Mostrando postagens com marcador cesárea. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cesárea. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 9 de abril de 2026

O QUE É PIOR, A NEGLIGÊNCIA HOSPITALAR OU O FANATISMO DE MADAMES?

Maria Luiza Bogo Lopes, uma jovem de Indaiaí (SC), com 18 anos de idade e grávida de sete meses, morreu após procurar atendimento médico em dois hospitais por quatro vezes, a primeira em 30 de março. O bebê também morreu.

O caso parece ser de negligência médica. Conheço um mais chocante ainda.

Visitando a minha mãe na Mooca, no final do século passado, li num jornal de bairro que uma mulher, após ter dado à luz duas vezes, estava tendo sérios problemas com a terceira gestação.

Procurou ajuda num hospital municipal da Vila Alpina, que atuava em parceria com uma associação de defensoras do parto natural. Graças à pressão delas, foi-lhe negada por quase um dia inteiro a cesárea que pedia aos berros por causa da dor que sofria. Finalmente, ela e o bebê morreram.
O caso ficou por isso mesmo, embora eu o tenha denunciado para toda a cidade de São Paulo. Quem se interessa pela morte de uma mãe de família pobre, que não conseguia sequer bancar uma cesárea? Quase ninguém.

Infelizmente, não sendo advogado, o que fiz foi pouco para que tais fanáticas fossem julgada por homicídio culposo. Meus textos não foram suficientes. 

Também com a negligência médica tive uma má experiência.

Minha primeira timpanoplastia foi bem sucedida, mas uns 10 dias depois fui num hospital especializado por causa de um ataque de labirintite. O plantonista, médico de fim de semana, inexplicavelmente jogou pressão no ouvido operado e o enxerto estourou. Para sempre. Tentei restabelecê-lo duas vezes, em vão. Perdera a única chance de consertar o estrago da repressão.

Tentei conseguir o depoimento de algum otorrinolaringologista para processar o hospital. Não encontrei. Até o que havia me operado tirou o corpo fora. O corporativismo é uma merda.   (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

PARTO NORMAL DEVE SER ESTIMULADO, JAMAIS IMPOSTO!

Já dizia o Joelmir Betting: "Na prática, a teoria é outra"...
No momento em que o Ministério da Saúde lança um novo pacote de medidas para reduzir o número de partos cesarianos no Brasil, vale a pena recordarmos um episódio ocorrido em meados de 2008.

Cristina dos Santos Cavalcante residia num bairro pobre da zona Leste paulistana, a uns 15 quilômetros do Centro. Tinha 29 anos e esperava sua segunda criança.

Fez o pré-natal na Unidade Básica de Saúde do Jardim Independência, da rede municipal. O nascimento do filho estava previsto para o dia 15 de junho.

A data chegou, passou... e nada. Então, recorreu ao Hospital Estadual de Vila Alpina. Mas, em cada consulta, diziam-lhe que estava tudo normal e deveria voltar dentro de dois dias.

Apesar de suas precárias condições financeiras, ela pagou por um ultra-som numa clínica particular. O exame revelou que o cordão umbilical tinha dado duas voltas no pescoço da criança.

Levou o laudo na consulta seguinte, às 9 horas do dia 27 de junho, sendo internada imediatamente.

Em vez de efetuarem logo uma cesárea, deram-lhe medicamentos para induzir o parto normal, que acabou ocorrendo somente às 23h20 (!).
Viúvo comprova a passagem por dois hospitais

Cristina teve então hemorragia e não havia médico capacitado para dar-lhe o atendimento correto. Os jovens residentes tiveram de chamar “um especialista”.

Quando este finalmente chegou, não havia vaga para Cristina na UTI.

Quarenta minutos depois (!!), levaram-na a uma sala de observação (!!!), na qual não havia equipamento nenhum. E foi lá que ela morreu, seis horas depois do parto.

Parte desse tempo foi desperdiçada com a repetição de exames de sangue que a paciente já fizera no mesmo hospital – como se, no momento da emergência, não houvesse a certeza de que o tipo sanguíneo dela fosse aquele que constava da sua ficha.

Segundo o viúvo Márcio Ferreira da Costa, a primogênita já nascera por meio de cesariana, "o que mostra que já não era muito aconselhável fazer o parto normal desta vez”. E acrescentou:
"Ela não tinha nada de dilatação. Minha mulher tinha a cintura muito fina e o neném nasceu com quase 4 quilos. Chegando na parte do ombro, o bebê travou e ficou cerca de 5 minutos sem respirar. Ao nascer, nem chorou, foi direto para os aparelhos".
O hospital registrou a morte como “natural” no 56° Distrito Policial - Vila Alpina.

Tomei conhecimento disso tudo pelo jornal Folha de Vila Prudente e, claro, fiquei indignado. Querendo mais detalhes, liguei para o repórter responsável pela série, Rafael Gonçalo, e fiquei sabendo que a proporção de partos normais no Hospital da Vila Alpina ultrapassava 75%. 

Era, em suma, o hospital escolhido pela Secretaria de Saúde como cartão postal das excelências do tal parto humanizado. Daí o empenho de uma rede de apoiadoras desta prática em abafar o caso; abarrotaram-me a caixa postal de críticas ao meu interesse pelo episódio, como se a morte de uma mãe por clamorosa negligência não devesse ser noticiada.
Cristina morreu. Sua filha ficou órfã. Alguém foi punido?

As fanáticas eram movidas por seu fanatismo, mas logo percebi que o empenho da Secretaria da Saúde não se devia apenas à obsessão em impor às coitadezas a solução tida como melhor para elas. Afinal, o parto normal sai muito mais barato para os cofres estaduais e a vida me ensinou que quem pensa o pior dos governos, quase sempre acerta.

Minha conclusão de então continua válida até hoje:
"...autoridades e fanáticas têm todo direito de tentarem persuadir as gestantes pobres de que o parto normal é melhor para elas, mas nenhum direito de forçá-las a abdicar da cesárea, se é o que elas preferem".
Espero que as novas medidas (e a forma como forem implementadas) respeitem o direito das pacientes de, certas ou erradas, darem a última palavra. 

Porque gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente!

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

SUBORNO TAMBÉM VALE NA CAMPANHA PRÓ-PARTO NORMAL

Tenho tomado conhecimento de um sem-número de relatos de famílias indignadas com a imposição do parto normal às gestantes na rede pública, ignorando seus protestos e súplicas, com terríveis consequências (morte ou danos graves à saúde da parturiente e/ou da criança).

O que pensei inicialmente tratar-se de uma iniciativa isolada da Secretaria da Saúde de São Paulo - cujo Hospital da Vila Alpina foi palco de vários episódios escabrosos -, é, na verdade, fruto de um empenho das autoridades federais no sentido de evitar a proliferação das cesáreas, que representaram 43% dos partos brasileiros em 2007, enquanto a média mundial é de 15%.

Minha convicção foi revorçada pelo artigo do professor de Clínica Médica da Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina, Antonio Carlos Lopes, publicado na edição de 12/09/2008 da Folha de S. Paulo: Parto normal ou cesárea?

Lopes, que também preside a Sociedade Brasileira de Clínica Médica, informa que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) "anunciou um pacote de supostos benefícios a vigorar a partir de dezembro na tentativa de incentivar o parto normal".

Assim, será oferecido às mães:
  • a presença do acompanhante antes, durante e após o parto;
  • quartos com até duas gestantes;
  • a possibilidade de o bebê ficar ao lado da mãe no quarto, se não houver impedimento clínico; e
  • a liberdade de escolha da mulher, também se não houver impedimento clínico, quanto à posição em que dará à luz (de cócoras ou deitada).
Sendo o Brasil como é, não me causa surpresa que, antes da tentativa de persuasão, já estivessem recorrendo à imposição pura e simples. O autoritarismo e o elitismo têm raízes profundas nestes tristes trópicos.

O respeitado especialista de 62 anos considera "nem sempre felizes" as propostas que estão sendo discutidas entre médicos, governo e sociedade para incentivar o parto normal, além de ressalvar que "a medicina determina algumas situações em que o médico tem, necessariamente, de optar pela cesárea".

E refuta veementemente que o projeto da Anvisa represente mesmo "uma tentativa de incentivar a humanização do parto":
- Humanização? Humanização tem origem na escola, no ensino médico de qualidade, na segurança e no conforto a todas as gestantes, independentemente da indicação clínica para o tipo de parto. A humanização deve contemplar maternidades e centros obstétricos e enfermagem obstétrica à altura do bem-estar materno-fetal. Também envolve extinguir as malfadadas casas de parto, que se prestam apenas aos menos favorecidos, enquanto os que as preconizam buscam para suas filhas e esposas as melhores maternidades e os melhores obstetras.

Minha posição é de que o Estado tem todo direito de fazer proselitismo em favor do parto normal, mas excede suas atribuições ao oferecer benefícios diferenciados às parturientes e comete um crime quando impõe o procedimento de sua preferência (coincidentemente, o de menor custo) àquelas que preferem a cesárea.

Afora os inúmeros casos denunciados em que o parto normal não parecia ser o mais indicado, foi imposto ARBITRARIAMENTE e acabou tendo resultados trágicos, eu defendo, inclusive, o direito da gestante de não querer passar pelas dores do parto.

Inexistindo impedimento clínico, cabe a elas - e a mais ninguém - decidir a intensidade de dor que estão dispostas a suportar.
Related Posts with Thumbnails