadeiras do parlamento, não porque os eleitores do Brasil sejam majoritariamente de direita, porque, se o fossem, Lula não teria ganho as eleições, mas porque as eleições proporcionais são manipuladas pelo poder econômico e político do Brasil profundo, onde imperam os chamados currais eleitorais.  

A grande maioria dos deputados federais e estaduais não se elegem por relevantes serviços prestados à comunidade, mas pela compra de votos junto aos chefetes políticos locais e verbas federais ou estaduais que conseguem liberar para os seus municípios e com isso obterem, ambos, o dinheiro das comissões pagas pelas empreiteiras visando às eleições que ocorrem a cada quatro anos para prefeitos e parlamentares em datas alternadas.   

Há parlamentares que se elegem sem comparecer regularmente aos estados pelos quais foram eleitos, e moram em Brasília e em alguma grande capital brasileira sem que os seus leitores sequer tenham ouvido falar em seus nomes.  

O que estou afirmando não é nenhuma novidade e todos sabem disso.  

Mas porque insistimos em considerar democrático tal processo?! É que normalizamos a corrupção política, bem como, na visão do eleitor incrédulo ou ingênuo, que o poderio econômico eleitoral é o momento propício para a  obtenção de algum benefício direto.  

É simplesmente imoral a verba eleitoral dos partidos políticos recentemente aprovada pelo TSE em proposta do orçamento federal de R$ 1,2 bilhões - já foi de mais de R$ 2 bilhões, e diminuiu um pouco por conta do escárnio à nossa inteligência o que isso representa - num país com renda média mensal dos assalariados, segundo o IBGE, em torno de R$ 2.533,00, o que bem demonstra a nossa pobreza coletiva, se considerarmos a grande desigualdade de salários de uns e outros. 

Podemos constatar, pelo baixo nível de renda per capita, que a grande maioria do eleitorado apenas sobrevive miseravelmente e aguarda o momento da eleição para obter um ganho ilusório qualquer. 

Se dividirmos a verba partidária pelo número de deputados federais, veremos que cada um deles custa anualmente aos brasileiros cerca de R$ 2,4 milhões para defender os interesses da cidadania democrática. 

O que você acha que os partidos políticos brasileiros, que mais parecem empresas privadas com um dono na presidência, fazem com essa dinheirama?! 

Tudo converge para um processo eleitoral parlamentar viciado, e essa é a razão de termos no parlamento muitos elementos cujos currículos pessoais fariam qualquer pai de família zeloso do futuro de sua filha alertá-la para o mau casamento, caso pretendesse escolher um desses para casamento e vida familiar.  

Mesmo nos partidos de esquerda os candidatos mais combativos e líderes comunitários ou de movimentos sociais apenas servem de escada para o pequeno número dos seus companheiros que se elegem porque atuam com mais desenvoltura nestes quesitos de relações políticas interioranas de influência maléfica e compra de votos.  

O problema não para por aí. Há o lobby parlamentar das grandes corporações setoriais; dos grandes interesses econômicos; e até mesmo do crime organizado que financiam candidatos e os elegem.  

A democracia burguesa funciona assim, e há quem ainda diga que é um mal menor, ou seja, que fora disso é a ditadura! Um engano assombroso! 

Tenho dito repetidamente que o governante não governa, mas apenas se equilibra no poder tal qual um surfista que apenas se equilibra na onda para cegar à praia, sem alterar em nada a força da sua natureza.  

O estado nacional é uma criação do republicanismo burguês, doutrina tida e citada como princípio e código moral e ético de conduta pelos luminares do poder institucional a ser seguida e obedecida.  

Na verdade, a política institucional não tem soberania de vontade, vez que é dependente dos impostos que cobra e extrai da vida econômica burguesa, por ela mesma injusta e socialmente segregadora, e tudo faz e age no sentido não apenas de sua preservação, mas do seu desenvolvimento como remédio charlatão que serve para a cura de todas as doenças.  

Do Papa a Lula; do economista e líder dos sem-terra, João Pedro Stédile, ao chefe do Gabinete do ódio, Carlos Bolsonaro, o Carluxo, todos querem o desenvolvimento econômico, cada um à sua maneira, como se a preservação da relação social sob a forma-valor fosse algo tão natural como tomar água e se alimentar diariamente.         

Como toda unanimidade é burra, já dizia Nelson Rodrigues, acho que todos os capitalistas deveriam eleger um novo Deus para adoração, porque o deus valor, no seu processo de autodestruição, quer matar. e está matando, a sua própria criação: todos os serem humanos que o adoram e a ele estão subjugados. 

 É dessa forma que todos querem que o pé caiba no sapato, independentemente do tamanho desse último, vez que estão todos inseridos num mesmo contexto basilar, ainda que professem credos diferenciados. 

O Estado é apenas a instância reguladora e regulamentadora de uma ordem econômica que lhe é subjacente e que pauta os seus procedimentos sempre dentro do desiderato de manutenção de sua existência como modo de relação social. 

Quando se obedece ao preceito do ajuste fiscal, por exemplo, como acabou de se aceitar no governo Lula, tal procedimento é a régua econômica que determina que o Estado não pode gastar além do que arrecada , ainda que quem emita moeda forte possa fazê-lo sem ter problemas mais graves de inflação, porque a exportam e todos a aceitam ingenuamente. Tal obediência mais não é do que a subjugação governamental a duas regras básicas: 

1) imposição da lógica ditatorial capitalista para a preservação das finanças do Estado, que assim mesmo está falido, como sentinela da ordem econômica do capital; e 

2) manutenção da credibilidade do padrão monetário estatal por ele emitido como fator indispensável à relação social capitalista.  

  Ainda outro dia assisti a um debate no qual o interlocutor de esquerda exaltava os ganhos obtidos com a vitória do Lula no campo das conquistas sociais, bem como das posturas humanistas que recolocaram o Brasil num conceito de país mais civilizado e acolhedor de todas as etnias e credos. 

Dizia ele, entretanto, que isso não era bastante, porque a direita além de estar crescendo, tem atualmente uma militância popular que lhe confere alguma legitimidade, representada pelo crescimento e união de neopentecostais, viúvas da ditadura miliar, ruralistas latifundiários, empresários do agronegócio, setores beneficiados com subsídios e/ou isenções fiscais, etc.  

Até aí estava tudo bem, mas a solução por ele apresentada era a conscientização da população de que deve se opor a esse crescimento mediante uma estrutura de organização de base conscientizadora, sem dizer exatamente os conceitos dessa conscientização, deixando parecer que tudo seria apenas uma questão de ação política popular menos preguiçosa e mais ativa, e de modo a se estabelecer um governo estatal, mas tão popular que fosse capaz de se tornar independente da conciliação com os donos do parlamento e do PIB.  

Algo assim como se tudo fosse uma questão de competência administrativa da esquerda institucional, mesmo sob as velhas bases de relações sociais escravistas, que se deduz que o entrevistado considera, equivocadamente, como possíveis de ocorrer se se derem numa correlação de forças majoritárias de esquerda apoiada pela população. 

Admitindo que no governo Lula a economia vai melhorar, citava ele como exemplo de sua cruzada conscientizadora contra a conciliação a ineficácia da conciliação política havida no governo Dilma, que resultou em sua queda num golpe de direita.  

Concordo, como de resto venho demonstrando em inúmeros artigos, que há que se conscientizar a população, mas não podemos querer que as coisas se consertem e obtenhamos apoio popular permanente para um projeto político fadado ao fracasso se não combatermos as causas e estruturas que lhe dão sustentação. 

Assim, considero que: 

- a economia brasileira globalizada, ainda que venha a ter melhorias pontuais, não resistirá à depressão econômica internacional, aliada aos efeitos danosos do aquecimento global e guerras, e tende a sofrer dificuldades ao longo do mandato de Lula; 

-  há que se fazer um esforço comunitário para que a população seja conscientizada sobre o fato de que no capitalismo não pode haver estado democrático e um governo daí derivado que seja capaz de protege-la e, principalmente, sobre a essência e raiz dos seus problemas de modo a que possa se livrar do fetichismo da mercadoria, que tal qual os apostadores da loteria, promove prognósticos esperançosos mas inatingíveis de riqueza individual;   

- acabar com o eterno pêndulo entre direita e esquerda institucionais, que atuam sob uma mesma base, e sem que nenhuma das duas possa oferecer alternativas de soluções dos problemas sociais e ecológicos que nos afetam e que aumentam a cada dia e de modo cada vez mais acentuado e contundente. 

A conscientização tem que se dar pela negação do negativo! (por Dalton Rosado)   


 

sábado, 23 de setembro de 2023

O ESTATISMO É IRMÃO GÊMEO DO PRIVATISMO NA MANUTENÇÃO DA SOCIEDADE CAPITALISTA

 


O mundo vive hoje um daqueles momentos da história nos quais se observam a falência dos paradigmas estabelecidos como válidos e imutáveis e se escancaram as falácias dos conceitos que até então eram tidos como corretos. 

É que o processo dialético da existência humana em suas relações sociais estabelece critérios de sociabilidade e da própria existência que mesmo que não sejam convenientemente observados, terminam por criar impasses de tal forma contundentes que terminam por vir à tona como as lavas de um vulcão em ebulição a expelir fogo desde o interior de suas profundezas.  

Trata-se da inconciliabilidade entre o conhecimento adquirido coletivamente e as velhas práticas que tornam essas últimas insuportáveis diante do novo que se impõe como necessário.  

O recente encontro da ONU em Nova Iorque, que reuniu a maioria dos representantes políticos das nações, num mundo de nações desunidas pelo capital, demonstrou a incapacidade dos organismos internacionais de fazerem proposições substantivas, capazes de debelarem problemas como: 

- o aumento da fome no mundo em meio a tantos avanços tecnológicos, como contradição explícita do uso indevido do saber em benefício da humanidade; 

- o aquecimento global que tem causado graves transtornos - inclusive aos países ditos ricos -, fruto de uma renitente emissão de gás carbônico na natureza pelo processo de industrialização e produção de mercadorias voltado para a competição na destrutiva guerra da concorrência de mercado; 

- a emigração de populações do sul global para o norte em busca de trabalho abstrato extrator de mais-valia, única forma imposta como modo de obtenção de recursos para o atendimento das suas necessidades básicas de consumo, e de empregos escassos que já têm diminuído substancialmente até mesmo nos países que detêm hegemonia econômica - ao invés de se eliminar empregos, trabalhos abstratos produtores de valor, buscam-se desesperadamente os ditos cujos; 

- as guerras mundiais que se transformam em carnificinas humanas que bem demonstram o grau de incivilidade que grassa nas relações internacionais ditadas pelo poder econômico em crise;  

- a violência urbana, o alto índice de criminalidade, crescimento do crime organizado e consumo de entorpecentes, fenômenos que são tratados como casos de polícia pelas nações que já não têm como conter este fenômeno mundial, mais expressivo nos países empobrecidos, a grande maioria; 

-  precarização da habitação urbana, com aumento dos favelamentos e cortiços fruto da incapacidade das populações empobrecidas poderem ter acesso à moradia digna, que é também um dos fatores responsáveis pelo crescimento do número de moradores em situação de Rua. 

Ufa!!! Paremos por aqui na citação de desgraças que todos conhecemos e que infelizmente nos acostumamos a conviver equivocadamente com elas como se fossem naturais ou apenas decorrentes de más administrações públicas ou da corrupção com o dinheiro dito público.   

Diante de um quadro como esse, o que é um estadista, ou seja, alguém que enquanto representante de uma nação se torna líder no concerto das nações?  

O Estadista mais não é do que um estatista;  

- o estatista nada mais é do que alguém que, sendo neoliberal ou neokeynesiano, positiva o Estado e o entende como ente capaz de cobrar impostos para prover as necessidades básicas da coletividade, que jamais são atendidas substancialmente, e induzir o crescimento econômico - ora impossível de ser retomado - procedimento que representa a tentativa da cura do mal com uma dose maior do próprio mal, ou seja, mais capitalismo predador da natureza graças à guerra fraticida da concorrência mundial de mercado e mais tecnologia industrial aplicada à produção de mercadorias, fenômeno que cria o desemprego estrutural, numa demonstração da irracionalidade e contradição de um sistema que cava a sua própria sepultura; 

- o estatista neokeynesiano é adepto da ideia de que o Estado deve ser dono de alguns dos meios de produção de mercadorias - possivelmente de todos -, quando o que se sabe é que o conceito utilitário e oportunista da forma-mercadoria, que mais vê o lucro do que a satisfação do consumo, contrasta com o sentido humano de estrutura jurídico-constitucional da vida social e da produção coletiva de bens indispensáveis à vida;   

- o estatista neoliberal quer o Estado mínimo, economicamente forte, sem grandes preocupações de atendimento às demandas sociais, tudo para melhor deliberar sobre a proteção e manutenção do capital privado, sem compreender ou querer aceitar a evidência de que tal modelo mercadológico está falido.    

Assim, todo estadista é estatista, num modo ou no outro;  

- todo estatista é defensor do Estado opressor cobrador de impostos que somente pode advir da economia capitalista;  

- toda a economia capitalista é baseada na extração de mais-valia que é a apropriação indébita do valor produzido individualmente e coletivamente; 

- toda apropriação indébita de mais-valia é o que propicia a reprodução e acumulação pretensamente infinita do capital e sua reprodução contínua promotora da segregação social advinda deste roubo; 

- todo estatista é nacionalista; 

- todo nacionalismo é xenófobo;    

Diante de tudo isso é legítimo alguém se pretender estadista? 

Lula tem tal pretensão de ser considerado estadista e isto está muito claro nas suas constantes andanças mundo afora, inclusive se apresentando como mediador pacifista voluntário da guerra da Rússia contra a Ucrânia, com facciosismo pró-Rússia e China tão evidente e extemporâneo quanto inadequado ao conteúdo de suas falas. 

 Fala em promoção da paz e não compreende que o capital, móvel da guerra, com seu pretendido desenvolvimento econômico, é um contraditório e fratricida instrumento de mercado, que não raro descamba para a guerra por detenção de hegemonia econômica, que agora se expressa na formação de blocos econômicos em disputa pelo espólio da decadência capitalista.  

Nenhum legítimo pensamento emancipacionista de esquerda pode conceber como válidos os critérios aqui criticados e invalidados, a menos que o interesse político partidário e o apego às exauridas tetas estatais e corporativas causem uma cegueira diante do óbvio.  

Lula é estadista?  

Se não é, pode vir a sê-lo, mas o que isso representa para uma visão emancipacionista na qual se propõe a libertação contra a opressão do Estado quando: 

- se propõe a superação da corrupção original da extração de mais-valia, que não pode ocorrer senão pela superação da trabalho abstrato, tão incensado por capitalistas keynesianos ou liberais e sindicalistas, célula primária da sociedade do capital, que segrega, destrói a vida, a natureza e, por fim, se autodestrói? 

- se propõe superação da cobrança de impostos a uma população economicamente exaurida por múltiplos fatores? 

- se propõe a superação da ordem institucional parlamentar burguesa, tão identificada no Brasil pelo bloco denominado centrão de tantas posturas antipovo? 

-  se se propõe uma ordem jurídica constitucional descentralizada, de base, que não suporta estadistas ou salvadores da pátria?  

- de um ordenamento jurídico substantivo que seja consentâneo com a melhor ideia de justiça civil, que não pode ser outro senão contra o direito burguês que faz firulas jurídicas doutrinarias para justificar o injustificável? 

- se propõe um sistema de produção de bens e serviços voltados para a satisfação plena das necessidades sociais de consumo e que não tenha como critério único de produção a viabilidade econômica geradora de lucro destinado à acumulação excludente? 

Sou antiestadista porque sou antiestatista!

Sou antiestatista porque sou contra o Estado, suporte institucional do capital; 

Sou anticapitalista porque sou contra a segregação social da abstração valor econômico, trabalho abstrato, dinheiro e mercadorias - e sou, evidentemente, antitrabalhista, porque quero a superação do trabalho e não apenas defesa hipócrita de seus direitos e permanência existencial.  

Assim, não há como convergir como o coro de dizer amém da esquerda institucional, estatista, e até com a Rede Globo de hoje, que difere um pouco da rede globo que filmava as prisões e aplaudia a lava jato, não? (por Dalton Rosado) 

sexta-feira, 19 de maio de 2023

MÃOS AO ALTO, CIDADÃO!

 

Pedi um veículo por aplicativo e logo após a caminhada o motorista reclamou dos buracos existentes na periferia para a qual eu me deslocava. O motorista aborrecido afirmou que o que ganhava, após pagar a taxa da empresa de aplicativo que usava o veículo do condutor para ganhar dinheiro, mal sobrava algum para o conserto do carro em razão das avarias causadas pela precariedade da malha viária naquele subúrbio. 

Conversa vai, conversa vem, perguntei-lhe se sempre fora motorista, me afirmando ele que havia trabalhado no escritório de uma empresa de ônibus interurbano que havia fechado as portas por conta da falta de usuários que pudessem pagar as passagens cada vez mais caras. 

Disse ser formado em administração e que agora ganhava menos, mas estava se virando nos trinta para sobreviver por falta de um emprego melhor. 

Ali estava um exemplo claro do que os novos nichos de emprego, mesmo mais mal remunerados, como os criados pelos aplicativos de transporte urbano mais baratos, eram infinitamente menores do que aqueles causados pela alta tecnologia cibernética criada pela microeletrônica.  

Os novos empregos criados, minoritários em relação ao total dos empregos perdidos, e pelo mesmo motivo, ou seja, pela tecnologia aplicada à produção de mercadorias e serviços, é a mais explícita contradição da lógica capitalista. 

Ao mesmo tempo em que engorda os lucros privados das empresas que buscam na tecnologia a redução de custos na produção de mercadorias e serviços, é também o mecanismo irreversível pelo qual é reduzida a massa global de lucro e mais valia, únicas capazes de promover o necessário aumento constante da massa de valor válida.  

A massa de valor global tem que ser necessariamente aumentada de modo constante, sem a qual não pode ocorrer a irrigação da economia de mercado, que, igual ao ser humano diante da falta de sangue no organismo, desfalece e morre.  

A emissão de moeda sem lastro, desconectada da produção de mercadorias que lhe autorize a emissão substanciosa, como sabemos, causa inflação, que é a tormenta existente hoje até nos países de moedas fortes, ou pretensamente fortes, que apenas se sustentam para sobreviver na credulidade dos governantes e rentistas dos países da periferia capitalista.  

Tem prazo de validade pré-determinada, e que está prestes a se esgotar, a conhecida subserviência governamental à ordem capitalista mundial pelos países da periferia capitalista, que diante da chantagem do sistema bancário internacional , o qual ameaça cortar a rolagem das dívidas que sustentam tais governantes submissos, aceitam as moedas ditas fortes e sem valor como se fossem válidas, tal como alguém que renegocia uma nota promissória de vencimento no longo prazo por uma emitente falido. 

A constante rolagem da dívida pública, seja com juros escorchantes como aqueles cobrados aos países pobres, ou mesmo com juros baixos ou até negativos para os países ricos, é mecanismo artificial com data futura de esgotamento e colapso.  

Entretanto, como tal desfecho falimentar da mediação social pela forma valor anêmica vem sendo prologado por conta da falta de um movimento revolucionário que pense e aja fora da caixa burguesa institucional e eleitoral, infelizmente aceita como alternativa democrático burguesa ao famigerado fascismo, numa polarização fora de foco, é o cidadão metido nesta camisa de força quem mais sofre, atribuindo a si mesmo uma culpa individual que não tem.  

Ao cidadão submetido à relação social capitalista incidem dois grandes processos de espoliação:  

- (i) a cobrança de impostos cada vez mais agressivos por conta da falência do Estado;  

- (ii) a extração de mais valia, que tem montante cada vez menor em face do desemprego estrutural causado pela contradição a que antes aludimos - alta tecnologia aplicada à produção de mercadorias e serviços. 

O cidadão espoliado pelo capital e seu Estado, paradoxalmente, mendiga e agradece a dois senhores:  

- ao capital que já não lhe oferece um emprego, hoje cada vez mais escasso e que o obriga à aceitação de tal exploração na lei da oferta e da procura, ou seja, da compra e venda da mercadoria força de trabalho humana assalariada - vide Marx, mais atual do que nunca, que afirmava que o exército de desempregados conspira contra o trabalhador empregado; 

-pela presença do Estado que o oprime a lhe proporcionar serviços na segurança pública, educação e saúde, serviços básicos de precária ou impossível efetividade, sem falar nos outros importantes que lhe são negados como infraestrutura urbana de circulação (daí a buraqueira na periferia) e habitacional, e serviços de cultura, esportes, lazer, etc. 

Enquanto isso, prega-se a volta da impossível retomada do desenvolvimento econômico e medidas de convivência civilizatória como contraponto à insensatez bárbara fascista e ao pensamento liberal burguês sempre ávido por governos ditatoriais nacionalistas xenófobos, racistas, misóginos, e retrógrados mantidos pela força das armas militares - que também existe como proselitismo de defesa dos oprimidos. 

Os governos conservadores - intitulados como liberais nos Estados Unidos e outros países da Europa, num sentido diferente daquele que por aqui lhe atribuímos ao termo -, vitoriosos pelo voto ou pela força ditatorial das armas, querem o estado mínimo como forma de concentrar recursos na infraestrutura de produção de mercadorias, gastos institucionais de incentivo à estrutura de poder que o sustenta e gastos militares.  

Nesse sentido, pregam a indispensabilidade do Estado na prestação de serviços como segurança pública, educação e saúde por empresas privadas remuneradas por particulares ou pelo próprio Estado (a chamada terceirização), tudo dentro do desiderato de promoção da economia capitalista. 

Os governos mais à esquerda querem um Estado forte, empresarialmente estatizante, pretensamente capaz de prover as necessidades do cidadão pagador de impostos. 

Como se vê, os pressupostos capitalistas de Estado, empresa estatal produtora de mercadoria e serviços e cobrança de impostos, estão claramente estabelecidos em ambos os projetos políticos.  

O que os une umbilicalmente é a existência do estado, da forma mercadoria (portanto capitalista) e dos impostos a serem cobrados ao cidadão exaurido economicamente, fatores que dão sustentação à ordem político-jurídico-constitucional estabelecida em ambos os projetos. 

O Estado é sempre opressor justamente porque se assenta sobre uma base de exploração do cidadão escorchado pelos fatores antes elencados. 

Acaso tivéssemos uma sociedade livre da opressão burguesa-estatal, na qual os indivíduos sociais fossem senhores de suas vontades e esclarecidos de modo a exercerem a sua soberania de vontade em uma ordem de produção social compartilhada e jurídico-constitucional horizontalizada, jamais agrediria a própria vida, expressa na sua subsistência cômoda e na sustentabilidade ecológica.  

O assaltante da esquina, que grita perdeu, playboy! de arma em punho ou o homem que cata restos de comida numa lixeira de bairro rico podem ser vítimas de uma mesma causa original: a exploração social e ordem jurídico-constitucional perversa do Estado, que tal como o meliante, nos diz: mãos ao alto, cidadão! (por Dalton Rosado)

quinta-feira, 13 de junho de 2013

O NOVO ESPONTANEÍSMO: PASSE LIVRE, OCCUPY, ESCRACHOS...

Acredito que valha a pena tornar mais conhecida uma resposta que dei no site do CMI (vide aqui) a um comentarista sectário e desrespeitoso para com o Jacob Gorender, a quem acusou de haver  jogado a toalha  quando defendeu a necessidade de um estado democrático, ao invés da abolição pura e simples do estado.

A frase que ele citou do Gorender, de 2006, foi a seguinte:
"Eu considero que o Estado não vai desaparecer. A sociedade moderna é de tal maneira complexa, constituída de segmentos, não só de classes sociais, mas são os idosos, os homens, as mulheres, os profissionais de várias áreas, a diferença entre países. Quer dizer, tudo isso exige uma escala de prioridades. E quem é que vai tomar a iniciativa disso? É necessário um órgão superior que é o Estado. E que seja um Estado democrático, obviamente. Por isso eu falo em democracia..." 
Preferi não partir para o bateboca costumeiro nesses fóruns virtuais, aproveitando, isto sim, a oportunidade para aprofundar o fulcro da questão. Creio que as colocações abaixo contribuem para a reflexão sobre caminhos possíveis para a esquerda, agora que os trilhados no século passado parecem definitivamente exauridos.

O ESPONTANEÍSMO PODERÁ TER UM NOVO PAPEL?

O Gorender, como eu, procurou uma alternativa ao esgotamento dos modelos revolucionários do século passado. Mas, ao erigir coletivos minoritários, conjugados, como o novo sujeito da revolução, parece-me ter superestimado o poder de fogo e a disposição para atuação conjunta dos comunistas, anarquistas, gays, militantes ambientais, feministas, idosos, negros, desempregados, estudantes engajados, jovens revoltados, adeptos da descriminalização da maconha, etc., etc. 

De certa forma, ele apenas substituiu o proletariado por essa espécie de   sujeito revolucionário múltiplo, mas manteve os  conceitos tradicionais, inclusive o da necessidade de uma vanguarda  regendo a orquestra  ao longo do processo, e também de um estado, ainda que democrático.

Partindo da mesmíssima constatação --a de que nossos desafios atuais exigem uma mudança profunda de estratégia e táticas--, eu cheguei à conclusão de que a era da internet faculta um novo tipo de  espontaneísmo, com o Movimento do Passe Livre, os Occupy, os escrachos de ex-torturadores e outros protestos articulados pela web, as respostas imediatas às medidas autoritárias (proibição da Marcha da Maconha) e a posicionamentos antipáticos (churrascão da gente diferenciada), etc.

Isto tudo não irá muito longe em circunstâncias normais, pois a indústria cultural vai continuar mesmerizando seus públicos, sem que tenhamos como furar o bloqueio e fazer a consciência penetrar nas grandes massas bovinizadas (pois submetidas à lavagem cerebral ininterrupta do sistema). 

Mas, com o agravamento da crise econômica capitalista e das catástrofes ambientais decorrentes das alterações climáticas, em meio ao caos que vai se estabelecer e à indignação dos viciados no consumismo quando sua  droga  escassear e eles sentirem os rigores da abstinência, poderá, sim, abrir-se uma  janela revolucionária. 

Então, esses grupos que desde já lutam nas ruas, com a experiência acumulada nos muitos confrontos que até então travarão, talvez somem forças para oferecer uma alternativa à sociedade. Ou seja, a vanguarda seria mais ou menos a que o Gorender anteviu, só vindo, contudo, a afirmar-se na fase superior, decisiva, da luta.  Por enquanto, os coitadezas por quem os manifestantes paulistanos lutam continuarão vendo-os como vândalos, pois assim falava Globotustra...

Na hora da verdade, contudo, estará em jogo a própria continuidade da espécie humana, que o capitalismo conduz diretamente à extinção.  Vamos torcer para que o instinto de sobrevivência, no frigir dos ovos, fale mais alto.

Por último: depois de tudo isto, haveria, com certeza, condições para substituir-se o estado pela democracia direta. Mas, difícil mesmo é chegarmos até lá. 

Então, não há por que nos digladiarmos desde já em intermináveis arranca-rabos sobre  o que virá depois. 

Darmos um fim ao pesadelo capitalista será uma tarefa coletiva; idem, a reconstrução da sociedade por cima dos escombros da exploração do homem pelo homem. Se as pessoas conseguirem se libertar dos grilhões atuais, decerto encontrarão, no momento certo, os melhores caminhos para a instauração de uma sociedade de homens livres, igualitária e justa.
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