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quarta-feira, 7 de agosto de 2019

PEQUENO GLOSSÁRIO ÚTIL PARA ENTENDER CERTAS EXPRESSÕES QUE TÊM SE APLICADO ÀS INSANIDADES DIÁRIAS DE BOLSONARO

Nas últimas semanas, certas expressões do passado foram usadas para definir as insanidades diárias de Jair Bolsonaro. 

Algumas, muito populares em seu tempo, podem necessitar de explicação para os leitores de hoje:

"Bolsonaro está transformando o Brasil num grande Febeapá." 
Febeapá era a sigla de Festival de Besteira que Assola o País, instituição criada pelo colunista Stanislaw Ponte Preta, em 1964. 

Referia-se aos militares da ditadura, que mandaram recolher nas livrarias o romance A Capital, de Eça de Queirós, pensando que era o O Capital, de Karl Marx.

Eles também proibiram o Balé Bolshoi de se apresentar no Teatro Municipal por ser russo, donde comunista. Mas Bolsonaro não fará isto, porque nunca leu um livro e não sabe o que é o Balé Bolshoi.

"Bolsonaro é um Napoleão de hospício." 
O Napoleão de hospício foi criado por Nelson Rodrigues e, segundo Nelson, era o verdadeiro Napoleão —porque nunca teria um Waterloo. Mas Bolsonaro terá o seu Waterloo. Não demora a fazer algo realmente tão grave, comprometendo a estabilidade do país, que terão de pedir a camisa-de-força.

"Bolsonaro governa como se
estivesse na Gaiola de Ouro." 
A Gaiola de Ouro é o velho apelido da Câmara dos Vereadores do Rio, famosa pelos atos que Bolsonaro diz combater. Em 1987, seus 39 felizes vereadores admitiram 485 servidores sem concurso, para lhes servir café e abaná-los, e, em 1988, pode crer, nada menos que outros 10 mil. Bolsonaro fez parte dela, como vereador, de 1989 a 1991.

Por Ruy Castro
Certamente foi lá a sua escola para que, segundo o jornal O Globo, dos 286 assessores nomeados por ele e os filhos nos últimos 28 anos em seus mandatos, 102 fossem pais, mães, irmãos, avós, tios, primos, maridos, mulheres, ex-mulheres, sogros, genros, noras, cunhados e enteadas uns dos outros. 

Por que não? É a família acima de tudo, você sabe. Principalmente as dos amigos. 

sábado, 20 de setembro de 2008

FEBEAPA 2008: GOVERNO QUER TIRAR O SOFÁ DA SALA

Que falta faz o jornalista, teatrólogo e humorista Sérgio Porto! A cada dia nossas otoridades propõem medidas tão obtusas quanto (ou mais ainda que) aquelas detonadas no Festival de Besteiras que Assola o País.

Para as novas gerações terem uma idéia de quão asnático era o besteirol oficial na década de 1960, eis uma das pérolas expostas por Stanislaw Ponte Preta:
-- O Diário Oficial publica "Disposições de Seguros Privados" e mete lá: "O Superintendente de Seguros Privados, no uso de suas atribuições, resolve (...), "Cláusula 2 — Outros riscos cobertos — O suicídio e tentativa de suicídio — voluntário ou involuntário (sic)".

É de um ridículo similar o projeto que o Governo Federal encaminhou ao Congresso, no sentido de criminalizar a publicação/difusão, por parte da imprensa, do lixo resultante de escutas telefônicas. Lembra a velha piada do pai que, impotente para impedir que a filha transe com o namorado no sofá da casa, livra-se do sofá...

A missão da imprensa é levar ao conhecimento dos cidadãos tudo que lhe cair nas mãos e for, a seu critério, considerado relevante para os leitores. O papel do Estado é evitar essa proliferação descontrolada da bisbilhotagem eletrônica, principalmente:

1) impondo normas bem mais rigorosas para a autorização dessas escutas por parte do Judiciário, pois, por violar o direito à privacidade dos cidadãos, deveria ser sempre o último e excepcional recurso de uma investigação policial, e nunca o primeiro, como está sendo;

2) impondo máximo rigor penal contra os arapongas que efetuam escutas clandestinas e seus contratantes, bem como contra os cidadãos (inclusive autoridades) que vazam para a imprensa o material obtido em escutas legais ou ilegais.

Quanto ao primeiro item, os saudosos e/ou carentes de um estado policial objetarão que conseguir provas contra um Daniel Dantas da vida justifica quaisquer excessos. Discordo totalmente.

Ninguém passa o tempo todo telefonando para tramar maracutaias. Também trata de assuntos pessoais, que não podem nem devem ficar disponíveis para a curiosidade doentia de policiais e arapongas.

Falemos com sinceridade: na hipótese de que Dantas tivesse conversado no telefone sobre as posições em que transaria com a/o amante (sei lá qual a orientação sexual dele) e isso houvesse sido captado numa escuta, algum de vocês botaria a mão no fogo, no sentido de que o registro seria imediatamente apagado, como deveria? Fala sério. Com certeza, no mesmo dia a transcrição teria passado por um sem-número de mãos e inspirado um sem-número de gracejos maliciosos.

Nem mesmo sendo quem é, um Daniel Dantas mereceria ser ridicularizado dessa forma; muito menos a outra pessoa, não necessariamente envolvida com as atividades ilícitas de Dantas.

Então, está mais do que na hora de as escutas telefônicas passarem a ser encaradas como exceção aplicável a pouquíssimas investigações, e não como regra de praticamente todas as investigações.

Quanto a proibir-se a imprensa de tornar público o obtido nessas escutas, tem o inconveniente adicional de retirar dos cidadãos a possibilidade de darem sua versão sobre aquilo que lhes é imputado.

Os citados na imprensa têm sempre como exigir espaço para desmentidos ou justificativas. Impedidos de recorrer à mídia, os vazadores de informações utilizarão a Internet, na qual é praticamente impossível evitar o repasse da mensagem e dificílimo descobrir quem a colocou em circulação.

Ou seja, será quase nula a possibilidade de punir-se o responsável e bem mais problemático apresentar-se "o outro lado" àqueles que foram atingidos pelo e-mail acusador.

Em vez de fazer propostas descabidas como esta, cuja rejeição pelo Congresso é praticamente certa, o Governo Federal deveria, para começo de conversa, cumprir sua obrigação de reprimir as escutas ilegais e entregar à Justiça os responsáveis por tais crimes.

Um governo cujo ministro da Justiça candidamente aconselha os brasileiros a nada falarem de comprometedor ao telefone não tem moral nenhuma para ditar normas a terceiros.
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