quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A DITADURA TEOCRÁTICA IRANIANA REPRIME CINEASTAS, MAS ELES RESISTEM!

"
Me mandaram uma carta
pelo correio da manhã
e nessa carta me dizem 
que foi preso meu irmão
e sem compaixão, com grilhões,
pelas ruas o arrastaram, sim!

A carta disse o delito
que Roberto cometeu:
haver apoiado a paralisação
que já  havia terminado.
Se esse é um motivo, 
presa vou também, sargento, sim!"
(Violeta Parra, A Carta)
Foi preso em Teerã o cineasta Mehdi Mahmoudian, militante pelos direitos humanos e coautor do roteiro do filme iraniano Foi Apenas um Acidente, Palma de Ouro em Cannes, inspirado nos seus anos de prisão. 

Motivo da detenção: ter assinado um manifesto contra o ditador Ali Khamenei, o chamado líder supremo da ditadura teocrática iraniana.

Isso não é novidade no Irã: o diretor desse mesmo filme, Jafar Panahi, já passou um longo período na prisão e, se retornar ao Irã, terá de cumprir pena de um ano de prisão.

O Irã acaba de viver uma revolta popular, na qual foram presas 40 mil pessoas e executadas de 20 a 30 mil, por terem se manifestado nas ruas, que se tingiram de sangue. Foram dias de repressão, durante os quais até quem tentasse ajudar os feridos era aprisionado.

Revolta popular, censura de filmes, prisão de artistas nos lembram os anos negros da nossa ditadura militar, na qual houve violência e mortes contra os opositores.
Mehdi Mahmoudian, alvo da repressão teocrática.

Aqui não ocorreram, contudo, tantos óbitos como os registrados nestas últimas semanas, como consequência da atuação bestial do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica, que é como  o regime denomina sua polícia.

A ditadura iraniana foi criada em 1979 pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, tendo depois se transformado numa teocracia sanguinária.

Faz alguns dias, a União Europeia qualificou, de maneira unânime, esses Guardas da Revolução como movimento terrorista.

Interessante lembrar que o filme Foi Apenas um Acidente poderia ser resumido como o rapto e detenção de um importante torturador do regime iraniano por suas vítimas. Como se os brasileiros torturados no Doi-Codi tivessem capturado seu torturador.

[O filme brasileiro Ação Entre Amigos, do Beto Brant, veio bem antes, em 1998, e tem ema similar: quatro ex-militantes sequestram seu torturador de outrora]

Vale acrescentar que existem, dentro da esquerda brasileira, alguns líderes ou guru engolindo a versão da ditadura iraniana, segundo a qual teriam sido agitadores de fora que provocaram o governo; ou, pior, que muitos dos mortos eram fiéis ao aiatolá, mártires vitimados pelos agitadores.

Enquanto certos canais de esquerda passam o pano no massacre e justificam a reação do aiatolá Khamenei, mesmo que este haja perseguido e mesmo assassinado comunistas, socialistas e homossexuais em 1979.

Nem o líder da esquerda francesa, Jean-Luc Mélenchon, aprova o regime religioso iraniano, qualificando-o de ditadura islâmica e preconizando um governo laico para o país. 
Os ridículos soldadinhos de chumbo da ditadura iraniana
Outro absurdo é tantos aceitarem, como prova de progresso no Irã, as pressões e encorajamentos  aos trans, no sentido de que submetam-se à operação para mudar de sexo. E é igualmente minimizada a situação inferior das mulheres na sociedade.

Fica difícil de entender como certos influenciadores ditos progressistas, ignoram o papel importante dos cineastas iranianos na denúncia da ditadura religiosa iraniana, sem querer reconhecer a importância de Jafar Panahi, Mohammad Rasoulof ou Keywan Karimi

É igualmente incompreensível pessoas de esquerda estarem apoiando uma ditadura religiosa sangrenta contra uma revolta popular! Os defensores da teoria do domínio do fato e os financiadores do terrorismo de estado iraniano não são farinha do mesmo saco?

Eis um trecho do manifesto assinado por Mehdi Mahmoudian e por artistas, logo depois presos:

O assassinato em massa e sistemático de cidadãos que bravamente foram às ruas para pôr fim a um regime ilegítimo constitui um crime de Estado organizado contra a humanidade. 

O uso de munição real contra civis, a morte de dezenas de milhares, a prisão e perseguição de dezenas de milhares, a agressão aos feridos, a obstrução do atendimento médico e o assassinato de manifestantes feridos representam nada menos que um ataque à segurança nacional do Irã e uma traição ao país.(por Rui Martins)

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