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quarta-feira, 10 de agosto de 2022

GUERRAS CONVENCIONAIS ESTÃO A UMA BOMBA DE DISTÂNCIA DO APOCALIPSE/1

dalton rosado
A TENSÃO DA GUERRA
O capitalismo é não só autodestrutivo, como também socialmente destrutivo.

Esta é a razão da tensão da guerra, que pode perigosamente escapar da sua versão convencional para a nuclear.

Atualmente tudo está a ocorrer dentro do mais tenebroso figurino da irracionalidade da relação social sob o capital.

O capital não é apenas individualmente assassino, mas genocida!

A China e as suas relações com o capital internacional não podem conviver no longo prazo com uma redução do PIB como está sendo anunciada para 2022, sob pena de ficar decretado o calote de sua dívida pública e privada, já impagável, que corresponderá a uma bomba atômica no mundo financeiro, não sem antes provocar uma tensão de guerra nuclear.

Os Estados Unidos, idem.

A Ucrânia é pretexto; Taiwan também. São importantes zonas de produção alimentar e tecnológica, mas que apenas revelam o que está por trás da ação de cada potência econômica: interesses mesquinhos e desumanos que o capitalismo fomenta.

Lembram do assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, uma pequena faísca que ateou o incêndio da 1ª Guerra Mundial?
Hiroshima depois da bomba

Ele e sua esposa Sophie foram assassinados no final de 1914, quando visitavam Saravejo,por ativistas sérvios que lutavam pela libertação das províncias eslavas sob dominação do império Austro-húngaro; almejavam a criação da Grande Sérvia, que seria futuramente a Iugoslávia.

É claro que estava em jogo ali não apenas a indignação pelo assassinato de um monarca imperialista, mas a tensão causada tanto pela reconfiguração do sistema de produção de mercadorias (que deslocava a revolução industrial inglesa para a disputa por hegemonia político-econômica pela Alemanha na Europa), quanto pela revolução fordista nos Estados Unidos.

Este incidente serviu como desculpa para a tentativa de dominação alemã da Europa, cuja resposta inicial da Inglaterra e da França (que tentavam manter os seus domínios) se alastrou mundialmente como gasolina em incêndio.

Há mais de um século, portanto, já existia, patrocinado pelo novo modo de produção industrial de mercadorias que se iniciava, o vírus letal da relação social da fase desenvolvida da forma-valor: o capitalismo industrial e financeiro.

Agora vivemos a era de terceira revolução industrial cibernética, que é bem mais destrutiva da essência da lógica do capitalismo do que a revolução industrial inglesa da metade do século 19 e a revolução fordista do início de século 20.

A robotização substitutiva do trabalho abstrato produtor de valor, seja na indústria ou na computação aplicada à área dos serviços, tem racionalizado procedimentos e dispensado a força de trabalho humana em níveis nunca antes vistos. 
Nagasaki depois da bomba
Isto é fatal para a economia capitalista. Máquina não produz valor e exige cada vez mais investimentos em capital fixo (não produzido globalmente na dimensão necessária (instalações, tecnologia, equipamento). 

Assim, à medida que decresce a massa global de valor em face da redução de custos e de valor das mercadorias no mercado global, isto provoca a crise do desemprego estrutural e o endividamento insolvável.

As dívidas públicas e privadas crescentes, que prenunciam a insolvabilidade até mesmo dos chamados serviços da dívida (leia-se juros cobrados aos países da periferia capitalista, os que estão fora do baile do G7), é importante fator que se agrega aos já citados.

Esse conjunto de fatores correspondem ao caráter contraditoriamente autodestrutivo do capitalismo.

Sendo inviável a permanência deste acelerado processo de autodestrutibilidade, ao invés de se criarem alternativas ao formato decadente de poder político-burguês e se buscar uma nova lógica de relação social, faz-se o contrário: como ocorria no início do capitalismo, intensificam-se as tentativas, por parte dos estados nacionais que pretendem deter hegemonia econômica pelas armas de fogo, de subjugarem os menos potentes, agora com a letalidade das armas nucleares. (por Dalton Rosado – continua neste post)
"A guerra, crianças, está a um tiro de
distância, a apenas um tiro de distância"

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

NUM ESTADO LAICO, HOMENS SANTOS SÃO INTOCÁVEIS APENAS PARA SEUS DEVOTOS

Não se nega aos crentes o direito de sentirem-se ofendidos com publicações, filmes, livros, etc., mas vale lembrar que nenhum deles é obrigado a ler o Charlie Hebdo ou ver A última tentação de Cristo

Os que o fizeram, provavelmente, foi em função do falatório e das polêmicas, para verificarem se era ou não verdade o que se dizia a respeito de ambos – já predispostos, portanto, à indignação.

No Ocidente, com a separação entre Igreja e estado, sua única iniciativa possível contra a fita era recorrerem aos tribunais. Felizmente, países contemporâneos à própria época (ou seja, que não estejam brigando com a modernidade) não censuram filmes por atentarem contra a imagem de personagens históricos que alguns consideram sagrados, outros não. 

Já vão longe os tempos em que católicos queimavam bruxas e lançavam cruzadas sanguinárias contra os infiéis, então, felizmente, nenhuma besta-fera foi encher de balas o diretor Martin Scorcese ou o ator Willem Dafoe (que interpretou Cristo).

Os responsáveis pelo semanário satírico, por sua vez, jamais fizeram o que seria, realmente, uma provocação: providenciar traduções e lançar edições direcionadas para países e contingentes humanos que vivem no século 21, mas continuam com a cabeça no século 6.  

A quais maometanos antes incomodavam, de verdade, os 60 mil exemplares do Charlie Hebdo comercializados apenas na Europa? Pouquíssimos, decerto. 

O que houve não foi nenhuma reação furibunda de indivíduos emocionalmente primitivos que estariam sentindo-se agredidos em sua fé, mas sim uma sanguinária e calculista demonstração de força de terroristas clássicos.

Ao chamá-los assim, diferencio-os dos combatentes que, em nome do seu povo e por ele apoiados, resistem pelas armas às tiranias que lhes são impostas pela força das armas, pois estes exercem seu legítimo direito de reagirem aos déspotas e ao terrorismo de Estado com que tais déspotas se mantêm no poder. 

A confusão semeada entre uns e outros foi um mero artifício dos serviços de Guerra Psicológica de ditaduras como a brasileira dos anos de chumbo

Os verdadeiros terroristas são aqueles que, como francos-atiradores dissociados das massas e sem estarem contribuindo para nenhum ascenso revolucionário, utilizam a violência apenas para punirem e intimidarem seus inimigos. Os dementes responsáveis pelo ataque covarde e vil ao Charlie Hebdo, p. ex., garimparam diligentemente, até encontrarem, um alvo condizente com a mensagem que queriam passar.

Terroristas clássicos obtêm muitos holofotes, mas sua pirotecnia quase sempre levanta a bola para o inimigo marcar pontos, além de eventualmente ter consequências catastróficas. No primeiro caso está, p. ex., a tentativa de matarem o czar Alexandre III em 1897, que redundou na execução do irmão do Lênin, Alexandre Ulianov, e de quatro de seus companheiros, além, é claro, de um previsível agravamento da repressão política.

E no segundo, tanto o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando por parte do
 mão negra Gravilo Princip em 1914, que conduziu aos horrores da 1ª Guerra Mundial; quanto o atentado ao WTC em 2011, responsável pela pior escalada global de estupro dos direitos humanos e perseguição a inocentes que os cidadãos de origem árabe já sofreram.
Atentado terrorista clássico que causou a 1ª Guerra Mundial

Marxistas e anarquistas há muito descartaram e se dissociaram do terrorismo clássico. Nos últimos tempos, contudo, contingentes desnorteados de esquerda que, trocando a coerência com o amadurecimento político que já haviam atingido pela mais tacanha
realpolitik, vêm cometendo uma dupla heresia (este termo retrô cai como uma luva no presente contexto...):
  • a de defenderem fundamentalistas religiosos que não querem, de maneira nenhuma, fazer a humanidade avançar para além do capitalismo, mas sim fazê-la retroceder para antes do capitalismo, ou seja, para as trevas medievais; e
  • a de defenderem terroristas clássicos e seus monumentais tiros pela culatra, tornando-se parceiros dessas derrotas e associando estupidamente sua imagem a carnificinas que qualquer cidadão isento repudia.
Caem no vazio suas tentativas de relativização de um episódio que foi, isto sim, totalmente bestial e absolutamente condenável. Quando alguém é chacinado por dá-lá-aquela-palha, buscar justificativas para o crime soa hipócrita e aberrante. Uma das diferenças entre nós e os animais é que, ao contrário dos touros, não temos nenhuma compulsão irresistível de destruir um semelhante apenas porque veste vermelho.

Reconheço e até admiro a boa fé de ingênuos religiosos, mas não perdoo os esquerdistas que abdicam do seu compromisso fundamental com a civilização, passando a raciocinar como simplórios torcedores de futebol ("Se é contra os EUA, a Europa e Israel, vale tudo, até gol de mão nos acréscimos, em posição de impedimento"...).

Por último:
 religiosos de ocasião e por conveniência à parte, como fica a questão das pessoas devotas que, sinceramente, sentirem-se insultadas em sua fé?

Ora, sendo nosso estado laico, homens tidos como santos são encarados, por quem não é devoto de tal religião, como personagens históricos (ou fictícios) iguais a quaisquer outros. 

Não cabe nenhuma forma de censura ou perseguição dos poderes públicos a quem trata Cristo ou Maomé da mesma forma que, digamos, Vlad Dracul e Hitler (os quais, aliás, têm lá seus defensores, mas 99,9% do que aparece sobre eles em filmes e publicações é extremamente negativo).

E, como a ninguém é dado o direito de fazer justiça com as próprias mãos no Brasil do século 21, só resta aos ofendidos o caminho dos tribunais e de iniciativas visando ao convencimento da opinião pública (desde anúncios pagos até campanhas virtuais incentivando o boicote aos
 blasfemos).

No fundo, o que os religiosos pretendem é que se conceda um tratamento diferenciado para quem eles consideram diferente. Mas, agnósticos, ateus e mesmo religiosos de outras confissões podem discordar (um neopentecostal admitiria, p. ex., Oxalá como similar a Jesus Cristo?). Então, não faz nenhum sentido, em termos legais ou morais, pretender que a imprensa não os ridicularize como ridiculariza outros personagens históricos do passado e do presente.

Podemos até achar que a irreverência é exagerada no seu todo, que a nossa imprensa pega pesado demais com Bolsonaro, ou que a francesa pega pesado demais com Marine Le Pen. O que não podemos é aceitar como válidos os piores achincalhes a Bolsonaro e à Le Pen e, ao mesmo tempo, não admitir a mais ligeira irreverência com Maomé.

Caso contrário, para que terão servido, afinal, 1945 e 1985 aqui, o iluminismo e a Grande Revolução lá? E de que valeu tantos resistentes morrerem lutando contra os nazistoides daqui e contra os nazistas de lá?

Pois eram todos expressões da intolerância, fanatismo e autoritarismo inseparáveis da tese da intocabilidade dos homens santos.

Além do mau humor e dos maus bofes, claro!
(por Celso Lungaretti)
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