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domingo, 21 de agosto de 2022

"PUTIN PERDEU A GUERRA": É COMO ECONOMISTA AVALIA INVASÃO DA UCRÂNIA

josé roberto mendonça de barros
PUTIN COMETEU O MAIOR ERRO DA VIDA AO ACHAR QUE
VENCERIA LOGO A GUERRA E VAI PAGAR UM PREÇO ALTO 
A
invasão da Ucrânia foi uma surpresa para muitos, embora Putin já tivesse dado amplos sinais de que buscaria a todo custo recriar a Grande Rússia

Sua expectativa de uma vitória rápida se mostrou totalmente equivocada, como sabemos hoje, seis meses depois do início dos combates. Kiev não foi tomada e uma luta feroz ainda se trava na disputada região do Donbass.

Além da elevada resistência encontrada no campo de luta, as hipóteses de Moscou quanto à resposta da Otan também se mostraram um grave erro: em vez de divisionismo e timidez, o que se viu foi união e uma forte reação.

Esta também incluiu sanções impostas à Rússia e a saída de centenas de empresas do país. Em resposta,  Putin  apertou  a  censura  e  a  repressão  sobre  a  sociedade,  endurecendo  de  vez  o  regime  e reforçando  os  controles  sobre  a  economia. 
Ninguém estava preparado para a fúria do Putin.
Nem o próprio, já que não tem arma no coldre...

Considerando a forte elevação dos preços de petróleo e gás e a competente operação do Banco Central, a economia russa se defendeu relativamente bem, tendo o PIB do segundo trimestre caído apenas 3,5%. 

Muitos analistas concluíram, então, que as sanções foram pouco eficazes e que a Rússia seguirá adiante, mais voltada para a Ásia. 

Acho esta última conclusão completamente equivocada. Ao contrário, acredito que Putin fez o erro da vida e o seu país irá pagar um preço extraordinariamente elevado nos próximos anos.

Antes de tudo porque os custos humano e econômico da guerra serão muito altos, especialmente se considerarmos que o PIB da Rússia é apenas o 11.º do mundo. 

Mais ainda, o país vai perder o maior cliente de seus produtos mais relevantes, sendo que o óleo pode ser vendido na Ásia, com desconto, mas o gás, neste momento, não.

Além disso, a população da Rússia, um ativo geopolítico relevante, está caindo em termos absolutos e envelhecendo. 

Mas tem coisa pior: o bloqueio das importações de bens, partes e peças de mais alta tecnologia vai começar a limitar a produção corrente e novos investimentos, o que inclui o próprio petróleo. Espera-se que a produção em 2023 seja pelo menos 2 milhões de barris/dia menor do que a de 2019.

Da mesma forma, a dificuldade de acesso a chips ultramodernos limitará a produção de armas, produto relevante na geopolítica russa. 

Finalmente, duas grandes perdas serão inexoráveis: a parceria histórica com a Alemanha, a economia mais poderosa da Europa, e a redução da demanda de petróleo que resultará da aceleração da descarbonização, incluindo a rápida eletrificação da frota de veículos.

Por tudo isso, a Rússia perdeu a guerra. (por José Roberto Mendonça de Barros, que foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda em 1995/98 e lecionou Economia na USP durante 34 anos)

domingo, 11 de outubro de 2015

ECONOMISTA PREVÊ QUEDA DE DILMA ANTES DA ELEIÇÃO DE 2016

Ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, José Roberto Mendonça de Barros prevê mudança de governo antes da eleição do ano que vem, devido à conjugação de quatro fatores de desequilíbrio que interagem e se realimentam mutuamente:
  • um cenário internacional desfavorável, com a desaceleração da economia global;
  • uma aguda crise política; 
  • uma crise macroeconômica clássica, com queda no crescimento, no investimento e no emprego, além de inflação alta, juros estratosféricos e um "enorme desarranjo nas contas públicas"; e 
  • uma crise microeconômica que atinge vários setores, empurrando o PIB para baixo.
"Nós já vimos todos esses problemas mais de uma vez, mas tudo isso junto, ao mesmo tempo, eu não lembro", admite. Segundo ele, a degringola econômica está sendo mais profunda do que se previa, daí sua impressão de que o desfecho também vá ser mais rápido, com "alguma coisa" acontecendo até a eleição municipal. 

Mesmo porque deveremos fechar 2015 com queda do PIB (-3%) e a previsão de novo recuo em 2016 (-1,5%). Pelos sempre suspeitos dados oficiais já temos 1 milhão de desempregados, o que coloca uns 5 milhões de brasileiros em condição de penúria. País miserável como o nosso não aguenta recessão deste porte. Morrem coitadezas, outros se revoltam.

E, quando os desesperados começam a tornar-se ameaçadores, o sistema sempre provê alguma mexida que alivie o sufoco por uns tempos, para que nada realmente mude no longo prazo. 

Salta aos olhos que o primeiro entrave a ser removido para desimpedir a linha atende pelo nome de Dilma Rousseff, que o povão vê como grande culpada de seus apuros atuais. A confiança do cidadão comum não será restabelecida enquanto ela continuar no poder e fatores psicológicos contam muito em situações como a atual.

Um revolucionário e jornalista veterano como eu, que já acompanhou muitos episódios históricos parecidos e leu sobre outros tantos, ao fazer uma análise realista da atual tempestade perfeita, só pode chegar à mesmíssima conclusão de Mendonça de Barros: como países não se suicidam, "alguma coisa" terá de acontecer neste final de ano ou ao longo do próximo, para evitar que o Brasil chegue ao fundo do poço, com as previsíveis comoções sociais.

Muitos companheiros, acreditando piamente nos contos da carochinha que lhes são ministrados pela rede chapa branca, insurgem-se contra meu realismo, tomando por torcida o que, na verdade, é espírito crítico e sinceridade (não trato meus leitores como crianças que necessitem ser tranquilizadas para não terem pesadelos...).

Deveriam dar uma olhada no que escrevi e no que outros escreveram durante o ano passado, propondo-se a seguinte questão: vale a pena serem iludidos de novo? 

Pois 2015 está sendo pior ainda do que eu antecipava (tendo alertado incisivamente os companheiros quando ainda havia tempo hábil para evitarem muitos desastres) e diametralmente oposto ao mar de rosas que os propagandistas do PT pintavam, disseminando ilusões para vencerem eleições.
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