Mostrando postagens com marcador Protocolos dos Sábios de Sião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Protocolos dos Sábios de Sião. Mostrar todas as postagens

sábado, 24 de outubro de 2020

TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO E PROFUNDA IGNORÂNCIA OBNUBILAM AS MENTES DOS BOVINIZADOS LUNÁTICOS NEOFASCISTAS

demétrio magnoli
MITO DA CONSPIRAÇÃO MUNDIAL SEMPRE
ANDOU JUNTO COM A EXTREMA-DIREITA
Na sua reta final, a campanha de Donald Trump à reeleição entrelaça-se ao culto online QAnon. O fenômeno inscreve-se numa longa história e descortina as tendências evolutivas do discurso da extrema-direta, nos EUA e mundo afora.

O QAnon nasceu como narrativa conspiratória singular. Segundo ela, o Partido Democrata estadunidense seria o núcleo de um complô de líderes pedófilos organizadores do sequestro de crianças para escravizá-las a redes de exploração sexual. Sob o comando de figuras como Joe Biden, Hillary Clinton e Barack Obama, operariam Angela Merkel, Emmanuel Macron, Xi Jinping e outros globalistas engajados no negócio diabólico da pedofilia. 

Nessa moldura, Trump ocuparia o papel de salvador providencial das famílias, o derradeiro escudo protetor da cristandade ameaçada.

O mito da conspiração mundial sempre andou junto com a extrema-direita. A estrutura gramatical do QAnon recupera e atualiza a narrativa dos Protocolos dos Sábios de Sião, fabricada pela polícia secreta da Rússia czarista para impulsionar o antissemitismo. 

Os Protocolos contam a história de um complô multissecular dos judeus destinado a assumir o controle dos bancos, das escolas e dos veículos de comunicação, o que propiciaria a conquista dos poderes estatais. A lenda, inventada em 1903, fez seu caminho até o movimento nazista e, mais tarde, foi adotada pelos negacionistas do Holocausto.

Nos Protocolos, os judeus encarnam o cosmopolitismo, o liberalismo, o agnosticismo e a depravação. O QAnon simplesmente substitui os judeus pelos globalistas. Os judeus dos Protocolos imolariam crianças para extrair o sangue usado no cozimento do matzá da Páscoa; os globalistas sacrificariam crianças puras nas engrenagens da luxúria.

A novidade está na plasticidade do QAnon —isto é, na sua natureza agregadora. Ao longo de poucos anos, o mito original foi incorporando outras lendas difundidas no ciberespaço: 
— Obama não nasceu nos EUA e é um muçulmano disfarçado como cristão;
— Osama Bin Laden não morreu, mas foi escondido pelo governo estadunidense;
— a Terra esférica é uma mentira carimbada pela Nasa;
— o coronavírus foi produzido num laboratório chinês e exportado ao Ocidente com a cumplicidade dos globalistas, que querem destruir as economias e submeter as nações a perversas instituições multilaterais; 
— a vacina chinesa é um vetor de controle biológico dos indivíduos, etc.

Acostumados a um universo extremo de fantasias, os seguidores do QAnon tendem a assimilar as sub-teorias conspirativas adventícias. Já os crentes dessas sub-teorias nem sempre compram o complô dos pedófilos, mas não se importam em consumir seletivamente as teses delirantes que circulam nas mesmas praças discursivas.

A lenda mais recente está adaptada à hipótese realista do fracasso de Trump na disputa pela Casa Branca —e é proclamada pelo próprio presidente dos EUA. O resultado adverso decorreria de vasta fraude eleitoral e anunciaria uma ofensiva avassaladora do Estado profundo, por meio de uma revolução colorida que confiscaria as armas e as liberdades dos cidadãos.

Como qualquer discurso conspiratório que se preze, o QAnon triunfa nos dois cenários. Se Trump perder, a profecia cataclísmica realizou-se, impondo uma resistência ilimitada contra o governo dos pedófilos. Se, no fim das contas, Trump vencer, a exposição do maligno complô evitou o pior, provando a necessidade de uma guerra inclemente diante do ardiloso inimigo.

Há outra distinção relevante. No tempo dos Protocolos, a narrativa da conspiração movia-se exclusivamente de cima para baixo, ou seja, das lideranças políticas rumo ao grande público. Hoje, na era das redes sociais, ela transita nas duas direções, que se retroalimentam. 

Engana-se quem pensa que a guerra da vacina seja, apenas, uma expressão da rivalidade eleitoral de Jair Bolsonaro com João Doria.​ (por Demétrio Magnoli)
Related Posts with Thumbnails