"A hora de comprar é quando
o sangue corre pelas ruas"
(barão Nathan Rothschild,
banqueiro britânico)
Quando se diz que devemos superar o trabalho, a primeira reação de quem ouve tal afirmação é considerá-la como uma heresia, tal como se pretendêssemos abolir a lei da gravidade. É que o conceito de trabalho foi internalizado nas nossas mentes como sinônimo único de atividade humana de produção do seu sustento. Mas, a atividade humana consistente na sua interação com a natureza no sentido do provimento do seu sustento é gênero, do qual o trabalho, categoria capitalista, não passa de uma das suas espécies. A primeira sempre existiu e existirá enquanto houver um ser humano sobre a face da terra posto que é ontológica; já a segunda, espécie distinta de modo de produção, só recentemente foi introduzida pelas relações sociais, como categoria capitalista que é (e que, por isto mesmo, agora sucumbe com aquilo que lhe deu origem, por absoluta obsolescência).
A palavra trabalho deriva do latim tripalium, instrumento usado para torturar os escravos na Roma antiga; ou seja, sua gênese etimológica e significado semântico são dos mais pertinentes...
O trabalho produtor de bens e serviços, antes de ser uma categoria capitalista, era a atividade própria de um escravo, já que os privilegiados cidadãos romanos se dedicavam a atividades de comando militar, político, desportivo, artístico, etc.
O desenvolvimento da prática do escambo (a compra e venda atual, quantificada pelo dinheiro), cujo critério de troca se fundava na dificuldade do fabrico dos bens expresso no tempo de duração do esforço humano, com a eleição de uma mercadoria qualquer (o sal, por exemplo) como referência de valor por todos aceita, era o embrião da ideia de valor-trabalho, ainda que sem a compreensão clara de tal fenômeno. Estava criado o conceito de valor-trabalho mensurado quantitativamente pelo tempo de esforço na produção.
O trabalho produtor de bens e serviços, antes de ser uma categoria capitalista, era a atividade própria de um escravo, já que os privilegiados cidadãos romanos se dedicavam a atividades de comando militar, político, desportivo, artístico, etc.
O desenvolvimento da prática do escambo (a compra e venda atual, quantificada pelo dinheiro), cujo critério de troca se fundava na dificuldade do fabrico dos bens expresso no tempo de duração do esforço humano, com a eleição de uma mercadoria qualquer (o sal, por exemplo) como referência de valor por todos aceita, era o embrião da ideia de valor-trabalho, ainda que sem a compreensão clara de tal fenômeno. Estava criado o conceito de valor-trabalho mensurado quantitativamente pelo tempo de esforço na produção.
Nas sociedades modernas o trabalho abstrato (Marx) é mensurado por um quantitativo de valor expresso em moeda, daí ter essa designação. Como produtor de valor e sendo mercadoria, tem, concomitantemente, o seu lado concreto (expresso no objeto produzido transformado em mercadoria) e seu lado abstrato (representado pelo quantitativo de valor expresso no salário).
Como toda mercadoria o trabalho é uma abstração tornada real, inventada pelo intelecto humano a partir do seu desejo de segregação social. Não é, portanto, uma atividade natural, como se pensa popularmente, mas um artificialismo necessário à exploração do ser humano pelo capital.
Como toda mercadoria o trabalho é uma abstração tornada real, inventada pelo intelecto humano a partir do seu desejo de segregação social. Não é, portanto, uma atividade natural, como se pensa popularmente, mas um artificialismo necessário à exploração do ser humano pelo capital.
Como todo artificialismo, e sendo um dado histórico (tudo que é histórico tem um ciclo de nascimento, vida e morte) e não ontológico (tudo que é ontológico para a vida humana perdura enquanto ela existir), o trabalho abstrato é, hoje, inconsistente do ponto de vista de sua sustentabilidade.
O seu ciclo de nascimento e desenvolvimento chega agora ao fim e enfrentamos a sua morte, sem que as suas viúvas queiram enterrá-lo. A questão que se coloca é: ou se supera o trabalho abstrato ou a humanidade sucumbirá numa guerra fratricida na busca de sua permanência.
O seu ciclo de nascimento e desenvolvimento chega agora ao fim e enfrentamos a sua morte, sem que as suas viúvas queiram enterrá-lo. A questão que se coloca é: ou se supera o trabalho abstrato ou a humanidade sucumbirá numa guerra fratricida na busca de sua permanência.
O leitor leigo em crítica da economia política certamente perguntará: por que se nega o trabalho ao invés de usá-lo generalizadamente como modo de salvação de todos os trabalhadores? É que a vida mercantil se baseia num regime de concorrência mercantil, com toda mercadoria buscando a sua supremacia, a qual somente pode ser obtida pela redução de preços; e esta, por sua vez, somente pode ser conseguida por meio da redução dos custos de produção (redução do valor).
Prossigamos. A redução do valor se dá:
Prossigamos. A redução do valor se dá:
- pelo uso das máquinas, que não ganham salários (mas não produzem valor); e
- pelo aumento do nível de produtividade per capita do trabalhador na produção de mercadorias.
Os dois fatores acima, associados, geram a obsolescência cada vez mais acentuada do trabalho abstrato e, concomitantemente, a redução da massa global de valor, sem a qual todo o organismo mercantil perde vitalidade, tal qual um ser humano ferido morre ao perder sangue (note-se, além disto, que enquanto a forma-valor necessita crescer ad infinitum, a capacidade de consumo humano é finita).
Acresça-se a isto, como fator contributivo para a falência mercantil, a pressão para a redução de salários (a qual provocou a globalização da produção de mercadorias, que nada mais é do que a transferência de unidades fabris produtoras dos países ricos para os países pobres, em busca de força de trabalho barata). Tudo converge de modo acelerado para o fim de um modelo, sem que a grande mídia e as academias informem às pessoas sobre tal fenômeno.
Exacerba-se a extração de mais-valia relativa (aumento do nível de produtividade per capita num mesmo tempo de trabalho abstrato). Outro dia li uma matéria midiática apresentando o trabalho feminino (bandeira equivocada do feminismo pretensamente libertador da dissociação de gênero) como algo virtuoso, de uma delicada engenheira, agora inserida no mercado de trabalho, que manipulava por computador uma enorme máquina de extração de minerais numa mina de ferro brasileira, ganhando um alto salário. Quais os reais significados disso para a economia?
Ei-los:
- para tal engenheira, a vida mercantil parece risonha;
- para os trabalhadores desempregados pela capacidade de produção desta máquina, representa desespero (vez que idêntico processo se verifica em outras unidades de produção, gerando o desemprego estrutural);
- para a empresa que utiliza a máquina (trabalho morto, investimento fixo - Marx) representa aumento do lucro;
- para o mercado, redução de preços do minério de ferro;
- para a economia mercantil, redução da massa global de produção de valor e depressão econômica global;
- para o Estado, redução de suas funções sociais pela queda de arrecadação de impostos e aumento da dívida pública;
- para o sistema financeiro, crash por créditos podres.
Sob o capitalismo tudo é o contrário do que parece ser. Ademais, este é um exemplo elucidativo daquilo que Karl Marx denominou como sendo a contradictio in adjecto capitalista, afirmando que a forma-valor funda-se em elementos que criam a sua própria destruição (o vaticínio, feito há 150 anos, previa o colapso da relação social sob esta mesma forma-valor num determinado estágio da produção tecnológica, ora atingido).
Por que ter medo de perdermos o que nos explora e que já nos está sendo negado (o trabalho assalariado)?
Por que não pensarmos em formas alternativas de produção?
| Um artigo de Dalton Rosado |
Por que continuarmos a praticar a irracionalidade e inviabilidade da produção de mercadorias no atual estágio tecnológico, apegados a um modo de relação social que, se só agora se tornou anacrônico, sempre foi socialmente segregacionista e moralmente inaceitável?
Por que cultuarmos a infelicidade se podemos construir dignamente o prazer de viver e a própria felicidade?

