josé roberto mendonça de barros
PUTIN COMETEU O MAIOR ERRO DA VIDA AO ACHAR QUE
VENCERIA LOGO A GUERRA E VAI PAGAR UM PREÇO ALTO
A invasão da Ucrânia foi uma surpresa para muitos, embora Putin já tivesse dado amplos sinais de que buscaria a todo custo recriar a Grande Rússia.
Sua expectativa de uma vitória rápida se mostrou totalmente equivocada, como sabemos hoje, seis meses depois do início dos combates. Kiev não foi tomada e uma luta feroz ainda se trava na disputada região do Donbass.
Além da elevada resistência encontrada no campo de luta, as hipóteses de Moscou quanto à resposta da Otan também se mostraram um grave erro: em vez de divisionismo e timidez, o que se viu foi união e uma forte reação.
Esta também incluiu sanções impostas à Rússia e a saída de centenas de empresas do país. Em resposta, Putin apertou a censura e a repressão sobre a sociedade, endurecendo de vez o regime e reforçando os controles sobre a economia.
Considerando a forte elevação dos preços de petróleo e gás e a competente operação do Banco Central, a economia russa se defendeu relativamente bem, tendo o PIB do segundo trimestre caído apenas 3,5%.
Muitos analistas concluíram, então, que as sanções foram pouco eficazes e que a Rússia seguirá adiante, mais voltada para a Ásia.
Acho esta última conclusão completamente equivocada. Ao contrário, acredito que Putin fez o erro da vida e o seu país irá pagar um preço extraordinariamente elevado nos próximos anos.
Antes de tudo porque os custos humano e econômico da guerra serão muito altos, especialmente se considerarmos que o PIB da Rússia é apenas o 11.º do mundo.
Mais ainda, o país vai perder o maior cliente de seus produtos mais relevantes, sendo que o óleo pode ser vendido na Ásia, com desconto, mas o gás, neste momento, não.
Além disso, a população da Rússia, um ativo geopolítico relevante, está caindo em termos absolutos e envelhecendo.
Mas tem coisa pior: o bloqueio das importações de bens, partes e peças de mais alta tecnologia vai começar a limitar a produção corrente e novos investimentos, o que inclui o próprio petróleo. Espera-se que a produção em 2023 seja pelo menos 2 milhões de barris/dia menor do que a de 2019.
Finalmente, duas grandes perdas serão inexoráveis: a parceria histórica com a Alemanha, a economia mais poderosa da Europa, e a redução da demanda de petróleo que resultará da aceleração da descarbonização, incluindo a rápida eletrificação da frota de veículos.
Por tudo isso, a Rússia perdeu a guerra. (por José Roberto Mendonça de Barros, que foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda em 1995/98 e lecionou Economia na USP durante 34 anos)


