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sexta-feira, 4 de setembro de 2020

JULGAMENTO DA REDE DE APOIO NOS FAZ RELEMBRAR A CHACINA DO CHARLIE HEBDO

Começou em Paris o julgamento de 14 cidadãos acusados de darem apoio logístico, financeiro ou material aos três terroristas responsáveis pelo ataque ao semanário satírico Charlie Hebdo e a um supermercado judeu em janeiro de 2015.

A bestialidade dos fanáticos, que acabaram mortos pela polícia, custou a vida de 17 pessoas, 10 das quais integrantes da  redação do Charlie, inclusive o genial cartunista Georges Wolinski, que continuava na ativa aos 80 anos. Eu vinha acompanhando com muita admiração seu trabalho desde 1972, na saudosa revista Grilo

Certamente tais abominações não suportavam o contraste com uma grandeza que jamais alcançariam, pois ela é inerente ao homem que assim se constrói com seus talentos e esforços. 

E não dádiva de deuses e profetas que também são construídos pelos homens, só que pelos piores homens: aqueles infantilizados que não ousam assumir a responsabilidade pelos próprios destinos, daí necessitarem desesperadamente crer que alguém maior os conduz e zela por eles, como quando papais e mamães o faziam.

Nos posts abaixo os leitores encontrarão duas lições tiradas daqueles episódios sanguinários: 
— a do Rui Martins, sobre a cegueira religiosa; e 
— a minha, rechaçando a patética postura de alguns articulistas de esquerda, que então relativizaram as matanças em nome do sagrado direito de os párias da modernidade tentarem, com tiros e bombas, fazer a História retroceder à Idade Média.   

Boa leitura! (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 24 de março de 2015

WOLINSKI FEZ UMA HQ QUE ANTECIPOU, DE CERTA FORMA, SUA TRAGÉDIA.

Graças ao companheiro Elson Mello, estou podendo postar aqui o uma historieta do cartunista Georges Wolinski que tem alguns pontos de contato com seu covarde e bestial assassinato, executado aos 80 anos pela ralé de Maomé (ou seja, por uma besta-fera que acreditava ser maometano).

Elson, gentilmente, copiou-a de uma edição de 1971 da revista Grilo, publicação que está entre as minhas poucas boas lembranças de um ano muito aziago.

Li-a quando acabava de sair das prisões militares, mais morto do que vivo. Por cortesia do dono da tecelagem em que meu pai trabalhava: fizera uma assinatura como favor a um amigo e não tinha uso para as revistas, então, quando soube que eu havia sido libertado, mandou-as todas para mim, mesmo sem me conhecer. E também as que foram saindo depois.

Ainda me recordava dela inteirinha. Deve ter-me impressionado um bocado, para eu retê-la na memória com tanta nitidez.

Reparem: o sequestrado desconhecido é uma vítima tão incompreensível e implausível quanto o próprio Wolinski acabaria sendo, quatro décadas e meia depois. O destino insólito se abateu também sobre quem fantasiava sobre ele em suas criações. 

domingo, 11 de janeiro de 2015

SEM MEDO DE SER COERENTE

Robert Crumb, outro dos principais cartunistas de nosso tempo, não negou fogo: a pedido do jornal francês Libération, que abrigará a próxima edição do Charlie Hebdo, produziu cartuns solidarizando-se aos seus companheiros chacinados pelas bestas-feras do fanatismo religioso. 

Eles podem ser vistos na edição deste domingo (11) da Folha de S. Paulo.

Charlie na razão e na emoção, Charlie de corpo e alma, Charlie dos pés a cabeça, reproduzo acima o único deles que encontrei disponibilizado na web.

Pois, como na ditadura militar, este é um momento em que não podemos ter medo de ser coerentes.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

SOU CHARLIE HOJE, COMO ERA PASQUIM NOS ANOS MÉDICI.

Sacrilégio é tirar vidas, não satirizar profetas.

Não se relativiza a barbárie. 

Nada justifica a persistência da barbárie em pleno século 21. 

Fins e meios estão em permanente interação dialética, modificando-se e impregnando-se mutuamente, de forma que agrupamentos coniventes com assassinatos bestiais de não-combatentes como meio projetam, como fim, sociedades nas quais os assassinatos bestiais de civis serão consentidos.

O final da Idade Média significou, entre outras coisas, que não mais se imporiam pela força os valores religiosos àqueles que não os compartilham.

Inquisição, nunca mais! Massacres em nome de profetas, aiatolás, pastores, santos e papas, nunca mais! Censura taciturna, nunca mais!

É totalmente desumana a postura dos que buscam nos atos das vítimas pretextos para atenuarem a culpa dos autores de uma carnificina.

Será totalmente desumana uma sociedade em que a sátira política for vedada, o humor respondido com balas e bombas.

Já tivemos duas assim no Brasil, sob Getúlio e sob os tiranos fardados. 

Sou Charlie hoje, como era Pasquim nos anos Médici, quando boçais sinistros de outro tipo prendiam e intimidavam os membros da equipe. 

Sobrevivente consequente dos anos de chumbo nenhum, e nenhum verdadeiro homem de esquerda, têm o direito de negarem a monstruosidade do atentado contra a liberdade que acaba de ser cometido na França.

[Até porque a identificação com atrocidades presentes e vindouras comprometeria terrivelmente nossa credibilidade quando fôssemos travar lutas justas e necessárias, no sentido de darmos um fim ao pesadelo capitalista e prepararmos o advento de um estágio superior de civilização.]

Muito menos de negarem a covardia e vilania extremas dos carrascos de 7 de janeiro, pois combatentes de verdade travam sua guerra contra outros combatentes, não contra civis totalmente indefesos como o octogenário Wolinski.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

ELES IGNORARAM QUE NUNCA SE DEVE MATAR UM PÁSSARO IMITADOR...

Fiquei perplexo ao tomar conhecimento do assassinato do cartunista Wolinski, que tanta alegria me proporcionou num momento em que eu dela tanto necessitava.

É difícil concebermos que alguém seja capaz de fuzilar um octogenário, ainda mais sem, sequer, o conhecer.

Só mesmo bestas humanas, movidas pelo mais tacanho dos fanatismos, o religioso. 

A primeira coisa que me veio à mente foi o título original da obra-prima O sol é para todos (d. Robert Mulligan, 1962): To kill a mockingbird.

A sensível menina Scout, a certa altura, diz que nunca devemos matar um pássaro imitador, pois eles cantam para alegrar nossos corações.

Mas, existem os que matam os John Lennons e os Wolinskis. São párias da humanidade e da civilização. São nulidades inconformadas com sua insignificância, que necessitam de atos extremos para sentirem-se vivos. 

Wolinski será para sempre admirado. Eles serão para sempre execrados. E é só o que merecem.
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